“Portugal chama”: e quem atende?

Bombeiros, voluntários e vizinhos enfrentam o impossível, enquanto o país se perde em promessas adiadas. O interior despovoado, a falta de meios de combate e uma justiça lenta e ineficaz tornam cada verão numa tragédia anunciada. Até quando será assim?

É impossível começar este artigo sem antes agradecer a todos os que têm protegido Portugal neste momento. Não é insólito, não é novo, mas, mesmo assim, todos, desde bombeiros a populares, resistem com a maior das forças para defender o nosso país duma tragédia anualmente anunciada. A todos, obrigado!

O velhinho interior

Portugal sempre ardeu! Infelizmente, é uma exclamação verídica, mas, com ela, traz memórias de famílias que perderam tudo nos últimos anos, futuros incertos e uma certeza: que o interior está esquecido.

Tenho batido nesta tecla, bem sei, mas, governo após governo, não há coragem para combater os reais problemas destas pessoas que vivem no interior. Não, não são os “pobrezinhos da aldeia”. Nunca foram. Não precisam de palmadas nas costas a prometer casas novas depois daquelas duma vida inteira terem sido devoradas pelas chamas duas vezes em 10 anos. Precisam, sim, de prevenção. Prevenção e investimento para estas terras atraírem mais gentes, a fim de combater o abandono rural (abordo este tema em detalhe no artigo Portugal esqueceu metade do seu território, no Observador).

Os incêndios devem ser combatidos fora da época estival, a fim de evitar o inferno que se vive hoje. Mas o interior tem alguns problemas.

Desde os anos 60 do século passado, as terras de dentro perderam cerca de 2 milhões de pessoas, fazendo com que ocorresse um grande abandono de campos agrícolas, tornando-os, hoje, em verdadeiro mato.

Um interior vazio é um interior condenado a arder. E, quando o país se esquece das suas aldeias, está também a esquecer a primeira linha de defesa contra os incêndios: quem cuida da terra.

Isto cansa, senhores ministros!

A prevenção

Todos os governos falam em prevenção. Todos. Mas quando chega o verão, o que vemos rima sempre: bombeiros e populares a combaterem o inferno e ministros a tirar fotografias junto às cinzas (e este ano, junto à praia).

A prevenção exige trabalho fora da época dos incêndios: limpeza das matas, criação de faixas de contenção, gestão florestal profissionalizada, ordenamento da floresta (incluo o fim das monoculturas de espécies altamente inflamáveis), criação extensiva de ovinos, caprinos e bovinos, para a limpeza da mata… só que em Portugal prefere-se a velha receita: discursos em agosto e silêncio em dezembro.

E, no entanto, já sabemos que é possível fazer diferente. Nos baldios geridos pelas comunidades locais no Minho e em Trás-os-Montes, onde há pastoreio e gestão ativa, os incêndios têm menor intensidade. No Gerês, projetos de mosaicos de gestão reduzem a propagação das chamas. E, em alguns concelhos do Centro, as Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) têm mostrado resultados positivos na gestão de parcelas dispersas. São sinais de esperança, mas demasiado miúdos para travar um problema nacional.

Os números falam por si: cerca de 91% da floresta portuguesa é privada, muitas vezes dividida em parcelas minúsculas e com proprietários ausentes ou desconhecidos. Em zonas do Norte e Centro, o abandono agrícola deixou milhares de hectares entregues ao mato, combustível perfeito à espera da primeira faísca, impedindo qualquer projeto coletivo de prevenção. Ora, se sabemos em janeiro que aquele matagal vai arder em julho, porque é que nada se faz?

O resultado é este ciclo trágico: gastamos cerca de quase cinco vezes mais em combate do que em prevenção. É como deixar a porta de casa aberta e investir em extintores, em vez de simplesmente fechá-la. Assim, não há extintor que salve.

É verdade que o investimento em meios de combate a incêndios é hoje maior do que há uns anos, mas, no terreno, veem-se populações a combaterem incêndios sem apoio dos bombeiros (que não têm como se desdobrar para todos os sítios), meios aéreos avariados encostados numa garagem, corporações de bombeiros com carros de combate velhos e bombeiros desgastados da vida mal paga que levam a servir a bandeira Portuguesa.

Isto cansa, senhor primeiro-ministro!

A (in)justiça

Outro ponto que não pode ser ignorado é a reincidência dos incendiários. Todos os anos são detidas dezenas de pessoas por crimes de fogo posto, e todos os anos ouvimos falar de libertações rápidas, de penas suspensas e de reincidências.

A lei portuguesa prevê, no Código Penal, penas entre 3 e 12 anos de prisão para quem provocar incêndios florestais. No entanto, a prática mostra que a maioria dos arguidos acaba com penas suspensas ou inferiores a 5 anos, o que frequentemente resulta na não aplicação de prisão efetiva.

E depois vêm as atenuantes da praxe: não tinham antecedentes, confessaram, estavam alcoolizados, sofrem de perturbação psicológica. Quase sempre há uma desculpa pronta para que a pena seja leve. Mas pergunto: e quem atenua as dores de quem perdeu tudo?

O resultado é claro: muitos incendiários voltam a reincidir. Dados do próprio Ministério Público revelam que cerca de 40% dos detidos por incêndios florestais já tinham antecedentes semelhantes. Um círculo vicioso: a justiça não pune de forma eficaz, o sistema prisional não reintegra, e o país volta a arder.

Não estamos a falar de pequenos delitos. Estamos a falar de crimes que matam pessoas, matam animais e hipotecam o futuro económico e ambiental de Portugal. Mas os magistrados parecem preferir manter a ilusão de que um arguido arrependido é menos culpado do que as cinzas que deixou para trás.

Há quem diga que este crime é terrorismo. Outros chamam-lhe ecocídio. Eu apenas digo: as penas devem ser agravadas, a fim de garantir uma dissuasão eficaz da prática deste crime. E mais, que sistema prisional é este que não reintegra? Queremos pessoas a apodrecer 5 anos numa prisão para serem reincidentes, ou queremo-las 5 anos lá dentro para serem pessoas reintegradas nas regras e normas da sociedade?

Uma justiça lenta e ineficaz atrasa uma nação e condena-a à ruina.

Isto cansa, senhores deputados!

E que futuro?

“Portugal Chama”, diz o Estado em forma de trocadilho. A verdade, é que basta de meias palavras ou de inação.

Não é inevitável que Portugal arda todos os verões. Nunca será. Mas há que ser feita uma escolha: ou continuamos a gastar lágrimas e milhões em cinzas, ou investimos finalmente em vida e prevenção. O futuro do interior, e do país, depende disto.

E que futuro?

Bem, para o ano, o que ardeu este ano estará seguro. O que arderá para o ano, estará seguro no ano seguinte e por aí fora. Mas só se nada for feito.

Que, para o ano, nada nos canse, senhores ministros. Senhor primeiro-ministro. Senhores deputados.

“Portugal chama” por vós!

Escrito a 2 de setembro de 2025 por Francisco Ambrósio

Problemas Estruturais, Conjuntura, Incompetência e Mérito

“Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.”

Já passaram mais de duas semanas desde o desfecho das legislativas. É mais do que tempo suficiente para uma reflexão que gostaria de partilhar.

Não querendo demonstrar uma arrogância desmedida ao fazer uma listagem de todas as culpas existentes para eleição de 60 mandatos do Chega, destaco, porém, quatro sub-análises, não indissociáveis, que espelham a realidade que enfrentamos e uma conclusão sobre possíveis aprendizagens e próximos passos do Governo e Parlamento.

Questões Estruturais

Salários baixos, falência do elevador social, crise na habitação, falta de coesão territorial e diminuição da reputação das instituições e do Estado, são problemas conhecidos e que servem de combustível para o descontamento e ressentimento da população para com aqueles que lideraram o país nos últimos anos: PS e PSD. Acresce a isto a promessa, muitas vezes falhada, de que com estudo e trabalho qualquer pessoa, independentemente do seu contexto, atingiria sucesso e prosperidade.

A Conjuntura

Uma esquerda que se dedicou e, sobretudo, foi mais vocal nas questões identitárias e de género, deixando como segunda prioridade a luta de classes e a desigualdade social; um fosso maior entre o povo e as elites; a desintermediação da partilha de informação nas redes sociais; a crise do jornalismo e o crescente cepticismo sobre a sua real imparcialidade, e o aumento dos movimentos de partidos populistas nacionalistas de direita radical com figuras carismáticas, são algumas das questões conjunturais dos quais é impossível fugir em qualquer análise do ambiente político atual.

Quando baixamos a nossa análise ao nível nacional temos de acrescentar que 22 dos últimos 30 anos foram governados pelo Partido Socialista. Ora, assim fica difícil para um eleitor, quando tem de tomar a decisão de atribuir culpas sobre o estado da Nação não apontar o dedo ao PS quando para muitos foi praticamente o único rosto visível da governação do país, reforçando a minha ideia de que fosse Pedro Nuno Santos, fosse outro qualquer, o desfecho seria pouco diferente.

A Incompetência

Seja por arrogância, seja por incapacidade, os partidos políticos, sobretudo da esquerda, foram, aparentemente incapazes de fazer uma análise do que aí vinha. Refugiados na sua “Torre de Marfim”, faltou a consciência do nível de insatisfação, irritação e frustração que o país vive. Juntando os problemas estruturais, com os conjunturais, mais a enorme incapacidade de os políticos, ditos tradicionais, fugirem das suas inúteis e por vezes infantis “tricas políticas”, levaram a este desfecho incontornável.

Pedro Nuno Santos foi parece que foi totalmente incapaz de antever tudo isto que descrevi atrás, preferindo “cascar na direita” e tentar, a todo o custo, empurrar o PSD para os braços do Chega. Luís Montenegro com o seu “não é não”, desarmou o antigo Secretário-geral do PS, cuja única narrativa que tinha era a de alimentar o medo da captura do país pela extrema-direita onde o PSD seria também cúmplice. Admito também, que em face da situação que descrevi, pouco ou nada interessava ao eleitor qual seria o programa dos Socialistas. A política vive de ciclos e este claramente não é o do centro-esquerda.

Não podemos também esquecer que o Presidente da República, ao assumir a bitola de deitar abaixo o Governo sempre que haja alguma crise, seja com os Primeiros-ministro, seja com o Orçamento, acelerou algo que poderia ter demorado mais de uma década. Estes ciclos políticos curtos e com finais envoltos em polémica, foram o rastilho ideal para o Chega.

O Mérito

Ventura soube aproveitar tudo isto que aqui descrevi. Com uma narrativa pouco diferente das grandes referências da extrema-direita a nível internacional, cavalgou tudo o que tinha ao seu dispor. Foi um oportunista inteligente, trabalhou bem e este é o resultado de todo esse esforço. Se há 6 anos olhavam para ele como uma anedota, agora toda a gente sabe que sobre aquele homem existe a possibilidade da conquista do poder.

Há que também prestar o devido tributo a Luís Montengro. Eu, que escrevi no artigo “A estrelinha de campeão de Luís Montenegro” sobre a enorme chico-espertice do Primeiro-ministro, e não retirando uma única vírgula a isso, tenho de lhe reconhecer o enorme sentido de oportunidade que teve, reforçando assim a posição da AD. Todavia, a sua astúcia e capacidade serão postas à prova nesta legislatura, pois agora o alvo do Chega é o PSD, e creio que ele tem consciência disso.


Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.

Eu, tal como dois terços dos simpatizantes da AD, sou contra uma aliança com o Chega. Não significa que não possam existir conversas em alguns temas, mas para mim, caso haja vontade de reformar o país e de estabelecer pactos em matérias de política externa, defesa, segurança e justiça, o PS é o melhor e mais bem preparado parceiro. Tenho mais dúvidas nas questões económicas e de reforma do Estado, mas esperemos por aquilo que o novo Secretário-geral possa apresentar. Talvez nestes dois últimos temas a IL seja uma boa aliada.

É defendido que eventuais alianças e coligações entre os dois partidos do poder pode favorecer o crescimento do Chega, posicionando-o como única alternativa política. Compreendo a perspectiva, mas convenhamos que nos últimos 10 anos os socialistas e sociais-democratas andaram sempre às “turras” e com enormes dificuldades de consensos e ainda assim o Chega chegou aos 60 mandatos em 2025. Tenho razões para acreditar que possa não ser bem assim, sobretudo se realmente os principais partidos estiverem interessados em resolver os problemas das pessoas.

Para além disso, pode ser polémico, mas e se realmente o país quiser o Chega a liderar o Governo? Se tal se suceder há duas coisas que me parecem importantes: a primeira é que o dano nas instituições seja baixo e que a capacidade de reverter em eleições qualquer rumo autoritário continue a ser possível em caso de incompetência e insatisfação pelo trabalho feito; a segunda é que prefiro que o PSD tenha as suas “mãos limpas” e que não tenha compactuado com políticas populistas insanas, impraticáveis e desrespeitadoras.

Estarei eu a ser anjinho? Veremos…

Escrito a 9 de junho de 2025 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Ventura diz que foi convidado a integrar Governo. Montenegro nega: “É mentira e desespero”

Os mais jovens como agentes de mudança: A sua importância na sociedade atual

Os jovens, cada vez mais cedo, têm uma palavra a dizer sobre a sociedade que os rodeia, seja sobre a sua escola, ou até mesmo sobre a política nacional, e demonstram-no de forma clara e, por vezes, voraz. Mas, e se eles fossem os nossos agentes de mudança?

A política, mas, não só para gente grande

Ao longo dos anos, penso eu, todos nós, interessados nos assuntos “dos grandes”, fomos colocados de parte por estarmos ainda em tenra idade para deles falar, e, por vezes, isso traduziu-se num sentimento de, tanto angústia, como de combustível para ligar os nossos motores de participação cívica. 

Muitos ainda pensam que a política é algo que só deve ser discutido ou participado por aqueles que têm conhecimento na área, ou pelo menos alguma experiência, mas sabemos que essa experiência nem sempre se traduz em saber, daí a vontade de mudança tão voraz que os jovens transportam em si.

As instituições democráticas estão fragilizadas, a política partidária, e o país cada vez mais polarizado, mas, ainda nos resta esperança!

Como a política não é só para os grandes, existem iniciativas, como o Parlamento dos Jovens e o Encontro Nacional de Juventude, que, há décadas, marcam a diferença na sociedade, dando a oportunidade a milhares de jovens por todo o país (e não só!) de debater, de pensar e de fazer política – e que grandes mentes daqui saem!

Aqui aprovam-se recomendações do que podem ser projetos legislativos a serem tidos em conta pelos partidos, essencialmente para lhes mostrar que não estamos adormecidos ou a fazer scroll infinito, de forma, também, a dar a conhecer ao país político as necessidades dos jovens.

Além disto, existe o projeto Manual da Juventude, que compila neste espaço informações de eventos e dinâmicas relacionadas com a participação cívica e juventude, para ajudar os jovens a encontrar estas atividades mais facilmente!

Os entraves à participação jovem

 É certo que há esta dimensão da política, mas, também há a dimensão que por todos é conhecida. Pois bem, essa que tão inacessível é!

A política, num todo, por vezes, é vista como algo complexo e chato para alguns jovens, fazendo com que estes se afastem dela e que se mantenham pouco informados sobre o país político, levando-os, eventualmente, a acreditar em demagogias que apenas são bandeiras eleitorais, muito por culpa dos discursos pouco convidativos de alguns políticos da atualidade.

Com este panorama, e acrescentando ainda o facto de ser difícil, por vezes, ter voz dentro dum partido ou simplesmente numa assembleia municipal, os jovens têm-se distanciado, ao longo dos anos, da política.

Quem fala da política, fala do associativismo jovem, este que tantas barreiras vê no seu caminho, desde a tremenda burocratização a que as Associações de Estudantes (AE) estão sujeitas, levando a que a grande maioria delas em Portugal sejam ilegais; aos Conselhos Municipais da Juventude (CMJ), que uma boa parte dos municípios em Portugal ou tem, mas apenas para dizer que tem, ou simplesmente não se preocupam em cumprir a lei, e nem sequer existem. Mas, repito, ainda há esperança!

O que falta fazer?

Para, de uma vez por todas, começar a dar a devida importância à voz dos jovens e enaltecer o trabalho que fazem, é preciso, primeiro, dar-lhes credibilidade, acabando com alguns preconceitos como os que falei no início. 

Em segundo lugar, é preciso criar mecanismos de fiscalização, por parte do Estado, para fazer com que os municípios cumpram a legislação no que toca à participação jovem, dando a devida relevância aos CMJ, e também, que se desburocratize o processo de legalização das AE, permitindo, assim, que todas as AE possam ter acesso às verbas previstas na Lei, dando lugar à coesão e livre participação democrática de todos estes órgãos. 

Em terceiro lugar, devemos em casa, nas escolas e nos municípios, promover a literacia política, porque, apenas com uma sociedade informada, se formam democracias fortes e sustentáveis, dando assim descrédito às ideias extremistas, que tanto polarizam o discurso nos dias de hoje. 

Por fim, e não menos importante, respondo à pergunta que fiz no início – “Mas, e se eles fossem os nossos agentes de mudança?” – dizendo apenas que não é: “e se fossem”; mas, sim: “já somos”!

Um agradecimento especial à Francisca Cortesão, ao José Cordeiro, à Lara Ruivo, à Maria Neves, ao Pedro Jardim, à Rita Prego, ao Rui Castro, ao Vasco Frazão e ao Vitor André, por contribuírem com as suas ideias durante o Encontro Nacional de Juventude. Sem estas brilhantes mentes, este artigo não seria possível!

Escrito a 21 de abril de 2025 por Francisco de Melo Ambrósio.

Créditos de imagem: Parlamento dos jovens/foto de grupo, 2022/2023.

25 de Novembro: Guerras Culturais e coisas que tais

Certos movimentos e inquietações que aparecem na sociedade portuguesa são oportunidades de aprendizagem, de re-leitura da história e de consolidação com construção de ideias já tidas previamente.

A celebração dos 49 anos do 25 de Novembro na Assembleia da República foi tudo isso para mim. Embora tenham já passado praticamente duas semanas desde o evento, a dimensão da data, a sua complexidade, o seu impacto e envolvência exigiu-me ouvir, ler e aprender para agora poder escrever qualquer coisa que fique para a prosperidade e que me orgulhe de ler no futuro.

Desengane-se quem pensa que vou cobrir toda a sucessão de eventos. Vou antes dar o meu ponto de vista e reflexão sobre a sua aparição na nossa agenda mediática.

Guerras Culturais: visões diferentes sobre os mesmos factos

Uma guerra tradicionalmente assume que haja dois lados em confronto. Quando adjetivamos a mesma com a palavra “cultural” assumimos uma dimensão de discórdia sobre a leitura e impacto de factos históricos, valores, visões ou mundividência.

Ora, numa sociedade crescentemente polarizada em que duas bandas se debatem de maneira constante, é normal a propagação e crescimento das mencionadas. Por si só isto não é mau, diria até que é normal, pois tal explica o mundo onde estamos e o mundo que queremos. É um reflexo da importância e vivacidade da sociedade civil nas democracias maduras.

Mas então de onde vem tanta preocupação sobre o aumento destes episódios?

Não há bela sem senão… A democracia assenta sobre o primado do consenso e quando visões tão díspares se confrontam de forma regular por tudo e por nada há quebra de pontes, ausência de acordos e perde-se o chão comum essencial para a progressão serena da sociedade. Não vivemos “duas Américas” como acontece nos Estados Unidos, mas há cada vez mais temas que envolvem confronto no nosso país e o problema está sobretudo assente na proliferação de factos falsos, reescrita errónea da história e omissão da verdade. E é aqui que entra a discussão sobre o 25 de Novembro, que disto que refiro tem de tudo um pouco.

O que foi o 25 de Novembro de 1975?

O 25 de Abril tendo começado como um movimento militar contra a ditadura de 48 anos, rapidamente se converteu numa revolução. A partir desse dia houve uma forte mobilização de forças civis, até então na clandestinidade, que tiveram influência nas clivagens do Movimento das Forças Armadas e que levaram a uma sucessão de acontecimentos que criaram uma tensão enorme na sociedade portuguesa, principalmente quando chegamos a esse fatídico Verão Quente de ’75.

Justamente durante esse período, Portugal tinha 3 setores distintos em tensão: o lado militar de extrema-esquerda liderado por Otelo Saraiva de Carvalho, o segundo lado que envolvia o partido comunista e tinha como símbolo maior o Primeiro Ministro Vasco Gonçalves e depois a frente encabeçada por Mário Soares e o Partido Socialista com apoio, ainda que tímido e céptico em alguns momentos, do PPD e o CDS.

Portugal vivia um clima de conflitualidade onde o caos reinava e tínhamos um cenário de Guerra Civil à espreita. Houve assaltos a sedes de partidos tanto de esquerda, como de direita, com recurso à violência física e intimidação por parte de movimentos clandestinos de ambos os espetros politicos.

Não querendo entrar em grandes detalhes, como prometi no início deste artigo, o que o Grupo dos Nove, Costa Gomes, Mário Soares e Ramalho Eanes fizeram foi frenar uma deriva radical, impedindo o país de ser tomado de assalto por grupos radicais de extrema esquerda e que tinha à espreita outros de extrema direita preparados para uma contra-revolução. Foi a partir desse dia que se deu mais um passo importante na consolidação de Portugal como democracia pluralista de estilo ocidental. Consequência clara de um processo iniciado a partir do dia 25 de abril de 1974.

Não tendo eu todos os pergaminhos para descrever em detalhe toda a sucessão de eventos passados, qualquer curioso que tenha investigado um pouco sobre o assunto conclui que no 25 de Novembro não se assiste à vitoria da direita sobre a esquerda. Bastando ler estes poucos parágrafos que deixo acima, no 25 de Novembro, quanto muito, pelos protagonistas que enuncio, houve uma vitória da esquerda sobre a esquerda. Uma vitória dos moderados.

Então por que é que quer a direita puxar para si esta data?

A Direita quer protagonismo

Aqueles que me leem mais regularmente sabem que considero o binómio esquerda direita francamente limitado. Ainda assim, creio que para esta reflexão ele ajuda-nos perfeitamente a perceber o que quero explicar.

Com descrevi acima, o 25 de Abril tornou-se numa revolução. Ora, como a própria palavra indica, o que se passou foi uma repentina mudança na sociedade portuguesa. Foi o fim de um ciclo imperial de cinco séculos e o fim de uma ditadura conservadora, nacionalista, repressora e de direita que durou quase cinco décadas.

É difícil contrariar que nos anos após o 25 de abril de 1974 dizer-se que se era de direita criaria algum prurido e era visto como negativo. Repare-se nos nomes dos principais partidos construtores da nossa democracia: Partido Comunista, Socialista, Social Democrata e até o CDS tem “Centro” no seu nome. Se for pela nomenclatura partidária, qualquer país europeu acharia que em Portugal só haveria representação de esquerda.

Reparemos que aqui ao lado em Espanha, talvez até graças à aprendizagem obtida com o nosso caso, a criação da democracia foi um processo muito mais negociado e menos intenso. Creio que o carácter “revolucionário” da nossa transição democrata, e por factualmente as grandes forças motrizes da mesma estarem sobretudo à esquerda do antigo regime, fez com que durante anos houvesse uma assumida vergonha das pessoas dizerem: “Eu sou de direita”.

Para além disso, houve sempre do lado da esquerda um reclamar e um espírito possessivo na celebração do 25 de abril. Muitas pessoas sentiram-se órfãs de protagonismo na conquista da liberdade e da democracia no nosso país. Foram constantemente renegados de fazer parte dessa celebração e já sabemos: para cada ação, uma reação (ainda que tardia).

Ora volvidos 50 anos do 25 de abril, estamos a assistir ao fim da vergonha. Há vontade de ter um papel na história. Quando assistimos, parece, à mudança sociológica do país no que à ideologia diz respeito, a extrema direita e também a própria Iniciativa Liberal encontraram a oportunidade certa para tentar reescrever o que se passou na transição para o novo regime. Para além disso, a cada vez mais fraca implantação e protagonismo do Partido Comunista foi a cereja no topo do bolo para esse aproveitamento.

Por isso, a minha leitura é que agora a direita quer também reclamar para si algumas personalidades, datas e eventos de proa, para enaltecer o seu papel na sociedade e na história moderna do país. A política vive muito de momentos, símbolos e até da existência de figuras quase messiânicas que ajudam a criar identidade própria. É aqui que nasce a necessidade de quase “recriar” o 25 de Novembro, ainda que com omissões e mentiras e sem grande adesão da grande maioria da sociedade civil.


É curioso perceber como a História nunca é somente uma recitação de factos. Pode ter várias interpretações consoante o momento e as pessoas que a evocam. Há que ter o espírito crítico suficientemente apurado para não engolir tudo aquilo que nos vem aos olhos e saber investigar para que de forma mais informada percebamos quem tem ou não razão nestas guerras culturais e saber distinguir o que é propaganda e o que são factos. Estou convencido que vão ser mais comuns do que se poderia pensar.

Escrito a 8 de dezembro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
25 de Novembro de 1975: Os protagonistas, os factos e a polémica de uma data que escalda

Precisa-se Extremamente Moderados

“Quando partidos que historicamente sempre tiveram as suas divergências, mas se alinhavam naquilo que realmente era importante para o povo, entram numa óptica de quererem ser “moderados extremados” vai haver um dia em que realmente a escolha será somente entre os radicais da esquerda e radicais da direita.”

Quem ligasse a televisão ou fosse às redes sociais há duas semanas sentiria que o país parecia à beira de uma Guerra Civil por causa da morte de Odair Moniz. De um lado tínhamos a extrema-esquerda a pedir a “cabeça” do polícia que atirou sobre a vítima e a acusar toda a PSP de racismo. Do outro tínhamos a extrema-direita com lamentáveis e indesculpáveis declarações sobre o incidente e as comunidades que vivem em bairros sociais.

Não querendo entrar em detalhe na análise de cada um dos lados, o que me irritou (e me tem vindo a irritar) é esta ocupação mediática regular por parte dos extremos, assumindo que a sociedade portuguesa está mais radicalizada do que na realidade está.

Infelizmente já vem sendo hábito o tardar da entrada em cena de opiniões que sejam minimamente ponderadas, sensatas e moderadas.

Aqui, claramente António Filipe, do PCP (que não é certamente um partido moderado), durante a sua intervenção à saída da Assembleia da República, e também de Carlos Guimarães Pinto, na sua intervenção na CNN, colocaram o tema sob um prisma que muito me agrada, atacando-o com uma atitude de abertura e assumindo que as conclusões a tirar são muito mais difíceis e dúbias do que parecem.

Ser Moderado cansa.

Abstermo-nos de ter uma opinião, de partilhar um post ou de simplesmente dizer “não sei” sobre algo que se está a passar é um exercício de enorme força. Ser moderado não está na moda e tem muito pouco de atrativo, pois não dá “likes”, nem “shares”.

Há um domínio do discurso por parte dos radicais, mas aquilo que nós temos visto até agora é que os moderados continuam a “ganhar”. Bem sei que este artigo está a ser escrito a poucos dias das eleições norte-americanas, mas convenhamos que, olhando para todas as eleições livres e democráticas de 2024, a ameaça da chegada dos extremos ao poder tem sido francamente bloqueada. Fazem imenso ruído e são cada vez menos uma minoria silenciosa, mas, até ver, ainda não têm a preponderância que por vezes parece que nos querem fazer crer.

Ser extremista é estar do lado de uma ideologia polarizada e ser intolerante em relação a outras opiniões. Ser extremista é mostrar uma arrogância perante a moralidade dos outros, assumindo a existência de lados bons e maus, de correto e incorreto, de preto e branco sem nunca haver cinzento. Daqui retira-se a lógica conclusão destes posicionamentos: a dificuldade na criação de pontes, de espaços discussão e negociação, pois cada pólo assume que só existe uma verdade absoluta.

Descartes, aquando da publicação do Método Cartesiano, assumia a dúvida como pilar fundamental para a razão. E a racionalidade só pode funcionar se conseguirmos retirar todo o preconceito e enviesamento que esteja por detrás da dita verdade absoluta. Foi isto que durante anos os moderados fizeram, mas hoje em dia começa a ser cansativo até para eles. A excessiva emocionalidade do pensamento lógico começa também a assoberba-los.

A Polarização é Ideológica ou Emocional?

Nas passadas eleições intercalares nos EUA, circularam os resultados de um inquérito que dizia que 81% dos Democratas achavam que a agenda política Republicana iria destruir a América, e que 79% dos Republicanos achavam justamente o contrário. Aquando da confrontação destes resultados, a minha pergunta foi: “Mas então como é possível que esta gente se vá entender alguma vez na vida na mais simples coisa?”

O efeito tribal dos extremos, que está muito associado à identidade de cada um, tem vindo nos últimos anos a passar para os moderados. E a razão disso não advém de uma polarização ideológica, mas sim emocional, afectiva.

Grande parte dos debates que vemos entre as grandes forças políticas dos países ocidentais não versam sobre as ideias que cada uma tem para o país. Se formos críticos na nossa análise, essas discussões são mais atribuições de “rótulos” do que outra coisa. Há uma necessidade de criar distanciamento mesmo quando ele não existe propriamente, levando o exercício da política a aparentar-se a um arrufo de miúdos no recreio da escola.

Quando partidos que historicamente sempre tiveram as suas divergências, mas se alinhavam naquilo que realmente era importante para o povo, entram numa ótica de quererem ser “moderados extremados”, vai haver um dia em que realmente a escolha será somente entre os radicais da esquerda e radicais da direita. Vejam a atual crispação entre o PS e o PSD. Que sentido faz quando na realidade têm tanto em comum?

Esta polarização emotiva que põe partidos contra partidos, candidatos contra candidatos, pessoas contra pessoas, destrói a base para a estabilidade das democracias ocidentais. Para quê criar divergências na base apenas das “cores” que representam? É insustentável.


Por isso, sempre que há uma nova polémica, a minha atitude tem sido a de me manter cada vez mais recatado e em dúvida perante o sucedido. Sinto que os primeiros dias são reações mais emocionais do que lógicas e mais vale esperar um pouco, ler e escutar várias visões sobre os assuntos antes de começar a disparar conclusões que se podem revelar como disparatadas.

Espero que os moderados parem de cair na tentação de extremar, pois, tal como dizia Rui Veloso na sua canção romântica: “muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa”.

Escrito a 1 de novembro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Os extremos não se atraem. Odeiam-se. Eis meia hora de debate entre Mariana Mortágua e André Ventura

Referências de Interesse:
Polarization, Democracy, and Political Violence in the United States: What the Research Says
Both parties think the other will destroy America, NBC News poll finds

O Homem é um animal político… e, emocional.

“…ainda que sejamos uma população mais bem formada e que tenhamos a possibilidade de um acesso à informação mais democrático, parece que somos mais vítimas das emoções, menos racionais.”

As marcas, todas elas – mas principalmente aquelas de grande sucesso – usam as emoções como forma de comunicar com o consumidor de forma a que seja criada uma afinidade suficientemente forte para que fidelize o comprador. E aqui não precisamos de falar somente da Apple, da Nike ou da Coca-Cola. Podemos também falar de políticos…

O Marketing Político já não é novidade nenhuma no Mundo, mas numa pesquisa que fiz sem grande profundidade, nota-se que não é um tema ainda muito explorado e divulgado em Portugal, embora já haja trabalhos, alguns artigos e livros no nosso país sobre o tema. Não difere muito do Marketing tradicional, só que aqui o objetivo passa por promover partidos, candidatos e movimentos junto do eleitorado. À semelhança de outras marcas, os políticos tentam destacar-se da sua concorrência e, sobretudo, explorar as emoções com o intuito de criar uma afinidade suficientemente forte para que se crie a “fidelização do cliente”.

Campanha “Hope” de Barack Obama retirado de “Why Obama ‘Hope’ artist hates Trump…but won’t draw Hillary”

Se puxarmos um bocadinho pela cabeça facilmente nos lembramos de campanhas como a “Hope and Change” (“Esperança e Mudança”) de Obama em 2008, com o mítico slogan “Yes, we can” (“Sim, nós conseguimos”), ou mais recentemente campanhas como aquela a favor do Brexit em 2016: “Take Back Control” (“Retomar o controlo”), a de Donald Trump, também em 2016: “Make America Great Again” (“Tornar a América grande outra vez”), ou a de Jair Bolsonaro em 2018: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Campanha de Jair Bolsonaro no Brasil, retirado de “Brasil acima de tudo”: conheça a origem do slogan de Bolsonaro

Portanto, os políticos já sabem muito bem que os sentimentos e as emoções não podem ser deixados de lado durante uma campanha política. Há vários que se destacam, tais como o medo, o ressentimento, a indignação, a esperança, a segurança, a compaixão, o orgulho e o patriotismo. Muitas vezes, mais do que discursos políticos e grandes programas eleitorais, o importante é apelar a uma mobilização afetiva e emocional para obter sucesso. Vamos a alguns exemplos usados nesta campanha legislativa (e até já noutras), para as eleições de 10 de março:

O conhecido “Fantasma da Troika”:

O período de 2011 a 2014, em que Portugal foi submetido a um programa de austeridade e reformas estruturais impostas pela Troika para evitar a bancarrota, não traz boas memórias os portugueses. O desemprego, os cortes nos salários e pensões e o aumento dos impostos resultaram numa deterioração significativa das condições de vida de todos. Portanto, esses tempos são regularmente lembrados pela esquerda para descrever o impacto duradouro e as memórias negativas associadas a essas medidas que tiveram de ser levadas a cabo pelo Governo de coligação entre o PSD e o CDS. Mesmo que o memorando tenha sido negociado pelo PS…

Por isso, parabéns aos socialistas, pois conseguiram proteger melhor a sua marca ao longo dos anos – embora a direita muitas vezes tente assustar os portugueses com a possibilidade de bancarrota e de políticas económicas imprudentes propostas por partidos de esquerda, não tem tido muito sucesso. Todavia, essa é a forma que tem de trazer esse “fantasma”.

As Contas Certas:

Bandeira típica do marketing da direita ao longo dos anos, roubada pela esquerda nestes últimos oito. Ainda em linha com o ponto anterior, o PS conseguiu de forma brilhante retirar-se dessa imagem negativa que os eleitores tinham deles, fazendo um verdadeiro rebranding que traz confiança e segurança aos consumidores.

A União Soviética, Cuba e Venezuela representados pela Extrema Esquerda:

Os sinais muitas vezes contraditórios de simpatia (ou até de abstenção de posição contrária) que partidos como o PCP e o Bloco de Esquerda têm por modelos socialistas e anticapitalistas é usado como bandeira de ataque da direita para gerar medo e indignação. Como muitos dessas países eram geridos de forma autoritária, nada democrática e onde a miséria e a pobreza são sinais claros, a colagem a essa realidade é uma maneira de ajudar os consumidores a perceber que este tipo de “produtos” não fazem nada bem e são de fraca qualidade.

A Teoria da Substituição:

A narrativa usada pela extrema direita ocidental com o intuito de fomentar a retórica anti-imigração incita ódio, desconfiança e sentimento de insegurança nos eleitores. Alega que há um esforço deliberado para substituir as populações nativas por outras de origem diferente. Em Portugal, vemos o Chega a cavalgar essa onda com o crescente número de imigrantes muçulmanos que têm chegado ao nosso país.


Grande parte do que aqui deixei são slogans, campanhas e movimentos com mensagens pela negativa. Creio que se deve ao facto de que, muitas vezes, são estes os que mais chamam a atenção dos media, e que consequentemente dão títulos nos jornais ou abrem que os noticiários – por se centrarem no pânico moral e na polarização da sociedade. Ainda assim, eu acredito que é a campanha pela positiva que dá alento à maioria das pessoas e que forma os grandes líderes políticos. A esperança continua a ser a grande força de mudança.

Contudo, as pessoas preocupam-se pouco em, de forma crítica, avaliar cada um destes pontos mais polarizadores, através da procura de dados, do contraditório e de visões neutras sobre os assuntos. Estar bem informado dá trabalho e dá muito mais gosto e prazer procurar e ver alguma notícia, “tweet” ou “reels” que comprove a nossa visão do mundo, mesmo que esteja errada. Somos vítimas dos algoritmos e do viés de confirmação, o que faz com que as marcas – ou políticos, neste caso – escarafunchem as nossas emoções mais profundas.

Sendo assim, ainda que sejamos uma população mais bem formada e que tenhamos a possibilidade de um acesso à informação mais democrático, parece que somos mais vítimas das emoções, menos racionais. Deixo-vos um último exemplo e chamada de atenção…

As lágrimas de Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro

Todos sabemos que o Daniel Oliveira do “Alta Definição” põe qualquer um a chorar. Também sabemos que os programas da manhã e da tarde da televisão generalista são um verdadeiro corrossel de emoções… No entanto, não acham que estes dois líderes políticos estão a chorar vezes a mais, comparado com os seus antecessores? Não tenho dúvidas que as lágrimas são genuínas, mas são sinais dos tempos e têm um propósito claro: criar compaixão entre os eleitores e humanizar a figura do político.

Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos no “Alta Definição, retirado de “Daniel Oliveira à conversa com Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos

Imaginar o Eanes, o Soares, o Cunhal ou até mesmo o Cavaco a serem entrevistados pelo Júlio Isidro, Carlos Cruz ou até Artur Agostinho a falarem da sua vida com as suas mulheres e filhos e chorarem parece quase uma anedota.

Como a maioria das coisas sobre as quais escrevo, não acredito que haja certo ou errado. Não defendo que “antigamente é que era” e que isto hoje não faz sentido nenhum ser assim. Convido apenas à reflexão…


As marcas são criadas ou adaptadas porque o mercado nos dá indicadores de que há oportunidades de negócio de sucesso, seguindo e apresentando determinadas características. Oferecer aquilo que o público procura através do despoletar das emoções mais fortes é o que nos torna leais aos produtos. No entanto, as consequências da aplicação dos conceitos de Marketing na política podem ser em muitos casos perigosas e divisivas.

Se queremos trazer à política “produtos” de consumo, ao menos que tenhamos alguma ética e responsabilidade cívica. Não vale tudo!

Quantos de nós já não compramos alguma coisa porque a publicidade era maravilhosa, a concorrência parecia super fraca e acabamos desiludidos? O mesmo se pode passar aqui. Tenhamos algum pensamento crítico na hora do voto.

Escrito a 25 de fevereiro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
De Boabdil a Pedro Sánchez, pasando por Putin y Obama: los políticos también lloran

Os Imbecis da Esquerda e da Direita

“Repare nas pessoas conversando:
nao é um bate-papo, é uma luta.
Todos querem pra si o olhar do bando.
Ninguém se entende nem sequer se escuta”

Há dias, no podcast 45 graus, José Maria Pimentel entrevistou o humorista, ator e escritor Gregório Duvivier. Numa conversa onde os protagonistas cruzam temas que vão desde o humor à política, houve um momento que captou a minha atenção: a declamação do “Soneto fático”, escrito pelo entrevistado e presente no seu livro “Sonetos de Amor e Sacanagem”.

Repare nas pessoas conversando:
não é um bate-papo, é uma luta.
Todos querem pra si o olhar do bando.
Ninguém se entende nem sequer se escuta.

Pode até parecer civilizado,
mas se olhar com cuidado e lucidez
vai perceber que quem está calado
só espera chegar a sua vez.


Fale merda que alguém no mesmo instante
dirá uma merda mais irrelevante
que não tem nada a ver com a merda acima.


Falar só serve pra fazer barulho.
Esse poema, mesmo, é um entulho.
Não muda nada – mas ao menos rima.

A reflexão que ele traz é sobretudo evidente nos versos “não é um bate-papo, é uma luta” e “vai perceber que quem está calado só espera chegar a sua vez“. Isto é, sobretudo, o que sinto na sociedade de hoje em dia, e no debate político em particular. Aliás, foi este, um dos sentimentos que nos levou, a mim e ao João Tiago Teixeira, a criar este blog, cuja visão está representada no nosso primeiro texto: “Bem-vindos à Mesa de Amigos

A dificuldade de empatizar com a visão do mundo que o outro tem e de não tentar perceber a razão de ele pensar assim são motivos mais que evidentes para a existência do atual ambiente de crispação e polarização que vemos hoje em dia. As pessoas são rotuladas e diminuídas por duas ou três ideias que defendem. Esquerdistas, Radicais, Comunas, Fachos, Direitolas, Socialistas, Liberais – são maneiras absurdamente simplistas de colocar as pessoas em prateleiras sem dedicar o tempo suficiente em perceber o que elas verdadeiramente pensam. É dos exercícios mais preguiçosos e ignorantes que vemos hoje em dia e que são o espelho de uma sociedade de facto mais literada e qualificada, mas nem por isso mais informada e empática. A perda total da humildade em admitir que a nossa visão do mundo é altamente finita e cingida ao nosso ambiente e estrato social é o que leva a dificuldade existente entre duas pessoas se sentarem, conversarem e aceitarem que é normal ter pontos de vista diferentes sobre um mesmo tema. Ter nervo e garra a defender os seus argumentos é saudável e recomendável, mas fechar-se na sua bolha e não querer ter contraditório é redutor.

A grande questão é: como resolvemos isto? Não tenho a solução, mas acredito que para as pessoas começarem a “se entender e se escutar” temos de responder às duas seguintes perguntas:

Por que razão vemos a política de forma tão diferente?

A sociedade é composta por pessoas com origens, percursos e personalidades diferentes. Esta diversidade que é tanto mais vincada dependendo da multiculturlidade do país em que vive determina a visão que cada um tem sobre os diferentes assuntos que nos preocupam e interessam.

Muitas vezes assumimos, sem pensar, que determinada coisa deve ser assim porque estamos plenamente convictos que o deve ser, quando o exercício a fazer primeiro seria “Porque penso desta forma?”. Se mergulharmos no âmago desta questão, iremos perceber que muitas das nossas posições nos milhares de assuntos discutidos em praça pública advêm mais dos nossos valores, emoções e experiências vividas (e até genes) do que propriamente da racionalidade. E está tudo certo com isso… Devemos é tomar a consciência de tal. Podem estar certos que os políticos jogam com as nossas emoções mais profundas e atacam fundo nos nossos valores individuais, caso contrário, como haveria tanto populismo e demagogia como há hoje em dia? Zero razão, total emoção, é a fórmula de sucesso deles!

A Teoria dos Pilares Morais desenvolvida por Jonathan Haidt, Craig Joseph e Jesse Graham ajuda-nos a perceber como é que uma comunidade constrói as suas concepções morais e culturais. No modelo por eles desenvolvido, dividem seis pilares morais em dois grupos distintos: ética da autonomia, que inclui a proteção, a proporcionalidade, a liberdade e o segundo grupo envolve a ética da comunidade, onde está a lealdade, a autoridade e a sacralidade. Os três primeiros são aqueles que hoje em dia mais facilmente nos ajudam a perceber como a política se divide nas suas principais visões morais: matriz de esquerda, conservadora ou liberal, porque ajudam a perceber a relação de cada individuo com a tribo. Os outros ajudam a compreender como o grupo mantém a sua coesão e lida com conflitos.

Facilmente chegamos à conclusão que a esquerda coloca mais peso no pilar da “proteção”, seguido da “liberdade” e os liberais claramente mais na “liberdade”, deixando os conservadores com um peso mais uniformemente distribuído por cada um dos seis referidos. No entanto, quem se atreve a dizer desde já que é de esquerda, que é liberal ou que é conservador? Deixo dois temas exemplo: aborto e economia de mercado. Quem é quem? Já sabem se são esquerdalhas ou direitolas?

De onde vem a divisão esquerda e direita?

A história diz-nos que este conceito nasceu da discórdia existente sobre a soberania legislativa e da manutenção ou não do poder de veto do Rei da recém criada Assembleia Nacional em 1789, resultante da Revolução Francesa. Foi curioso que durante as discussões, naturalmente aqueles que estavam a favor de manter o direito de veto do Rei se distribuíram à direita do hemiciclo e os que eram contra agruparam-se do lado esquerdo, pois achavam que isso ainda afetaria a soberania do povo e era contra os ideias da revolução. Por isso, ainda hoje se refere que os mais radicais e progressistas estão à esquerda e os mais conservadores à direita. No entanto, convenhamos que volvidos quase 250 anos desde esses tempos, muita coisa mudou, os conceitos evoluíram e sobretudo o mundo complexificou.

Deste modo, embora as três matrizes políticas que referi na resposta à primeira pergunta ainda estejam perfeitamente alinhadas com os valores das pessoas, a perspectiva esquerda-direita parece-me francamente ultrapassada para as incorporar. O modelo alternativo proposto para dividir a política tem então dois eixos: maior versus menor intervenção do Estado na economia, e o liberalismo versus tradicionalismo (ou autoritarismo) em relação à organização da sociedade e do estilo de vida de cada um. Abaixo, deixo uma proposta mais ou menos alinhada com esta visão e onde o autor encaixou os partidos portugueses. O que pensam desta divisão?

Compasso Político Português

O desafio que vos deixo agora passa por vos convidar a pensar nos grandes temas da política discutidos na nossa sociedade hoje em dia e definir o peso que atribuem ao papel do Estado em cada um dessas temas. As sugestões que vos deixo são as seguintes:

  • Política económica e taxação: Maior ou menor intervenção do Estado? Mais ou menos impostos?
  • Saúde: sistemas universais de acesso? Soluções privadas?
  • Alterações climáticas: Regulação ambiental forte ou fraca?
  • Imigração: Baixo ou alto controlo?
  • Educação: Financiamento do Estado? Livre escolha da Escola?
  • Assuntos sociais: Aborto e eutanásia – sim ou não? Direitos LGBTQ+, sim ou não?

Quem sou eu, afinal?

Se a tua resposta a estas perguntas for “Depende” ou até mesmo “Não sei”, está tudo certo e ainda bem que assim é. Somos muito mais do que os rótulos que nos põem e que nós colocamos aos outros. O mundo é demasiado complexo para ser discutido em realidades binárias ou refletidas naquilo que os nomes dos partidos são.

Agora, antes de quereres para ti “o olhar do bando“, começa primeiro por definir quais são os teus valores e que peso dás aos diferentes pilares morais, para que mais facilmente compreendas porque segues mais uma determinada matriz do que outra. Deixa isso bem claro para ti, e depois despe a capa da arrogância e da superioridade moral perante os outros e pergunta-lhes porque pensam eles de maneira diferente. Estou certo de que em muitos temas chegarão exatamente ao mesmo diagnóstico. Se o tratamento que prescrevem é diferente, é bem provável que a razão disso advenha do facto de a defesa das nossas verdades ser altamente incompleta e frágil. Com abertura suficiente para receber uma visão que pode construir sobre a nossa, o exercício do debate político deixa de ser tão ruidoso, bélico e polarizado. E é extremamente provável que aquilo que pensam hoje seja diferente daquilo que pensaram ou que irão pensar um dia, pois o mundo muda e vocês mudam com ele. Esta é até uma das razões que me levam a “fugir” de partidos altamente ideológicos e pouco flexíveis. Sinto sempre que um dia se poderão desatualizar em face da realidade que a sociedade vive no momento.

É esta humildade e curiosidade sobre a perspetiva do outro que eu gostaria de ver mais hoje em dia. Estou certo de que ajudaria na negociação de acordos mais robustos para o longo prazo e que mais facilmente levaria os políticos ao encontro dos interesses da grande maioria das pessoas. Talvez seja utópico demais…


José Ortega y Gasset, filósofo espanhol do século XX escreveu:

“Ser de esquerda é, como ser de direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, em efeito, são formas da hemiplegia moral…”

Esta foi uma frase escolhida pelo autor para criticar aqueles que se consideram ser de direita ou de esquerda, pois considerava que assim não eram capazes de pensar o mundo de uma forma mais ampla, que fosse para além da sua ideologia. É uma analogia usada com as pessoas que tem paralisia motora numa das metades do seu corpo, condição médica conhecida como hemiplegia.

Se depois de lerem este artigo não se sentirem “imbecis” é um excelente sinal. Significa que são mais do que um rótulo!

Escrito a 28 de janeiro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
Como foram definidos os termos direita e esquerda na política?

Já sei o resultado das Legislativas de 2024!

“Se acertar nao se esqueçam: foi no Mesa de Amigos que leram primeiro!”

Estamos a mais de três meses das eleições e eu vou usufruir da ousadia que este blog permite para fazer uma análise à luz do dia de hoje. Se eu, porventura, acertar nas minhas estimativas, poderei dizer no dia 11 de março “Eu bem vos disse” e se falhar também não haverá nenhum problema, uma vez que nas últimas eleições não houve ninguém (ou quase ninguém) que antecipasse o resultado de maioria absoluta do PS. Deste modo, permitam-me ser o oráculo das próximas legislativas, aguardando pacientemente pelo contraditório vindo do vosso lado.

Taxa de Rejeição e Sondagens

Tenho dito e redito que a melhor coisa que poderia ter acontecido a Luís Montenegro (LM) foi a eleição de Pedro Nuno Santos (PNS). Na minha perspetiva, estas eleições vão jogar-se com os dois partidos do centro democrático e acho que com o aproximar do dia da ida às urnas se vai avolumar o foco dos votos no PS e PSD. A razão para defender esta minha posição está relacionada com a taxa de rejeição: um dos barómetros que tem ganhado mais relevância com a polarização política dos últimos anos.

Entenda por que a taxa de rejeição pode decidir a eleição” by Jornal O Globo

A taxa de rejeição é o reflexo da resposta do eleitor à pergunta: “Em quem nunca votaria?”. Neste campo, LM acaba por ter um potencial de voto mais elevado comparativamente aos restantes adversários: primeiro porque as sondagens ainda são tímidas relativamente a ele e segundo porque tem uma taxa de rejeição mais baixa vs PNS e outros líderes da esquerda (e da direita).

Embora os dados que partilho acima já possam estar desatualizados, pois já temos Secretário-Geral do PS, já aconteceu o Congresso do PSD, e já há uma coligação pré-eleitoral fechada entre PSD e CDS, eu acredito que ainda assim podemos tirar mais algumas conclusões com estes dados:

  • Sondagens que atribuam uma maioria de esquerda liderada pelo PS ou até um empate técnico com a Aliança Democrática podem ajudar à migração de votos do Chega (CH) e da Iniciativa Liberal (IL) para o maior partido da oposição, por haver muitos eleitores neste campo que são fortemente anti-socialistas. Estes eleitores poderão ter uma maior preocupação em garantir que o PS não é novamente Governo do que colocar uma cruz seguindo uma lógica de pureza ideológica. Vejam o que aconteceu em 2022 com a esquerda… O mesmo pode acontecer com a direita desta vez.
  • PNS vai secar a esquerda, porque, claramente, com a taxa de rejeição que André Ventura, Rui Rocha e Nuno Melo têm, o eleitorado de partidos como PCP, BE e Livre não terá pudor em aliar-se ao líder socialista posicionado (alegadamente) mais à esquerda de que há memória e garantir mais votos neste campo.
  • O CH está e vai continuar no centro político da discussão. O PSD sabe que perdeu as eleições (também) por causa deste partido em 2022 e o PS sabe que teve uma maioria absoluta à custa da narrativa do fantasma do CH. Deste modo, vamos continuar a ver jornalistas a pedir esclarecimentos a LM sobre possíveis alianças com a extrema-direita no pós 11 de março e vamos ver PS sempre a escarafunchar neste tópico para que ele seja usado como maior arma de fixação de eleitorado. Ao dia de hoje, o líder do PSD garantiu (e bem, na minha opinião) não negociar com André Ventura e também garantiu que se ficar em segundo não governa. Se depois dá mortal encarpado com flip-flap à retaguarda no dia 11 de março, então aí será julgado por essa decisão. Mas o PS não está contente com esta clareza de posição do PSD… não lhes dá mesmo jeito nenhum! (Nem a eles, nem à comunicação social que perde os seus deliciosos sound bites)
  • Os indecisos vão ter um papel determinante: Em 2022, a três meses das eleições representavam 14% do eleitorado, agora são 17%. É aqui que LM e PNS vão apostar muitas fichas e seguindo a lógica do meu argumento, vamos ver uma campanha feia e de ataques regulares com o intuito de ver a taxa de rejeição de ambos aumentar para captar eleitorado nas franjas. Será a campanha em que os dois líderes do centro chamam “radical” um ao outro… Fraco, fraquinho!

O argumento da Estabilidade e promessas eleitorais (ou eleitoralistas)

Temos assistido a ambos os partidos a defenderem-se como sendo a opção do garante da estabilidade do país. Parece-me que é o cavalo de batalha mais importante para os portugueses.

PNS usa o exemplo da gerigonça como bandeira, pois ainda recentemente se percebeu que foi o Governo mais bem avaliado pelos portugueses nos últimos 20 anos e que permitiu António Costa governar sem “grandes problemas”. Por isso é que o novo Secretário-Geral nem fala sobre a possibilidade de nova maioria absoluta… sabe que é um cartão de visita péssimo para as próximas eleições. Já os sociais democratas usam e abusam desta recente governação socialista para dizer que o PS não consegue garantir estabilidade nenhuma ao país. LM gosta deste argumento não só porque lhe dá jeito para ir buscar eleitores ao centro, como vai buscar à direita ainda que de forma mais subtil. O exemplo dos Açores e o cenário de eleições antecipadas que assistimos nesta região autónoma são o reflexo da falta de confiança que o PSD quer passar também sobre eventuais coligações com o CH e a IL, pois ambos roeram a corda aqui. É obvio que IL é muito diferente dos extremistas de direita e a sua influência no PSD é muito importante para reduzir o papel e peso do Estado na sociedade, mas o que se está aqui a jogar é o saque aos votos e aí já sabemos que vale tudo!

À parte deste argumento, saltam promessas eleitoralistas tanto dos encarnados como dos laranjas para os pensionistas, funcionários públicos e as classes mais baixas da sociedade portuguesa. Não tenho dúvida nenhuma que são medidas que vão sofrer operações de cosmética muito significativas no cenário de pós eleições. Portugal não tem espaço para aumentar a dívida pública e tem uma forte pressão da Europa para baixar custos. Ainda na semana passada, os ministros das Finanças da União Europeia chegaram a um acordo sobre a revisão das regras orçamentais, fixando tetos de dívida e défice muito claros. Não há espaço para delírios.

Sendo pragmáticos: é óbvio que ambos os líderes têm de apelar aos pensionistas, sao 3,5 milhoes de eleitores; é óbvio que têm de apelar aos mais pobres, pois 42% de famílias portuguesas não auferem rendimentos suficientes para pagar IRS, dependendo assim, largamente dos serviços do Estado; e é óbvio que têm de apelar aos funcionários públicos, são 750 mil eleitores à espera de aumentos de rendimentos, principalmente médicos e professores. Agora se o vão cumprir? Claro que não… Podem não ser os políticos mais bem preparados, mas não são estúpidos. Joga-se aqui uma vitória nas eleições, não o orçamento para os próximos 4 anos. Até lá muita coisa muda…

Personagens e enredos secundários

Acho que estas vão ser as eleições com mais intervenção de figuras e instituições externas que podem em larga medida influenciar e trazer fatores de incerteza para a conclusão que tiro a seguir:

  • António Costa, o optimista irritante que disse mais de uma dezena de vezes “confiança” no discurso de Natal, é dos políticos mais narcisos que temos. Por isso, uma perda das eleições por parte do PS é uma perda do antigo Primeiro-Ministro. Se as ganhar, pode dizer que é fruto do trabalho dele, se as perder vai dizer que foi uma cabala bem montada contra si. Vejo-o claramente a querer marcar presença regular na campanha.
  • Ministério Público, o jogador mais influente na política nos últimos anos, está aqui sob pressão para clarificar algumas acusações e insinuações feitas no caso Influencer o mais rapidamente possível. Isso poderá beneficiar ou prejudicar ambos os lados do espetro político.
  • Pedro Passos Coelho, o D. Sebastião da direita, que não dá a entender se está a espreita ou não para derrubar Montenegro num possível cenário de derrota política ou se está só a querer fazer jus à figura messiânica que aparenta ter sempre que fala. Ainda recentemente falou para atrapalhar o seu próprio partido com o tema “Chega”. A sua ambiguidade foi desnecessária… Era bom que estivesse ao lado de LM nestas eleições, para ajudar a captar eleitorado a Ventura, o seu maior fã. Acredito que se acontecer será mais para o fim da campanha.
  • Marcelo Rebelo de Sousa, o político mais popular das últimas décadas, tem lançado, recentemente, rasgados elogios ao antigo Primeiro-Ministro, esperando, certamente, que não surja mais uma sombra na política portuguesa. A sua transmissão de força e motivação para com António Costa e sua eventual ida para cargos europeus são o reflexo do jogador hábil que o Presidente da República é ao querer derrubar o político com menor taxa de rejeição do cenário português. Até porque sabe que um António Costa ressabiado e desocupado terá uma influência na política em Portugal pouco valiosa no seu ponto de vista. Um vaidoso reconhece sempre outro vaidoso…
  • Plano de Recuperação e Resiliência, o balão de oxigénio da economia portuguesa, será dos melhores aliados do Governo seguinte. É muito dinheiro e se for conseguida uma solução estável nos próximos 2 anos é quase certo que a economia (salvo algum percalço imprevisível ao dia de hoje) irá crescer e poderá garantir uma futura reeleição. Vai certamente ser uma valiosa arma de combate político.

Uma espécie de conclusão…

Acho que a Aliança Democrática vai ganhar as eleições, mas depende da cambalhota dos eleitores do Chega e da IL para tal. Segundo a sondagem de opinião realizada pela Aximage para DN/JN/TSF, 78% dos eleitores com mais de 65 anos rejeita o partido de Ventura, dando a LM a possibilidade de garantir estes eleitores. Para além disso, Rui Rocha e o líder do Chega têm 44% de potencial de voto nos mais jovens (18-34 anos), o que me leva a crer que numa visão anti-socialista, estes eleitores podem cair para o PSD por considerarem que o seu voto terá maior peso devido ao método D’Hondt. Este último ponto não é de somenos importância: a direita quer o poder ou quer fazer um voto ideologicamente puro (IL) ou contra o sistema (Chega)?

Se estou certo? Talvez sim, talvez não… Estamos a um tempo suficientemente distante das eleições para isto mudar tudo, mas estou seguro desta minha análise ao dia de hoje. O PS já leva muitos anos de governação, seria útil haver a mudança de cor. Se há aqui algum grau de análise emocional, se calhar sim, mas solidifiquei a minha posição com argumentos que me parecem bastante plausíveis. Se acertar não se esqueçam: foi no Mesa de Amigos que leram primeiro!

Escrito a 27 de dezembro de 2023 por Sérgio Brandão

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Pedro Nuno e Montenegro: dois sociais-democratas unidos por tudo o que os separa

Aborto, um direito para a clandestinidade…

“Se uma mulher tiver de fazer um aborto, vai fazê-lo de qualquer maneira… Irá fazê-lo num lugar sem segurança para a sua saúde, se estiver desesperada, e não conseguir que um médico o faça. É assim que tem acontecido desde o início dos tempos. Portanto, se 25 homens no Alabama a considerarem uma criminosa, isso só aumentará o seu sofrimento”, Paula Rego

A decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América em revogar a jurisprudência da decisão do caso Roe v. Wade, deve ser lembrada hoje e no futuro como uma prova clara de que os direitos não podem ser dados como adquiridos ou independentes das nossas escolhas políticas.

A partir de agora o aborto passará a ser legislado estado a estado, o que significa que os EUA serão um país a duas velocidades, com mais uma razão para reforçar a sua divisão crescente.

Apesar de tomada por um tribunal, esta é uma decisão política, não judicial.

A estrutura judicial do Supremo Tribunal existe para equilibrar os poderes Executivo e Legislativo do Estado Federal, tem um quórum de juízes nomeados pelo Presidente, referendados pelo Senado, que ocorre apenas quando algum dos juízes decide sair voluntariamente ou por reforma.

O Tribunal é uma estrutura que garante estabilidade ao sistema e que ao longo do tempo tem funcionado como um contra peso do poder político do governo norte americano.

Só é possível justificar que um retrocesso desta magnitude ocorra  no período de vigília do Presidente Democrata Joe Biden, pela alteração significativa do quórum de juízes ao longo do mandato de Donald Trump. Apesar de Trump ter abandonado a casa branca em 2020 as consequências das suas decisões continuam a fazer-se refletir no país.

Que impacto é que esta decisão pode ter nos EUA?

Apesar do direito ao aborto ter sido revogado da esfera constitucional para a realidade de cada estado, esta deverá ser uma decisão com um impacto limitado no redução do número total de abortos ou na restrição do acesso, devido a:

1. Os estados que se preparam para banir o aborto já têm atualmente em vigor um conjunto de medidas que restringiram significativamente o acesso a prestadores médicos abortivos, pelo que estes já estão fechados ou deslocalizados em outros estados;

2. Dos estados que vão legislar para ilegalizar o aborto, três (Texas, Idaho e Oklahoma) já tomaram medidas ao longo do último ano que já impediam a maioria dos diferentes tipos de aborto, e nos restantes estados os prestadores médicos abortivos que existem representam menos de 5% de todos os abortos praticados nos EUA;

3. A compra de comprimidos abortivos pela internet será muito difícil de controlar;

4. É provável que os Estados Democratas ou Organizações dedicadas criem fundos e estruturas que possam apoiar mulheres a dirigir-se a locais que lhes permitam usufruir desta liberdade em segurança.

Apesar do número total de abortos poder não diminuir de forma significativa no país e os objetivos dos movimentos pró vida dos EUA não serem atingidos, continuará a existir um problema grave de segurança e acesso ao aborto que se vai fazer sentir principalmente nas franjas mais vulneráveis e pobres da sociedade americana.

” se uma mulher tiver de fazer um aborto, vai fazê-lo de qualquer maneira… Irá fazê-lo num lugar sem segurança para a sua saúde, se estiver desesperada, e não conseguir que um médico o faça. É assim que tem acontecido desde o início dos tempos. Portanto, se 25 homens no Alabama a considerarem uma criminosa, isso só aumentará o seu sofrimento”

Paula Rego, Lusa, 31 de maio de 2019

Nada será como dantes.

Parece estar a ser criado um contexto lose-lose onde os estados liberais veem ferido um dos direitos constitucionais das mulheres e os estados conservadores vão sentir-se traídos pelos estados liberais adjacentes por não verem cumprir os resultados desejados.

A decisão do Supremo Tribunal dos EUA pode contribuir decisivamente para a divisão de uma federação de 50 estados que vê crescer 2 países radicalmente diferentes: um democrata, cosmopolita e liberal que se concentra no Norte e nas grandes cidades/estados das costas Leste e Oeste e outro Republicano, tradicional e conservador que se concentra nos grandes estados do centro e sul do país.

Só há uma forma das mulheres vencerem. Os democratas têm de aceitar a decisão, reconhecer a mudança e construir o futuro a partir dela, construir o futuro com os republicanos, aproximando posições e compromissos que unam as partes. Sem diálogo, compromissos e união, não haverá futuro, ninguém vencerá.

Hoje é o aborto nos EUA, amanhã pode ser um direito nosso em Portugal.
Lembrar-me-ei disso, sempre que votar.

Escrito a 27 de junho de 2022 por João Tiago Teixeira

Créditos de imagem: O aborto clandestino visto por Paula Rego.

Links de interesse:

It’s now up to the states’: Republicans move to ban abortion after Roe falls

17 Ways the Supreme Court Just Changed America

Portugal em 2021, o menor número desde a legalização da IVG