Estados de Guerra, Promessas de Paz

Embora o país tenha mergulhado ao longo dos últimos meses num transe coletivo em que a nossa atenção foi completamente capturada pelas dinâmicas dos debates, partidos e resultados eleitorais, a realidade está muito para lá das notícias de rodapé a que tem sido remetida.

Na passada sexta-feira a Rússia foi alvo de ataques terroristas em Moscovo, que em resposta a esta fatalidade acusa a Ucrânia de participar no seu planeamento anunciando estar em estado de guerra. Do outro lado aumenta a urgência de financiar o esforço de defesa na Ucrânia para que possa continuar a resistir ao assédio russo, ao qual não ajuda em nada o impasse no financiamento norte-americano.

Na Europa temos visto posições de força distintas, por um lado Emmanuel Macron (re)afirmou não poder excluir a possibilidade do envio de tropas europeias para a Ucrânia, por outro Olaf Scholz mantém uma posição ponderada, cimentando a Alemanha como uma das nações mais prudentes na gestão do conflito, sendo ainda assim das mais generosas no suporte financeiro e militar que está a prestar à primeira linha de defesa da Europa.

No passado dia 15 de Março os lideres francês e alemão fizeram-se acompanhar do seu congénere polaco com o objetivo de afirmar uma posição de unidade, perspetivando entre si um reforço no apoio dado à resistência Ucraniana, declarando ainda a vontade de compatibilizar visões contrastantes.

Além disto, apesar dos (não) desenvolvimentos no conflito, tem existido uma pressão crescente da NATO para que os estados membros da Aliança reforcem o investimento em defesa para pelo menos 2% do PIB, meta atingida por menos de metade dos aliados e onde Portugal surge ainda com um investimento inferior a 1,5%.

Embora Portugal esteja ainda longe de um objetivo que se estima concretizável em 2030, tem mostrado uma evolução positiva, fazendo crescer a rúbrica de investimento em material militar, onde se destaca a compra de 4 aviões de transporte militar KC-390 que encaixam na estratégia de aquisição de material cujo uso possa ser civil e militar.

Embora o agora indigitado primeiro ministro Luís Montenegro tenha declarado no período eleitoral estar comprometido com a meta da NATO dos 2% do PIB, não chegou a concretizar a forma como pretende que tal investimento se faça.

Durante o período eleitoral o Grupo de Reflexão Estratégica Independente fez chegar a todos os partidos a sua posição sobre a situação de emergência que se vive nas Forças Armadas, depauperadas de quadros, com falta de recursos de base e em perda crescente motivada pelas sucessivas reduções de privilégios.

Pela sensibilidade que os temas de defesa nacional acarretam é compreensível que não se discutam em praça publica as opções estratégicas no escopo militar, ainda assim é fundamental que se estabeleçam metas sobre o que significa investir 2% do PIB em defesa, seja na valorização do pessoal militar seja no investimento em infraestruturas ou de equipamento, ainda mais num futuro em que as armas convencionais perdem tração e vemos na Ucrânia drones de poucos milhares de euros a rivalizar com misseis de milhões na proporção de danos e retrocessos que conseguem causar no seu opositor.

E se é verdade que os portugueses estão no topo dos defensores da permanência na NATO (88%), e há uma larga maioria que dizem que o investimento do país em matéria de defesa deve manter-se (34%) ou aumentar (43%), também é verdade que estes índices de resposta só são compatíveis com a ausência do dilema de enviar tropas portuguesas para cenários de guerra ou de ver diminuídos alguns benefícios sociais para acomodar um maior investimento na área militar.

Estar numa economia de guerra significa empobrecer, reduzir apoios sociais e ampliar sentimentos de injustiça, algo que só pode beneficiar partidos como os que de forma consistente rejeitam estas opções. Se esse momento chegar o PCP não estará sozinho, serão seguramente mais aqueles que por oportunismo ou por convicção concordarão com a posição comunista.

Hoje não temos verdadeiramente que fazer escolhas, mas é possível que esse dia chegue, e se chegar, será mais do que nunca importante ter lideres capazes de aspirar a algo mais para o nosso futuro coletivo:

“My fellow Americans, the issue facing our nation isn’t how old we are; it’s how old are our ideas. 

Hate, anger, revenge, retribution are the oldest of ideas.  But you can’t lead America with ancient ideas that only take us back.  To lead America, the land of possibilities, you need a vision for the future and what can and should be done. 

Tonight, you’ve heard mine. 

I see a future where [we’re] defending democracy, you don’t diminish it.

I see a future where we restore the right to choose and protect our freedoms, not take them away. “

Biden, Discurso do Estado da União, Março 2024

Se esse momento chegar espero que possamos contar com líderes que se afirmem como guardiões da democracia, líderes que acreditem num futuro em que valha a pena defender uma democracia, uma sociedade em que impera o direito de escolha e se protege a liberdade, onde se protege a liberdade de todos, mesmo daqueles que a queiram boicotar.

Escrito a 26 de março de 2024 por João Tiago Teixeira

Créditos de imagem: © Tobias SCHWARZ / AFP

Notícias de interesse:

Já há 11 aliados da NATO a gastar mais de 2% do PIB na defesa | Guerra na Ucrânia | PÚBLICO (publico.pt)

Infografia: 11 países da NATO já gastam pelo menos 2% do PIB em defesa (sapo.pt)

Futuro Governo tem apoio popular para reforçar investimento na Defesa (dn.pt)

‘Unity is strength,’ insist Macron, Scholz and Tusk as trio tries to bury the hatchet over Ukraine strategy – POLITICO

Lula no 25 de Abril, sim ou não? | A liberdade permite-nos discordar…

“Dizer (ou neste caso escrever) o que pensamos de forma não polarizada, construtiva, ainda que contraditória é um hino ao 25 de Abril. Orgulhamo-nos disso!”

No dia 25 de Abril vamos celebrar o quadragésimo nono aniversário da democracia. Há 49 anos que vivemos em liberdade, uma liberdade conquistada pelos nossos pais e avós e que a nossa geração, por vezes, parece desvalorizar.

O convite feito ao Presidente do Brasil, Lula da Silva, para vir a Portugal na altura das celebrações do 25 de Abril e a sua (alegada) inclusão no discurso da cerimónia oficial das comemorações gerou discórdia nos partidos da Assembleia da República e na opinião pública. Pior ficou depois das declarações feitas na visita oficial à China, quando referiu que os EUA e a União Europeia devem parar de encorajar a guerra e começar a falar de paz.

No Mesa de Amigos não ficamos indiferentes ao tema e até temos opiniões diferentes sobre o assunto, por isso escolhemos celebrar o 25 de Abril esgrimindo argumentos sobre os nossos pontos de vista.


Presidente Lula no 25 de Abril? Não, obrigado!

O Brasil é um dos maiores países do mundo, faz parte dos BRICS (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e é um dos parceiros estratégicos mais importantes de Portugal, seja pela história que nos une, seja pelo que o futuro nos reserva, pois será seguramente através dele que a língua portuguesa viverá.

Compreendo aqueles que realçam o privilégio que é poder contar com a presença do Presidente de um país como este na Assembleia da República, ainda assim não vejo de que forma é que a nossa relação diplomática justifica um convite de Estado para discursar na celebração do dia da Liberdade de Portugal e compreendo ainda menos quando este é um convite que depende do nome da pessoa que ocupa esse lugar.

Este não é um convite endereçado ao Presidente do Brasil, Lula da Silva, mas antes ao Lula da Silva, Presidente do Brasil. Todos sabemos (e concordamos) que este convite nunca teria sido endereçado ao Presidente Bolsonaro, pois nenhum dos partidos democráticos com assento parlamentar aceitaria a sua presença.

Assim sendo, de que forma é que o contributo de Lula da Silva pode enriquecer as celebrações do 25 de Abril?

Não podemos ser reféns do nosso passado e Lula já pagou pelos seus crimes, ainda assim falamos de um político que foi condenado por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e viu a condenação ser confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça do Brasil. Temos paralelismos suficientes na nossa democracia que justificam uma maior prudência na formalização deste tipo de convites.

Falando do presente, a recente visita de Lula à China mostrou que este é um político alinhado com a narrativa do bloco dos países revisionistas (China, Rússia, Irão, Coreia do Norte), seja pela defesa do surgimento de uma reserva de valor alternativa ao dólar (como o Renminbi), o enfraquecimento do poder das sanções económicas da Europa e Estados Unidos aos países autoritários, seja pela forma como  responsabilizou a Europa e Estados Unidos pela guerra que grassa na Ucrânia.

Se é compreensível que o Presidente do Brasil defina a política externa da nação que dirige da forma que melhor possa proteger os interesses dos seus eleitores e é aceitável que países aliados que fomentam relações diplomáticas fortes e estáveis possam existir pontos significativamente divergentes, não se compreende como é que no dia em que celebramos a nossa liberdade possamos convidar para discursar em nossa casa alguém que não reconheça ao povo ucraniano, nosso aliado, o direito de serem igualmente livres.

Por isso, considerando o que a celebração desta data significa para a memória coletiva do nosso país e para o nosso regime político, à pergunta “Presidente Lula no 25 de Abril?” respondo: Não, obrigado!


Presidente Lula no 25 de Abril? Sim, mas…

No final do século XIX, Otto von Bismarck, “O Chanceler de Ferro”, liderou a Alemanha com o intuito de garantir a sua unificação após uma série de batalhas conhecidas como as Guerras de Unificação Alemã, que garantiram a preservação da paz na Europa durante quase duas décadas. Conseguiu alcançar de uma forma extremamente hábil a reunificação do seu país em 1871, seguindo uma política de alianças e guerra, que foi posteriormente apelidada de Realpolitik. Esta palavra de origem germânica signfica “Política internacional ou de relações diplomáticas baseada essencialmente em questões práticas e pragmáticas, em detrimento de questões ideológicas ou éticas” (“realpolitik“, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Antes que me acusem de falta de escrúpulos ou ausência de consciência, eu acho que há limites que devem ser considerados aquando do exercício de funções políticas, não vale tudo para os interesses da Nação. Contudo, o ingrato ato de governar ou tomar decisões com base numa perspetiva de bem geral futuro envolve cinismo, pragmatismo e claro está, em determinados momentos a realpolitik. Foi a isto que assistimos neste episódio, tanto do lado português, como do lado brasileiro. Analisemos a situação em três pontos-chave:

Primeiro Ponto: A NATO representa 31 estados que têm um população combinada de mais de 950 milhões de pessoas (~16,5% da população mundial). Os BRICS em 2021 tinham uma população estimada de 3.200 milhões (>40% da população mundial). Deste modo, assumir uma visão do mundo meramente Eurocêntrica (ou “NATOcêntrica”) é uma atitude de enorme presunção e arrogância perante quase metade do mundo. Para o Brasil, a guerra na Ucrânia está tão distante como para nós estão as guerras e conflitos no Sudão, Myanmar, Iémen, Afeganistão ou até Cabo Delgado em Moçambique. Nem preciso explorar a relação e os interesses portugueses neste último país, pois não? É que assim vão-me obrigar a falar dos negócios (obscuros) que temos com os PALOPs…

Segundo Ponto: Os BRICS, como grupo de países de economias emergentes adotam, sem surpresa para ninguém e há muito tempo, posições anti-NATO e sobretudo anti-EUA. Há divergências ideológicas, pois são países com sistemas e valores políticos distintos. Há competição pela influência na ordem mundial e por defesa da multipolaridade em vez do domínio único americano. E há a questão da soberania nacional e não intervenção por parte da NATO em matéria de assuntos internos dos países. Campo onde há muito há a dizer sobre o papel dos EUA, com virtudes e contradições, claro…

Terceiro Ponto: A referida Realpolitik
Portugal viu durante o período Bolsonarista a criação de um fosso gigante entre os dois países irmãos. Por todas as razões históricas, políticas, económicas, sociais e culturais existentes, o nosso país (de 10 milhões de habitantes) pretende manter estreitas as relações com esta potência (de mais de 200 milhões de habitantes). Poderei ser criticado, mas acredito que Portugal neste momento poderá depender mais do Brasil, do que o Brasil de nós. Daí perceber a ousadia do Estado em convidar o Presidente do Brasil a estar presente, com algum destaque, numa, senão a mais importante, data da história contemporânea portuguesa.
Agora, claro está, Lula da Silva, o “tal” Presidente do Brasil, também sabe qual é o jogo político. Por um lado tem consciência que a principal porta de entrada na Europa do maior país da América Latina é Portugal, por outro sabe que a sua economia e poder no panorama mundial dependem de estar nas boas graças dos seus aliados não-europeus.

Se o que o Lula defendeu é contra o que eu defendo? Claro que é! Mas sejamos francos… Surpreendeu assim tanto? Não estavam à espera disso dele? Achavam que ia ter outra posição? Se sim foram ingénuos. E mais serão se acharem que devemos ter uma atitude pedagógica perante o sucedido com discursos paternalistas e armados em paladinos da ordem mundial.

Há necessidade de ter um governante externo ao nosso país presente nas celebrações do 25 de Abril? Sinceramente, acho que não, mas compreendo a presença deste em particular pelas razões acima descritas.

Por isso, à pergunta “Presidente Lula no 25 de Abril?” respondo: Sim, mas que seja de facto a excepção e não a regra. O jogo político e os interesses têm limites. Por isso não manchemos o quadragésimo nono aniversário da nossa democracia com isto. Talvez o Presidente da República, na sua astúcia e subtileza deixe umas mensagens interessantes no discurso. Todos queremos a paz, mas nem todos vemos que a culpa é do invasor e não do invadido. Vejamos o que se passará…


O espaço democrático não se faz de verdades absolutas ou posições indiscutíveis, o progresso faz-se de cedências e compromissos. Este é, por isso, o nosso contributo para que esta data continue a ser celebrada de uma forma aberta, construtiva e inclusiva. Valores que a liberdade nos trouxe e que aqui celebramos. Dizer (ou neste caso escrever) o que pensamos de forma não polarizada, construtiva, ainda que contraditória é um hino ao 25 de Abril. Orgulhamo-nos disso!

Escrito a 24 de abril de 2023 por João Tiago Teixeira e Sérgio Brandão

Davos, Roubini e os riscos de uma “policrise”

Entre os dias 16 e 20 de janeiro está a decorrer a 53ª edição do Fórum Económico Mundial de Davos, que ocorre num contexto especialmente atípico, pois além da ressaca de uma pandemia mundial e o início da guerra na Ucrânia, espreita agora uma crise económica e um possível período de estagflação, algo que não acontece desde os anos 70. (A estagflação caracteriza-se por uma recessão económica em simultâneo com um aumento dos preços.)

Num fórum como o de Davos, é interessante estar atento ao que os comunicadores portugueses dizem nas discussões em que participam, não só porque revelam o pensamento “português” sobre a área, mas porque lançam âncoras para ideias que possam vir a ser desenvolvidas no nosso país.

Na sua comunicação, a líder do grupo Sonae abordou a posição que a empresa adotou durante a pandemia, onde procuraram soluções para evitar dispensar colaboradores do grupo; a importância que as empresas devem dar ao desenvolvimento de empregos que façam sentido; assim como o papel que devem assumir na melhoria da performance e do envolvimento de quem lá trabalha.

O Professor Mário Centeno partilhou uma mensagem de otimismo relativamente às perspetivas de desempenho da economia para o ano 2023. A sua opinião foi fundamentada pelos mais recentes indicadores, que apontam para uma performance positiva da economia europeia no último trimestre de 2022, assim como na perceção de que o início de 2023 possa ter um desempenho positivo no primeiro trimestre (talvez fruto do histórico de restrições no primeiro trimestre do ano anterior que afetaram a procura).

Neste contexto evidencia-se a comunicação da Presidente Executiva da Sonae, Claúdia Azevedo, que participou numa sessão dedicada à atração de talento e a do Governador do Banco de Portugal numa sessão dedicada ao tema da recessão.

Infelizmente as razões do seu otimismo não parecem ter sido suficientes para convencer a opinião dos líderes empresariais, visto que quase 75% dos inquiridos pela PwC partilharam uma perspetiva negativa para 2023.

Entre o otimismo de Centeno e o pessimismo das empresas, onde fica a razão?

Se considerarmos o atual desenvolvimento económico e social, viver no século XXI é em teoria viver na melhor era da humanidade, ainda assim estão a emergir múltiplos riscos que de forma isolada e/ou combinada apontam para cenários cada vez mais prováveis de que a era dourada da humanidade possa estar a terminar.

O “Global Risks Report 2023” publicado agora pelo World Economic Forum em parceria com as empresas Marsh McLennan e o Grupo Zurich identifica os riscos que já estão a impactar negativamente a atualidade, assim como aqueles que podem vir a marcar a agenda do curto (2 anos) e longo prazo (10 anos), a análise deste documento não antecipa razões para grande otimismo.

No relatório o “aumento do custo de vida”, a “crise de energia”, a “inflação”, as “falhas no fornecimento de comida” e a “falha em cumprir os objetivos de neutralidade carbónica” foram identificados como os 5 riscos globais mais prováveis que nos impactam com maior grau de severidade neste momento.

Currently manifesting risks

“Please rank the top 5 currently manifesting risks in order of how severe you believe their impact will be on a global level in 2023”, source World Economic Forum Global Risks Perception Survey 2022-2023

Usando uma perspectiva a 2 anos, a análise do caminho até 2025 antecipa riscos sociais e ambientais, potenciados por tendências como um possível confronto geopolítico ou por crises económicas.

Para os 10 anos seguintes antecipam um panorama dominado pela falha da humanidade em atuar sobre as alterações climáticas e os seus sucedâneos, tal como detalhado na imagem seguinte.

Global risks ranked by severity over the short and long term

“Please estimate the likely impact (severity) of the following risks over a 2-year and 10-year period”, source World Economic Forum Global Risks Perception Survey 2022-2023

Como é que estes riscos podem impactar as nossas vidas?

Por coincidência (ou talvez não), o livro “Megathreats“ lançado por Nouriel Roubini em outubro de 2022, evidencia de forma quase telepática riscos em tudo similares, explicando o que significam para a economia e a nossa qualidade de vida.

De uma forma clara e simples Roubini explica como é que as 10 grandes ameaças que identifica na atualidade podem contribuir para iniciar, reforçar ou prolongar uma grave crise económica estagflacionária:

  1. A crise da dívida – Potenciada pela impressão de dinheiro no período COVID
  2. Fracasso dos setores públicos e privado – O papel da dívida implícita e do crédito ao consumo
  3. A bomba relógio demográfica – Os serviços de saúde e pensões estão em risco
  4. A cilada do dinheiro fácil – Os bancos centrais e o vício de liquidez na economia
  5. A eminente grande Estagflação – A lista de onze potenciais choques de oferta negativos a médio prazo que reduzem o potencial de crescimento, o potencial de produção económica e aumentam os custos de produção
  6. Colapsos de moedas e instabilidade financeira – As ameaças da tecnologia financeira para o sistema monetário
  7. O fim da globalização – O impacto que o friend-shoring, relocalização e nacionalização pode ter nas cadeias de produção
  8. A ameaça da IA – A possível singularidade, a Inteligência Artificial pode destruir empregos sem que crie nada para os substituir
  9. A nova guerra fria – Conseguiremos escapar à armadilha de Tucídides? Um confronto entre os blocos da China e Estados Unidos é inevitável?
  10. Um planeta Inabitável – O custo de combater (ou não) as alterações climáticas

Temos razões para estar otimistas? Ou vem aí a Policrise?

Ser otimista nos anos que correm é um ato de coragem e digno de destaque, ser pessimista é ter sempre razão, não por uma questão de perspetiva ou de inteligência, mas por uma questão de tempo, pois mais tarde ou cedo a desgraça aparece.

São cada vez mais os riscos que nos rodeiam e as (in)ações dos diferentes stakeholders tornam cada vez mais provável que se concretizem, conjuguem e retroalimentem culminando numa “policrise”.

Não vejo qualquer vantagem em estarmos envolvidos num manto de pessimismo, ainda assim é fundamental estar despertos e atentos para os riscos do mundo em que vivemos, não para ficar reféns dele, mas para sermos capazes de tomar e influenciar decisões individuais e coletivas que nos protejam do futuro.

Em momentos como o que vivemos, nunca é demais reafirmar os valores celebrados em Davos: o diálogo e a cooperação. Se inspirados por estes valores lhe somarmos ação, cada um de nós pode ser um agente gerador de mudança na sociedade, podemos ser nós a lançar âncoras para ideias que possam vir a desenvolver o nosso país.

19 de janeiro de 2023, escrito por João Tiago Teixeira

Para os interessados num resumo rápido, partilho um video com a reportagem da CBS News sobre o fórum de Davos que resume o contexto que envolve o evento e explora o conceito da “Policrise”.

Créditos fotografia: Capa – The Global Risk Report 2023 – Insight Report

Global Risk Report – site com documento disponível

Programa do Fórum Económico Mundial de Davos

O otimismo de Centeno

A intervenção de Claudia Azevedo

Megameaças – Onde comprar o livro de Nouriel Roubini

O que matará mais? A guerra ou a fome?

“Perdoe-me por esta frieza e até insensibilidade, mas as consequências maiores e mais devastadoras desta guerra irão muito para além daqueles que são todos os dias mortos nos campos de batalha da Ucrânia”

Nos primeiros dias em que o “mundo ocidental” assistia pela primeira vez em direto através da televisão e das redes sociais a uma guerra nas portas da Europa, uma onda de solidariedade nasceu. No entanto, as coisas podem estar a mudar rapidamente. Passaram-se 4 meses desde a invasão da Ucânia por parte da Rússia e já se percebeu que as vidas destruídas por este acontecimento vão para além do campo de batalha.
Num mundo globalizado, foi inocente acharmos que os únicos afetados e a precisar de ajuda seriam aqueles que estavam no lado leste do Velho Continente. Por isso a vontade de ajudar começa a esmorecer, porque todos estamos a ser direta ou indiretamente, mais ou menos afetados com tudo isto, mas…

O que matará mais? A guerra ou a fome?

Chamo a atenção para o gráfico abaixo:

A Rússia e a Ucrânia juntas são responsáveis por 27% das exportações de trigo (wheat), 23% de cevada (barley), 16% de milho (maize), 12% sementes de colza (rapessed) e 10% de sementes de girassol (sunflowerseed). Estes países fornecem quase 50% dos cereais importados pelo Líbano e a Tunísia e dois terços dos importados pela Líbia e pelo Egipto. As exportações provenientes da Ucrânia alimentam cerca de 400 milhões de pessoas.
Atualmente vamos vendo bloqueios nos portos a sul da Ucrânia, principalmente Odessa, aumentos exponenciais no preço dos cereais, campos agrícolas minados, celeiros e vias ferroviárias atacadas e máquinas agrícolas que trabalham muitas vezes sob o risco de estarem debaixo de fogo. Consegue antecipar a resposta à minha pergunta acima?

Nos países menos desenvolvidos, a escassez agravou e continua a piorar o risco destas pessoas morrerem à fome, sobretudo na Somália, no Quénia, na Etiópia, na Eritreia e no Sudão. É evidente que todos nós vamos sofrer com o aumento do custo de vida e com o prolongar cada vez mais indeterminado desta guerra. A economia poderá entrar em recessão, pessoas poderão ficar desempregadas, regimes políticos poderão ser afetados, mas morrer de fome??? Num mundo em que se estima que 25.000 pessoas, das quais 10.000 são crianças, morrem diariamente de fome ou causas relacionadas, imagina isto a piorar? O problema é que é possível, pois as estatísticas publicadas pelas Nações Unidas indicam que existem 854 milhões de pessoas desnutridas no mundo e a guerra pode colocá-las em ainda maior risco e arrastá-las fatalmente para a fome.

A Europa tem a responsabilidade de arranjar soluções!

A 4 de junho, Luigi di Maio, ministro dos negócios estrangeiros de Itália disse o seguinte: “A guerra mundial do pão já está em marcha e temos de a parar. Arriscamo-nos a ter instabilidade política em África, a haver proliferação de organizações terroristas, a ter golpes de estado. É isto que pode produzir a crise dos cereais que estamos a viver“. A análise e o comentário foram certeiros e desde então, não se sabe se como consequência ou não destas palavras que arrepiaram a Europa, têm sido feitos esforços para arranjar rotas alternativas para fazer chegar as toneladas de cereais retidos na Ucrânia aos países que deles precisam.

Talvez possa ter sido um comentário exagerado e pode-se dizer que aos políticos se deva solicitar prudência e recato na gestão destas situações. Contudo, perdoe-me por esta frieza e até insensibilidade, mas as consequências maiores e mais devastadoras desta guerra irão muito para além daqueles que são todos os dias mortos nos campos de batalha da Ucrânia. A fome será uma das consequências devastadoras, outras se avizinham.

Uma nova ordem mundial se afigura. No curto prazo parece-me que será certamente pior que a anterior a 24 de fevereiro de 2022, mas analisaremos noutro artigo.

Escrito a 19 de junho de 2022 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
A woman carries an infant as she queues in line for food, at the Tsehaye primary school, which was turned into a temporary shelter for people displaced by conflict, in the town of Shire, Tigray region, Ethiopia, March 15, 2021. REUTERS/Baz Ratner/File Photo

Links de interesse:
War in Ukraine: the emerging global food crisis | The Economist

A pior face da humanidade

Dia 4 de Abril acordamos para um novo Holocausto. Bucha é uma memória de Auschwitz, um fantasma que se levanta e lembra à humanidade qual a sua pior face.

Acreditámos num mito de que uma educação superior levaria à elevação da sociedade. Convenceram-nos de que uma democracia assente numa população formada, seria informada, esclarecida e coerente.

Vivemos à sombra de um iluminismo que, apesar de lógico, perde terreno para a obscuridade da crença, do desejo e da emoção. Torna-se cada vez mais difícil convencer terceiros, pessoalmente ou pelas redes sociais, da falta de razoabilidade de algumas das suas opiniões. Hoje é frequente cruzar com facilidade os domínios científicos, éticos, políticos, morais e até de fé, misturar tudo e definir posições abjetas sobre coisas que deviam ser simples, quase unânimes.

A história é uma interpretação aceite da memória coletiva da humanidade

A história não é uma coleção de factos, mas antes uma interpretação aceite da memória coletiva da humanidade. Por muito que os historiadores queiram ser objetivos, não é possível compreender os factos da história sem vê-los à luz do seu contexto e sem teorizar sobre a forma como as dinâmicas externas condicionaram as decisões tomadas pelos protagonistas da altura.

Embora seja importante assegurar um registo factual dos acontecimentos passados, é fundamental ir além dos factos observáveis e compreender os porquês, pois só através desta reflexão é que a humanidade pode evoluir de uma forma incremental. São os factos invisíveis, inobserváveis e muitas vezes não confirmáveis que nos podem munir de armas que previnam a criação de contextos similares, que nos façam precipitar para abismos passados.

Os anos 20 do século XXI serão provavelmente dos mais importantes da nossa história e à medida que passam os dias sobre o início da invasão Russa na Ucrânia, fica cada vez mais evidente que esta não é uma batalha que se trave apenas para lá do Dniepre.

A opinião pública é chave para pressionar os lideres políticos a tomar ações

A envolvente não convencional da guerra está a ganhar escala e torna-se cada vez mais clara o quão acertadas foram algumas das ações tomadas pelos líderes europeus. A opinião pública é chave para pressionar os lideres políticos a tomar ações e a guerra comunicacional inerente às duas fações em disputa, pretende influenciá-la de forma a paralisar a Europa e impedir a defesa e apoio ao território ucraniano.

Muitas opiniões rejeitaram a decisão de censurar os canais propagandísticos dos interesses russos e de forma bastante fundamentada alertaram que a Europa não devia utilizar as mesmas armas de um ditador, alertaram para a imprudência que seria abrir precedentes que pudessem criar fissuras para com os princípios democráticos europeus e até para com a própria liberdade de expressão. Algumas dessas opiniões defenderam até que a manutenção dos canais propagandísticos podia permitir acompanhar a visão russófona do conflito e que pela sua falta de coerência da comunicação, a falta de razoabilidade seria óbvia e por isso ineficaz a confundir a opinião europeia.

O Massacre de Bucha é provavelmente o primeiro grande acontecimento que prova o quão certa foi esta tomada de decisão. Este infeliz evento, equiparável aos fantasmas de Auschwitz, mostra como os mesmos factos podem ser interpretados de forma tão diferente pelos diferentes interesses políticos, e como a vivência do pós verdade pode justificar que apesar de investigações jornalísticas inatacáveis (os trabalhos do NY Times e do Guardian) possam ser caracterizadas por alguns como falsas e propagandísticas.

Bucha: os factos são os mesmos, no entanto existem diferentes histórias à volta destes acontecimentos

Os factos são os mesmos em todas as versões: “foram mortos dezenas de civis em Bucha”, no entanto existem diferentes histórias à volta destes acontecimentos. Infelizmente não precisamos de sair do nosso país para ver isto, temos tido diferentes comentadores que perante estes factos, têm tentado contaminar a opinião publica através dos jornais e talvez com isso abrandar o apoio que Portugal pode dar a este conflito.

Se para alguns a comunicação é racional, intencional e cumpre uma agenda deliberada, para aqueles que a ouvem é a emoção as suas crenças e a sua fé que os faz decidir sobre quem tem razão e o que será ou não verdade.

Embora todos pareçam desejar a prevalência da racionalidade, não podemos ignorar a forma como a emoção assiste o pensamento. Talvez seja a forma como a emoção e a razão se confundem que faz a humanidade única, talvez seja essa a característica chave que nos faz tomar sentido do mundo e ser diferentes de todas as outras espécies, e talvez por isso seja esta a pior face da humanidade.

Image Credit: Partilhado por @Carlosgpinto

Outras notícias de interesse:

https://www.theguardian.com/world/2022/apr/05/satellite-images-of-corpses-in-bucha-prove-russian-claims-wrong

https://rr.sapo.pt/noticia/mundo/2022/04/03/ucrania-denuncia-execucao-de-civis-em-bucha-e-fala-em-nova-srebrenica/278858/

Guerra da Ucrânia, perderemos todos ou não?

Guerra na Ucrânia: alguém que não tenha nada a perder, pode simplesmente querer que todos os outros percam também.

Olhando ao presente, a Rússia já perdeu. Putin está condenado a perder. A Ucrânia chora as suas perdas e resiste. A questão que o futuro se encarregará de dar resposta é se perderemos todos ou não.

Dia 24 de Fevereiro de 2022 ficará registado como o dia em que a Europa acordou para o início da primeira guerra nas suas fronteiras no Século XXI. Foi um dia igual àqueles que recordo de estudar na infância, onde aprendi sobre as atrocidades longínquas, outrora cometidas nas velhas Guerras Mundiais, cujo gradiente cinza das imagens engana o ingénuo espírito das crianças, que crescem num tempo de paz e prosperidade, pensando que aquela história teria sido vivida por outros que nada tinham a ver consigo ou com os seus.

O exército Russo apresentou-se nas fronteiras ucranianas como um dos maiores do mundo, mais de 700.000 soldados, o maior arsenal nuclear do Mundo e um orçamento anual militar apenas superado pelos da China e Estados Unidos.

Dado o contexto económico e social da Rússia se traduzir num estado híper centralizado nos corredores do Kremlin, ineficiente, pensado para favorecer a persistência das forças de poder existentes, alicerçado num esquema de incentivos que anula a competitividade interna, levam a que o exército de Putin seja acompanhado por um PIB de 1.478 Milhões de Euros, valor equiparado ao espanhol, assente na extração de recursos naturais e alicerçado por uma cadeia de valor altamente dependente da importação de tecnologia ocidental.

GDP (current US$) – Spain, Russian Federation, France, Germany, United Kingdom, World Bank national accounts data, and OECD National Accounts data files.

O exército russo combate com o objetivo de defender e reforçar as posições de poder existente

Tal como o contexto económico, as ações militares são desenvolvidas dentro do mesmo contexto, o exército que combate em território ucraniano luta pelos objetivos definidos pelo seu líder, que para todos os efeitos tem como objetivo o de defender e reforçar as posições de poder existente na Rússia.

Na aceção da sua população a Rússia já perdeu, pois as sanções económicas que se fazem sentir no país estão a empobrecer e a prejudicar uma população já de si pobre, que vive numa sociedade muitíssimo desigual e que caminha para um trilho de faltas e privação.

Putin está condenado a perder, ora porque perdeu um dos seus principais trunfos, o mythos da invencibilidade do seu exército, ora porque se deixou trair a si próprio, ofuscado pelo brilho da sua liderança, chegou a um isolamento tal que se apresenta receoso daqueles que o rodeiam, parecendo recear o vazio da sua própria sombra.

A Ucrânia chora as suas perdas, as muitas vidas perdidas em combate, os muitos civis inocentes que foram abatidos na escalada militar e todas as infraestruturas que estão a ser destruídas pelos intensos bombardeamentos. A Ucrânia chora as suas perdas, mas faz delas a uma força e resiste, insiste e cresce sob um novo mythos de uma resistência que se parece querer perpetuar.

Alguém que não tenha nada a perder, pode simplesmente querer que todos os outros percam também

Imaginando as tentações que podem passar pela mente de um condenado, não é descabido pensar que alguém que não tenha nada a perder possa simplesmente querer que todos os outros percam também. Por isso, só o futuro conseguirá responder à questão: No fim perderemos todos, ou não?  

Outras notícias de interesse:

Understanding Putin’s war of resentment and how to stop it – European Politics and Policy or the London School of Economics

Russia Is Too Small to Win – Project Syndicate

The world’s 20 strongest militaries – Business Insider

Featured image credit: Revista Time Março 2022