Acreditámos num mito de que uma educação superior levaria à elevação da sociedade. Convenceram-nos de que uma democracia assente numa população formada, seria informada, esclarecida e coerente.
Vivemos à sombra de um iluminismo que, apesar de lógico, perde terreno para a obscuridade da crença, do desejo e da emoção. Torna-se cada vez mais difícil convencer terceiros, pessoalmente ou pelas redes sociais, da falta de razoabilidade de algumas das suas opiniões. Hoje é frequente cruzar com facilidade os domínios científicos, éticos, políticos, morais e até de fé, misturar tudo e definir posições abjetas sobre coisas que deviam ser simples, quase unânimes.
A história é uma interpretação aceite da memória coletiva da humanidade
A história não é uma coleção de factos, mas antes uma interpretação aceite da memória coletiva da humanidade. Por muito que os historiadores queiram ser objetivos, não é possível compreender os factos da história sem vê-los à luz do seu contexto e sem teorizar sobre a forma como as dinâmicas externas condicionaram as decisões tomadas pelos protagonistas da altura.
Embora seja importante assegurar um registo factual dos acontecimentos passados, é fundamental ir além dos factos observáveis e compreender os porquês, pois só através desta reflexão é que a humanidade pode evoluir de uma forma incremental. São os factos invisíveis, inobserváveis e muitas vezes não confirmáveis que nos podem munir de armas que previnam a criação de contextos similares, que nos façam precipitar para abismos passados.
Os anos 20 do século XXI serão provavelmente dos mais importantes da nossa história e à medida que passam os dias sobre o início da invasão Russa na Ucrânia, fica cada vez mais evidente que esta não é uma batalha que se trave apenas para lá do Dniepre.
A opinião pública é chave para pressionar os lideres políticos a tomar ações
A envolvente não convencional da guerra está a ganhar escala e torna-se cada vez mais clara o quão acertadas foram algumas das ações tomadas pelos líderes europeus. A opinião pública é chave para pressionar os lideres políticos a tomar ações e a guerra comunicacional inerente às duas fações em disputa, pretende influenciá-la de forma a paralisar a Europa e impedir a defesa e apoio ao território ucraniano.
Muitas opiniões rejeitaram a decisão de censurar os canais propagandísticos dos interesses russos e de forma bastante fundamentada alertaram que a Europa não devia utilizar as mesmas armas de um ditador, alertaram para a imprudência que seria abrir precedentes que pudessem criar fissuras para com os princípios democráticos europeus e até para com a própria liberdade de expressão. Algumas dessas opiniões defenderam até que a manutenção dos canais propagandísticos podia permitir acompanhar a visão russófona do conflito e que pela sua falta de coerência da comunicação, a falta de razoabilidade seria óbvia e por isso ineficaz a confundir a opinião europeia.
O Massacre de Bucha é provavelmente o primeiro grande acontecimento que prova o quão certa foi esta tomada de decisão. Este infeliz evento, equiparável aos fantasmas de Auschwitz, mostra como os mesmos factos podem ser interpretados de forma tão diferente pelos diferentes interesses políticos, e como a vivência do pós verdade pode justificar que apesar de investigações jornalísticas inatacáveis (os trabalhos do NY Times e do Guardian) possam ser caracterizadas por alguns como falsas e propagandísticas.
Bucha: os factos são os mesmos, no entanto existem diferentes histórias à volta destes acontecimentos
Os factos são os mesmos em todas as versões: “foram mortos dezenas de civis em Bucha”, no entanto existem diferentes histórias à volta destes acontecimentos. Infelizmente não precisamos de sair do nosso país para ver isto, temos tido diferentes comentadores que perante estes factos, têm tentado contaminar a opinião publica através dos jornais e talvez com isso abrandar o apoio que Portugal pode dar a este conflito.
Se para alguns a comunicação é racional, intencional e cumpre uma agenda deliberada, para aqueles que a ouvem é a emoção as suas crenças e a sua fé que os faz decidir sobre quem tem razão e o que será ou não verdade.
Embora todos pareçam desejar a prevalência da racionalidade, não podemos ignorar a forma como a emoção assiste o pensamento. Talvez seja a forma como a emoção e a razão se confundem que faz a humanidade única, talvez seja essa a característica chave que nos faz tomar sentido do mundo e ser diferentes de todas as outras espécies, e talvez por isso seja esta a pior face da humanidade.
Image Credit: Partilhado por @Carlosgpinto
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