EUA: Uma mudança de Regime, um novo Mundo

Há uma mudança de regime em marcha e um novo e incerto mundo pela frente. Foi o que os eleitores escolheram. O povo é soberano, mas até quando?

Passado pouco mais de um mês após a tomada de posse de Donald Trump, vemos uma mudança acelerada e dramática daquilo que conhecemos dos Estados Unidos da América. A nível interno assistimos à erradicação e profunda alteração daquilo que é o federal civil service, ou seja, a função pública, e a nível externo vemos uma guinada muito forte naquilo que é o histórico posicionamento dos EUA em matéria de política externa.

Podemos estar a assistir a uma mudança de regime, onde Donald Trump une esforços “dentro de casa”, com Elon Musk, para mudar valores, cultura e o âmbito das instituições federais, e “fora de casa”, com os seus cães de fila Mark Rubio e J. D. Vance, com a redefinição do valor das alianças que foram forjadas após a Segunda Guerra Mundial, causando incerteza e preocupação entre os velhos aliados dos Americanos.

Estas duas narrativas convergem num foco de transformar a atual ordem mundial para criar uma nova realidade tanto dentro, como fora dos Estados Unidos.


A reconstrução do Serviço Público Americano

Apesar do seu nome, o Department of Government Efficiency (DOGE), encabeçado por Musk, aparenta estar menos preocupado com a eficiência e mais focado em aniquilar e destruir os valores e costumes dos serviços públicos federais. Agora com o apoio de Russel Vought, o recém nomeado diretor do Gabinete de Gestão e Orçamento e arquitecto do projeto de mudança de regime, Project 2025, Donald Trump tem em marcha a sua propaganda para transformar a Função Pública.

Durante a campanha de 2024, Trump referiu-se ao Dia da Eleição como o “Dia da Libertação” dos “vermes” e “lunáticos radicais de esquerda”, sugerindo, desde logo, a sua intenção numa renovação completa das instituições americanas. Apoiado por figuras como o seu vice-presidente, J.D. Vance, que sugeriu despedir burocratas e substituí-los por aquilo a que ele chama como “os nossos aliados”, destacou o objetivo mais amplo de desconstruir o estado administrativo. Estas ideias, embora agressivas, não são novas. Outros líderes como Hugo Chávez e Viktor Orbán usaram táticas semelhantes, visando consolidar melhor o seu poder ao eliminar normas civis estabelecidas e todos aqueles que iam contra a sua narrativa, ou seja, possíveis ameaças.

Ainda há poucos dias, Musk enviou um e-mail oferecendo um “buyout” (vários meses de salário em troca de demissão) à grande maioria dos funcionários federais, destacando que eles eram 100% descartáveis. Simultaneamente, Musk atacou a USAID, forçando os seus funcionários a abandonar projetos vitais, resultando num possível risco para a sobrevivência de milhares de vidas em todo o Mundo. A administração Trump não reconheceu o impacto real destas ações, optando por desinformar sobre o papel mundial da USAID, dizendo que deu milhões de donativos ao Político, que financiou visitas de celebridades à Ucrânia, que enviou 50 milhões de dólares de preservativos para Gaza e ainda que pagou 84 milhões de dólares a Chelsea Clinton. Tudo mentira. Este caso deixou em alerta todos os funcionários públicos, que agora sabem que podem ser os próximos a sofrer cortes abruptos e campanhas vis de difamação. Agências como o Consumer Financial Protection Bureau e a Environmental Protection Agency já foram afetadas, com outras potencialmente seguindo o mesmo caminho, especialmente aquelas envolvidas em iniciativas mais progressistas ou apelidadas como de cultura “woke”.

A degradação da identidade e responsabilidades do serviço público, que tinha muito enraizado o respeito pelo estado de direito e a manutenção da neutralidade política, ameaça transformar a administração federal num sistema de compadrio, mais preocupado com a lealdade cega ao movimento Make America Great Again e a pureza ideológica do atual Partido Republicano, do que com a competência e imparcialidade. Esta mudança radical é um prenúncio perigoso daquilo que é o processo de transformação em marcha das instituições democráticas americanas que garantem o sistema de freios e contrapesos do regime.


O Desmantelamento da Ordem Mundial do Pós-Guerra

As ramificações destas mudanças domésticas vão depois além fronteiras, influenciando drasticamente a nova forma dos EUA interagirem com os seus tradicionais aliados e moldando as novas e imprevisíveis realidades geopolíticas. Por mais de oito décadas, as alianças da América têm sustentado a sua inegável influência global, tanto a nível político, como ao nível da segurança e do seu modelo económico. No entanto, as políticas da recente administração Trump ameaçam desmantelar todos esses vínculos históricos, o que tem deixado o mundo ocidental inseguro e desconfiado da realidade que aí vem.

Indo aos arquivos das posições públicas de Donald Trump descobrimos que estes sentimentos “anti-aliados” fazem parte da retórica do atual Presidente há muito, muito tempo. Já em 1987, ele criticava os custos das alianças dos EUA com o Japão e outras nações, o que prova que ele está a cumprir aquilo que sempre defendeu. Embora, durante o seu primeiro mandato, estes esforços para destruir estas relações tivessem sido um pouco mais restringidos pela administração de então, nesta sua nova, mais firme e apoiada versão, Trump não vê limites, nem travões para o corte de laços e de cooperação com os velhos parceiros.

Exemplo disto é o recente discurso de Vance numa conferência de segurança multinacional em Munique, onde deliberadamente ignorou as ameaças reais à segurança Europeia provenientes da Rússia e assumiu que o verdadeiro inimigo da União Europeia era interno, partilhando uma série de histórias enganadoras que visavam demonstrar que as democracias europeias eram na realidade anti-democráticas e castradoras da liberdade de expressão. A mensagem foi clara: a ameaça da segurança da Europa é um problema dos europeus, os EUA estão fora disso agora.

Para além disto, poucos dias antes desta conferência em Munique, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, foi a Kiev e apresentou a Zelensky um documento que requeria que a Ucrânia cedesse 50% de todo o valor económico associado aos seus recursos, incluindo minerais, petróleo, gás, portos e outras infraestruturas, com cláusula de preferência para os EUA de futuras licenças de exportação de minerais. Tudo isto funcionaria como forma de contrapartida ao contributo que os americanos deram aos ucranianos em matéria de defesa. Apesar dos europeus terem contribuído mais para o esforço de guerra do país, estes seriam totalmente excluídos deste acordo.

A crueldade do documento é impressionante, e como se não chegasse, Trump ainda disparou uma série de mentiras: não, não foi a Ucrânia que iniciou a guerra; não, os EUA não gastaram 350 mil milhões de dólares neste país; não, Zelensky não tem 4% de popularidade, mas sim mais de 50% (superior inclusive que à de Donald Trump); não, Zelensky não é um ditador, simplesmente está vigente a lei marcial até um cessar fogo.

O 47º presidente dos EUA tem demonstrado um fascínio e um alinhamento superior com líderes autocráticos e é difícil perceber que benefícios terão os americanos em seguirem uma linha de política externa que poderá beneficiar mais países como a Rússia, China, Bielorussia, Coreia do Norte, etc.


Que Futuro?

Tanto as políticas domésticas como as externas da atual administração dos EUA apresentam uma clara e alarmante quebra das normas existentes até então. Internamente, o desmantelamento da cultura dos serviços públicos e a introdução de um sistema de compadrio ameaçam as próprias bases de uma boa e imparcial administração federal americana. Internacionalmente, a erosão das alianças construídas ao longo de décadas arriscam isolar os EUA e a encorajar um ataque ao Mundo Ocidental e das democracias liberais tal como as conhecemos.

O regozijo e satisfação dos partidos europeus de extrema-direita populista face à versão Trump 2.0 e as suas políticas são uma anedota. O declínio da União Europeia é um dos objetivos desta nova ordem mundial de influência autocrática. Separarmo-nos, desalinharmo-nos, desentendermo-nos será motivo de chacota e levará muita gente a esfregar as mãos de contente. Querer criar novos “DOGE’s” e aplicar políticas “Make Europe Great Again” são um caminho para o fim gradual dos Estados Europeus como os conhecemos. É isto que os idiotas úteis querem se chegarem ao leme dos destinos do velho continente. No entanto, os moderados que ainda estão à frente dos destinos dos europeus devem abster-se de estados de alma e reações emocionais exacerbadas e começar a planificar uma nova Europa. Pede-se frieza e rapidez na decisão do nosso futuro.


As democracias não acabam depois de uma eleição. Elas acabam com a constante e gradual degradação das instituições que as rodeiam. Acabam com a alteração do padrão de valores e cultura vigente. Acabam quando os moderados se abstêm de actuar sobre um interesse superior ao dos partidos que representam.

Uma coisa parece clara, os EUA parecem estar com uma mudança de regime em marcha, levando-nos a assistir a um novo e incerto mundo. Foi o que os eleitores escolheram. O povo é soberano, mas até quando?

Escrito a 23 de fevereiro de 2025 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Elon Musk Commits $70 Million to Boost Donald Trump

Será Trump uma ameaça para a Europa?

Desde 2016 que o atual candidato republicano à Casa Branca demonstra as suas controversas ideologias, colocando-nos a pensar: deve a Europa temer um regresso da administração de Donald Trump?

“America first” significa “Europa por sua conta”?

Desde a primeira vez que foi eleito, em 2016, Donald Trump grita a todos os ventos “America first”, tornando as suas crenças bem visíveis.

O ex-presidente americano defende expulsar imigrantes, fomentar a indústria petrolífera, aumentar as taxas de importações, mas, mais grave ainda, fomenta o discurso anti-NATO com as suas polémicas declarações. No entanto, que peso trariam estas premissas ao continente Europeu? 

A Europa, como continente de estados soberanos e, maioritariamente moderados, não se representa na grande parte das declarações tecidas por Donald Trump, e a prova disso mesmo são as declarações do Primeiro-Ministro Belga feitas no início deste ano no Parlamento Europeu, onde afirmou que se a “América primeiro” voltar “outra vez”, será mais a “Europa por sua conta”.

Contudo, De Croo afirma também que, caso a eleição do republicano suceda, a Europa ficaria com uma “base mais forte” podendo “abraçar outras oportunidades”, dando assim ao continente ainda mais espaço para se afirmar como grande potência. 

A imigração

Donald Trump defende fechar as fronteiras, facilitar deportações, condenar à pena de morte qualquer estrangeiro que mate um americano civil ou força da autoridade e, para além disso, prega a todos os ventos que os imigrantes “comem os animais de estimação dos cidadãos americanos”, algo que já veio a público ser desmentido pelas autoridades. 

Trump, ao fazer este tipo de declarações, está a rotular comunidades, a agredi-las e menosprezá-las enquanto as mesmas trabalham diariamente para colocar sustento em casa e desenvolver a economia do país.

Este tipo de discurso é antitético ao europeu que, por outro lado, de um modo geral, afirma o valor dos imigrantes, considerando que são essenciais ao desenvolvimento das economias do continente, valorizando as suas raízes culturais e, em alguns casos, dando-lhes proteção e asilo. 

Segundo Ronald Reagan, republicano, por graça, nas suas declarações feitas em 1989, disse que os imigrantes “são homens e mulheres corajosos que deixam as suas casas e que vão para um país novo para procurar uma vida melhor e que contribuem mais do que recebem”, provando a priori que as ideias são as pessoas que as fazem. 

“Drill, baby, drill…”

No seu mandato Trump decidiu abandonar o Acordo de Paris, fazendo com que os EUA se tornassem mais uma vez uma nação sem rumo face às alterações climáticas, criando um fosso no caminho para a neutralidade carbónica.

É objetivo de grande parte dos países europeus atingir a neutralidade carbónica até 2050 e, por isso, a grande maioria tem apostado, por exemplo, no setor da energia elétrica, onde está bastante vincada a transição energética, optando cada vez mais por fontes sustentáveis e renováveis, contribuindo assim para as metas climáticas europeias.

No mesmo ponto, Trump, devido ao aumento exponencial dos preços da energia nos EUA, defende o regresso à exploração em massa do petróleo no Alasca, indo contra os objetivos mundiais de utilização sustentável de recursos, reavivando a teoria republicana “drill, baby, drill…” citada pela primeira vez em 2008 pelo, à data, vice-governador do Maryland, Michael Steele.

Esta ideia de uma economia assente na exploração de petróleo para qualquer fim, neste caso, alegadamente para a produção de eletricidade, é antitética às políticas anti-imigração, isto porque uma economia assente em produtos de alto valor acrescentado, tende a necessitar de uma mão de obra mais barata, sendo normalmente proveniente da imigração.

 O futuro da Aliança Atlântica 

Trump, com toda a sua convicção que já nos é habitual afirmou, encorajando a Rússia, “a fazer o que raio quiser” com os aliados da NATO que não cumprissem as diretrizes de gastos de 2% do PIB previstos para a defesa. Como seria de calcular, estas declarações preocuparam a comunidade europeia, levando o responsável pela política externa e de defesa da União Europeia, Josep Borrell, a dizer que “a NATO não pode ser uma aliança militar ‘à la carte’”. 

Estas afirmações apenas comprovam que, para o republicano, o seu sentido de Estado está constantemente dependente de falácias e pensamentos irrisórios acerca do mundo que o rodeia, podendo, como vemos, prejudicar, hipoteticamente, a segurança e soberania de outros estados, principalmente os europeus, onde a defesa da Ucrânia, por exemplo, é uma questão intrínseca, tal como citou no seu discurso o Primeiro-Ministro Belga:

Para os Estados Unidos e para outros aliados, o apoio à Ucrânia é uma questão estratégica, é uma consideração geopolítica. Para nós, europeus, o apoio à Ucrânia é existencial.

– Alexandre De Croo, Primeiro-Ministro Belga.

Esta possível descredibilização das forças da NATO, podiam provocar uma afirmação dos BRICS como potência militar, sendo que representam cerca de 45% da população mundial e as suas economias têm vindo a registar crescimentos económicos significativos e um aumento das suas forças militares.

Economia

Donald Trump segue a ferro e fogo pregando políticas protecionistas evidenciando uma economia de mercado bastante vincada (como à boa moda americana), taxas adicionais de 10% a todos os produtos importados e um valor ainda mais elevado sobre os produtos chineses.

Trump incita ainda a que a população americana invista em criptomoedas, mercado este que é instável e que pode conduzir a más decisões financeiras, levando as pessoas a perder, hipoteticamente, milhares de dólares investidos.  

A Europa, continente de livre circulação de bens e pessoas, através do espaço Schengen, condena categoricamente estas propostas do ex-presidente americano, isto pois, de um modo generalizado, iriam afetar a economia europeia e também americana, visto que um dos principais importadores de certos setores da sua indústria é os EUA. 

Ainda sobre o petróleo, mercado este manchado, literalmente, ao longo dos anos por crises e grandes catástrofes ambientais, não deveria em pleno século XXI continuar a ser fonte de rendimento de qualquer economia, apenas salvas as exceções de transição, isto por considerar ser um mercado lucrador, sim, mas que, como pudemos ver, pode acabar com a sobrevivência das espécies e do planeta em pouco mais de um século. 

“Imagine a world…”

Concluindo, e tendo em conta que, no total, estas medidas custariam, por ano, 500 mil milhões de dólares aos americanos, considero que Trump é sim uma ameaça para o continente europeu e para a sua própria nação, pois, como está exposto ao longo deste artigo, as suas políticas preocupam não só a comunidade europeia como também a comunidade internacional, tudo por alguns “trocos” para seu favor próprio e nunca para o desenvolvimento da nação e da paz comum. 

Falando em paz, é imperativo não esquecer a inspiração de Trump em líderes autoritários, como Viktor Orbán e Giorgia Meloni, o que descredibiliza, e muito, a figura dos Estados Unidos como “pai” das democracias liberais. 

É importante combater estes movimentos políticos, como o de Trump, para prevenir que sirvam de “escola” para as gerações vindouras, evitando assim uma Europa fragmentada e um mundo destruído por crenças hediondas.

Escrito a 31 de outubro de 2024 por Francisco de Melo Ambrósio.

Alguns vídeos informativos como complemento aos temas abordados:

Imigração

“Drill, baby, drill”

Entre a Decadência e a Psicopatia: o retrato de um país

“Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo?”

No passado dia 27 de junho ocorreu um debate entre Biden e Trump. Foi um primeiro teste em que se esperaria que o Partido Democrata, cavalgando a onda de deterioração da imagem do antigo presidente Republicano devido aos recentes casos judiciais, pudesse catapultar Biden para uma posição de vantagem a menos de 6 meses da eleição da democracia mais influente do Mundo.

Debate Completo: Primeiro frente-a-frente de Biden e Trump para a Casa Branca | WSJ

Sou fascinado por eleições. Adoro todo o processo da escolha dos candidatos por parte dos partidos, a apresentação de propostas, o jogo político, os debates, as campanhas, as análises feitas, a cobertura mediática. E felizmente 2024 tem sido meu amigo. Para além de todas aquelas que estão diretamente ligadas ao nosso país, tivemos já Taiwan, Índia, União Europeia, Reino Unido (terminou há dias), França a decorrer neste momento, e claro está, as eleições nos Estados Unidos da América. Tivesse eu mais tempo para ler, ouvir e estudar mais sobre cada uma delas…

Há um misto de emoções que decorrem em todos os processos eleitorais, mas aquela que me dá maior alento e motivação para acompanhar tudo isto é sem dúvida a esperança. Ainda que, em teoria, as eleições que mais me interessariam fossem as do meu país, ao vivermos num mundo globalizado e cada vez mais interligado, as eleições (quando feitas em países que vivem em democracias plenas) trazem-me sempre a esperança no reforço da democracia e de um mundo melhor e mais próspero para todos.

No entanto, é impossível ver o que se passa nos Estados Unidos e ficar entusiasmado. Os Americanos têm de ir às urnas escolher entre alguém com um claro declínio cognitivo e um psicopata descontrolado.

É lamentável que se tenha escondido dos americanos (e do Mundo) a clara deterioração das capacidades do Presidente dos Estados Unidos e, chegados aqui, o Partido Democrata vê-se em claras dificuldades para enfrentar e ganhar a um lunático que nunca escondeu ao que ia. Trump não apareceu de surpresa nestas eleições, toda a gente sabia e ninguém se acautelou. Culpa da Casa Branca, dos Democratas e também de Biden e da sua equipa, claro.

Ainda assim, eu não coloco os dois no mesmo patamar, como é obvio. Aflige-me até ver a quantidade de tinta que correu na descrição e deprecriação do atual estado de um homem como Joe Biden, que tem um currículo invejável na política interna e externa do seu país. Como é possível a sociedade global, como um todo, assumir que o Presidente perdeu o debate? Do outro lado tínhamos alguém que mais uma vez mentiu, mentiu e mentiu como já seria de esperar.

O New York Times identificou 20 declarações falsas de Trump, com outras 21 que considerou serem ou enganosas ou carecendo de contexto ou evidências. Este jornal não apontou declarações falsas proferidas por Biden, mas revelou que 11 se enquadravam no campo do “enganoso” ou “fora de contexto”.

Why Biden must withdraw?” – Artigo do The Economist

Num debate paupérrimo, moderado por jornalistas que fizeram perguntas básicas e que tiveram tudo menos o papel de moderar e desafiar os debatentes a elevar a discussão, permitiu-se a infantilização de temas como economia, imigração, saúde, segurança, entre outros, que tanto interessam aos eleitores e até ao Mundo. A CNN, representada por aqueles dois indivíduos, carregou no “play” e deixou correr um filme de terror visto por mais de 50 milhões de pessoas.

Biden vs Trump: Momentos chave do Debate Presidencial

Que sociedade é esta que permite que o país mais poderoso do Mundo leve a votos dois indivíduos assim? Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo? Que sociedade é esta que permite que dois jornalistas amorfos e acríticos liderem um debate desta importância?

É angustiante assistir a tudo isto no tantas vezes chamado “Farol das Democracias Liberais”. Será mesmo a esperança a última a morrer?

Escrito a 6 de julho de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Biden-Trump election rematch?