Há pouco tempo eu, como tantas outras pessoas, surpreenderam-se com o novo álbum de Rosalía, LUX. Não apenas pela qualidade, como também porque ele representa uma espécie de liturgia moderna e desempoeirada, que traz à reflexão a espiritualidade e religião numa altura em que se tem a clara percepção que, sobretudo na Europa, a ligação a Deus e ao mundo do transcendente diminui.
Para além disso, para quem, como eu, vê muitas vezes o seu tempo raptado nas redes sociais, percebe-se que há uma redução da inibição de partilha de conteúdos que mostrem a fé e a crença em Deus, demonstrando um certo orgulho de algo que há 10-15 anos atrás era visto como “pouco fixe”, sobretudo, junto dos mais jovens.
A acrescentar a esta minha sensação, é inegável que no campo da política e sobretudo na extrema direita “messiânica” há muitas vezes o uso de Deus como forma de justificar posturas nacionalistas, isolacionistas e tantas vezes racistas perante a sociedade. Aliás, Trump, Bolsonaro, Farage e também Ventura não tão poucas vezes enunciaram a sua fé em discursos feitos à população.
Posto isto, pergunto-me “será isto uma percepção minha ou realmente Deus está na moda?”
Vamos a alguns dados que nos podem ajudar a responder a esta pergunta:
O jornal The Guardian publicou uma peça jornalística em abril deste ano sobre o “ressurgimento” da religião entre os jovens do Reino Unido. Em 2018, apenas 4% dos britânicos entre 18 e 24 anos afirmavam ir à igreja pelo menos uma vez por mês. Hoje, segundo um estudo intitulado The Quiet Revival (O renascimento silencioso), esse número aumentou para 16%.
Também em França, um país eminentemente laico, o número de batismos de adultos e adolescentes disparou. Durante a última Semana Santa, adultos receberam o primeiro sacramento mais 45% do que no ano anterior. São os números mais elevados registados pelo episcopado francês em mais de 20 anos.
Aqui ao lado, entre aqueles que se definem como católicos em Espanha, a prática religiosa mostra também uma ligeira inversão de tendência. No início dos anos 2000, 40% dos católicos ia à missa pelo menos uma vez por mês. Esse número caiu drasticamente nas duas décadas seguintes até chegar aos 24%, mas nos últimos cinco anos subiu para 26%. E, novamente, o impulso a vir dos mais jovens. Apenas os crentes com mais de 65 anos vão mais à missa do que os católicos com menos de 24, onde 35,5% frequentam a igreja.
Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos da América, um estudo afirmou que o “compromisso com Jesus” aumentou 15 pontos percentuais entre os homens americanos da geração Z entre 2019 e 2025, e quase 20 pontos entre os millennials no mesmo período.
Para além destes dados, algo interessante a destacar foi que no verão deste ano, Roma acolheu pela primeira vez um Jubileu ao qual compareceram cerca de mil influencers católicos e “missionários digitais” de 46 países de todo o mundo. O objetivo do Vaticano passa por colocar o foco no ambiente virtual como veículo de passagem e difusão da fé a nível global.
Deste modo, podemos concluir que apesar de não ser uma reconversão massiva, há claramente uma alteração de tendência que será interessante acompanhar nos próximos anos. A fé, que era vista como motivo de vergonha há 1-2 décadas atrás, converteu-se até numa boa manobra de marketing, seja pessoal, profissional ou político.
Agora, claro, urge saber o porquê desta inversão?
Pelo que tive oportunidade de analisar, os dados são menos robustos nas razões enunciadas. Aquilo que merece destaque é sobretudo o cansaço existente em algumas franjas dos mais jovens relativamente à superficialidade e materialismo da sociedade; à vontade de pertença a uma comunidade; e à necessidade de, em tempos de grande incerteza e insegurança, ter algo maior a que se agarrarem e que lhes dê alento e esperança para os desafios da vida, dado que cada vez mais, os mais novos sentem que terão uma vida pior que os seus pais.
Tudo razões que para mim são mais que válidas e vão em linha com aquilo que a Igreja sempre professou como vocação e ideologia.
No entanto, eu vou mais além na minha análise no que toca às justificações desta alteração: em tempos de crescente polarização política, Deus tem sido usado como justificação para uma missão maior. Num ruidoso crescimento do espaço do conservadorismo no campo mediático, a religião tem sido posta na lapela dos políticos e de todos aqueles que de forma tribal se aliam a estes movimentos como forma de reduzir o “impacto do seu pecado” pelas alarvidades que dizem e defendem e que vão contra tudo aquilo que a Igreja no fundo abraça. Usam Deus e Cristo como escudo protetor de narrativas, que na realidade não respeitam o próximo, nem demonstram amor pelos mais frágeis e oprimidos.
Como sempre se viu ao longo de mais de 2000 anos de História, a religião foi o garante da proteção e da estabilidade de muitos milhares de pessoas e ao mesmo tempo também foi usada e abusada por aqueles que, numa vertigem de poder e ódio, quiseram oprimir pessoas que pensavam e viviam de maneira diferente, ou que simplesmente eram ameaças ao status quo vigente.
A minha relação com a fé sempre foi distante desde o momento em que comecei a pensar por mim próprio. Reconheço o seu enorme papel na coesão, esperança, missão e identificação cultural dos povos, bem como na relevância que tem na criação de um espírito de comunidade e de ajuda ao próximo. O seu impacto é incalculável em muitas zonas do globo e, embora seja ateu, fico satisfeito que haja cada vez mais jovens a ver na espiritualidade um pilar da sua vida e na daqueles que os rodeiam. Afinal, sempre foi isso que nos distinguiu enquanto espécie. Todavia, sempre me incomodou aqueles que a usaram para pisar, massacrar, desprezar e polarizar franjas da sociedade mais vulneráveis. É sobre estes que gostaria que o papel dos líderes cristãos fosse mais interventivo. Veria com bons olhos que fossem mais vocais a definir maior distanciamento destes aproveitadores, pois usam de maneira perniciosa e deturpada algo que tem um fundo tão nobre e respeitado.
Deus parece estar na moda. Que essa moda venha unir mais do que separar, pois sempre foi essa a promessa do seu credo.
Escrito a 2 de dezembro de 2025 por Sérgio Brandão
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Rosalía anuncia “Lux”, que será lançado a 7 de novembro: “Habemus album”