Deus está na moda?

“Deus parece estar na moda. Que essa moda venha venha unir mais do que separar, pois sempre foi essa a promessa do seu credo.”

Há pouco tempo eu, como tantas outras pessoas, surpreenderam-se com o novo álbum de Rosalía, LUX. Não apenas pela qualidade, como também porque ele representa uma espécie de liturgia moderna e desempoeirada, que traz à reflexão a espiritualidade e religião numa altura em que se tem a clara percepção que, sobretudo na Europa, a ligação a Deus e ao mundo do transcendente diminui.

Para além disso, para quem, como eu, vê muitas vezes o seu tempo raptado nas redes sociais, percebe-se que há uma redução da inibição de partilha de conteúdos que mostrem a fé e a crença em Deus, demonstrando um certo orgulho de algo que há 10-15 anos atrás era visto como “pouco fixe”, sobretudo, junto dos mais jovens.

A acrescentar a esta minha sensação, é inegável que no campo da política e sobretudo na extrema direita “messiânica” há muitas vezes o uso de Deus como forma de justificar posturas nacionalistas, isolacionistas e tantas vezes racistas perante a sociedade. Aliás, Trump, Bolsonaro, Farage e também Ventura não tão poucas vezes enunciaram a sua fé em discursos feitos à população.

Posto isto, pergunto-me “será isto uma percepção minha ou realmente Deus está na moda?”

Vamos a alguns dados que nos podem ajudar a responder a esta pergunta:

O jornal The Guardian publicou uma peça jornalística em abril deste ano sobre o “ressurgimento” da religião entre os jovens do Reino Unido. Em 2018, apenas 4% dos britânicos entre 18 e 24 anos afirmavam ir à igreja pelo menos uma vez por mês. Hoje, segundo um estudo intitulado The Quiet Revival (O renascimento silencioso), esse número aumentou para 16%.

Também em França, um país eminentemente laico, o número de batismos de adultos e adolescentes disparou. Durante a última Semana Santa, adultos receberam o primeiro sacramento mais 45% do que no ano anterior. São os números mais elevados registados pelo episcopado francês em mais de 20 anos.

Aqui ao lado, entre aqueles que se definem como católicos em Espanha, a prática religiosa mostra também uma ligeira inversão de tendência. No início dos anos 2000, 40% dos católicos ia à missa pelo menos uma vez por mês. Esse número caiu drasticamente nas duas décadas seguintes até chegar aos 24%, mas nos últimos cinco anos subiu para 26%. E, novamente, o impulso a vir dos mais jovens. Apenas os crentes com mais de 65 anos vão mais à missa do que os católicos com menos de 24, onde 35,5% frequentam a igreja.

Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos da América, um estudo afirmou que o “compromisso com Jesus” aumentou 15 pontos percentuais entre os homens americanos da geração Z entre 2019 e 2025, e quase 20 pontos entre os millennials no mesmo período.

Para além destes dados, algo interessante a destacar foi que no verão deste ano, Roma acolheu pela primeira vez um Jubileu ao qual compareceram cerca de mil influencers católicos e “missionários digitais” de 46 países de todo o mundo. O objetivo do Vaticano passa por colocar o foco no ambiente virtual como veículo de passagem e difusão da fé a nível global.

Deste modo, podemos concluir que apesar de não ser uma reconversão massiva, há claramente uma alteração de tendência que será interessante acompanhar nos próximos anos. A fé, que era vista como motivo de vergonha há 1-2 décadas atrás, converteu-se até numa boa manobra de marketing, seja pessoal, profissional ou político.

Agora, claro, urge saber o porquê desta inversão?

Pelo que tive oportunidade de analisar, os dados são menos robustos nas razões enunciadas. Aquilo que merece destaque é sobretudo o cansaço existente em algumas franjas dos mais jovens relativamente à superficialidade e materialismo da sociedade; à vontade de pertença a uma comunidade; e à necessidade de, em tempos de grande incerteza e insegurança, ter algo maior a que se agarrarem e que lhes dê alento e esperança para os desafios da vida, dado que cada vez mais, os mais novos sentem que terão uma vida pior que os seus pais.

Tudo razões que para mim são mais que válidas e vão em linha com aquilo que a Igreja sempre professou como vocação e ideologia.

No entanto, eu vou mais além na minha análise no que toca às justificações desta alteração: em tempos de crescente polarização política, Deus tem sido usado como justificação para uma missão maior. Num ruidoso crescimento do espaço do conservadorismo no campo mediático, a religião tem sido posta na lapela dos políticos e de todos aqueles que de forma tribal se aliam a estes movimentos como forma de reduzir o “impacto do seu pecado” pelas alarvidades que dizem e defendem e que vão contra tudo aquilo que a Igreja no fundo abraça. Usam Deus e Cristo como escudo protetor de narrativas, que na realidade não respeitam o próximo, nem demonstram amor pelos mais frágeis e oprimidos.

Como sempre se viu ao longo de mais de 2000 anos de História, a religião foi o garante da proteção e da estabilidade de muitos milhares de pessoas e ao mesmo tempo também foi usada e abusada por aqueles que, numa vertigem de poder e ódio, quiseram oprimir pessoas que pensavam e viviam de maneira diferente, ou que simplesmente eram ameaças ao status quo vigente.


A minha relação com a fé sempre foi distante desde o momento em que comecei a pensar por mim próprio. Reconheço o seu enorme papel na coesão, esperança, missão e identificação cultural dos povos, bem como na relevância que tem na criação de um espírito de comunidade e de ajuda ao próximo. O seu impacto é incalculável em muitas zonas do globo e, embora seja ateu, fico satisfeito que haja cada vez mais jovens a ver na espiritualidade um pilar da sua vida e na daqueles que os rodeiam. Afinal, sempre foi isso que nos distinguiu enquanto espécie. Todavia, sempre me incomodou aqueles que a usaram para pisar, massacrar, desprezar e polarizar franjas da sociedade mais vulneráveis. É sobre estes que gostaria que o papel dos líderes cristãos fosse mais interventivo. Veria com bons olhos que fossem mais vocais a definir maior distanciamento destes aproveitadores, pois usam de maneira perniciosa e deturpada algo que tem um fundo tão nobre e respeitado.

Deus parece estar na moda. Que essa moda venha unir mais do que separar, pois sempre foi essa a promessa do seu credo.

Escrito a 2 de dezembro de 2025 por Sérgio Brandão

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Rosalía anuncia “Lux”, que será lançado a 7 de novembro: “Habemus album”

O Advogado de Defesa do Estado

“Sendo este artigo uma reflexão que vem em defesa do Estado e das instituições públicas, não deixo de reforçar a importância de rever o seu papel, a sua dimensão e influência.

A provocação deixada vai mais no sentido de questionar a narrativa facilitista e de resolução imediata que vemos por aí.”

Sociedades modernas, evoluídas e civilizadas dependem de instituições. Instituições que deverão ser estáveis, previsíveis e fiáveis para criar confiança entre elas mesmas e nos cidadãos que servem. 

De que instituições falo? Das políticas, económicas, educacionais, religiosas, jurídicas, culturais, de saúde. No fundo, todas. Todavia, as mais importantes para qualquer Nação são aquelas que pertencem ao Estado. São essas que, nos dias de hoje, são vistas como um inimigo. 

Há um combate feroz feito ao valor e ao papel que o Estado tem num país. Todos aqueles que se sentem abandonados, desiludidos, depreciados pela Sociedade onde vivem, depositam uma boa parte da culpa (se não toda) no Estado, em especial no Governo que as dirige. 

Esse Estado, maior ou menor, dependendo do país que analisamos, é hoje, nas democracias mais maduras, objeto de escrutínio violento e crítica agressiva. Movimentos por todo o mundo surgem, justamente, no âmbito de eleger pessoas que vão “pôr a mão” nesse bicho descontrolado, vil e obscuro que nos tem limitado ao sucesso e à prosperidade e que está capturado e gerido por interesses contrários àqueles que o povo, a classe trabalhadora, os que descontam, defendem (atenção, há aqui ironia).

É evidente que, sobretudo em Portugal, há “Estado a mais” em algumas áreas e que, naquelas em que está, muitas vezes nos falha e é ineficiente (escutar a série de podcasts “porque Falha o Estado?” do Expresso). Não sendo eu, para surpresa do leitor, um especialista em eficiência do setor público, abstenho-me de dar grandes sugestões de melhoria neste campo. Todavia, não falta obra publicada que pode ser lida e analisada por qualquer cidadão interessado em saber o que os especialistas defendem para a melhoria do Estado e do setor público.

Sendo consciente da situação e do seu impacto e das apreensões mais ou menos legítimas e compreensíveis, lanço abaixo alguns pontos de reflexão sobre a atual hostilidade e repulsa sobre o Estado:

1) Cortar, despedir, substituir. Até onde? 

Esta visão messiânica de que determinado líder ou movimento, ao aplicar a “motoserra” no Estado, todos os problemas do Povo ficam resolvidos, parece-me uma visão demasiado optimista (e infantil) de como as coisas funcionam. Uma Sociedade complexa, próspera e democrática deverá lutar por um Estado moderno que sirva os seus cidadãos de forma competente, profissional, neutra, transparente e, sobretudo, longe de influências partidárias. Tal serve de plataforma para um impacto que perdure no tempo e não seja objeto de pressão constante mediante a cor e os ventos políticos.

O perigo da chegada de um herói, um salvador, que promete mundos e fundos sobre a melhoria dos serviços do Estado poderá levar à substituição de funcionários públicos por verdadeiros acólitos. Isto pode ser um primeiro passo para a autocracia ou até a plutocracia, onde o Estado, alimentado somente por pessoas afetas ao seu líder, servirá apenas a este e àqueles que o rodeiam, deixando de parte os cidadãos.

2) As limitações da nossa mente. Estaremos a exagerar?

O viés da negatividade resulta da tendência que temos de valorizar mais as coisas negativas em detrimento das positivas. 

Vários estudos feitos nas redes sociais avaliam justamente isto. Conteúdo que apresente um tom negativo, polémico ou abjeto é muitíssimo mais partilhado e alimentado pelos algoritmos. Tal faz com que uma determinado notícia ou opinião que se enquadre nesta categoria, independentemente da sua veracidade, seja mais facilmente difundida de maneira descontrolada.

Será então de esperar que a atual percepção que temos do Estado esteja a ser massivamente afetada por esta realidade. Independentemente de todos os indicadores existentes ditarem que há menos pobreza, mais saúde, mais educação, melhor qualidade de vida, etc, etc, a ideia que temos é a de que estamos cada vez pior e sem rumo ou solução. Tal também é hiperbolizado devido ao que descrevo no terceiro e último ponto.

3) A expectativa que o capitalismo criou. Tem mesmo tudo de ser para ontem?

Foi exatamente Estados inseridos em sociedades capitalistas democráticas que nos permitiram sonhar mais alto e deter uma riqueza e uma qualidade de vida que eram há 100 anos completa miragem para grande parte da população mundial. 

Esse capitalismo levou à criação de ferramentas, aplicações e soluções que nos resolvem problemas e necessidades em segundos e de forma personalizada. Coisas comuns do nosso dia a dia que antes podiam tardar imenso, hoje são imediatas.

Como cidadão, eu estou habituado a ter internet a toda a hora, a receber um livro que está do outro lado do mundo em casa no dia seguinte, a ver um filme sueco desconhecido por 99,99% da população que se encontra à distância de um clique, a ter uma resposta à pergunta “resume-me todos os capítulos da Anna Karenina de Tolstoy em 1000 caracteres” em menos de um minuto. 

Se no meu dia a dia vivo com toda esta facilidade e rapidez, é normal que procure o mesmo no Estado. O problema é que saber como vou resolver o problema de integração dos imigrantes não está à distância de um clique, descobrir o melhor modelo económico a aplicar no meu país não nos é dado no ChatGPT, e que aumentar os salários não é tão rápido como fazer o download de uma série de 10 temporadas. 


Sendo este artigo uma reflexão que vem em defesa do Estado e das instituições públicas, não deixo de reforçar a importância de rever o seu papel, a sua dimensão e influência.

A provocação deixada vai mais no sentido de questionar a narrativa facilitista e de resolução imediata que vemos por aí. Nunca problemas complexos foram resolvidos de maneira simples e imediata. Deste modo, não caiamos na tentação de pensar que lá porque muitas das tarefas da nossa vida são muito mais simples de realizar do que eram para os nossos pais e avós, isso signifique que a Sociedade também o seja. Muito menos sejamos cegos e esqueçamos onde estamos e de onde vimos.

Falta esperança e positivismo hoje em dia. Tudo nos parece mal e em decadência. Fica aqui o meu humilde contributo no combate a este aflitivo e ofegante pessimismo.

Escrito a 29 de outubro de 2025 por Sérgio Brandão

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O Estado por dentro

“Portugal chama”: e quem atende?

Bombeiros, voluntários e vizinhos enfrentam o impossível, enquanto o país se perde em promessas adiadas. O interior despovoado, a falta de meios de combate e uma justiça lenta e ineficaz tornam cada verão numa tragédia anunciada. Até quando será assim?

É impossível começar este artigo sem antes agradecer a todos os que têm protegido Portugal neste momento. Não é insólito, não é novo, mas, mesmo assim, todos, desde bombeiros a populares, resistem com a maior das forças para defender o nosso país duma tragédia anualmente anunciada. A todos, obrigado!

O velhinho interior

Portugal sempre ardeu! Infelizmente, é uma exclamação verídica, mas, com ela, traz memórias de famílias que perderam tudo nos últimos anos, futuros incertos e uma certeza: que o interior está esquecido.

Tenho batido nesta tecla, bem sei, mas, governo após governo, não há coragem para combater os reais problemas destas pessoas que vivem no interior. Não, não são os “pobrezinhos da aldeia”. Nunca foram. Não precisam de palmadas nas costas a prometer casas novas depois daquelas duma vida inteira terem sido devoradas pelas chamas duas vezes em 10 anos. Precisam, sim, de prevenção. Prevenção e investimento para estas terras atraírem mais gentes, a fim de combater o abandono rural (abordo este tema em detalhe no artigo Portugal esqueceu metade do seu território, no Observador).

Os incêndios devem ser combatidos fora da época estival, a fim de evitar o inferno que se vive hoje. Mas o interior tem alguns problemas.

Desde os anos 60 do século passado, as terras de dentro perderam cerca de 2 milhões de pessoas, fazendo com que ocorresse um grande abandono de campos agrícolas, tornando-os, hoje, em verdadeiro mato.

Um interior vazio é um interior condenado a arder. E, quando o país se esquece das suas aldeias, está também a esquecer a primeira linha de defesa contra os incêndios: quem cuida da terra.

Isto cansa, senhores ministros!

A prevenção

Todos os governos falam em prevenção. Todos. Mas quando chega o verão, o que vemos rima sempre: bombeiros e populares a combaterem o inferno e ministros a tirar fotografias junto às cinzas (e este ano, junto à praia).

A prevenção exige trabalho fora da época dos incêndios: limpeza das matas, criação de faixas de contenção, gestão florestal profissionalizada, ordenamento da floresta (incluo o fim das monoculturas de espécies altamente inflamáveis), criação extensiva de ovinos, caprinos e bovinos, para a limpeza da mata… só que em Portugal prefere-se a velha receita: discursos em agosto e silêncio em dezembro.

E, no entanto, já sabemos que é possível fazer diferente. Nos baldios geridos pelas comunidades locais no Minho e em Trás-os-Montes, onde há pastoreio e gestão ativa, os incêndios têm menor intensidade. No Gerês, projetos de mosaicos de gestão reduzem a propagação das chamas. E, em alguns concelhos do Centro, as Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) têm mostrado resultados positivos na gestão de parcelas dispersas. São sinais de esperança, mas demasiado miúdos para travar um problema nacional.

Os números falam por si: cerca de 91% da floresta portuguesa é privada, muitas vezes dividida em parcelas minúsculas e com proprietários ausentes ou desconhecidos. Em zonas do Norte e Centro, o abandono agrícola deixou milhares de hectares entregues ao mato, combustível perfeito à espera da primeira faísca, impedindo qualquer projeto coletivo de prevenção. Ora, se sabemos em janeiro que aquele matagal vai arder em julho, porque é que nada se faz?

O resultado é este ciclo trágico: gastamos cerca de quase cinco vezes mais em combate do que em prevenção. É como deixar a porta de casa aberta e investir em extintores, em vez de simplesmente fechá-la. Assim, não há extintor que salve.

É verdade que o investimento em meios de combate a incêndios é hoje maior do que há uns anos, mas, no terreno, veem-se populações a combaterem incêndios sem apoio dos bombeiros (que não têm como se desdobrar para todos os sítios), meios aéreos avariados encostados numa garagem, corporações de bombeiros com carros de combate velhos e bombeiros desgastados da vida mal paga que levam a servir a bandeira Portuguesa.

Isto cansa, senhor primeiro-ministro!

A (in)justiça

Outro ponto que não pode ser ignorado é a reincidência dos incendiários. Todos os anos são detidas dezenas de pessoas por crimes de fogo posto, e todos os anos ouvimos falar de libertações rápidas, de penas suspensas e de reincidências.

A lei portuguesa prevê, no Código Penal, penas entre 3 e 12 anos de prisão para quem provocar incêndios florestais. No entanto, a prática mostra que a maioria dos arguidos acaba com penas suspensas ou inferiores a 5 anos, o que frequentemente resulta na não aplicação de prisão efetiva.

E depois vêm as atenuantes da praxe: não tinham antecedentes, confessaram, estavam alcoolizados, sofrem de perturbação psicológica. Quase sempre há uma desculpa pronta para que a pena seja leve. Mas pergunto: e quem atenua as dores de quem perdeu tudo?

O resultado é claro: muitos incendiários voltam a reincidir. Dados do próprio Ministério Público revelam que cerca de 40% dos detidos por incêndios florestais já tinham antecedentes semelhantes. Um círculo vicioso: a justiça não pune de forma eficaz, o sistema prisional não reintegra, e o país volta a arder.

Não estamos a falar de pequenos delitos. Estamos a falar de crimes que matam pessoas, matam animais e hipotecam o futuro económico e ambiental de Portugal. Mas os magistrados parecem preferir manter a ilusão de que um arguido arrependido é menos culpado do que as cinzas que deixou para trás.

Há quem diga que este crime é terrorismo. Outros chamam-lhe ecocídio. Eu apenas digo: as penas devem ser agravadas, a fim de garantir uma dissuasão eficaz da prática deste crime. E mais, que sistema prisional é este que não reintegra? Queremos pessoas a apodrecer 5 anos numa prisão para serem reincidentes, ou queremo-las 5 anos lá dentro para serem pessoas reintegradas nas regras e normas da sociedade?

Uma justiça lenta e ineficaz atrasa uma nação e condena-a à ruina.

Isto cansa, senhores deputados!

E que futuro?

“Portugal Chama”, diz o Estado em forma de trocadilho. A verdade, é que basta de meias palavras ou de inação.

Não é inevitável que Portugal arda todos os verões. Nunca será. Mas há que ser feita uma escolha: ou continuamos a gastar lágrimas e milhões em cinzas, ou investimos finalmente em vida e prevenção. O futuro do interior, e do país, depende disto.

E que futuro?

Bem, para o ano, o que ardeu este ano estará seguro. O que arderá para o ano, estará seguro no ano seguinte e por aí fora. Mas só se nada for feito.

Que, para o ano, nada nos canse, senhores ministros. Senhor primeiro-ministro. Senhores deputados.

“Portugal chama” por vós!

Escrito a 2 de setembro de 2025 por Francisco Ambrósio

Repugnante, ainda assim não surpreendente

“Sabendo que as nações vão sofrer mudanças, de que forma podemos fazer com que elas sejam menos problemáticas? Certamente, não será com gente repugnante ao leme…”

Há já algum tempo que vou refletindo na lógica patriótica e nacionalista dos povos. A visão protetora e possessiva de um espaço geográfico é tão antiga quanto a origem da humanidade. Sendo certo que a necessidade de sentirmos que pertencemos a algo, a uma tribo, é fundamental para a coesão e definição do espírito e cultura de uma sociedade, também é justo afirmar que a História diz-nos que o que hoje é “nosso”, amanhã poderá não o ser. Seja em termos do espaço que ocupamos, dos valores que defendemos, do credo que propagamos, da cultura que preservamos e, claro está, da nacionalidade que detemos.

A Europa, como continente, tem cerca de 50 países, e seja desde o Cabo da Roca, em Portugal, aos Montes Urais, na Rússia, ou desde o cabo Nordkinn, na Noruega, à ilha de Gavdos, na Grécia, todas estas nações, em algum momento da sua história, foram uma outra coisa, com outros povos. Para colocar alguns exemplos, temos a nossa vizinha Espanha, que só se formou, mais ou menos como a conhecemos hoje, depois do século XVI, e a Itália e o Reino Unido apenas no século XIX, tendo este último tido um reajuste com a Irlanda já no século anterior.

O que quero dizer com isto é que a nossa pretensão de deter algo com fronteiras bem definidas de maneira infinita e estanque é, de facto, uma ideia um pouco ilusória. Talvez, na lógica da longevidade média de uma vida humana, as mudanças sejam pouco significativas e, quando ocorrem, aparentam ter algum dramatismo, mas quando colocamos umas centenas e até milhares de anos em cima, percebemos a efemeridade da nossa ideia de nação e de espírito patriótico.

E por que trago esta introdução para este artigo? Bem, isso é mais simples ainda de explicar. O Governo trouxe, como agenda primária após a tomada de posse, o tema da imigração e da obtenção da nacionalidade portuguesa, pondo em segundo (ou terceiro, ou quarto, não sei) plano aqueles que, para mim, são, sem dúvida, os três temas prioritários para a atual legislatura: Saúde, Habitação e Economia. A Aliança Democrática tenta avançar um pacote legislativo e fazer política numa área completamente minada por extremismos.

Não quero que fiquem com a ideia de que desvalorizo a necessidade de falar deste tema. O problema é que, com o ruído existente à volta e com o Chega a comandar a narrativa mediática, fica impossível não ver legitimada por parte das pessoas mais radicais a perspetiva execrável que eles têm sobre este assunto. Esta postura é reforçada pela ausência de debate, por parte do Governo, sobre as políticas de integração e pelo foco constante nas políticas de “limitação”.

E, cavalgando sobre isto, vimos André Ventura, no Parlamento, e Rita Matias, num vídeo na rede social X, a lerem alto e a publicitarem os nomes de vários alunos que constam numa lista de uma escola de Lisboa e que andou a circular em redes de grupos simpatizantes do neonazismo como sendo estrangeiros. O objetivo é simples: passar a ideia de que os imigrantes estão a passar à frente dos portugueses e fortalecer o conceito da Teoria da Substituição.

Não faço ideia se a lista é realmente verdadeira e tampouco acho que, se estes senhores tivessem filhos, a atitude seria diferente. O que me incomoda é a ausência de empatia e respeito por quem já por si chega a um país, a uma realidade diferente, numa posição de fragilidade. É repugnante, ainda assim não surpreendente, que haja no Parlamento quem considere que não existam limites na forma de fazer política. Gente que foi eleita para representar o povo usa a sua posição pública para legitimar o repúdio sobre crianças que não têm como se defender. É execrável ver isto a acontecer e, sobretudo, é nojento ver os comentários associados nas caixas das redes sociais.


As migrações fazem parte da história da Humanidade e sempre trouxeram tensões atrás. Hoje, são aceleradas por um mundo global e capitalista, o que inevitavelmente fará com que haja alterações mais rápidas dentro das nações, territórios, culturas. Olhando para a história, sabemos que isso vai acontecer e que será inevitável assistir a essas mudanças que podem “reprogramar” todo um país. O que me parece absolutamente primitivo, em tudo isto, é que, com o nível de informação, conhecimento e conquistas sociais obtidas pelo Homem nos últimos milénios, se amarrote de forma vil tudo o que está por detrás dos valores e respeito pelos outros que fomos conquistando, porque isso é algo que não devia ser flutuante, deveria – e esteve – sempre em evolução positiva, como forma de construir uma sociedade melhor e mais respeitosa hoje do que ontem.

Sabendo que as nações vão sofrer mudanças, de que forma podemos fazer com que elas sejam menos problemáticas? Certamente, não será com gente repugnante ao leme…

Escrito a 9 de julho de 2025 por Sérgio Brandão

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Chega citou nomes de alunos menores. Constitucionalistas falam em atropelo à lei

Problemas Estruturais, Conjuntura, Incompetência e Mérito

“Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.”

Já passaram mais de duas semanas desde o desfecho das legislativas. É mais do que tempo suficiente para uma reflexão que gostaria de partilhar.

Não querendo demonstrar uma arrogância desmedida ao fazer uma listagem de todas as culpas existentes para eleição de 60 mandatos do Chega, destaco, porém, quatro sub-análises, não indissociáveis, que espelham a realidade que enfrentamos e uma conclusão sobre possíveis aprendizagens e próximos passos do Governo e Parlamento.

Questões Estruturais

Salários baixos, falência do elevador social, crise na habitação, falta de coesão territorial e diminuição da reputação das instituições e do Estado, são problemas conhecidos e que servem de combustível para o descontamento e ressentimento da população para com aqueles que lideraram o país nos últimos anos: PS e PSD. Acresce a isto a promessa, muitas vezes falhada, de que com estudo e trabalho qualquer pessoa, independentemente do seu contexto, atingiria sucesso e prosperidade.

A Conjuntura

Uma esquerda que se dedicou e, sobretudo, foi mais vocal nas questões identitárias e de género, deixando como segunda prioridade a luta de classes e a desigualdade social; um fosso maior entre o povo e as elites; a desintermediação da partilha de informação nas redes sociais; a crise do jornalismo e o crescente cepticismo sobre a sua real imparcialidade, e o aumento dos movimentos de partidos populistas nacionalistas de direita radical com figuras carismáticas, são algumas das questões conjunturais dos quais é impossível fugir em qualquer análise do ambiente político atual.

Quando baixamos a nossa análise ao nível nacional temos de acrescentar que 22 dos últimos 30 anos foram governados pelo Partido Socialista. Ora, assim fica difícil para um eleitor, quando tem de tomar a decisão de atribuir culpas sobre o estado da Nação não apontar o dedo ao PS quando para muitos foi praticamente o único rosto visível da governação do país, reforçando a minha ideia de que fosse Pedro Nuno Santos, fosse outro qualquer, o desfecho seria pouco diferente.

A Incompetência

Seja por arrogância, seja por incapacidade, os partidos políticos, sobretudo da esquerda, foram, aparentemente incapazes de fazer uma análise do que aí vinha. Refugiados na sua “Torre de Marfim”, faltou a consciência do nível de insatisfação, irritação e frustração que o país vive. Juntando os problemas estruturais, com os conjunturais, mais a enorme incapacidade de os políticos, ditos tradicionais, fugirem das suas inúteis e por vezes infantis “tricas políticas”, levaram a este desfecho incontornável.

Pedro Nuno Santos foi parece que foi totalmente incapaz de antever tudo isto que descrevi atrás, preferindo “cascar na direita” e tentar, a todo o custo, empurrar o PSD para os braços do Chega. Luís Montenegro com o seu “não é não”, desarmou o antigo Secretário-geral do PS, cuja única narrativa que tinha era a de alimentar o medo da captura do país pela extrema-direita onde o PSD seria também cúmplice. Admito também, que em face da situação que descrevi, pouco ou nada interessava ao eleitor qual seria o programa dos Socialistas. A política vive de ciclos e este claramente não é o do centro-esquerda.

Não podemos também esquecer que o Presidente da República, ao assumir a bitola de deitar abaixo o Governo sempre que haja alguma crise, seja com os Primeiros-ministro, seja com o Orçamento, acelerou algo que poderia ter demorado mais de uma década. Estes ciclos políticos curtos e com finais envoltos em polémica, foram o rastilho ideal para o Chega.

O Mérito

Ventura soube aproveitar tudo isto que aqui descrevi. Com uma narrativa pouco diferente das grandes referências da extrema-direita a nível internacional, cavalgou tudo o que tinha ao seu dispor. Foi um oportunista inteligente, trabalhou bem e este é o resultado de todo esse esforço. Se há 6 anos olhavam para ele como uma anedota, agora toda a gente sabe que sobre aquele homem existe a possibilidade da conquista do poder.

Há que também prestar o devido tributo a Luís Montengro. Eu, que escrevi no artigo “A estrelinha de campeão de Luís Montenegro” sobre a enorme chico-espertice do Primeiro-ministro, e não retirando uma única vírgula a isso, tenho de lhe reconhecer o enorme sentido de oportunidade que teve, reforçando assim a posição da AD. Todavia, a sua astúcia e capacidade serão postas à prova nesta legislatura, pois agora o alvo do Chega é o PSD, e creio que ele tem consciência disso.


Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.

Eu, tal como dois terços dos simpatizantes da AD, sou contra uma aliança com o Chega. Não significa que não possam existir conversas em alguns temas, mas para mim, caso haja vontade de reformar o país e de estabelecer pactos em matérias de política externa, defesa, segurança e justiça, o PS é o melhor e mais bem preparado parceiro. Tenho mais dúvidas nas questões económicas e de reforma do Estado, mas esperemos por aquilo que o novo Secretário-geral possa apresentar. Talvez nestes dois últimos temas a IL seja uma boa aliada.

É defendido que eventuais alianças e coligações entre os dois partidos do poder pode favorecer o crescimento do Chega, posicionando-o como única alternativa política. Compreendo a perspectiva, mas convenhamos que nos últimos 10 anos os socialistas e sociais-democratas andaram sempre às “turras” e com enormes dificuldades de consensos e ainda assim o Chega chegou aos 60 mandatos em 2025. Tenho razões para acreditar que possa não ser bem assim, sobretudo se realmente os principais partidos estiverem interessados em resolver os problemas das pessoas.

Para além disso, pode ser polémico, mas e se realmente o país quiser o Chega a liderar o Governo? Se tal se suceder há duas coisas que me parecem importantes: a primeira é que o dano nas instituições seja baixo e que a capacidade de reverter em eleições qualquer rumo autoritário continue a ser possível em caso de incompetência e insatisfação pelo trabalho feito; a segunda é que prefiro que o PSD tenha as suas “mãos limpas” e que não tenha compactuado com políticas populistas insanas, impraticáveis e desrespeitadoras.

Estarei eu a ser anjinho? Veremos…

Escrito a 9 de junho de 2025 por Sérgio Brandão

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Ventura diz que foi convidado a integrar Governo. Montenegro nega: “É mentira e desespero”

Serão os eleitores do CHEGA eleitores de segunda?

Miguel Sousa Tavares, entre outras figuras e até mesmo uma parte da opinião pública, defendem que os eleitores do CHEGA não devem ser ouvidos e devem sim “ser combatidos e derrotados”, citando o próprio Miguel Sousa Tavares. Mas, será que deve ser assim?

A maioria maior e a maré de crise

As eleições legislativas de 2025 deram uma vitória “à vontadinha” à AD – Coligação PSD-CDS, que, contas feitas, acumula um total de 91 deputados com assento parlamentar, demonstrando que, a maioria do povo português quer deixar o Luís trabalhar.

Contudo, também o CHEGA viu o seu número de deputados ser reforçado, passando dos 50 – digo, 49 deputados, sem contar com o assistente da TAP, Miguel Arruda – para 60 deputados, “roubando” uma parte dos eleitores ao PS, que foi, digamos, o parente pobre da noite eleitoral, levando Pedro Nuno Santos a abdicar do cargo de secretário-Geral do Partido Socialista, arrecadando o pior resultado eleitoral dos últimos 40 anos, sentando apenas 58 deputados no parlamento, abaixo do número conseguido pelo CHEGA.

Há cerca de um ano, escrevia no artigo Espelho meu, espelho meu, que democracia sou eu?, neste mesmo blog, que “de São Bento ao Palácio Bourbon, os movimentos populistas têm tomado as conversas e até mesmo as urnas, especialmente na Europa, criando um efeito ao qual eu costumo chamar “maré de crise”. Maré de crise pois, historicamente, os partidos ou movimentos populistas tomam proporções de representação avassaladoras aquando de um período de descontentamento popular generalizado, como o que atravessa grande parte da Europa e até mesmo o mundo.”.

Pois bem, a verdade não constitui uma fórmula absoluta, mas, a realidade é que é justo afirmar que o povo vive o momento de maior descontentamento com as instituições democráticas, desde o pré 25 de abril.

Será justo afirmar que os eleitores do CHEGA não devem ser ouvidos?

Prontamente digo que não! Miguel Sousa Tavares, citado no início deste artigo, afirma que também ele está “zangado com a governação do país e com a falta de categoria da classe política atual”, mas, defende que isso não o leva a “estar zangado com a democracia”.

Pois bem, vamos por partes. Uma boa parte da população portuguesa vive, atualmente, descontente com a prestação das instituições democráticas, seja pela demora dos serviços, seja pela corrupção quase sistémica que se vive, ou até pela marca de Costa deixada ao país, a da imigração descontrolada e extinção do SEF. Vive descontente com os baixos rendimentos, com a precariedade do SNS, e com a crescente dor de cabeça que se tornou o acesso à habitação.

Além do mais, o interior de Portugal não tem conseguido, após sucessivos governos ao longo de 51 anos, combater o grave fenómeno do despovoamento, ajudando à “festa” o facto de terem sido desativados quase 500 quilómetros de linha ferroviária ao longo dos últimos 30 anos, e de haver capitais de distrito do interior ainda sem acesso direto a uma autoestrada.

Repito, além do mais, assiste-se a uma constante degradação do debate político, sendo os programas eleitorais cada vez mais um conjunto bacoco de frases líricas que soam bem ditas da boca para fora, mas não têm em consideração as contas pública do país onde se vive.

Neste cenário, alguém que – também por responsabilidade de todos, por não se prezar por isso em casa e nas escolas – tenha uma literacia política menos vasta, vê-se claramente representado no discurso de cavaleiro que vai aparecer na manhã de nevoeiro, após as eleições que dizem que irão ganhar, para “salvar Portugal”.

Não, os eleitores do CHEGA, principalmente aqueles que deixaram o PS, o PSD, o CDS, o PCP, entre outros, não são contra a democracia, até porque muitos sabem o que é viver sem ela.

Votar num partido que quer acabar com as portagens, com a “mama” dos subsídios, com os “monhés”, e com a “ciganada que não quer trabalhar”, pode ser tentador a muitos, principalmente àqueles que sentem na pele as vicissitudes negativas que citei, mas, tenham sempre consciência que a conservação da democracia é uma responsabilidade enorme, e cabe-nos a todos nós sermos conscientes e olhar para a nossa história.

Portanto, sim, não devemos ignorar os eleitores do CHEGA, mas devemos não deixar que o seu descontentamento passe para o desrespeito pela democracia, e, para isso, é necessário resolver as pendências do país dos velhos sonhos adiados.

Serão eles os salvadores da pátria?

O Partido CHEGA afirma querer acabar com a imigração ilegal, que sim, deve acabar, mas, muitas vezes, afirma nos discursos dos seus representantes ser contra a imigração no geral; defende acabar com a subsidiodependência, mas esquece, largas vezes, que ao “fechar a torneira”, pode colocar pessoas efetivamente carenciadas em situação de pobreza agravada; defende que quer acabar com as portagens, que seria excelente, não fossem os custos avassaladores da reparação de uma rede de autoestradas tão elevados para o orçamento do estado.

Acima de tudo, votem naqueles que mais vos dizem algo, mas tenham sempre consciência que nada se faz num estalar de dedos; que o problema da natalidade não se resolve em 4 anos e sem imigrantes, e que Portugal não precisa de ser salvo, porque não está a ser invadido, precisa sim que os democratas, que devemos ser todos nós, se preocupem em governar também em consciência, e que façam valer os 51 anos já passados.

Terminando, digo que a melhor forma de combater os eleitores do CHEGA, é mostrar trabalho, respeito, espírito democrático e, acima de tudo, um enorme amor à liberdade.

Que os ventos do passado não se façam soar por cá nunca mais e que a melhor arma que tenhamos contra o populismo seja a consciência!

Escrito a 2 de junho de 2025 por Francisco de Melo Ambrósio.

Abril, Sempre!

Uma mensagem à liberdade.

Foi há 51 anos que Portugal se libertou da opressão, do medo, da angústia e da morte que a ditadura causava. Muito aprendemos, muito esquecemos. Mais do que nunca, precisamos de nos lembrar!

Pelo mundo, há guerra na Ucrânia, que leva milhares de vidas todos os anos; guerra em Gaza, que o mesmo caminho segue; discursos de ódio, que matam os cravos de abril e, mais grave do que tudo, há quem nestes veja verdades. Como dizia Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”. Há tantos anos foi, mas tão atual está!

Cada vez mais o nosso ego é o motor que empurra a Terra, motor esse que polui os campos onde cresce a paz.

Concretizar a revolução de ’74 representa mais do que um dia, representa História, portanto, um bocadinho de cada um de nós, e, por isso, temos o dever de cuidar dela, como se fosse alguém, apesar de não o ser; e por não ser, é dum povo!

Com tanta coisa, é impossível que a liberdade, esta dos cravos, não esteja de luto!

Escrito a 25 de abril de 2025 por Francisco de Melo Ambrósio.

Os mais jovens como agentes de mudança: A sua importância na sociedade atual

Os jovens, cada vez mais cedo, têm uma palavra a dizer sobre a sociedade que os rodeia, seja sobre a sua escola, ou até mesmo sobre a política nacional, e demonstram-no de forma clara e, por vezes, voraz. Mas, e se eles fossem os nossos agentes de mudança?

A política, mas, não só para gente grande

Ao longo dos anos, penso eu, todos nós, interessados nos assuntos “dos grandes”, fomos colocados de parte por estarmos ainda em tenra idade para deles falar, e, por vezes, isso traduziu-se num sentimento de, tanto angústia, como de combustível para ligar os nossos motores de participação cívica. 

Muitos ainda pensam que a política é algo que só deve ser discutido ou participado por aqueles que têm conhecimento na área, ou pelo menos alguma experiência, mas sabemos que essa experiência nem sempre se traduz em saber, daí a vontade de mudança tão voraz que os jovens transportam em si.

As instituições democráticas estão fragilizadas, a política partidária, e o país cada vez mais polarizado, mas, ainda nos resta esperança!

Como a política não é só para os grandes, existem iniciativas, como o Parlamento dos Jovens e o Encontro Nacional de Juventude, que, há décadas, marcam a diferença na sociedade, dando a oportunidade a milhares de jovens por todo o país (e não só!) de debater, de pensar e de fazer política – e que grandes mentes daqui saem!

Aqui aprovam-se recomendações do que podem ser projetos legislativos a serem tidos em conta pelos partidos, essencialmente para lhes mostrar que não estamos adormecidos ou a fazer scroll infinito, de forma, também, a dar a conhecer ao país político as necessidades dos jovens.

Além disto, existe o projeto Manual da Juventude, que compila neste espaço informações de eventos e dinâmicas relacionadas com a participação cívica e juventude, para ajudar os jovens a encontrar estas atividades mais facilmente!

Os entraves à participação jovem

 É certo que há esta dimensão da política, mas, também há a dimensão que por todos é conhecida. Pois bem, essa que tão inacessível é!

A política, num todo, por vezes, é vista como algo complexo e chato para alguns jovens, fazendo com que estes se afastem dela e que se mantenham pouco informados sobre o país político, levando-os, eventualmente, a acreditar em demagogias que apenas são bandeiras eleitorais, muito por culpa dos discursos pouco convidativos de alguns políticos da atualidade.

Com este panorama, e acrescentando ainda o facto de ser difícil, por vezes, ter voz dentro dum partido ou simplesmente numa assembleia municipal, os jovens têm-se distanciado, ao longo dos anos, da política.

Quem fala da política, fala do associativismo jovem, este que tantas barreiras vê no seu caminho, desde a tremenda burocratização a que as Associações de Estudantes (AE) estão sujeitas, levando a que a grande maioria delas em Portugal sejam ilegais; aos Conselhos Municipais da Juventude (CMJ), que uma boa parte dos municípios em Portugal ou tem, mas apenas para dizer que tem, ou simplesmente não se preocupam em cumprir a lei, e nem sequer existem. Mas, repito, ainda há esperança!

O que falta fazer?

Para, de uma vez por todas, começar a dar a devida importância à voz dos jovens e enaltecer o trabalho que fazem, é preciso, primeiro, dar-lhes credibilidade, acabando com alguns preconceitos como os que falei no início. 

Em segundo lugar, é preciso criar mecanismos de fiscalização, por parte do Estado, para fazer com que os municípios cumpram a legislação no que toca à participação jovem, dando a devida relevância aos CMJ, e também, que se desburocratize o processo de legalização das AE, permitindo, assim, que todas as AE possam ter acesso às verbas previstas na Lei, dando lugar à coesão e livre participação democrática de todos estes órgãos. 

Em terceiro lugar, devemos em casa, nas escolas e nos municípios, promover a literacia política, porque, apenas com uma sociedade informada, se formam democracias fortes e sustentáveis, dando assim descrédito às ideias extremistas, que tanto polarizam o discurso nos dias de hoje. 

Por fim, e não menos importante, respondo à pergunta que fiz no início – “Mas, e se eles fossem os nossos agentes de mudança?” – dizendo apenas que não é: “e se fossem”; mas, sim: “já somos”!

Um agradecimento especial à Francisca Cortesão, ao José Cordeiro, à Lara Ruivo, à Maria Neves, ao Pedro Jardim, à Rita Prego, ao Rui Castro, ao Vasco Frazão e ao Vitor André, por contribuírem com as suas ideias durante o Encontro Nacional de Juventude. Sem estas brilhantes mentes, este artigo não seria possível!

Escrito a 21 de abril de 2025 por Francisco de Melo Ambrósio.

Créditos de imagem: Parlamento dos jovens/foto de grupo, 2022/2023.

A Estrelinha de Campeão de Montenegro

Surfando o grande momento económico e financeiro do país e a paz social feita à custa de distribuição de dinheiro pelas clientelas importantes como idosos e funcionários públicos, o Primeiro Ministro parte para estas eleições confiante e à vontade. Talvez até à vontadinha.

O que é que está em causa nestas eleições? Porque vamos a votos?

Tal como o Presidente da República enunciou no discurso da sua terceira dissolução, esta crise foi provocada por um desentendimento entre o Governo e a oposição quanto à existência de uma confusão entre a política e interesses económicos. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou “Para uns, a confiança ética e moral era óbvia. Para outros, a desconfiança é que era óbvia“.

Portanto, desengane-se quem considera que esta campanha é sobre “políticas”. Aliás, eu atrevo-me a dizer que quase nunca é sobre políticas que há mudança de cor no Executivo Português. Aquilo que tem acontecido é que chega a um momento em que os eleitores se cansam do partido que os governa e optam por outro. Sendo assim, a pergunta que se impõe é: “Estão os portugueses fartos do PSD?”. Eu diria que não, e é a isto que Montenegro se agarra.

Deste modo, seria de concluir que o objetivo do PS durante esta campanha seria conseguir convencer o povo da incapacidade ética e da falta de transparência do atual Primeiro-Ministro. O problema é que os socialistas, como nunca tiveram um verdadeiro momento de reflexão sobre o caso José Sócrates, não têm um álibi suficientemente robusto para entrar por essas águas turbulentas. Por isso, vemos aí Pedro Nuno Santos, num esforço hercúleo a demonstrar que tem um programa para o país diferente dos últimos 10 anos do partido que representa. De facto, tem para ali umas coisas novas, mas parece-me que o eleitorado está nem aí depois de 8 anos de Costa. Estou convencido que, tal como aconteceu na Madeira, a ética e o bom nome vão para o caixote do lixo e “deixa o Luís trabalhar“.

Sejamos práticos, até ver, com as informações que temos ao dia de hoje, há indícios de corrupção? Não, não há. Há tráfico de influências? Nada disso. Há crime? Parece que se tem de vasculhar ainda muito. É chico-espertice? Ui, se é. É para correr com o Primeiro-Ministro? Se não foi com Miguel Albuquerque como arguido, então aqui não será de certeza para a maioria dos portugueses.

Luís Montenegro tem aquilo que os mais velhos chamam de “verdadeira cara de pau” (para os mais jovens, recomendo pesquisarem a definição no Google). Faz-me confusão a sua incapacidade de se justificar, tendo sempre a postura de dizer que é uma cabala contra ele, que é um homem de honra inabalável e impenetrável e depois lança explicações a conta-gotas que são muito pouco claras e demasiado palavrosas, deixando espaço para dúvidas e a sensação de “Estás-me a atirar a areia para os olhos ou é só impressão minha?“.

Depois de andar semanas e semanas a culpar o PS e o Chega pela crise, foi no programa do Goucha, seu claro apoiante nas últimas eleições, que revelou aquilo que todos nós ja desconfiávamos: ele queria estas eleições, era a oportunidade certa. E está tudo bem com isso, mas escusava de omitir (ou mentir) sobre as suas reais intenções.

Montenegro está com aquilo a que no futebol chamamos de “estrelinha de campeão”. Surfando o grande momento económico e financeiro do país e a paz social feita à custa de distribuição de dinheiro pelas clientelas importantes, como idosos e funcionários públicos, o Primeiro Ministro parte para estas eleições confiante e à vontade. Talvez até à vontadinha. Por isso, põe todos os ministros como cabeças de lista e ainda tem a ousadia de colocar Hernâni Dias por Bragança. Relembro que o antigo autarca e ministro do último Governo tinha sido afastado por ter criado duas imobiliárias quando mudava a lei dos solos. Agora volta, novamente, a ter a confiança do líder do seu partido.

Prosseguimos, no leme dos destinos do país, com pessoas que não acreditam em nada que não seja a conquista e a manutenção do poder. Capturados pelas agências de comunicação, os recentes líderes políticos vivem de truques, esquemas e táticas que tentam deixar a sua cara sempre limpa, ainda que tenham o fato já cheio de nódoas. Se todos são assim? Não quero fazer esse salto populista, mas a experiência dos últimos anos assim nos faz pender para essa triste conclusão.

Em 2009 (e com aquilo que se sabia nesse ano, não o que se soube depois), Sócrates, envolto em muitas dúvidas éticas, foi reeleito com as palmas e a euforia total do seu partido e as críticas ferozes da oposição. Agora em papéis invertidos, Montenegro prepara-se e procura o mesmo. Estou convencido de que não teremos um novo Sócrates 2014, isso é certo, mas da minha parte, e com estas dúvidas e inquietações no ar, os eleitores deveriam ser mais críticos no momento que lhes pedem um voto de confiança na integridade e honorabilidade do líder da direita. Não é para isso que servem as eleições. Se começamos a permitir que os políticos usem os processos eleitorais para limpar a sua imagem, começamos a cavar a campa das democracias. Vejam o que se passa do outro lado do Atlântico.


Tudo indica que continuaremos, depois de 18 de maio, num cenário de enorme instabilidade. Agora com a consciência que acordos, e alinhamentos entre o PSD e outros partidos poderão ser ainda mais difíceis devido ao seu líder. Quem arrisca aliar-se a alguém que depois lhe pode manchar o currículo? Que triste e desanimador momento para a política nacional.

Escrito a 17 de abril de 2025 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Luís Montenegro apresenta programa da AD

Germany’s Present is the Roadmap for Europe’s Future

“This comprehensive post on ‘Mesa de Amigos’ provides an in-depth analysis of the current situation in Germany, highlighting its significance for the future of Europe. I am honoured to present insights from my esteemed friend Philipp Kynast, a German lawyer, who has graciously answered pivotal questions to help us better understand the trajectory of his country and its impact on our continent.”

This comprehensive post on ‘Mesa de Amigos’ provides an in-depth analysis of the current situation in Germany, highlighting its significance for the future of Europe. I am honoured to present insights from my esteemed friend Philipp Kynast, a German lawyer, who has graciously answered pivotal questions to help us better understand the trajectory of his country and its impact on our continent. I truly hope you find this article as enlightening and engaging as it was for me to prepare, for all those interested in gaining a deeper understanding of the ‘Economic Engine of Europe.’


Following the collapse of the incumbent German “traffic light party” coalition consisting of the Social Democrats (SPD), Free Democrats (FDP), and environmentalist party The Greens end of 2024 and early elections in February 2025, formal coalition discussions for forming the next German government are well underway with Friedrich Merz, leader of the conservative centre-right Christian Democratic Union (CDU), set to become the next chancellor at a particularly critical juncture for Germany, characterized by economic challenges and significant social issues, such as unemployment and a rise in nationalism that challenge the democratic framework of the Republic. With a retreat by the United States, the ongoing conflict in Ukraine, and pro-Putin nations in the European Council, the question arises: can democracy still be safeguarded?

A stable and strong Germany is crucial for Europe. Let us examine the situation closely.

Germany, with over 83 million residents, is the demographic giant of the European Union, surpassing France and Italy and possessing a population eight times that of Portugal. However, it is facing a significant aging issue. In 15 years, one-third of Germany’s population will be over 65 years old, a fact with serious implications for the labor market and the care sector.

Germany is a global economic giant with a GDP of 4.3 trillion euros, accounting for a quarter of the wealth produced in the European Union. For comparison, this is 16 times the GDP of Portugal, with a GDP per capita of around 50,000 euros—double that of Portugal.

The primary driver of German economic growth is its industry, which maintains a positive trade balance through exports. Last year, Germany exported goods worth 1.6 trillion euros and imported goods worth 1.3 trillion euros. The EU internal market is pivotal, accounting for 65% of imports and 55% of exports.

The statutory minimum wage in Germany is presently set at 12.82€/h resulting in a gross monthly salary of 2,222€ based on a 40-hour/week, nearly three times that of Portugal. In January this year, the unemployment rate was 6.4%, one of the highest rates in nearly a decade.

Currently, around one-third of Germany’s population – nearly 25 million people – has a migration background. In 2023, there were 200,000 naturalizations and a record 350,000 asylum applications. The main origins for immigrants in Germany include Turkey, Ukraine, Poland, Syria, and Romania.

The Portuguese community in Germany is around 140,000 strong. Immigration is now a central and controversial topic, highlighted during the electoral campaign.

Perceived by many as an uncontrolled issue, immigration has led parties like the CDU to promise stronger border controls, family reunification restrictions, and increased policing. The far-right advocates for the expulsion of illegal refugees and harsher penalties for immigrants, alongside increased policing measures. Conversely, the SPD, under Olaf Scholz, promotes better integration of immigrants along with enhanced community policing.

As efforts to form a government continue, the challenges are considerable. Germany has faced economic stagnation for several years and persistent inflation, contributing to political uncertainty further aggravated by a crisis in the automotive industry, which has lost market share to the United States and China.

Economists predict that Trump’s protectionist policies could reduce Germany’s GDP by 0.6% to 1.2%. The cessation of Russian gas supplies and nuclear plant shutdowns has effectively ended Germany’s reliance on cheap energy. This scenario has ultimately led to the collapse of Scholz’s government and the dissolution of the “traffic light coalition”.

With the highest voter turnout since the reunification in 1990, German voters have shifted the parliamentary power balance to the right. The center-right alliance between the CDU and the Christian Social Union in Bavaria (CSU) won 28.5% of the votes. The far-right Alternative for Germany (AfD), led by Alice Weidel, achieved a record result and became the second-largest political force with 20.8% of votes. The SPD, in third place, saw a significant decline, securing 16.4% of votes. The Greens also lost traction while FDP even missed the 5% threshold required to get seats in the parliament. The radical left party, Die Linke, gained nearly 4 percentage points while the newly established left-wing to far-left party Sahra Wagenknecht Alliance (BSW) achieved a remarkable result in its first election but closely missed the 5% threshold.

Distribution of seats in the new parliament is as follows:

Merz led CDU/CSU lacks an absolute majority and must negotiate to gain the support of 316 deputies. The AfD is not a viable option for any coalition. A coalition with the SPD would achieve 328 deputies and is the most likely scenario for the new government. With the Greens’ support, they would secure a more robust majority of 413 deputies; while such scenario seems rather unlikely for a government coalition, it should be noted that certain important decisions in the parliament require a majority of two thirds. Without the SPD, a majority could not be achieved with just the Greens. The pertinent question is the extent to which a coalition between these parties can function effectively, considering their vastly divergent proposals on significant and crucial matters, as detailed below:

Coalition discussions (Sondierungsgespräche) have been initiated on 13 March 2025 between CDU/CSU and SPD. The parties established strict guidelines for the negotiations, including bans on leaks, punctuality requirements, and restrictions on public communications, to ensure disciplined and efficient discussions. So far, the coalition discussions appear to be progressing in constructive manner, with an expected conclusion by the end of April 2025.

Friedrich Merz has emphasized the need for substantial economic stimulus and defense investments, proposing a €500 billion infrastructure fund and advocating for a revision of the “debt brake” (Schuldenbremse) to facilitate increased borrowing for these purposes. SPD has expressed its willingness to collaborate on economic reforms and defense spending but stressed the importance of balancing fiscal responsibility with social welfare considerations. The Greens – while not directly involved in the coalition discussions, required to pass a revision of the “debt brake” – focused on ensuring that any new investments align with climate goals, advocating for a portion of the funds to be allocated to sustainable projects and the incorporation of environmental considerations into constitutional amendments.

The discussion around Germany’s “debt brake”, a constitutional rule limiting government borrowing, has been front and centre of the discussion as it is a prerequisite to allow for the required government spending: CDU/CSU and SPD agreed to seek a loosening of the “debt brake” to allow for higher defense spending and to propose the creation of a €500 billion infrastructure fund aimed at revitalizing the economy and addressing underinvestment in infrastructure. The fund is intended to modernize infrastructure and enhance defense capabilities, reflecting concerns about national and European security. A portion of the fund, amounting to €100 billion, is earmarked for climate-related spending, addressing the Greens’ concerns and aligning with Germany’s commitment to environmental sustainability. To enshrine climate goals into law, discussions are underway to amend the constitution, reflecting a commitment to sustainable development. The proposal requires amendments to the German constitution, first necessitating a two-thirds majority in the parliament (Bundestag). The outgoing parliament has been asked to vote on these measures on 18 March 2025 and gave its approval with votes of almost all members of parliament from CDU/CSU, SPD and Greens (512 vs. 206). Germany’s Federal Constitutional Court (Bundesverfassungsgericht) has dismissed emergency bids to prevent the outgoing parliament from amending the constitution to facilitate this fund, affirming the plan’s legality. Following Bundestag approval, the proceeded to the Bundesrat (i.e., the upper house, representing the 16 federal German states (Länder)), where it also required a two-thirds majority to become law. The Bundesrat has passed the bill on 21 March 2025 with a majority of 53 out of 69 votes and thus paved the way for a historic and groundbreaking turning point in Germany’s ability to invest and grow in critical areas. Economists predict that these measures could significantly boost Germany’s GDP growth, marking a departure from the country’s traditional fiscal conservatism and aiming to revitalize the economy and enhance infrastructure and defense capabilities amid global uncertainties.

This analysis concludes with a map showing the leading party in each electoral district.

Strongest party by constituency 2025

This political map reflects an old Germany divided by a wall, leaving a lasting legacy. Western Germany predominantly voted for the CDU/CSU or the SPD, while Eastern Germany largely supported the AfD. This division provides insights and raises questions for our interview.


Philipp Kynast is a German lawyer who advises clients on their complex, predominantly international transactions and foreign investors on business activities in Germany and Europe in a variety of sectors. He is a curious mind and has lived, studied and worked in Düsseldorf, Frankfurt, Barcelona, Madrid, Melbourne and the US, including a stage at the German Consulate General in Los Angeles. Besides that, he’s a good friend of mine with whom I have had the privilege to discuss numerous topics. He always offers strong and well-thought-out opinions. He will help us better understand the reality of his country and share his insights on its future.

It’s difficult to single-out individual factors as we have been facing several economic and political headwinds in recent years with challenges stemming from both internal structural weaknesses and external geopolitical pressures. That said and noting that many factors are also interdependent, I would highlight the following:

Economic Factors
Slowing Economic Growth & Lack of Innovation: Germany, traditionally known for its economic strength, has faced a slowdown due to a combination of factors, including high energy costs, an aging population, and weakened global trade. The once-booming manufacturing sector, particularly the automotive and chemical industries, has been struggling due to global competition, supply chain disruptions, shift in consumer preferences, and green energy transitions. It should be noted that some of these struggles are arguably home-made by questionable political decisions such as the shut-down of German nuclear power plants and the premature ban on internal combustion engines. Many economists argue that Germany failed to adequately invest in innovation, digitalization, and infrastructure over the past decades, making it vulnerable to economic shocks. This is nothing new, in fact the missing innovation claim is frequently made particularly in relation to the otherwise very stable period under Angela Merkel. However, in combination with other factors these issues have escalated recently.

Energy Crisis & Dependence on Russian Gas: Germany’s energy policy has been under scrutiny, particularly after its decision to fully phase out nuclear power (completed in 2023). The country became highly dependent on Russian gas imports, which backfired following the Ukraine war and the resulting energy crisis. While renewable energy (wind, solar) has expanded, it has not been able to compensate for the loss of nuclear energy and Russian gas, leading to significantly higher electricity prices and economic uncertainty. Higher energy prices have not only hit private German households (at the height of the crisis in 2022 leading to ridiculous urges from the government to change shower heads) but also negatively affected Germany as an industrial location, particularly for energy-consuming sectors such as AI leading, in turn, to less competitiveness and further economic slow-down.

High Inflation & Cost of Living: Like many other European nations, Germany has faced high inflation, eroding household purchasing power. Rising rents, energy costs, and food prices have fueled discontent, particularly in the eastern German states, where wages generally tend to be lower.

Aging Workforce & Labor Shortages: Germany’s population is aging rapidly, leading to labor shortages in key industries such as healthcare, construction, and IT. While immigration is generally seen as a potential solution, it has at the same time also triggered political backlash from nationalist movements. There is an interesting more fundamental issue to be observed here: You may wonder how there can be dramatic labor shortage and record unemployment at the same time. Most likely, the answer is to be found in the generous German social welfare system…

Political Factors
Immigration Debate: Germany has experienced high levels of immigration, particularly since 2015, when then-Chancellor Angela Merkel allowed over one million refugees, mainly from Syria and Afghanistan, to enter the country. This has led to significant political polarization: While many Germans support humanitarian immigration, others, particularly in the east, view it as a strain on social welfare systems and a threat to national identity. AfD has capitalized on these concerns, framing itself as the only party that prioritizes “native Germans” over migrants. While there is good reason to believe that German immigration policies may be too weak and prone to exploitation of the welfare system by some groups of immigrants, it should also be reiterated that Germany is dependent on immigration in the years to come (as mentioned before: labor shortage) and much immigration criticism and AfD support is coming from people already benefitting from the very same welfare system.

Declining Trust in Traditional Parties: SPD, CDU/CSU, FDP and Greens have historically dominated German politics. However, their popularity has declined, with many voters feeling that these parties have failed to address economic hardships, energy security, and migration concerns. The result has been a rise in populist and far-right parties like AfD, especially in the economically weaker eastern regions.

Foreign Policy & Rising Geopolitical Tensions: Germany’s relationship with Russia, China, and the United States has undergone a dramatic shift. The war in Ukraine has forced Germany to rearm and reconsider its traditionally pacifist military stance. This is a controversial issue, as post-WWII Germany has long been reluctant to engage in military conflicts. Relations with the United States have also grown more complex, especially with uncertainty about U.S. global commitments under the new Trump presidency.

One point that I would like to highlight having discussed these topics with many friends across the globe: It’s always a question of perspective. Germany still has high per capita GDP and standard of living. And yes, from a perspective of other countries it may seem weird for Germans to complain about such things. However, there is a widespread feeling that – while it may currently still be on a high level – German standard of living is in decline. In addition, especially the younger generation in Germany has not experienced serious struggle over more than two decades leaving them underprepared to deal with crisis.

Even though it did not really come as a surprise, I was shocked to see how accurate the electoral divide runs along former borderlines exposing a deep division within the German society, particularly between former East (the communist German Democratic Republic, GDR) and West (the democratic Federal Republic of Germany, FRG). Unfortunately, the divided vote suggests that Germany is struggling to find a unifying national narrative, and regional inequalities remain a key challenge. That said, it should also be cautiously noted that AfD is also on the rise in the West, albeit trailing behind.

To interpret such division, it is fair to say that persistent economic differences between the former East and West have led to varying levels of employment, income, and infrastructure development. Western Germany (particularly states such as Bavaria, North Rhine-Westphalia, Baden-Württemberg) on the one side has stronger economic growth, lower unemployment, and a broader base of CDU/CSU and SPD voters. Eastern Germany (e.g., Saxony, Thuringia, Brandenburg) on the other side has faced prolonged economic stagnation, deindustrialization, and population decline. This is understood to have fueled a sense of disillusionment with the political establishment, leading to AfD’s dominance in the east. It is said that many in the East feel left behind in Germany’s economic success story over previous decades and consequently AfD’s hardline stance on immigration appeals to those who feel that resources should prioritize native-born Germans. Having a closer look, there are several interesting voting correlations:

This graphic shows the correlation between professional status (top to bottom: pensioner, unemployed, (blue collar) worker, employee, civil servant, self-employed/entrepreneur) and voted parties. Looking at the votes for AfD. it shows indeed that the relatively highest support for AfD is found within the groups of the unemployed and ordinary (blue collar) workers. Similarly interesting to note – but not shown in this graphic – is that out of a total of 10 million votes AfD has received, almost 2 million came from voters who previously did not vote at all. There seems to be at least a tendency that those who contribute the least to society cry the loudest.

Finally, another interesting correlation to look at apart from the East-West division shows an unprecedented and seemingly contradictory division within the youngest generation of voters:

Among the 18–24-year-olds, CDU/CSU and SPD have almost entirely lost their status as dominant parties with the majority of this group being split between far right and far left parties highlighting their discontent with the decades-long established political system.

To circle back to the initial question, the underlying issue seems to be deeply rooted frustration with the economic and political status quo. While over decades Germans have factually only ever seen two main parties (SPD and CDU/CSU) run the government, younger generations, frustrated voters (together with activated non-voters) seem to be more open to consider entirely different constellations. This especially shows when looking at the age/vote chart indicating votes for “other parties”. Whereas the group over 70 may not even know what is meant by that, 8% of the 18–24-year-olds vote for such new or non-popular parties.

First of all, it is important to understand that CDU and CSU are separate but closely aligned political parties that function as a single political force at the national level. The CDU operates in all of Germany except Bavaria while the CSU operates exclusively in Bavaria and both parties form a joint parliamentary group in the federal parliament (also referred to as the Union). Friedrich Merz is the leader of the CDU and, prior to the election, has been chosen as the Union’s candidate for the 2025 federal election over the leader of the CSU and the Bavarian Minister-President, Markus Söder, who is also a highly prominent figure in German politics.

Known for his pro-business stance, Merz has previously been a partner of a global law firm and worked in finance before returning to politics. Unlike his predecessor Angela Merkel, who took the CDU towards the center, Merz represents a return to traditional conservative values – favoring lower taxes, deregulation, and a tougher stance on immigration. The latter also in a bid to counter pressure from the AfD.

Even before being elected as chancellor with a functioning coalition, Merz has proposed a €500 billion economic stimulus plan, focusing on defense, infrastructure, and tax cuts. While he acknowledges the need for climate policies, he has criticized that recent measures are too costly and risk deindustrializing Germany. However, aware of the need for a two-thirds majority, Merz has significantly conceded towards the Greens in relation to climate action to secure votes for his aforementioned economic stimulus plan.

Merz is likely to push for greater European military cooperation, possibly reducing reliance on the U.S. for security. Notably, Merz has already announced to reach out to France and the UK over sharing of nuclear weapons.

Thus, there are promising signs that his hands-on business approach will steer Germany towards much needed robust economic reforms and a more assertive foreign policy.

The so called “Grand Coalition” between CDU/CSU and SPD combines center-right economic policies with center-left social policies and thus generally covers a broad spectrum of voter concerns. Especially in light of the many crises, a broad coalition should provide relative political stability with the Union’s pro-business approach moderated by SPD’s emphasis on social justice that may also aim to reduce regional disparities. However, Grand Coalitions also typically mean significant compromises and subsequent loss of voter confidence. This is all nothing new for Germany and therefore I would not consider it as a new direction per se.

However, the many challenges already talked about might necessitate new ways and bold actions. As such, I believe that out of all German parties the Grand Coalition is best placed to stand up to such challenge. Both CDU/CSU and SPD are highly experienced in running the government. If there is a lesson to be learned from the “traffic light coalition”, it should be that lack of experience in running the government by both Greens and FDP combined with a lack of leadership skills in Olaf Scholz spelled disaster.

CDU/CSU and SPD are acutely aware of the political shift and that the writing is on the wall. This time it cannot be about both traditionally dominant parties being up against each other; rather, they may both risk collapse if this coalition does not deliver. Germany has only once seen an absolute majority for a single party with Konrad Adenauer in 1957 – with such option being far off the table these days, I do believe that the Grand Coalition is the best option to steer Germany through turbulent waters.

While Germany and France form the core of the EU, recent tensions have strained relations. Thus, Merz’s approach will be pivotal in navigating Europe’s challenges and maintaining unity amid diverse political landscapes, but it also depends on the developments in France as cooperation is always a two-way street.

Merz’s pro-European stance generally suggests he may advocate for deeper EU integration and collaborative defense strategies. Strengthening ties with France, especially in defense and economic policies should be a priority and could reinforce the EU’s global standing. Especially with the United States showing less interest in European security, all European governments are well advised to support joint European defense projects. As mentioned before, Merz has already reached out to France and the UK over sharing of nuclear weapons.

It should also be expected that Merz will push for greater investment in EU-wide infrastructure and industry to keep Europe competitive against China and the United States. However, Merz’s more nationalist and business-first stance could put him at odds with France’s more interventionist economic policies, requiring careful diplomacy.


As Germany attempts to form a stable government amidst economic and social turmoil, the repercussions reach far beyond its national borders. Friedrich Merz’s leadership in the CDU-SPD coalition brings the potential for profound change, not just within Germany but across Europe. How Germany addresses its pressing issues will significantly influence the European Union’s stability and unity. Key questions arising from this situation include: Will the Grand Coalition be able to provide consistent and effective governance to mitigate current crises and set a course for future prosperity? How will Germany’s policies on immigration, social welfare, and economic stimulation impact broader EU strategies? Can Germany’s focus on cooperation and integration within the EU counteract rising nationalist sentiments and external geopolitical pressures?


Versão em Português

(traduzido com a ajuda do chatGPT)

Este extenso artigo no ‘Mesa de Amigos’ oferece uma análise aprofundada da situação atual na Alemanha, destacando a sua importância para o futuro da Europa. Tenho a honra de apresentar as perspetivas do meu estimado amigo Philipp Kynast, um advogado alemão, que respondeu gentilmente a questões fundamentais para nos ajudar a entender melhor a trajetória do seu país e o seu impacto no nosso continente. Espero sinceramente que encontre este artigo tão esclarecedor e envolvente quanto foi para mim prepará-lo, para todos aqueles interessados em obter uma compreensão mais profunda do ‘Motor Económico da Europa.’


Após o colapso da coligação incumbente da Alemanha, composta pelos partidos ‘semáforo’ Social-Democratas (SPD), Democratas Livres (FDP) e o partido ambientalista Os Verdes no final de 2024 e as eleições antecipadas em fevereiro de 2025, as discussões formais para a formação do próximo governo alemão estão bem encaminhadas, com Friedrich Merz, líder da União Democrata Cristã (CDU) de centro-direita conservadora, prestes a tornar-se o próximo chanceler num momento particularmente crítico para a Alemanha, caracterizado por desafios económicos e questões sociais significativas, como o desemprego e o aumento do nacionalismo, que desafiam a estrutura democrática da República. Com o recuo dos Estados Unidos, o conflito contínuo na Ucrânia e as nações pró-Putin no Conselho Europeu, surge a questão: poderá a democracia ainda ser salvaguardada?

Uma Alemanha estável e forte é crucial para a Europa. Examinemos a situação de perto.

A Alemanha, com mais de 83 milhões de habitantes, é o gigante demográfico da União Europeia, ultrapassando a França e a Itália e possuindo uma população oito vezes superior à de Portugal. No entanto, enfrenta um problema significativo de envelhecimento. Dentro de 15 anos, um terço da população da Alemanha terá mais de 65 anos, um facto que tem sérias implicações para o mercado de trabalho e o setor de cuidados.

A Alemanha é um gigante económico global com um PIB de 4,3 trilhões de euros, representando um quarto da riqueza produzida na União Europeia. Para comparação, isto é 16 vezes o PIB de Portugal, com um PIB per capita de cerca de 50.000 euros—o dobro do de Portugal.

O principal motor do crescimento económico alemão é a sua indústria, que mantém um saldo comercial positivo através das exportações. No ano passado, a Alemanha exportou bens no valor de 1,6 trilhões de euros e importou bens no valor de 1,3 trilhões de euros. O mercado interno da UE é crucial, representando 65% das importações e 55% das exportações.

O salário mínimo legal na Alemanha está atualmente fixado em 12,82€/h, resultando num salário bruto mensal de 2.222€ com base numa semana de 40 horas, quase três vezes o de Portugal. Em janeiro deste ano, a taxa de desemprego foi de 6,4%, uma das mais altas em quase uma década.

Atualmente, cerca de um terço da população da Alemanha – cerca de 25 milhões de pessoas – tem antecedentes migratórios. Em 2023, houve 200.000 naturalizações e um recorde de 350.000 pedidos de asilo. As principais origens dos imigrantes na Alemanha incluem a Turquia, Ucrânia, Polónia, Síria e Roménia.

A comunidade portuguesa na Alemanha é composta por cerca de 140.000 pessoas. A imigração é agora um tópico central e controverso, destacado durante a campanha eleitoral.

Percebida por muitos como uma questão descontrolada, a imigração levou partidos como a CDU a prometer controlos de fronteira mais rigorosos, restrições à reunificação familiar e aumento do policiamento. A extrema-direita defende a expulsão de refugiados ilegais e penas mais severas para os imigrantes, juntamente com medidas de aumento do policiamento. Por outro lado, o SPD, sob Olaf Scholz, promove uma melhor integração dos imigrantes juntamente com um policiamento comunitário melhorado.

À medida que os esforços para formar um governo continuam, os desafios são consideráveis. A Alemanha enfrentou estagnação económica durante vários anos e inflação persistente, contribuindo para a incerteza política ainda mais agravada por uma crise na indústria automóvel, que perdeu participação de mercado para os Estados Unidos e a China.

Os economistas preveem que as políticas protecionistas de Trump poderiam reduzir o PIB da Alemanha entre 0,6% e 1,2%. A cessação dos fornecimentos de gás russo e os encerramentos de centrais nucleares terminaram efetivamente a dependência da Alemanha de energia barata. Este cenário levou, em última instância, ao colapso do governo de Scholz e à dissolução da coligação “semáforo”.

Com a maior taxa de participação eleitoral desde a reunificação em 1990, os eleitores alemães deslocaram o equilíbrio de poder parlamentar para a direita. A aliança de centro-direita entre a CDU e a União Social Cristã da Baviera (CSU) ganhou 28,5% dos votos. A extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), liderada por Alice Weidel, alcançou um resultado recorde e tornou-se a segunda maior força política com 20,8% dos votos. O SPD, em terceiro lugar, viu uma queda significativa, assegurando 16,4% dos votos. Os Verdes também perderam terreno, enquanto o FDP nem sequer atingiu o limiar de 5% necessário para obter lugares no parlamento. O partido de esquerda radical, Die Linke, ganhou quase 4 pontos percentuais, enquanto o recém-estabelecido partido de esquerda à extrema-esquerda Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) conseguiu um resultado notável na sua primeira eleição, mas falhou por pouco o limiar de 5%.

Distribuição de assentos no novo parlamento é a seguinte:

A CDU/CSU liderada por Merz não possui uma maioria absoluta e deve negociar para obter o apoio de 316 deputados. A AfD não é uma opção viável para qualquer coligação. Uma coligação com o SPD alcançaria 328 deputados e é o cenário mais provável para o novo governo. Com o apoio dos Verdes, assegurariam uma maioria mais robusta de 413 deputados; enquanto esse cenário parece pouco provável para uma coligação governamental, deve-se notar que certas decisões importantes no parlamento exigem uma maioria de dois terços. Sem o SPD, uma maioria não poderia ser alcançada apenas com os Verdes. A questão pertinente é até que ponto uma coligação entre esses partidos pode funcionar efetivamente, considerando as suas propostas vastamente divergentes sobre questões significativas e cruciais, como detalhado abaixo:

As discussões de coligação (Sondierungsgespräche) foram iniciadas a 13 de março de 2025 entre a CDU/CSU e o SPD. Os partidos estabeleceram diretrizes rigorosas para as negociações, incluindo proibição de vazamentos, exigências de pontualidade e restrições nas comunicações públicas, para garantir discussões disciplinadas e eficientes. Até agora, as discussões de coligação parecem estar a decorrer de forma construtiva, com uma conclusão esperada até ao final de abril de 2025.

Friedrich Merz enfatizou a necessidade de estímulo económico substancial e investimentos em defesa, propondo um fundo de infraestrutura de €500 bilhões e defendendo uma revisão do “travão da dívida” (Schuldenbremse) para facilitar o aumento do empréstimo para esses fins. O SPD expressou a sua disposição para colaborar em reformas económicas e gastos em defesa, mas enfatizou a importância de equilibrar a responsabilidade fiscal com as considerações de bem-estar social. Os Verdes – embora não diretamente envolvidos nas discussões de coligação, necessários para aprovar uma revisão do “travão da dívida” – focaram-se em garantir que todos os novos investimentos se alinhem com metas climáticas, defendendo que uma parte dos fundos seja destinada a projetos sustentáveis e a incorporação de considerações ambientais em emendas constitucionais.

A discussão em torno do “travão da dívida” da Alemanha, uma regra constitucional que limita o endividamento do governo, está no centro da discussão, pois é um pré-requisito para permitir os gastos necessários do governo: CDU/CSU e SPD concordaram em buscar um afrouxamento do “travão da dívida” para permitir maiores gastos em defesa e propor a criação de um fundo de infraestrutura de €500 bilhões destinado a revitalizar a economia e abordar o sub-investimento em infraestrutura. O fundo pretende modernizar a infraestrutura e aumentar as capacidades de defesa, refletindo preocupações sobre segurança nacional e europeia. Uma parte do fundo, no valor de €100 bilhões, está destinada a gastos relacionados com o clima, abordando as preocupações dos Verdes e alinhando-se com o compromisso da Alemanha com a sustentabilidade ambiental. Para consagrar metas climáticas na lei, estão em curso discussões para emendar a constituição, refletindo um compromisso com o desenvolvimento sustentável. A proposta requer emendas à constituição alemã, primeiramente necessitando de uma maioria de dois terços no parlamento (Bundestag). O parlamento cessante foi solicitado a votar essas medidas a 18 de março de 2025 e deu a sua aprovação com votos de quase todos os membros do parlamento da CDU/CSU, SPD e Verdes (512 versus 206). O Tribunal Constitucional Federal da Alemanha (Bundesverfassungsgericht) rejeitou pedidos emergenciais para impedir o parlamento cessante de emendar a constituição para facilitar este fundo, afirmando a legalidade do plano. Após a aprovação pelo Bundestag, o procedimento avançou para o Bundesrat (ou seja, a câmara alta, que representa os 16 estados federais alemães (Länder)), onde também era necessária uma maioria de dois terços para que se tornasse lei. O Bundesrat aprovou o projeto de lei em 21 de março de 2025 com uma maioria de 53 votos em 69, abrindo assim caminho para um ponto de viragem histórico e inovador na capacidade da Alemanha de investir e crescer em áreas críticas. Economistas preveem que essas medidas poderiam impulsionar significativamente o crescimento do PIB da Alemanha, marcando uma ruptura com o conservadorismo fiscal tradicional do país e visando revitalizar a economia, além de aprimorar as infraestruturas e capacidades de defesa em meio às incertezas globais.

Esta análise conclui com um mapa mostrando o partido líder em cada distrito eleitoral.

Esta divisão proporciona insights e levanta questões para a nossa entrevista.


Philipp Kynast é um advogado alemão que aconselha clientes sobre transações complexas, predominantemente internacionais, e investidores estrangeiros sobre atividades empresariais na Alemanha e na Europa em vários setores. É uma mente curiosa e já viveu, estudou e trabalhou em Düsseldorf, Frankfurt, Barcelona, Madrid, Melbourne e nos EUA, incluindo um estágio no Consulado Geral da Alemanha em Los Angeles. Além disso, é um bom amigo meu com quem tive o privilégio de discutir inúmeros temas. Ele sempre oferece opiniões fortes e bem fundamentadas. Ele ajudará a entender melhor a realidade do seu país e partilhará as suas perspetivas sobre o seu futuro.

É difícil apontar fatores individuais, visto que temos enfrentado várias adversidades económicas e políticas nos últimos anos, com desafios decorrentes tanto de fraquezas estruturais internas como de pressões geopolíticas externas. Dito isto, e tendo em mente que muitos fatores são interdependentes, destacaria os seguintes:

Fatores Económicos
Crescimento Económico Lento & Falta de Inovação: A Alemanha, tradicionalmente conhecida pela sua força económica, tem enfrentado uma desaceleração devido a uma combinação de fatores, incluindo altos custos de energia, uma população envelhecida e comércio global enfraquecido. O setor manufatureiro, outrora em expansão, particularmente as indústrias automóvel e química, tem lutado devido à concorrência global, disrupções nas cadeias de abastecimento, mudanças nas preferências dos consumidores e transições para energias verdes. Deve-se notar que algumas dessas dificuldades são, por assim dizer, caseiras, resultantes de decisões políticas questionáveis, como o encerramento das centrais nucleares alemãs e a proibição prematura de motores de combustão interna. Muitos economistas argumentam que a Alemanha falhou em investir adequadamente em inovação, digitalização e infraestrutura nas últimas décadas, tornando-se vulnerável a choques económicos. Isto não é novidade; de facto, a falta de inovação é frequentemente mencionada, especialmente em relação ao período, de outra forma muito estável, sob Angela Merkel. Contudo, em combinação com outros fatores, esses problemas têm-se agravado recentemente.

Crise Energética & Dependência do Gás Russo: A política energética da Alemanha tem sido alvo de escrutínio, particularmente após a decisão de eliminar completamente a energia nuclear (concluída em 2023). O país tornou-se altamente dependente das importações de gás russo, o que se revelou desastroso após a guerra na Ucrânia e a consequente crise energética. Embora a energia renovável (eólica, solar) tenha se expandido, não conseguiu compensar a perda de energia nuclear e gás russo, levando a preços de eletricidade significativamente mais altos e incerteza económica. Os preços mais altos da energia não afetaram apenas as famílias alemãs (no auge da crise em 2022, levando a apelos ridículos do governo para mudar os chuveiros), mas também afetaram negativamente a Alemanha como um local industrial, especialmente para setores que consomem muita energia, como a IA, levando, por sua vez, a menor competitividade e mais desaceleração económica.

Alta Inflação & Custo de Vida: Como muitos outros países europeus, a Alemanha tem enfrentado alta inflação, corroendo o poder de compra das famílias. O aumento das rendas, dos custos de energia e dos preços dos alimentos tem alimentado o descontentamento, particularmente nos estados alemães orientais, onde os salários tendem a ser mais baixos.

Força de Trabalho Envelhecida & Escassez de Mão-de-obra: A população da Alemanha está a envelhecer rapidamente, levando a uma escassez de mão-de-obra em setores chave, como saúde, construção e TI. Embora a imigração seja geralmente vista como uma solução potencial, tem ao mesmo tempo desencadeado reação política dos movimentos nacionalistas. Há aqui uma questão mais fundamental interessante: pode-se perguntar como pode haver uma escassez dramática de mão-de-obra e desemprego recorde ao mesmo tempo. Muito provavelmente, a resposta encontra-se no generoso sistema de bem-estar social alemão…

Fatores Políticos
Debate sobre Imigração
: A Alemanha tem experienciado níveis elevados de imigração, especialmente desde 2015, quando a então chanceler Angela Merkel permitiu que mais de um milhão de refugiados, principalmente da Síria e do Afeganistão, entrassem no país. Isso levou a uma polarização política significativa: enquanto muitos alemães apoiam a imigração humanitária, outros, particularmente no leste, veem-na como um fardo para os sistemas de bem-estar social e uma ameaça à identidade nacional. A AfD capitalizou essas preocupações, posicionando-se como o único partido que prioriza os “alemães nativos” sobre os migrantes. Embora haja boas razões para acreditar que as políticas de imigração da Alemanha possam ser demasiado fracas e sujeitas a exploração do sistema de bem-estar por alguns grupos de imigrantes, deve-se também reiterar que a Alemanha depende da imigração nos próximos anos (como mencionado anteriormente: escassez de mão-de-obra) e muitas críticas à imigração e apoio à AfD provêm de pessoas que já beneficiam do mesmo sistema de bem-estar.

Confiança Decrescente nos Partidos Tradicionais: SPD, CDU/CSU, FDP e Verdes têm historicamente dominado a política alemã. No entanto, a sua popularidade tem diminuído, com muitos eleitores sentindo que esses partidos falharam em enfrentar as dificuldades económicas, segurança energética e preocupações com a imigração. O resultado tem sido uma ascensão de partidos populistas e de extrema-direita, como a AfD, especialmente nas regiões orientais economicamente mais frágeis.

Política Externa & Tensões Geopolíticas Crescentes: A relação da Alemanha com a Rússia, China e Estados Unidos sofreu uma mudança dramática. A guerra na Ucrânia forçou a Alemanha a rearmar-se e reconsiderar sua postura militar tradicionalmente pacifista. Esta é uma questão controversa, já que a Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial tem sido relutante em envolver-se em conflitos militares. As relações com os Estados Unidos também se tornaram mais complexas, especialmente com a incerteza sobre os compromissos globais dos EUA sob a nova presidência de Trump.

Um ponto que gostaria de destacar após discutir esses tópicos com muitos amigos em todo o mundo: tudo depende da perspetiva. A Alemanha ainda tem um PIB per capita alto e um padrão de vida elevado. E sim, numa perspetiva de outros países pode parecer estranho que os alemães se queixem dessas coisas. Contudo, há uma sensação generalizada de que – embora ainda possa estar num nível elevado – o padrão de vida alemão está em declínio. Além disso, especialmente a geração mais jovem na Alemanha não experienciou sérias dificuldades durante mais de duas décadas, deixando-a despreparada para lidar com crises.

Embora não tenha sido realmente uma surpresa, fiquei chocado ao ver como a divisão eleitoral corre ao longo das antigas fronteiras, expondo uma divisão profunda dentro da sociedade alemã, particularmente entre o antigo Oriente (a comunista República Democrática Alemã, RDA) e Ocidente (a democrática República Federal da Alemanha, RFA). Infelizmente, o voto dividido sugere que a Alemanha está a ter dificuldades em encontrar uma narrativa nacional unificadora, e as desigualdades regionais permanecem um desafio-chave. Dito isto, deve-se também notar cautelosamente que a AfD também está em ascensão no Ocidente, embora atrás.

Para interpretar tal divisão, é justo dizer que as diferenças económicas persistentes entre o antigo Oriente e Ocidente levaram a níveis variados de emprego, rendimento e desenvolvimento de infraestrutura. A Alemanha Ocidental (particularmente estados como Baviera, Renânia do Norte-Vestfália, Baden-Württemberg), por um lado, tem um crescimento económico mais forte, menor desemprego e uma base eleitoral mais ampla da CDU/CSU e SPD. A Alemanha Oriental (por exemplo, Saxônia, Turíngia, Brandemburgo), por outro lado, enfrentou estagnação económica prolongada, desindustrialização e diminuição populacional. Isso é entendido como uma consequência do sentimento de desilusão com o establishment político, levando à dominância da AfD no leste. Diz-se que muitos no Oriente sentem-se deixados para trás na história de sucesso económico da Alemanha nas últimas décadas, e consequentemente a postura rígida da AfD sobre a imigração apelaria àqueles que sentem que os recursos deveriam dar prioridade aos alemães nativos. Observando mais de perto, há várias correlações de voto interessantes:

Este gráfico mostra a correlação entre o status profissional (de cima para baixo: pensionista, desempregado, operário (trabalhador), funcionário, funcionário público, trabalhador por conta própria/empresário) e os partidos votados. Analisando os votos da AfD, mostra de facto que o maior apoio relativo à AfD é encontrado entre os grupos de desempregados e trabalhadores ordinários (operários). Também é curioso notar – mas não mostrado neste gráfico – que de um total de 10 milhões de votos que a AfD recebeu, quase 2 milhões vieram de eleitores que anteriormente não votavam. Parece haver pelo menos uma tendência de que aqueles que menos contribuem para a sociedade são os que mais reclamam.

Finalmente, outra correlação interessante a observar além da divisão Oriente-Ocidente mostra uma divisão sem precedentes e aparentemente contraditória na geração mais jovem de eleitores:

Entre os jovens de 18 a 24 anos, a CDU/CSU e o SPD perderam quase totalmente o seu status de partidos dominantes, com a maioria deste grupo dividido entre partidos de extrema-direita e extrema-esquerda, destacando o seu descontentamento com o sistema político estabelecido há décadas.

Voltando à questão inicial, o problema subjacente parece ser uma frustração profundamente enraizada com o status quo económico e político. Embora ao longo de décadas os alemães tenham visto factualmente apenas dois partidos principais (SPD e CDU/CSU) governar o país, as gerações mais jovens, eleitores frustrados (junto com não-eleitores ativados) parecem estar mais dispostas a considerar constelações completamente diferentes. Isto mostra-se especialmente quando se olha o gráfico de idade/voto que indica votos para “outros partidos”. Enquanto o grupo acima dos 70 anos pode não saber o que isso significa, 8% dos jovens de 18 a 24 anos votam em tais partidos novos ou não populares.

Em primeiro lugar, é importante entender que a CDU e CSU são partidos políticos separados, mas estreitamente alinhados, que funcionam como uma força política única a nível nacional. A CDU atua em toda a Alemanha, exceto na Baviera, enquanto a CSU opera exclusivamente na Baviera e ambos formam um grupo parlamentar conjunto no parlamento federal (também referido como a União). Friedrich Merz é o líder da CDU e, antes da eleição, foi escolhido como o candidato da União para as eleições federais de 2025, superando o líder da CSU e Ministro-Presidente da Baviera, Markus Söder, que também é uma figura altamente proeminente na política alemã.

Conhecido pela sua postura pró-negócios, Merz foi anteriormente sócio de um escritório de advocacia global e trabalhou em finanças antes de retornar à política. Ao contrário da sua predecessora Angela Merkel, que levou a CDU ao centro, Merz representa um retorno aos valores conservadores tradicionais – favorecendo a redução de impostos, a desregulação e uma postura mais rígida sobre a imigração. Este último também numa tentativa de contrapor à pressão da AfD.

Mesmo antes de ser eleito como chanceler com uma coligação funcional, Merz propôs um plano de estímulo económico de €500 bilhões, focando-se em defesa, infraestrutura e redução de impostos. Embora reconheça a necessidade de políticas climáticas, criticou que as medidas recentes são demasiado custosas e arriscam desindustrializar a Alemanha. Contudo, consciente da necessidade de uma maioria de dois terços, Merz fez concessões significativas aos Verdes em relação à ação climática para garantir votos para o seu plano de estímulo económico mencionado.

Merz provavelmente impulsionará uma maior cooperação militar europeia, possivelmente reduzindo a dependência dos EUA para segurança. Notavelmente, Merz já anunciou que entrará em contacto com França e Reino Unido sobre a partilha de armas nucleares.

Assim, há sinais promissores de que a sua abordagem prática aos negócios irá orientar a Alemanha para as muito necessárias reformas económicas robustas e uma política externa mais assertiva.

A chamada “Grande Coligação” entre a CDU/CSU e o SPD combina políticas económicas de centro-direita com políticas sociais de centro-esquerda e, assim, cobre geralmente um amplo espectro de preocupações dos eleitores. Especialmente à luz das muitas crises, uma ampla coligação deverá proporcionar estabilidade política relativa, com a abordagem pró-negócios da União moderada pela ênfase do SPD na justiça social, que também poderá visar a redução das disparidades regionais. No entanto, as Grandes Coligações também tipicamente significam compromissos significativos e subsequente perda de confiança dos eleitores. Nada disso é novo para a Alemanha e, portanto, eu não consideraria isso uma nova direção per se.

No entanto, os muitos desafios já mencionados podem exigir novos caminhos e ações ousadas. Desta forma, acredito que, dentre todos os partidos alemães, a Grande Coligação está melhor posicionada para enfrentar tais desafios. Tanto a CDU/CSU quanto o SPD têm muita experiência na governação. Se há uma lição a ser aprendida com a “coligação semáforo”, é que a falta de experiência na governação tanto dos Verdes quanto do FDP, combinada com a falta de habilidades de liderança de Olaf Scholz, foi um desastre.

A CDU/CSU e o SPD estão acutamente cientes da mudança política e que a escrita está na parede. Desta vez, não pode ser sobre ambos os partidos tradicionalmente dominantes enfrentando-se um contra o outro; ao invés disso, ambos podem arriscar-se a desmoronar-se se esta coligação não funcionar. A Alemanha só viu uma vez uma maioria absoluta para um partido único com Konrad Adenauer em 1957 – com tal opção estando longe de ser possível hoje em dia, acredito que a Grande Coligação é a melhor opção para orientar a Alemanha através de águas turbulentas.

Embora a Alemanha e a França formem o núcleo da UE, tensões recentes têm pressionado as relações. Portanto, a abordagem de Merz será crucial para navegar pelos desafios da Europa e manter a unidade em meio a paisagens políticas diversas, mas também depende dos desenvolvimentos na França, já que a cooperação é sempre uma via de mão dupla.

A postura pró-europeia de Merz sugere geralmente que poderá defender uma integração mais profunda na UE e estratégias de defesa colaborativas. Fortalecer os laços com a França, especialmente em políticas de defesa e económicas, deve ser uma prioridade e poderia reforçar a posição global da UE. Especialmente com os EUA a mostrar menos interesse na segurança europeia, todos os governos europeus devem apoiar projetos de defesa europeia conjunta. Como mencionado anteriormente, Merz já contactou a França e o Reino Unido sobre a partilha de armas nucleares.

Deve-se também esperar que Merz promova maior investimento em infraestrutura e indústria europeia para manter a Europa competitiva contra a China e os EUA. No entanto, a postura mais nacionalista e pró-negócios de Merz pode colocá-lo em conflito com as políticas económicas mais intervencionistas da França, exigindo uma diplomacia cuidadosa.


Enquanto a Alemanha tenta formar um governo estável em meio a turbulências económicas e sociais, as repercussões vão muito além das suas fronteiras nacionais. A liderança de Friedrich Merz na coligação CDU-SPD traz o potencial para mudanças profundas, não apenas na Alemanha, mas em toda a Europa. A forma como a Alemanha enfrenta os seus problemas urgentes influenciará significativamente a estabilidade e a unidade da União Europeia. Questões-chave que surgem desta situação incluem: Será que a Grande Coligação conseguirá proporcionar uma governação consistente e eficaz para mitigar as crises atuais e definir um rumo para a prosperidade futura? Como as políticas da Alemanha sobre imigração, bem-estar social e estímulo económico impactarão estratégias mais amplas da UE? O foco da Alemanha na cooperação e integração na UE será capaz de contrabalançar o ressurgimento dos sentimentos nacionalistas e as pressões geopolíticas externas?

Escrito a 23 de março de 2025 por Sérgio Brandão