Problemas Estruturais, Conjuntura, Incompetência e Mérito

“Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.”

Já passaram mais de duas semanas desde o desfecho das legislativas. É mais do que tempo suficiente para uma reflexão que gostaria de partilhar.

Não querendo demonstrar uma arrogância desmedida ao fazer uma listagem de todas as culpas existentes para eleição de 60 mandatos do Chega, destaco, porém, quatro sub-análises, não indissociáveis, que espelham a realidade que enfrentamos e uma conclusão sobre possíveis aprendizagens e próximos passos do Governo e Parlamento.

Questões Estruturais

Salários baixos, falência do elevador social, crise na habitação, falta de coesão territorial e diminuição da reputação das instituições e do Estado, são problemas conhecidos e que servem de combustível para o descontamento e ressentimento da população para com aqueles que lideraram o país nos últimos anos: PS e PSD. Acresce a isto a promessa, muitas vezes falhada, de que com estudo e trabalho qualquer pessoa, independentemente do seu contexto, atingiria sucesso e prosperidade.

A Conjuntura

Uma esquerda que se dedicou e, sobretudo, foi mais vocal nas questões identitárias e de género, deixando como segunda prioridade a luta de classes e a desigualdade social; um fosso maior entre o povo e as elites; a desintermediação da partilha de informação nas redes sociais; a crise do jornalismo e o crescente cepticismo sobre a sua real imparcialidade, e o aumento dos movimentos de partidos populistas nacionalistas de direita radical com figuras carismáticas, são algumas das questões conjunturais dos quais é impossível fugir em qualquer análise do ambiente político atual.

Quando baixamos a nossa análise ao nível nacional temos de acrescentar que 22 dos últimos 30 anos foram governados pelo Partido Socialista. Ora, assim fica difícil para um eleitor, quando tem de tomar a decisão de atribuir culpas sobre o estado da Nação não apontar o dedo ao PS quando para muitos foi praticamente o único rosto visível da governação do país, reforçando a minha ideia de que fosse Pedro Nuno Santos, fosse outro qualquer, o desfecho seria pouco diferente.

A Incompetência

Seja por arrogância, seja por incapacidade, os partidos políticos, sobretudo da esquerda, foram, aparentemente incapazes de fazer uma análise do que aí vinha. Refugiados na sua “Torre de Marfim”, faltou a consciência do nível de insatisfação, irritação e frustração que o país vive. Juntando os problemas estruturais, com os conjunturais, mais a enorme incapacidade de os políticos, ditos tradicionais, fugirem das suas inúteis e por vezes infantis “tricas políticas”, levaram a este desfecho incontornável.

Pedro Nuno Santos foi parece que foi totalmente incapaz de antever tudo isto que descrevi atrás, preferindo “cascar na direita” e tentar, a todo o custo, empurrar o PSD para os braços do Chega. Luís Montenegro com o seu “não é não”, desarmou o antigo Secretário-geral do PS, cuja única narrativa que tinha era a de alimentar o medo da captura do país pela extrema-direita onde o PSD seria também cúmplice. Admito também, que em face da situação que descrevi, pouco ou nada interessava ao eleitor qual seria o programa dos Socialistas. A política vive de ciclos e este claramente não é o do centro-esquerda.

Não podemos também esquecer que o Presidente da República, ao assumir a bitola de deitar abaixo o Governo sempre que haja alguma crise, seja com os Primeiros-ministro, seja com o Orçamento, acelerou algo que poderia ter demorado mais de uma década. Estes ciclos políticos curtos e com finais envoltos em polémica, foram o rastilho ideal para o Chega.

O Mérito

Ventura soube aproveitar tudo isto que aqui descrevi. Com uma narrativa pouco diferente das grandes referências da extrema-direita a nível internacional, cavalgou tudo o que tinha ao seu dispor. Foi um oportunista inteligente, trabalhou bem e este é o resultado de todo esse esforço. Se há 6 anos olhavam para ele como uma anedota, agora toda a gente sabe que sobre aquele homem existe a possibilidade da conquista do poder.

Há que também prestar o devido tributo a Luís Montengro. Eu, que escrevi no artigo “A estrelinha de campeão de Luís Montenegro” sobre a enorme chico-espertice do Primeiro-ministro, e não retirando uma única vírgula a isso, tenho de lhe reconhecer o enorme sentido de oportunidade que teve, reforçando assim a posição da AD. Todavia, a sua astúcia e capacidade serão postas à prova nesta legislatura, pois agora o alvo do Chega é o PSD, e creio que ele tem consciência disso.


Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.

Eu, tal como dois terços dos simpatizantes da AD, sou contra uma aliança com o Chega. Não significa que não possam existir conversas em alguns temas, mas para mim, caso haja vontade de reformar o país e de estabelecer pactos em matérias de política externa, defesa, segurança e justiça, o PS é o melhor e mais bem preparado parceiro. Tenho mais dúvidas nas questões económicas e de reforma do Estado, mas esperemos por aquilo que o novo Secretário-geral possa apresentar. Talvez nestes dois últimos temas a IL seja uma boa aliada.

É defendido que eventuais alianças e coligações entre os dois partidos do poder pode favorecer o crescimento do Chega, posicionando-o como única alternativa política. Compreendo a perspectiva, mas convenhamos que nos últimos 10 anos os socialistas e sociais-democratas andaram sempre às “turras” e com enormes dificuldades de consensos e ainda assim o Chega chegou aos 60 mandatos em 2025. Tenho razões para acreditar que possa não ser bem assim, sobretudo se realmente os principais partidos estiverem interessados em resolver os problemas das pessoas.

Para além disso, pode ser polémico, mas e se realmente o país quiser o Chega a liderar o Governo? Se tal se suceder há duas coisas que me parecem importantes: a primeira é que o dano nas instituições seja baixo e que a capacidade de reverter em eleições qualquer rumo autoritário continue a ser possível em caso de incompetência e insatisfação pelo trabalho feito; a segunda é que prefiro que o PSD tenha as suas “mãos limpas” e que não tenha compactuado com políticas populistas insanas, impraticáveis e desrespeitadoras.

Estarei eu a ser anjinho? Veremos…

Escrito a 9 de junho de 2025 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Ventura diz que foi convidado a integrar Governo. Montenegro nega: “É mentira e desespero”

Estado da Nação: um problema estrutural chamado Portugal

Estimulado pela ocasião do Debate do Estado da Nação, partilho uma reflexão sobre o estado do nosso país, cobrindo de forma leve 4 áreas fundamentais: Saúde – SNS, Infraestruturas – Aeroporto, Educação – Professores e a nossa Sociedade.

No passado dia 20 de julho tivemos a oportunidade de assistir ao debate do estado da nação na Assembleia da República, onde os diferentes partidos do hemiciclo pediram respostas a um governo que vai gerindo a sua maioria absoluta de crise em crise, nada abalado pelas dificuldades.

Ouvimos com cada vez maior frequência os elementos do governo a falar de problemas estruturais, sem que nos expliquem qual é o plano para os resolver. Semana após semana, passamos de problema em problema, onde o governo lamenta a situação em que nos encontramos, lamenta o caminho que fizemos, como aqui chegamos, mas não apresenta uma ideia útil de como sair dali.

Ao longo do primeiro trimestre de governação ouvimos falar de inflação, de pobreza, de falhas no SNS, de problemas nas urgências, de falta de médicos, de problemas no aeroporto, de problemas no SEF e mais recentemente dos tradicionais incêndios, que levaram até o nosso Primeiro Ministro e Presidente da República a abdicar de compromissos externos para estarem presentes em caso de urgência nacional.

Estimulado pelo tema, mas não pelo debate, decidi partilhar uma reflexão sobre o estado da nação, cobrindo de forma leve 4 áreas fundamentais: Saúde – SNS, Infraestruturas – Aeroporto, Educação – Professores e a nossa Sociedade.

Saúde – SNS

Vemos o Serviço Nacional de Saúde definhar dia após dia, faltando cada vez mais àqueles que dele precisam: utentes e a profissionais, e está a reduzir a sua existência a um mero serviço nacional de urgência. Um serviço nacional de urgência que também falha, que falha onde não pode, tendo, por exemplo, de pedir às gravidas que tenham o cuidado de escolher um momento adequado para dar à luz, não vá escolher uma noite em que a urgência possa estar encerrada.

Discute-se que é necessário rever a carreira médica, criticam-se os médicos porque preferem valorizar a sua carreira aceitando o trabalho nos privados e discute-se até em alguns cantos se estes devem ou não ficar obrigados a prestar o seu serviço no SNS, durante um período mínimo de tempo. Não se discute o papel dos privados ou como podem contribuir para o serviço público de saúde. Esse foi um assunto encerrado, como prova a decisão da PPP do Hospital de Braga que está atualmente a lesar os utentes e os contribuintes.1

Dado este panorama, não há maior sinal de alerta da falta de rumo, do que ouvir uma ministra da saúde clamar por fé, clamar por uma fé de que as coisas vão melhorar. A falta de médicos e a falta das urgências já se fazem sentir e os portugueses parecem perder a fé na ministra, embora fosse outrora destacada como a ministra mais popular do governo com um saldo de +30 pontos, as últimas sondagens já a colocam em terreno negativo, com um saldo de -5 pontos.2

Infraestruturas – Aeroporto

Não há maior sinal de que um país sofre de dificuldades estruturais, do que discutir durante 50 anos onde deve ou não ser construído um novo aeroporto. Se é verdade que uma decisão estratégica não pode ser tomada de ânimo leve, também é verdade que não pode ser adiada de tal forma, que tenham de ser feitos novos estudos a cada 5 anos, onde o enquadramento externo muda e fica significativamente diferente.3

Discuta-se o TGV, uma terceira travessia sobre o Tejo, uma nova travessia sobre o Douro, a requalificação das vias férreas, um complexo industrial do hidrogénio verde em Sines, a requalificação das instalações da Petrogal em Leça, a construção de novos hospitais, a requalificação das escolas, um plano de licenciamento e construção de habitação nos subúrbios dos grandes centros urbanos para reduzir o custo da habitação, as vias de mobilidade e transporte coletivo para reduzir o número de automóveis nas cidades…

Podemos discutir tudo, até se o ministro deve ou não demitir-se. No entanto aquilo que o país precisa é de uma visão e de um rumo, pois sem isso no meio de tanta discussão não há como definir prioridades.

Educação – Professores

O problema estrutural da educação será tema lá para setembro, quando a falta de professores se fizer sentir e pudermos contar o número de alunos a quem falta pelo menos um professor.4

A educação tem vários problemas: a estrutura demográfica da classe docente, a ausência de um modelo de avaliação profissional eficaz ou a falta de reconhecimento dos professores, que é altamente penalizado pela gestão mediática da relação sindical com o ministério e pelo modelo de contratação/colocação pública que cria uma grande incerteza na gestão da sua vida.

Em breve começará a discussão sobre o número de docentes, da sua banda salarial, dos benefícios que usufruem e das dificuldades que passam.

Ficará por discutir o propósito da educação, se esta tem ou não a qualidade que pretendemos e se cumpre ou não a sua função, que é a de preparar as gerações vindouras para o futuro e contribuir de forma significativa para a redução da desigualdade em Portugal.

A nossa Sociedade

A sociedade é o que talvez limite mais e defina melhor o principal contexto estrutural do nosso país, seja pelas suas ideias, pela forma como se aglutina, se divide ou pelos seus valores, crenças e preconceitos.

Somos uma sociedade europeia que vive “bem”, uma sociedade pacífica e segura, que está altamente concentrada na Grande Lisboa e restante litoral, envelhecida, desigual, com 3.6 milhões de pensionistas,5 740 mil funcionários públicos,6 onde quase 40% destes têm mais de 55 anos,7 de um total de 4.8 milhões de empregados, ainda longe do máximo de 5,1 milhões,8 atingido em 2008 antes da crise e da Troika levarem centenas de milhares de pessoas a emigrar do nosso país.  

A Sociedade que fica é a sociedade que somos. É a sociedade que se perde na espuma dos dias, uma sociedade que faz lembrar um barco de pesca que sai todos os dias, mas não passa da barra e fica encalhado em zona de rebentação.

Vivemos todos os dias como se fosse o último, perdidos a discutir a forma em detrimento do conteúdo, discussões ideológicas, de minorias ou de apropriações culturais, ou então discussões inúteis gastando energia em temas banais como o futebol.

Fazemos da turbulência e da rebentação das ondas um habitual barulho de fundo. Sabemos que está complicado. Sabemos onde estamos. Sabemos que estamos mal. Não sabemos porque viemos. Não sabemos para onde vamos.

Temos um problema estrutural que não nos permite avançar para alto mar. Será do motor, do casco, do capitão ou da tripulação? Ninguém sabe dizer, não importa, pois este é o Estado da Nação e nós somos parte do problema estrutural, um problema que se chama Portugal.

Para quem se queira “distrair”, fica um resumo do debate da nação.

Escrito a 25 de julho de 2022 por João Tiago Teixeira

Créditos de imagem: Tomás Silva Observador

Links de interesse:

1- Hospital de Braga encerra urgências de obstetrícia pela nona vez, SIC

2 – Sondagem: Pedro Nuno Santos reforça imagem negativa, Costa cai na popularidade, Público

3 – A novela do novo aeroporto de Lisboa. Estudos e projetos dos vários governos, RTP

4 – 110 mil alunos não terão professor a pelo menos uma disciplina dentro de um ano, DN

5 – Pensões: total, da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações, PORDATA

6- Número de funcionários públicos ultrapassa 740 mil e atinge recorde da década, Publico

7 – Fact check. Portugal é um dos países com mais funcionários públicos?, Visão

8 – População empregada: total e por grandes sectores de actividade económica, PORDATA