O que é que torna um Líder verdadeiramente memorável?

Para Simon Sinek, a resposta está na capacidade de criar um legado que transcenda o seu momento. Escolhi o livro Leaders Eat Last para escrever a minha primeira crónica de 2025 porque este moldou o meu crescimento pessoal e profissional, oferecendo os alicerces para aquilo que acredito ser a essência da liderança em contexto organizacional: criar um ambiente de segurança e confiança que permita a uma equipa prosperar.

Embora Sinek seja mais conhecido pelo best-seller Start With Why e pela sua emblemática TED Talk de 2011, vista por milhões de pessoas, considero Leaders Eat Last a sua obra mais transformadora. Entre os muitos materiais que explorei sobre liderança, este livro destaca-se por apresentar o líder que o futuro das organizações necessita: alguém que coloca o coletivo acima de si mesmo e projeta o impacto da sua liderança para lá do seu mandato presente.


O Círculo de Segurança

“Trust is like lubricant. It reduces friction and creates conditions much more conducive to performance.”

Um dos conceitos mais marcantes do livro é o “Círculo de Segurança”. Sinek defende que a verdadeira liderança vai para além do indivíduo, centrando-se em criar um ambiente onde a confiança floresça, haja espaço para errar e as equipas se sintam seguras para colaborar.

O impacto de um ambiente de confiança é evidente e quando os líderes falham em construir este contexto, as equipas tendem a fragmentar-se em subgrupos, reduzir a comunicação e fomentar uma competição interna prejudicial. Embora alguns possam argumentar que esta competitividade pode estimular o crescimento e a procura por melhores resultados, Sinek lembra-nos que essas vitórias são geralmente individuais e alcançadas à custa do coletivo – um contexto de win-lose que não beneficia o todo da organização.

Por outro lado, as equipas que operam dentro de um Círculo de Segurança “viram as costas para dentro”, protegendo-se mutuamente enquanto enfrentam desafios externos. Este modelo promove uma comunicação aberta, capacidade para experimentar e inovar, partilha de informações e a construção de um ambiente onde o todo é sempre mais forte do que a soma das partes. A competição está lá fora e esse é foco que garante às empresas ficar mais perto de vencer os concorrentes no mercado.


Liderança e Responsabilidade

Para Sinek, assumir uma posição de liderança não significa usufruir de privilégios, mas aceitar o bem mais precioso que lhe é confiado: a responsabilidade pelos outros, especialmente por aqueles que dependem de si.

O líder é responsável pelo sucesso daqueles que o seguem e, por extensão, de toda a organização. Sinek defende que os melhores líderes são aqueles que assumem totalmente esta responsabilidade e são capazes de a conjugar com o ato de delegar autoridade às pessoas mais próximas da informação, da ação ou do cliente, permitindo que se tomem decisões mais rápidas e alinhadas com visão organizacional.

Isto só é possível em organizações que praticam o que ele advoga no seu Start With Why. Só onde o “porquê” é claro para todos é que é possível implementar este tipo de abordagem, pois este “porquê” fornece a bússola necessária para orientar as pessoas a decidir bem em cenários desconhecidos e incertos. O sucesso neste ponto é particularmente relevante para todos os líderes que enfrentam um desafio “impossível”: responder rápida e eficazmente às urgências do dia a dia, numa realidade em que são todos obrigados a fazer mais com menos e ao mesmo tempo desenvolver equipas de elevada performance, autónomas e competentes.


O Legado da Liderança

“A leader’s legacy is only as strong as the foundation they leave behind that allows others to continue to advance the organization in their name.”

Esta frase encapsula a essência do que Sinek considera ser o verdadeiro impacto de um líder. O legado de um líder não deve ser apenas a nostalgia por um tempo passado, mas sim uma base sólida que permite à organização prosperar depois da sua ausência.

A qualidade da liderança exercida é um fator crítico de sucesso para a competitividade das empresas, seja na retenção de talento, seja no equilíbrio entre a flexibilidade e agilidade exigidas pelos clientes e a escalabilidade necessária ao crescimento e criação de valor para os acionistas. Líderes que criam ambientes de confiança e promovem autonomia não estão apenas a preparar as suas equipas para lidar com o desconhecido, estão sobretudo a garantir que se desenvolvem os líderes na organização, e que o impacto do seu trabalho ecoe no futuro.

Para quem procura explorar uma visão humana e transformadora da liderança, Leaders Eat Last é uma leitura indispensável. Recomendo a versão original, escrita num inglês simples e envolvente, mas existe também uma excelente tradução para português intitulada Os Líderes Comem por Último.

E tu, como líder, conseguiste criar um Círculo de Segurança para a tua equipa? O legado que estás a construir hoje será recordado como nostalgia ou como um marco de transformação?

Escrito a 14 de janeiro de 2024 por João Tiago Teixeira

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Podes encontrar o livro original aqui

O novo Index Librorum Prohibitorum: a censura maquilhada

“Temos de deixar de ter a prepotência de achar que os nossos antepassados eram retrógados e arcaicos. Olhar para o passado e condená-lo com os olhos de hoje é um exercício de pura estupidez intelectual. Os livros devem ser lidos de forma crítica e à luz da realidade social do tempo em que foram escritos. Por isso nos ajudam a “viajar” no tempo e no espaço e são tão importantes para percebermos o que éramos e o que hoje somos.”

O Index Librorum Prohibitorum, é um símbolo representativo da duradoura censura eclesiástica que ilustra a longa e histórica luta entre o pensamento livre e os limites impostos por instituições religiosas. Com o objetivo de salvaguardar o risco moral e espiritual, este representou a forte tentativa da Igreja Católica em controlar e suprimir a disseminação de ideias que, na sua perspetiva, eram uma ameaça à ortodoxia religiosa e à estabilidade social. Foi instituído em 1559 e vigorou até 1966, sobre o papado de Paulo VI. Foi este último que pôs fim a este índice de livros proíbidos.

Auto de Fe en la plaza Mayor de Madrid” por Francisco Rizi

Trago esta nota histórica e uso-a como introdução nesta crónica por me ter cruzado com notícias recentes que referem a alteração de obras conceituadas com o intuito de as tornar mais inclusivas e “adaptadas aos novos tempos”. Daqui destaco a obra de Ian Fleming à volta do espião mais conhecido do mundo, 007, bem como as obras de Agatha Christie e de Roald Dahl.

Nos livros de James Bond, substituíram, por exemplo, a palavra nigga (calão para “preto”) por “pessoa negra” ou “homem negro” e deixaram a seguinte nota para os leitores “Este livro foi escrito numa época em que termos e atitudes que poderão ser considerados ofensivos pelos leitores modernos eram comuns. Uma série de atualizações foram feitas nesta edição, mantendo o texto o mais próximo possível do original e do período”. No livro de Agatha Christie, “O Mistério das Caraíbas”, retiraram toda uma passagem. Essa parte do livro descrevia que uma personagem não conseguiu ver uma mulher negra nuns arbustos à noite. Para além disso, nesse mesmo livro a descrição “dentes brancos adoráveis” foi substituída por “dentes bonitos”. No caso de Roald Dahl, a sua editora decidiu desenvolver uma segunda versão, mantendo à venda a original. Aqui temos exemplos de alterações que se prendem sobretudo com descrições físicas: em vez de “gordo”, “enorme” e em vez de “feia e burra”, apenas “burra”.

Agatha Christie

A tendência não é recente, mas tem-se vindo a intensificar nos últimos anos e a ganhar mais expressão. Da conhecida política de cancelamento que muitos famosos já têm sido vítimas, saltamos para um controlo da linguagem que usa os argumentos típicos do politicamente correto.

Sou a favor de um maior cuidado na nossa linguagem e comportamentos de modo a ter em conta uma redução de atitudes ofensivas, discriminatórias ou marginilizadores de grupos sociais específicos. Todavia, e fruto do ambiente social e político polarizado que hoje em dia vivemos nos diferentes campos da nossa sociedade, isto tem vindo a ser uma forma encapsulada de autocensura e de limitação da liberdade de expressão que tem atingido níveis inopináveis. O constrangimento vivido pelas pessoas para a partilha das suas opiniões e ideias com medo de ofender ou de serem rapidamente rotuladas de insensíveis ou preoconceituosas é absolutamente descabido, primitivo e anacrónico.

Quando muitas vezes em grupo ouvimos em tom de desabafo, ou de exasperação, “Isto hoje em dia já não se pode dizer nada…” percebemos que caminhamos para algo totalmente desmensurável.

É típico ouvirmos a associação deste tipo de movimentos a grupos de esquerda mais radical. De facto, quando olhamos para os Estados Unidos da América, existem algumas organizações como o We need Diverse Books ou o Disrupt Texts cuja objetivo é impedir que livros, que na óptica dos referidos, usam linguagem pouco inclusiva, racista ou misógina sejam acedidos por crianças. No entanto, e como resposta (polarizada) há também um crescente número de grupos de extrema-direita, ultraconservadores com a mesma postura de censura, mas pelas motivos opostos: proibir o ensino de “temas divisivos” sobre o racismo, sexismo ou de género. Mais uma vez, nos EUA, o Moms for Liberty ou o No Left Turn on Education são duas organizações que envolvem as famílias e que querem impedir que certos temas mais progressistas sejam abordados nas escolas, estando dispostos a impedir o acesso a determinados conteúdos. Conclusão: quando uma corrente se dispõe a extremar e a reprimir com o intuito de entrar no campo do politicamente correto “progressista”, outra acompanha para contrapor no campo do conservadorismo. Ambas levam ao mesmo: à censura maquilhada.

Eu confesso que tenho imensa dificuldade em compreender estes movimentos. Quero viver num mundo mais inclusivo e respeitador das diferenças? Claro que sim! Estou disposto a condicionar e a forçar os outros para que pensem como eu? É evidente que não. Tenho sérias dúvidas que este tipo de iniciativas tenham de facto impacto e que ajudem a reduzir atitudes menos inclusivas. Acredito no poder da educação como forma de ajudar crianças, adolescentes e adultos a compreender e a interpretar o que lêem e ouvem à luz da realidade em que foram escritos ou ditos. Sejam coisas do passado ou do presente.


Henry David Thoreau é autor da inteligente expressão “Books are the treasured wealth of the world and the fit inheritance of generations and nations” (“Os livros são a riqueza do mundo e a herança adequada de gerações e nações”). Temos de deixar de ter a prepotência de achar que os nossos antepassados eram retrógados e arcaicos. Olhar para o passado e condená-lo com os olhos de hoje é um exercício de pura estupidez intelectual. Os livros devem ser lidos de forma crítica e à luz da realidade social do tempo em que foram escritos. Por isso nos ajudam a “viajar” no tempo e no espaço e são tão importantes para percebermos o que éramos e o que hoje somos. Este “Neo”-Index Librorum Prohibitorum é absurdo e não nos ajuda a ser melhores.

Escrito a 2 de abril de 2023 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
“Auto de Fe en la plaza Mayor de Madrid” por Francisco Rizi
Agatha Christie’s classic detective novels edited to remove potentially offensive language
James Bond books edited to remove racist references

Links de Interesse:
‘Offensive’ books that have been rewritten

2 livros, 2 géneros, 1 post

Hoje trago-vos livros em dose dupla. Não, não é daquelas promoções que precisam de ler as letras pequeninas, foram só mesmo dois livros que li recentemente e dos quais gostei muito.

Comecemos por Taylor Jenkins Reid e o seu “Daisy Jones & The Six“.

Já tinha lido outro livro da autora, também muito badalado nas redes sociais, mas este entrou para a minha lista aconselhado por uma amiga. Queria algo de fácil leitura que me permitisse disfrutar de umas páginas no final de dias mais cansativos de trabalho.
Não tive spoilers, não fui ler nada sobre o livro, expectativas regradas e lá fui eu.

Que surpresa! Contando a história de uma banda, The Six, a sua chegada ao auge e a colaboração com a estrela em ascensão Daisy Jones, este livro totalmente ficcional conta-nos os altos e baixos da carreira da banda, as relações e adições num claro uso da tão mítica frase: Sex, Drugs and Rock & Roll.

Escrito em formato de entrevista e com tantas personagens diferentes, aquilo que para muitos pode parecer confuso para mim tornou-se motivo de me prender ao enredo. O livro é diálogo, é uma conversa entre narrador e todos aqueles que se cruzam na história da banda. É ação em perspetiva já que podemos acompanhar o mesmo momento pela vista de cada um dos intervenientes.
Taylor dá vida à história com tanto pormenor que cheguei a “ouvir” as canções e concertos de Daisy Jones & The Six na minha cabeça.

Foi agora adaptado a série, esperemos que não seja mais uma daquelas desilusões televisivas que muitas vezes acontecem. Pelo sim pelo não, leiam primeiro o livro!

Mudamos de livro, mudamos complemente a temática e o género literário.

Da ficção à realidade, e desta vez para conhecer “De Memórias nos fazemos” de Violante Saramago Matos.
Um título sugestivo, que em muito faz adivinhar o seu propósito. Uma homenagem da única filha de José Saramago que vai evocando memórias da sua relação pai-filha, em crónicas intimistas e de reflexão, daquela que foi a presença de Saramago na sua vida.
Dividido em três partes, a também escritora, bióloga e pintora para além das memórias deixa-nos a sua interpretação de algumas das obras do Nobel português e daquele que foi o “Empurrão” do pai nas suas aventuras literárias

Se é verdade que de memórias nos fazemos, também nos fazemos dos livros que vamos lendo ao passar dos anos, sendo certo que o que lemos num livro tem muito que ver com o que lá somos capazes de ler.

Violante Saramago Matos

Um dar a conhecer daquilo que foi Saramago enquanto pai atento à educação e desenvolvimento crítico da filha. Um pai que soube dialogar (lembro a situação da birra infantil na praia e de como Saramago demonstrou a Violante a futilidade da situação), a um pai que soube dar conselhos mesmo em situação de divergência politica.

Uma homenagem de escrita sentida, porque como lhe escreveu o pai em cartas:

Dá-me notícias que não sejam só as das chamadas telefónicas. Escrevendo diz-se mais e melhor

José Saramago

Para mim como leitora que tem Saramago como um dos seus escritores favoritos, foi bom conhecer um pouco mais, refletir sobre intertextualidade da sua obra e claro está ter ainda mais a certeza que teria sido alguém com quem tanto gostaria de conversar.

Davos, Roubini e os riscos de uma “policrise”

Entre os dias 16 e 20 de janeiro está a decorrer a 53ª edição do Fórum Económico Mundial de Davos, que ocorre num contexto especialmente atípico, pois além da ressaca de uma pandemia mundial e o início da guerra na Ucrânia, espreita agora uma crise económica e um possível período de estagflação, algo que não acontece desde os anos 70. (A estagflação caracteriza-se por uma recessão económica em simultâneo com um aumento dos preços.)

Num fórum como o de Davos, é interessante estar atento ao que os comunicadores portugueses dizem nas discussões em que participam, não só porque revelam o pensamento “português” sobre a área, mas porque lançam âncoras para ideias que possam vir a ser desenvolvidas no nosso país.

Na sua comunicação, a líder do grupo Sonae abordou a posição que a empresa adotou durante a pandemia, onde procuraram soluções para evitar dispensar colaboradores do grupo; a importância que as empresas devem dar ao desenvolvimento de empregos que façam sentido; assim como o papel que devem assumir na melhoria da performance e do envolvimento de quem lá trabalha.

O Professor Mário Centeno partilhou uma mensagem de otimismo relativamente às perspetivas de desempenho da economia para o ano 2023. A sua opinião foi fundamentada pelos mais recentes indicadores, que apontam para uma performance positiva da economia europeia no último trimestre de 2022, assim como na perceção de que o início de 2023 possa ter um desempenho positivo no primeiro trimestre (talvez fruto do histórico de restrições no primeiro trimestre do ano anterior que afetaram a procura).

Neste contexto evidencia-se a comunicação da Presidente Executiva da Sonae, Claúdia Azevedo, que participou numa sessão dedicada à atração de talento e a do Governador do Banco de Portugal numa sessão dedicada ao tema da recessão.

Infelizmente as razões do seu otimismo não parecem ter sido suficientes para convencer a opinião dos líderes empresariais, visto que quase 75% dos inquiridos pela PwC partilharam uma perspetiva negativa para 2023.

Entre o otimismo de Centeno e o pessimismo das empresas, onde fica a razão?

Se considerarmos o atual desenvolvimento económico e social, viver no século XXI é em teoria viver na melhor era da humanidade, ainda assim estão a emergir múltiplos riscos que de forma isolada e/ou combinada apontam para cenários cada vez mais prováveis de que a era dourada da humanidade possa estar a terminar.

O “Global Risks Report 2023” publicado agora pelo World Economic Forum em parceria com as empresas Marsh McLennan e o Grupo Zurich identifica os riscos que já estão a impactar negativamente a atualidade, assim como aqueles que podem vir a marcar a agenda do curto (2 anos) e longo prazo (10 anos), a análise deste documento não antecipa razões para grande otimismo.

No relatório o “aumento do custo de vida”, a “crise de energia”, a “inflação”, as “falhas no fornecimento de comida” e a “falha em cumprir os objetivos de neutralidade carbónica” foram identificados como os 5 riscos globais mais prováveis que nos impactam com maior grau de severidade neste momento.

Currently manifesting risks

“Please rank the top 5 currently manifesting risks in order of how severe you believe their impact will be on a global level in 2023”, source World Economic Forum Global Risks Perception Survey 2022-2023

Usando uma perspectiva a 2 anos, a análise do caminho até 2025 antecipa riscos sociais e ambientais, potenciados por tendências como um possível confronto geopolítico ou por crises económicas.

Para os 10 anos seguintes antecipam um panorama dominado pela falha da humanidade em atuar sobre as alterações climáticas e os seus sucedâneos, tal como detalhado na imagem seguinte.

Global risks ranked by severity over the short and long term

“Please estimate the likely impact (severity) of the following risks over a 2-year and 10-year period”, source World Economic Forum Global Risks Perception Survey 2022-2023

Como é que estes riscos podem impactar as nossas vidas?

Por coincidência (ou talvez não), o livro “Megathreats“ lançado por Nouriel Roubini em outubro de 2022, evidencia de forma quase telepática riscos em tudo similares, explicando o que significam para a economia e a nossa qualidade de vida.

De uma forma clara e simples Roubini explica como é que as 10 grandes ameaças que identifica na atualidade podem contribuir para iniciar, reforçar ou prolongar uma grave crise económica estagflacionária:

  1. A crise da dívida – Potenciada pela impressão de dinheiro no período COVID
  2. Fracasso dos setores públicos e privado – O papel da dívida implícita e do crédito ao consumo
  3. A bomba relógio demográfica – Os serviços de saúde e pensões estão em risco
  4. A cilada do dinheiro fácil – Os bancos centrais e o vício de liquidez na economia
  5. A eminente grande Estagflação – A lista de onze potenciais choques de oferta negativos a médio prazo que reduzem o potencial de crescimento, o potencial de produção económica e aumentam os custos de produção
  6. Colapsos de moedas e instabilidade financeira – As ameaças da tecnologia financeira para o sistema monetário
  7. O fim da globalização – O impacto que o friend-shoring, relocalização e nacionalização pode ter nas cadeias de produção
  8. A ameaça da IA – A possível singularidade, a Inteligência Artificial pode destruir empregos sem que crie nada para os substituir
  9. A nova guerra fria – Conseguiremos escapar à armadilha de Tucídides? Um confronto entre os blocos da China e Estados Unidos é inevitável?
  10. Um planeta Inabitável – O custo de combater (ou não) as alterações climáticas

Temos razões para estar otimistas? Ou vem aí a Policrise?

Ser otimista nos anos que correm é um ato de coragem e digno de destaque, ser pessimista é ter sempre razão, não por uma questão de perspetiva ou de inteligência, mas por uma questão de tempo, pois mais tarde ou cedo a desgraça aparece.

São cada vez mais os riscos que nos rodeiam e as (in)ações dos diferentes stakeholders tornam cada vez mais provável que se concretizem, conjuguem e retroalimentem culminando numa “policrise”.

Não vejo qualquer vantagem em estarmos envolvidos num manto de pessimismo, ainda assim é fundamental estar despertos e atentos para os riscos do mundo em que vivemos, não para ficar reféns dele, mas para sermos capazes de tomar e influenciar decisões individuais e coletivas que nos protejam do futuro.

Em momentos como o que vivemos, nunca é demais reafirmar os valores celebrados em Davos: o diálogo e a cooperação. Se inspirados por estes valores lhe somarmos ação, cada um de nós pode ser um agente gerador de mudança na sociedade, podemos ser nós a lançar âncoras para ideias que possam vir a desenvolver o nosso país.

19 de janeiro de 2023, escrito por João Tiago Teixeira

Para os interessados num resumo rápido, partilho um video com a reportagem da CBS News sobre o fórum de Davos que resume o contexto que envolve o evento e explora o conceito da “Policrise”.

Créditos fotografia: Capa – The Global Risk Report 2023 – Insight Report

Global Risk Report – site com documento disponível

Programa do Fórum Económico Mundial de Davos

O otimismo de Centeno

A intervenção de Claudia Azevedo

Megameaças – Onde comprar o livro de Nouriel Roubini

Uma uva passa pela Leitura

Dezembro e janeiro são já conhecidos meses de retrospetivas e reflexões, de definição de novos objetivos e desafios, e não poderia deixar de partilhar convosco algumas ideias sobre os meus hábitos de leitura.

Começo por vos dizer que não, não cumpri o meu objetivo no Goodreads. Desafiei-me em 2022, já que defini uma meta bem mais elevada do que em anos anteriores. Vinha bem lançada de 2021 com uns bons livros na conta, mas ainda assim não risquei esta meta a que me propus.

Não partilho isto como uma nota de pesar ou enquanto me castigo por não ter cumprido ou impressionado quem me segue por lá. A verdade é que nem sempre me apetece ler, e está tudo bem com isso! Acontece-me em alturas de maior cansaço mental ou épocas de maior stress no trabalho, ou simplesmente porque, como tantos vocês, me perco nas redes sociais a ver vídeos de gatos fofinhos ou comidas que guardo e que nunca chego a fazer (o primeiro passo para mudar um mau hábito é admiti-lo, certo?).

E 2022 foi muito disto: dias de leitura ávida, a dias sem vontade mental para ler um livro. Foi muito de livros devorados em pouco tempo, a outros com os quais lutei para lhes dar uma oportunidade.

Sobre as leituras de 2022 já vos falei de Agualusa que me encheu o coração com o “Milagrário Pessoal” (podem ler mais aqui) e li também a “A Sociedade de Sonhadores Involuntários”. Comecei a descobrir Leonardo Padura e o seu amigo polícia Mario Conde, numa ida a Cuba de que vos vou falar mais assim que terminar o Quarteto de Havana. Li livros daqueles que se devoram em horas, e em que percebes o porquê de todos o andarem a ler, como foi o caso do “Verity” da Colleen Houver. Mas também li outros que me desiludiram, como o “The Atlas Six”, em que ficas triste por uma história com tanto potencial ser subaproveitada. João Reis aqueceu-me o coração com o seu “A avó e a Neve Russa”, num romance emotivo sobre a inocência e a sua perda. Entre tantos outros mais que folheei este ano.

Para este novo ano voltei a definir um objetivo de leitura ambicioso. Agora com uma mudança de mindset e numa clara tentativa de exponenciar os meus hábitos, e acima de tudo, de aproveitar da melhor forma o meu tempo livre.

Já coloquei alguns livros em espera, e entre outros tantos outros autores, decidi que os próximos tempos serão de redescoberta da obra daquele que é um dos meus escritores favoritos: José Saramago.
Como boa amante de livros também disse em voz alta– talvez para me tentar convencer – que neste novo ano não irei comprar muitos mais livros até terminar a(s) pilha(s) de livros que tenho espalhadas pela casa (sim, a mesinha de cabeceira já não chega). Não vos soa mesmo a promessa vã? Qual objetivo de fitness que fazemos a cada ano e deixamos de cumprir lá para abril?

Quanto a vocês, não sei em que promessas gastaram as vossas uvas passas, mas desafiem-se. Seja a recomeçar a ler ou a ler mais um, dois livros este ano. Não se “obriguem”, e mantenham o hábito de disfrutar de umas páginas uns minutos por dia, seja nas idas para o trabalho seja antes de dormir. E se não estiver a ser do vosso agrado, deixem o livro de lado e encontrem o tipo de livro que vos dá prazer. O importante é isso mesmo, aproveitar!

Um novo ano cheio de grandes histórias e boas leituras, quanto a mim estarei por aqui para partilhar convosco as (re)descobertas de 2023!

O Livro ’tá na Mesa: Milagrário Pessoal

“Milagrário Pessoal” de José Eduardo Agualusa é a segunda sugestão que vos trago para a mesa.

Li-o este ano e foi mais uma forma de admirar a escrita deste autor angolano. Mas atenção, não significa isto que esta leitura tenha sido apenas elevação.

Na verdade, passei por diversas fases enquanto o folheava. De um entusiasmo inicial, passando por uma certa apatia a meio da história, à reviravolta final que me deixou a querer mais.
Podem então vocês questionar-me porque vos sugiro esta leitura.

Simples. Agualusa é dos escritores que mais me desafia, pelo seu vocabulário rico – gosto daqueles livros em que tenho de abrir o dicionário, aprender novos vocábulos e refletir no seu significado – pelo fascínio pela Língua Portuguesa e pelas suas origens, que adiciona a cada uma das suas obras com o seu jeito poético.

Este “Milagrário Pessoal” é um romance não só de amor entre duas pessoas, mas também de amor à Língua Portuguesa. Uma viagem às origens da lusofonia, e assim também uma viagem entre Portugal, Angola e Brasil.

Nele, conhecemos Iara, uma jovem linguista que tem como trabalho recolher novas palavras e catalogá-las. Mas o que poderia ser um trabalho de amor à Língua Portuguesa rapidamente se transforma, com a descoberta de novas palavras, numa ameaça de subversão da beleza do nosso idioma. É aí que com a ajuda do seu antigo professor, Iara parte em busca da origem das palavras que dizem ter sido roubadas à “língua dos passáros”.

Esta história cúmplice, entre Iara e o professor, faz também uma reflexão sobre o poder das palavras.

“Assim como criamos as línguas, também as línguas nos criam a nós. Mesmo que não o façamos de forma deliberada, todos tendemos a selecionar palavras que utilizamos com maior frequência, e esse uso forma-nos ou deforma-nos, no corpo e no espírito.”

Milagrário Pessoal, José Eduardo Agualusa

Nesta reflexão sobre identidade da língua, há também espaço a reflectir sobre hábitos de leitura numa clara crítica aos media e ao interesse que certas obras conhecem apenas quando existe o sentimento de rebeldia ao serem folheadas:

“Em Portugal ainda lêem os Lusíadas?
Sim, confirmei. Os jovens portugueses são forçados a ler Os Lusíadas no liceu. Isso explica porque muitos nunca o leram.
(…)
Deviam proibi-lo, disse. Deviam retirar de circulação todos os exemplares existentes. Talvez mesmo queimá-los. Se os proibissem seria um enorme sucesso. Imagine então se o queimassem em praça pública com as televisões a filmarem. Seria um sucesso internacional.”

Milagrário Pessoal, José Eduardo Agualusa

O menos positivo? Talvez o sentimento de fragmentação a cada capítulo. Dos relatos de sonhos, à narração de fábulas, houve ainda espaço a visitar consagrados autores portugueses, como Sophia e Camilo.

Na verdade, de algo aparentemente disperso ligado por um ténue fio condutor, regressamos nos capítulos finais ao velho Agualusa de sempre

Esta não será certamente a última sugestão que vos trarei deste autor angolano, que é sem dúvida, criador de uma das obras a que me dá mais gosto regressar.

Para despedida, e vos aquecer o dia, partilho convosco a música com o mesmo nome. Fruto da genialidade de Agualusa, surge a letra que dá corpo à música de António Zambujo.
Um ritmo quente que nos embala nesta viagem pelas palavras, e por “Alfama, Leblon Marçal”.

O Livro ’tá na Mesa: A Sombra do Vento

Quem me conhece sabe que sempre que me pedem uma ideia de leitura a boca (e o coração) me fogem para Zafón. E se vos convido pela primeira vez a sentarem-se à mesa para falar de um livro, teria certamente de começar com aquele que há uns anos me roubou o coração: A Sombra do Vento.

Pois bem, remonta a Março de 2010 o dia em que folheei pela primeira vez um livro de Carlos Ruiz Zafón, e é desde aí que este livro ocupa um lugar especial na minha biblioteca.

Lembro-me como se fosse hoje do primeiro capítulo. O momento em que o pai de Daniel Sempere o leva a conhecer o Cemitério dos Livros Esquecidos, um local em Barcelona de mistério e proteção de obras literárias raras.
Durante todo o livro a escrita de Zafón leva-nos a entrar nesta trama, ao ponto de achar que um dia seria eu a entrar nesse santuário, conhecer o guardião Isaac e, segundo mandava a tradição, escolher um livro. O livro que eu adotaria e protegeria para que nunca desaparecesse.

Mas voltando ao início. Foi na sua primeira visita ao Cemitério dos Livros Esquecidos que Daniel Sempere escolheu levar consigo A Sombra do Vento de Julián Carax, livro que dá nome à nossa história e em volta do qual girarão muitas das aventuras. A partir daí o difícil foi querer parar.

Entre livros e aventuras, Zafón dá-nos a conhecer Daniel e Fermin Romero de Torres, aquele que traz uma leveza cómica e que é peça chave na vida do jovem Daniel. Vai-nos também sendo revelada a vida de Julián Carax, autor do livro escolhido pelo jovem Sempere e que se assume uma presença sombria durante todo o enredo, entre outras importantes personagens. Por entre páginas vamos mergulhando numa Barcelona pós-guerra, gótica e sombria, de morte e amor, sempre com um toque de suspense um tanto ao quanto sobrenatural.

A Sombra do Vento é apaixonante, as descrições e intrigas levam-nos a sermos absorvidos por um enredo, em que o destino e os acasos de personagens etéreas se cruzam.

O que é também fascinante nesta obra de Zafón? Ela pode ser o início, meio ou fim da tetralogia a que pertence. Sim, uma série de 4 livros, repletos de personagens e aventuras que se interligam sem uma ordem fixa. Esta é uma tetralogia em que a genialidade do escritor espanhol nos deixa a possibilidade de ler a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos de forma independente sem necessidade de seguir uma ordem pré-estabelecida, guiando-nos apenas pela amplitude da escrita do autor.  

Numa partilha mais pessoal, sinto que de cada vez que falo de Zafón posso levar alguém a apaixonar-se pela leitura, como se a sua escrita fosse a salvação de todos os males no que à falta de entusiasmo pelos livros diz respeito. Como se Zafón tivesse o dom de pôr em palavras aquilo que representa um livro e o seu impacto em quem o lê.

“(…) poucas coisas marcam um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás (…) mais cedo ou mais tarde – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo o quanto aprendemos ou esqueçamos – vamos regressar.”

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

Impacto tão grande que, na verdade, me lembro perfeitamente do dia em que Carloz Ruiz Zafón partiu. Foi a primeira vez em que senti aquele nó na garganta por alguém que não conhecia. Num misto de tristeza e egoísmo por não ter oportunidade de ler mais nada criado pelas suas mãos, até que me veio a mente o que escreveu:

“Existimos enquanto alguém nos recorda.”

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

E vocês, vão voltar a relê-lo em breve como eu, ou abrirão pela primeira vez a porta à obra de Zafón?

Notas finais: A Sombra do Vento é um dos livros que consta do Plano Nacional de Leitura, recomendado para o Ensino Secundário (parece-me uma ótima sugestão para a época natalícia que se avizinha). Poderia sugerir-vos outros livros da sua obra como “Marina”, que merece também outra rúbrica de enaltecimento, ou numa escrita mais juvenil “A Trilogia da Neblina”. Na verdade pouco importa, o que importa é lerem-no.


Sinopse:

“Numa manhã de 1945 um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, “A Sombra do Vento” é sobretudo uma trágica história de amor cujo o eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página.”

Amigos, “O Livro ‘tá na Mesa!”.

Amigos, “O Livro ‘tá na Mesa!”.

Provavelmente já todos ouvimos uma frase semelhante a ecoar alto e bom som pelos corredores da nossa casa, quando o jantar estava pronto, servido e já a arrefecer na mesa. Sim, isto é uma rúbrica em que o nome se lê alto, com sotaque do Norte e cheio de pressão para que vocês desçam rápido as escadas e se sentem à mesa, entre amigos, que a comida, desculpem, o Livro está na mesa.

A verdade é que poderia, dentro da mesma temática de “comidas” entrar agora em metáforas ou reflexões profundas sobre isto da leitura. De como ler é combustível para a alma e imaginação ou, num parafrasear Bíblico, dizer-vos que nem só de pão vive o Homem, mas também de bons livros e boas palavras. Mas não, venho só apresentar-me, e deixar o resto das reflexões para depois.

O meu nome é Rita, sou do Norte, e à mesa e entre amigos venho falar-vos de livros e leituras.

E então, o que dizer sobre mim?

Sou o tipo de pessoa que concorda que na mesa cabe sempre mais um amigo para jantar, assim como nas estantes mais um livro. A que arranja sempre espaço e orçamento para um livro mais ou uma requisição extra na biblioteca municipal. A que deu também uma oportunidade ao formato digital para poupar o ambiente, o peso nas costas, também a carteira, e o espaço livre ainda existente em casa.

Gosto genuinamente de ler, e do poder e enriquecimento que um livro me traz. Gosto de trocar impressões sobre as páginas que vou lendo, e partilhar com os amigos o que vou descobrindo.

Mas não se enganem, como qualquer amor este também já passou, passa e passará por diversas fases. Da paixão intensa em que devoro páginas ou vencia o concurso da biblioteca de requisitante do mês. À perda de fulgor e distanciamento de não ler nem uma página por semana e aos livros durarem meses na beira do sofá. Do amor eclético de ler grandes clássicos, a paixões velozes de ler livros em dois dias.

Já aprendi muito com os livros. Desde palavras novas, a factos que desconhecia. Já viajei sem sair do sofá, absorta e perdida nas suas páginas. Já recriei na minha imaginação personagens inventadas, e fiquei a conhecer biografias de Humanos inspiradores. Já parei livros a meio, desde que decidi que não iria ler algo que não me estava a dar prazer, quando há tantos livros para ler e tão pouco tempo! Assim como já passei noites em branco porque parar a história não era opção.

Já aprendi também, que existem livros para cada uma das nossas fases. E que o melhor da leitura, é que tal como na comida, existem livros para todos os gostos, prontos a serem folheados e descobertos. 

Nesta rúbrica falar-vos-ei dos livros que me marcaram, das coisas boas que vou lendo, e das menos boas também. Trarei amigos para a mesa para partilharmos diferentes gostos literários e descobertas.

Venham, puxem uma cadeira e sentem-se, que “O Livro ‘tá na Mesa!”.