Os mais jovens como agentes de mudança: A sua importância na sociedade atual

Os jovens, cada vez mais cedo, têm uma palavra a dizer sobre a sociedade que os rodeia, seja sobre a sua escola, ou até mesmo sobre a política nacional, e demonstram-no de forma clara e, por vezes, voraz. Mas, e se eles fossem os nossos agentes de mudança?

A política, mas, não só para gente grande

Ao longo dos anos, penso eu, todos nós, interessados nos assuntos “dos grandes”, fomos colocados de parte por estarmos ainda em tenra idade para deles falar, e, por vezes, isso traduziu-se num sentimento de, tanto angústia, como de combustível para ligar os nossos motores de participação cívica. 

Muitos ainda pensam que a política é algo que só deve ser discutido ou participado por aqueles que têm conhecimento na área, ou pelo menos alguma experiência, mas sabemos que essa experiência nem sempre se traduz em saber, daí a vontade de mudança tão voraz que os jovens transportam em si.

As instituições democráticas estão fragilizadas, a política partidária, e o país cada vez mais polarizado, mas, ainda nos resta esperança!

Como a política não é só para os grandes, existem iniciativas, como o Parlamento dos Jovens e o Encontro Nacional de Juventude, que, há décadas, marcam a diferença na sociedade, dando a oportunidade a milhares de jovens por todo o país (e não só!) de debater, de pensar e de fazer política – e que grandes mentes daqui saem!

Aqui aprovam-se recomendações do que podem ser projetos legislativos a serem tidos em conta pelos partidos, essencialmente para lhes mostrar que não estamos adormecidos ou a fazer scroll infinito, de forma, também, a dar a conhecer ao país político as necessidades dos jovens.

Além disto, existe o projeto Manual da Juventude, que compila neste espaço informações de eventos e dinâmicas relacionadas com a participação cívica e juventude, para ajudar os jovens a encontrar estas atividades mais facilmente!

Os entraves à participação jovem

 É certo que há esta dimensão da política, mas, também há a dimensão que por todos é conhecida. Pois bem, essa que tão inacessível é!

A política, num todo, por vezes, é vista como algo complexo e chato para alguns jovens, fazendo com que estes se afastem dela e que se mantenham pouco informados sobre o país político, levando-os, eventualmente, a acreditar em demagogias que apenas são bandeiras eleitorais, muito por culpa dos discursos pouco convidativos de alguns políticos da atualidade.

Com este panorama, e acrescentando ainda o facto de ser difícil, por vezes, ter voz dentro dum partido ou simplesmente numa assembleia municipal, os jovens têm-se distanciado, ao longo dos anos, da política.

Quem fala da política, fala do associativismo jovem, este que tantas barreiras vê no seu caminho, desde a tremenda burocratização a que as Associações de Estudantes (AE) estão sujeitas, levando a que a grande maioria delas em Portugal sejam ilegais; aos Conselhos Municipais da Juventude (CMJ), que uma boa parte dos municípios em Portugal ou tem, mas apenas para dizer que tem, ou simplesmente não se preocupam em cumprir a lei, e nem sequer existem. Mas, repito, ainda há esperança!

O que falta fazer?

Para, de uma vez por todas, começar a dar a devida importância à voz dos jovens e enaltecer o trabalho que fazem, é preciso, primeiro, dar-lhes credibilidade, acabando com alguns preconceitos como os que falei no início. 

Em segundo lugar, é preciso criar mecanismos de fiscalização, por parte do Estado, para fazer com que os municípios cumpram a legislação no que toca à participação jovem, dando a devida relevância aos CMJ, e também, que se desburocratize o processo de legalização das AE, permitindo, assim, que todas as AE possam ter acesso às verbas previstas na Lei, dando lugar à coesão e livre participação democrática de todos estes órgãos. 

Em terceiro lugar, devemos em casa, nas escolas e nos municípios, promover a literacia política, porque, apenas com uma sociedade informada, se formam democracias fortes e sustentáveis, dando assim descrédito às ideias extremistas, que tanto polarizam o discurso nos dias de hoje. 

Por fim, e não menos importante, respondo à pergunta que fiz no início – “Mas, e se eles fossem os nossos agentes de mudança?” – dizendo apenas que não é: “e se fossem”; mas, sim: “já somos”!

Um agradecimento especial à Francisca Cortesão, ao José Cordeiro, à Lara Ruivo, à Maria Neves, ao Pedro Jardim, à Rita Prego, ao Rui Castro, ao Vasco Frazão e ao Vitor André, por contribuírem com as suas ideias durante o Encontro Nacional de Juventude. Sem estas brilhantes mentes, este artigo não seria possível!

Escrito a 21 de abril de 2025 por Francisco de Melo Ambrósio.

Créditos de imagem: Parlamento dos jovens/foto de grupo, 2022/2023.

A hipoteca do futuro dos jovens (e daqueles que ainda não nasceram)

“Será que Portugal terá soluções para evitar a hipoteca do futuro dos jovens e dos que ainda irão nascer?”

Os últimos dois anos têm sido exigentes no que diz respeito às incertezas e mudanças que temos enfrentado enquanto sociedade. Por vezes, sentimos um total descontrolo sobre o rumo que a nossa vida leva. Somos fustigados diariamente por uma realidade que é muitas vezes desenhada como sendo pior do que aquela que esperaríamos e almejamos para o futuro. A pandemia, a guerra, a inflação, a crise climática, entre outros tópicos pouco motivadores, são manchetes regulares que nos têm trazido mais ansiedade do que descanso. É, por vezes, nestes cenários que nos vemos tentados a aplicar o Carpe Diem como forma de relativizar o que nos espera. Ainda que perceba e me identifique em certa medida com este mantra, a verdade é que todos nós devemos lutar por um propósito de vida que seja transgeracional. O meu é simples e talvez igual ao de tantos outros: deixar à minha descendência mais do que aquilo que recebi. E isso comporta três dimensões: económica, ambiental e social. A primeira é fácil de compreender, a segunda requer que eu deixe aos meus filhos e netos um planeta com pelo menos os mesmos recursos que recebi e a última está relacionada com o meu contributo para uma sociedade mais justa, equilibrada e respeitadora. Posso-me assumir otimista no último ponto e muito cético relativamente à sucessão dos dois primeiros.

Faço parte da geração dos Millenials, tendo, como tantos outros, nascido num período de enorme expansão e globalização e de elevado otimismo relativamente ao futuro. Concidiu com a entrada na União Europeia, com a queda do muro de Berlim e com a hegemonia do Ocidente em todo o mundo. Ninguém anteciparia, nessa altura, que fossemos viver duas grandes crises económicas mundiais que impactaram brutalmente o nosso poder de compra. Não se previa que chegássemos a 2022 e o nosso consumo fosse tão elevado que passassemos a esgotar consecutivamente todos os recursos do planeta Terra para um ano nos primeiros seis meses.

Urge então abordar o conceito de Justiça Intergeracional. Há a clara sensação de que o futuro dos nossos filhos será pior do que o nosso presente. O diagnóstico é feito deste modo, porque se assume que serão eles a ter de pagar a atual dívida pública, não saberão (nem eu sei) se serão beneficiários do sistema de pensões e vão receber um planeta com muito menos recursos. Por isso se exige que sejam definidas políticas públicas que considerem não só os mais jovens e mais velhos de hoje, mas também aqueles que ainda não são nascidos.

De hoje para amanhã

Alguns dados interessantes sobre este tema foram abordados no projeto “De hoje para amanhã”, do Fórum Gulbenkian Futuro (ver mais aqui) e permitem tirar conclusões muito interessantes.

Ao nível dos cidadãos, percebemos que 77% considera que deve transferir mais recursos do que os que recebeu da geração anterior e 80% concorda que devem ser criados limites de endividamento para conter os encargos da sua “descendência”. No entanto, os inquiridos não demonstram vontade de fazer sacrifícios, quando confrontados com cenários hipotéticos de redistribuição de recursos com consequente perda atual dos que têm. Deste modo, apesar de existir 85% que considera que a Segurança Social não vai dar os mesmos benefícios no futuro, 76% não aceitaria reduzir a sua pensão em 10% para garantir as futuras.

No que diz respeito aos decisores políticos, temos 89% com consciência que o conceito de justiça intergeracional no discurso político é insuficiente. Os deputados entrevistados (PS, PSD, BE, CDS-PP, PCP, PEV, PAN) manifestam haver ausência de incentivos políticos para falar deste tópico, uma vez que não é suficientemente atrativo para ganhar eleições. Como dizia Jean-Claude Juncker (ex-Presidente da Comissão Europeia, 2007): “We all know what to do, but we don’t know how to get re-elected once we have done it” (“Todos nós sabemos o que fazer, mas não sabemos como ser reeleitos assim que o fizermos“).

O estudo também analisa a opinião dos jovens sobre o conceito. Estes, mais conscientes do seu papel na justiça intergeracional, manifestam como principais preocupações da sua geração o acesso à habitação, bem como ao emprego com salários dignos e adaptados ao seu grau de qualificação. Estes pontos são dos que mais afetam a constituição de família, levando a que em 2021 a idade média de uma mulher para ter o primeiro filho fosse os 30,9 anos, quando comparado com os 26,5 em 2000. Porquê? Para além de outras razões, a que mais me assusta é o facto de a riqueza líquida das famílias ter reduzido 50% desde 2010.

Outros dois aspetos também destacados pelos jovens são a gestão racional dos recursos e impacto no ambiente, bem como a crescente descrença nos partidos políticos tradicionais. Embora os dados digam que os jovens têm mais interesse por temas políticos, acreditam que os atuais representantes presentes no Parlamento não têm capacidade de mudar o rumo do seu destino. Por isso, vemos, por exemplo, tantos movimentos paralelos com agendas focadas no clima.

O que poderá ser feito?

Aplicar políticas públicas que tenham em conta as gerações futuras revela-se como sendo de enorme dificuldade. Os indicadores de sucesso das mesmas são difíceis de definir, o futuro acarreta imensa incerteza e o presente é gerido de forma reativa. A verdade é que cada vez mais este tópico deve ser colocado em cima da mesa, sob risco de estarmos constantemente a hipotecar o futuro de todos por evitarmos decidir com base no longo prazo.

Há sinais positivos sobre o futuro?

Aparentemente não… Neste, como em tantos outros tópicos relevantes para o país, não há um desígnio claro e ambicioso por parte do Governo. Não se sente que haja um “ponto de chegada” no final desta maioria absoluta. No artigo do Expresso (Um Governo “mata-borrão”), publicado no dia 19 de agosto, lia-se os seguintes comentários de cinco socialistas com responsabilidades sobre o governo de António Costa: “Total incapacidade reformista”, “falta de agenda governativa”, ausência de “iniciativa política”, Governo “a reboque dos episódios”, Executivo de “segundas linhas”, que está “demasiado dependente do primeiro-ministro”…

O cenário não é motivador e já preocupa os próprios dirigentes e militantes do partido do Governo. Com certeza não será Portugal a salvar o mundo, o trabalho tem de ser global em algumas matérias, mas a indiferença e ausência de estratégia sobre estes temas tão relevantes contribui para a descrença dos mais novos no país.

É por isso que muitos, que tal como eu, têm um propósito de vida mais ou menos semelhante ao descrito nas primeiras linhas deste artigo se vêm confrontados com a triste desconfiança sobre o futuro que nos espera. Será que Portugal terá soluções para evitar a hipoteca do futuro dos jovens e dos que ainda irão nascer? Como dizia João Miguel Tavares em 2019 no seu discurso no 10 de junho: Dêem-nos Alguma Coisa em Que Acreditar!

Escrito a 29 de agosto de 2022 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
The climate strike has been organised by Fridays for Future Scotland. Getty Images from In Pictures: Young protesters march for the future

Links de interesse:
Fundação Francisco Manuel dos Santos | Justiça entre gerações: perspectivas interdisciplinares