A Teoria da Substituição: o combustível da direita radical

“O “Le Grand Remplacement” foi popularizado pelo crítico literário francês Renaud Camus em 2011. Camus argumenta que as elites estão a promover uma substituição deliberada da população europeia branca através de políticas migratórias.”

Nos últimos tempos tenho-me dedicado a tentar perceber um pouco melhor o que está por detrás destes movimentos de extrema-direita nas democracias ocidentais. Há a tendência de se assumir que é algo pouco concertado, que apenas capitaliza a insatisfação dos “derrotados” da globalização, e que é um presente de muito mau gosto, embrulhado em ideias populistas, para ser entregue à população angustiada e frustrada. Talvez esta descrição seja demasiado depreciativa de tudo isto, pois vemos cada vez mais estudos, reflexões e ensaios publicados a olhar de forma séria e pragmática para o tema. E ainda bem.

O que se sabe hoje em dia é que há pontos das narrativas dos líderes da extrema direita que se tocam. Há alinhamento entre os países para junção de forças no reforço da mensagem. E há sobretudo um enorme conhecimento das pulsões primárias e pretensões do eleitorado radical refletidas em ideologias que têm autores por detrás delas e que são seguidos pelas principais caras que estão à frente destes movimentos.

Vejamos um caso que toca numa dessas ideias conspirativas que têm sido alimentadas nos últimos anos:

O Chega assumiu que para viabilizar o Orçamento do Governo terá de ser negociada a possibilidade de um referendo à imigração. Não vamos entrar no detalhe da proposta, vamos antes perguntar: “Porquê esta perseguição aos imigrantes?”

A Teoria da Grande Substituição

O grande combustível ideológico da extrema-direita é a teoria da substituição.

O “Le Grand Remplacement” foi popularizado pelo crítico literário francês Renaud Camus em 2011. Camus argumenta que as elites estão a promover uma substituição deliberada da população europeia branca através de políticas migratórias. Esta teoria encontra as suas raízes inspiracionais no nacionalismo francês do início do século XX, com foco na preocupação com a preservação da identidade cultural e étnica dos europeus.

Líderes de extrema-direita, como Marine Le Pen, de França, e Viktor Orbán, da Hungria, têm usado esta ideologia para justificar políticas anti-imigração e reforçar a identidade nacional.

Nos Estados Unidos, a Teoria da Substituição encontrou um terreno fértil, especialmente em fóruns online como 4chan e 8chan, onde estas ideias foram amplamente disseminadas. No entanto, foi através dos grupos de comunicação social mais conservadores que estes movimentos ganharam mais destaque. Tucker Carlson, um dos pivots mais conhecidos da Fox News, mencionou a teoria no seu programa mais de 400 vezes, ajudando a trazê-la do anonimato da internet para o centro do diálogo político. Carlson é dos poucos jornalistas que consegue entrevistar Donald Trump sem ser rebaixado e insultado por ele e é um feroz aliado do candidato republicano mesmo depois de sair da cadeia televisiva que o levou ao estrelato.

A disseminação da Teoria da Substituição e de ideologias que enfatizam a substituição deliberada da população tem consequências preocupantes.

Uma das principais consequências é a propagação do medo e da desconfiança em relação a grupos minoritários. Estas teorias tendem a pintar os imigrantes, refugiados e outras comunidades marginalizadas como uma ameaça à cultura e identidade da população maioritária, que na maioria dos casos é a população branca. Ter políticos e outras figuras influentes da sociedade a defender e a reforçar este tipo de discurso normaliza o preconceito, aprova a xenofobia e aumenta a discriminação dentro de comunidades multiculturais.

Além disso, a Teoria da Substituição serve de plataforma para a radicalização e o extremismo. Grupos supremacistas brancos e nacionalistas podem sentir-se justificados nas suas ações violentas, acreditando que estão a defender as suas comunidades contra uma suposta invasão. Abaixo listo três casos conhecidos:

  • Tiroteio em Buffalo, Nova York (2022): Um homem branco armado com uma rifle AR-15 entrou num supermercado e matou 10 pessoas, quase todas afro-americanas. O atirador tinha publicado um manifesto racista de 180 páginas, referenciando repetidamente a Teoria da Substituição.
  • Massacre na Mesquita em Christchurch, Nova Zelândia (2019): 51 pessoas mortas por um atirador que tinha publicado um artigo com o título “A Grande Substituiçao”;
  • Morte em Charlottesville, Virginia (2017): Protestantes da “Unite the Right” mataram uma mulher ao som de cânticos “Tu não nos irás substituir“.

A retórica política baseada na Teoria da Substituição pode influenciar a formulação de políticas que visam limitar ou restringir a entrada de imigrantes e refugiados, contribuindo para uma narrativa de exclusão e isolacionismo. É isto que o Chega quer cavalgar na sua proposta para aprovar o Orçamento.

A Teoria da Substituição é baseada em suposições infundadas e preconceitos raciais que são propagados de forma descontrolada pelas redes sociais. Estudos demográficos refutaram-nas, e reforçaram que a diversidade e a imigração trazem benefícios sociais, culturais e económicos para as sociedades. Quando, por exemplo, pensamos na população muçulmana europeia, mesmo nos melhores cenários é apontado para que em 2050 haja menos de 20% de muçulmanos na Europa. Se nos querem substituir talvez ainda possam levar algum tempo…


A Grande Teoria da Substituição assumiu um papel perturbador nas políticas de extrema-direita do século XXI. É sem dúvida uma força a ser reconhecida e um componente crítico da ideologia que impulsiona estes movimentos. No entanto, a sua base em falácias perniciosas e ideias carregadas de racismo tornam-na um perigo a ter em conta.

A tomada de consciência desta agenda é fundamental para a avaliação crítica destas e outras propostas provenientes deste espectro político. Provavelmente ajuda-nos a fugir dos nossos impulsos mais primários e a compreender melhor o que está por detrás de tudo isto. Para além disso, como acção gera reacção, é fácil perceber o aumento do próprio radicalismo das minorias contra as maiorias hoje em dia.

É neste ambiente de caos e polarização que vemos a sociedade a caminhar. E é justamente isto que deveremos evitar.

Escrito a 8 de setembro de 2024 por Sérgio Brandão

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In chat rooms, Unite the Right organizers planned to obscure their racism


Se tens curiosidade para saber mais sobre a ideologia por detrás da direita radical do século XXI recomendo-te ouvir o podcast Epidemia Ultra. Para além de explicar detalhadamente toda a realidade europeia e norte-americana, ajuda também a compreender o que se passa na América do Sul e na Ásia. A não perder…

A Sociedade Portuguesa de Sensações

E assim vamos, de sensação em sensação, sem discutir verdadeiramente o que devíamos e sem sermos capazes de ter “adultos na sala” a apresentar propostas para aquilo que nos interessa: combater o envelhecimento do nosso país e atrair imigração de forma humanista e integradora.

A campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2024 já vai avançada e esta análise, tendo em conta o ritmo vertiginoso como hoje em dia as coisas correm, já “vai tarde”. Contudo, quero na mesma fazê-la…

Pedro Passos Coelho (PPC) esteve presente na campanha da Aliança Democrática (AD) no dia 26 de fevereiro, em Faro, e fez um discurso de cerca de 20 minutos que, pasme-se, deu em polémica… E eu tentei perceber porquê, pois podia haver o risco de ser algo retirado de um contexto pouco claro. Por isso, para os mais curiosos, deixo abaixo o discurso na íntegra que começa por volta do minuto 14:

Houve duas frases que encheram títulos de jornais:

“Precisamos de ter um país aberto à imigração, mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro. (…) hoje as pessoas sentem uma insegurança que é resultado da falta de investimento e de prioridade que se deu a essas matérias.”

Vamos, então, esmiuçar o tema em três pontos: envelhecimento e imigração, segurança e sensações.

1 – Envelhecimento e Imigração

Um dos temas menos abordados na campanha é o inverno demográfico pelo qual Portugal passa e irá passar nos próximos anos. Lideramos o ranking dos países da UE com maior proporção de pessoas com 65 ou mais anos (24% da população). O nosso país envelheceu 4,4 anos, em média, na última década.

EU median age increased by 2.3 years since 2013

Quanto ao rácio de dependência de idosos, o número de pessoas idosas (com 65 ou mais anos) em comparação com o número de pessoas em idade ativa (15-64 anos) atingiu os 38% em 2023 em Portugal. Uma vez mais, o rácio mais alto na Europa.

Com o êxodo de jovens qualificados de Portugal para outros países, a situação económica e de sustentabilidade da segurança social é verdadeiramente assustadora. Por um lado, necessitamos de crescimento, e por outro, de garantir qualidade de vida e cuidados aos mais velhos.

Deste modo, não espanta que todos os partidos, de uma maneira ou de outra, defendam a atração de imigrantes para o nosso país, de preferência com o intuito de ficarem largos anos e constituir família, para reverter esta pirâmide demográfica preocupante.

O grande problema está no discurso utilitário que se faz sobre os imigrantes, havendo uma enorme dificuldade em abordar o tema de uma forma profunda e construtiva. Se a esquerda puxa do tema, a extrema direita diz que é uma bandalheira o que propõem e que vai por em risco a nossa sociedade. Se a direita puxa do tema, a extrema esquerda apelida-os de racistas e xenófobos.

Estamos num ponto em que os moderados não podem abordar o que precisa urgentemente de ser discutido. Primeiro, porque de facto necessitamos de atrair e cativar imigrantes, e segundo porque o temos de o fazer de uma forma organizada e humanista.

Do meu ponto de vista, as portas devem estar abertas, sem dúvida, mas isso deve ser feito de forma organizada e estruturada por duas ordens de grandeza: primeiro porque é preciso proporcionar condições favoráveis e dignas aos imigrantes, acolhendo com humanidade e respeito, e segundo porque também devemos ser nós a definir a nossa agenda e o nosso ritmo para que a integração seja feita, respondendo às necessidades do país e dos interessados em para cá vir.

Deste modo, evitamos a “bandalheira” e o “racismo”…

2 – Falta de segurança devido a imigrantes

Ainda não temos indícios que a imigração tenha levado a um aumento de insegurança em Portugal. Aliás, os dados mais recentes dizem exatamente o contrário:

  • Portugal é o sétimo país mais seguro do mundo, segundo Global Peace Index de 2023 .
  • O número de crimes em Portugal foi mais baixo em 2022 do que em 2014 e 2015, anos de governação de PPC, segundo o último Relatório Anual de Segurança Interna publicado.
  • 84,7% dos reclusos em Portugal são portugueses. O número de reclusos estrangeiros em proporção ao número total também diminuiu 3,8% na última década.

Isto tudo com um aumento de 98% de estrangeiros entre 2014 e 2022.

Concluindo, aparentemente não há nenhuma correlação entre o aumento de imigrantes e o número de crimes em Portugal. Deixo apenas em aberto a possibilidade de muitas vezes as pessoas não reportarem pequenos delitos, pois estes dados são alimentados com as queixas apresentadas pelos visados. Se as queixas não forem feitas, o que temos registado pode não espelhar a realidade. Contudo, ainda assim acho improvável poder correlacionar ambos os pontos.

3 – A Sociedade Portuguesa de Sensações

Passos foi ao Algarve com um objetivo: roubar eleitorado ao Chega nessa região (e noutras, certamente) e apelar ao voto útil na AD. Tudo o que escrevi acima ele sabe melhor que eu, melhor que a maioria.

Num discurso galvanizador, identificativo da matriz ideológica liberal que PPC nos habituou, só faltou mesmo dizer “não perguntes o que Portugal pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer por Portugal”, em linha com a mítica frase de John F. Kennedy: “Ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”. Todavia, esse discurso foi manchado por esta frase muito infeliz relativa à imigração: “as pessoas sentem uma insegurança”.

Sensações não são factos. Sensações podem não ter evidência por detrás. Sensações alimentam discursos da extrema direita e da extrema esquerda, tais como alguns bem conhecidos: a sensação de que os políticos são todos corruptos, a sensação de que os patrões exploram os empregados, a sensação de que o país está cheio de subsídio-dependentes, a sensação de que o problema da habitação é dos Vistos Gold, entre outros.

As sensações são as coisas que se ouvem no café, nos bancos de jardim, nas redes sociais, nos media sensacionalistas. Sensações só ajudam à polarização e não à análise e apresentação de soluções dos problemas reais da sociedade.

Este comentário, vindo de quem vem, alimenta e une a esquerda de uma forma simples: criando a sensação de que a direita democrática é igual à populista e que os problemas do país são “culpa do Passos”…

E assim vamos, de sensação em sensação, sem discutir verdadeiramente o que devíamos e sem sermos capazes de ter “adultos na sala” a apresentar propostas para aquilo que nos interessa: combater o envelhecimento do nosso país e atrair imigração de forma humanista e integradora.


1 milhão de imigrantes já cá estão e quase meio espera ser legalizado e integrado em Portugal. Destes, 31% encontra-se em situação de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Eurostat.

Permitindo-me então ao atrevimento de dizer que me dá a sensação do seguinte: se a frase de PPC tivesse sido “os imigrantes se não forem bem integrados e acolhidos, se não tiverem boas condições de trabalho e habitação, poderemos vir a ter um problema de segurança”, acho que aí poderia ser mais certeiro. A guetização, o abandono e a exclusão destas pessoas pode antecipar este risco. Por isso é que temos de discutir as coisas com seriedade e sem histerismos. Os problemas estão identificados, a necessidade real de os resolver também, por isso porque não arranjar soluções em conjunto?

Escrito a 3 de março de 2024 por Sérgio Brandão

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Existe relação entre imigração e segurança, como sugeriu Passos Coelho? Não

O Reino Unido “Só tem para oferecer sangue, sofrimento, suor e lágrimas”?

“Está a ser uma novela muito triste que certamente terá mais episódios nas próximas semanas. O Mundo sente falta do vanguardismo e das práticas políticas de referência que o Reino Unido lhe deu.”

Há dias confrontei-me com a notícia de que Gary Lineker, apresentador do programa “Match of the Day” da BBC, tinha sido afastado após criticar as políticas migratórias do governo britânico nas redes sociais, interrompendo assim a emissão do programa que dirigia. Depois de uma avalanche de críticas, o comentador foi autorizado a regressar e a BBC anunciou que iria rever as sua política de utilização de redes sociais por parte dos colaboradores. O diretor-geral da BBC, Tim Davie, pediu desculpas pela interrupção do programa e reconheceu que o equilíbrio entre a imparcialidade exigida pela empresa e a liberdade de expressão é difícil. Para além disso, admitiu que as novas orientações da BBC vão ter em conta os freelancers como Lineker, pois a postura não pode ser igual àquela que se aplica às figuras que estão na esfera da cobertura política ou de notícias.

Embora o desfecho tenha sido positivo, houve várias coisas que me preocuparam. Vejamos o tema em duas partes: primeiro a causa, depois a consequência…

Que políticas polémicas quer o governo britânico aplicar?

Em 2022, 45.755 homens, mulheres e crianças atravessaram o Canal da Mancha em pequenos botes para chegar ao Reino Unido e a maioria deles já solicitou asilo. Quase 3.000 pessoas já fizeram a travessia este ano, estimando que se atinja os 80.000 até ao final de 2023.

Rishi Sunak prometeu acabar com isto, introduzindo a “Illegal Immigration Bill” (lei de imigração ilegal). O lei visa dissuadir migrantes e traficantes de pessoas a atravessar o Canal, recusando, por isso, asilo àqueles que cheguem ao país ilegalmente. Deste modo, a referida lei permitiria deter imigrantes ilegais nos primeiros 28 dias, sem medidas de coação ou recurso judicial, até que possam ser removidas. Confere também ao “dever de remoção” precedência sobre o direito de asilo, com exceções para menores de 18 anos e pessoas com problemas médicos graves. A legislação representa um sério teste ao compromisso do Reino Unido com a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e a Convenção das Nações Unidas sobre Refugiados, que conferem direitos aos requerentes de asilo que chegam a este país.

Sejamos francos, é óbvio que a migração ilegal e a chegada de refugiados a qualquer país, se for feita de forma descontrolada, acarreta uma pressão brutal nos serviços públicos prestados e cria tensões sociais que leva a conflitos hostis e à dificuldade de integração. Mas estes atos que o governo britânico propõe visam criminalizar quem foge da guerra e da fome para os locais onde há paz, prosperidade e emprego, como é caso do Reino Unido. Custa ainda mais a assistir a isto quando este país tem tido nos últimos anos políticas até bastante humanistas e que servem de exemplo para qualquer um. Aqui refiro-me aos protocolos estabelecidos com a Ucrânia e Hong Kong, de onde receberam de braços abertos de cada um dos países 270.600 e 150.000 pessoas, respetivamente.

As razões para o desenvolvimento desta política são fáceis de perceber: o Partido Conservador tem estado mal nas sondagens e uma das principais preocupações do seu eleitorado é a imigração ilegal, pois alegam que esta chegada de migrantes e refugiados tem aumentado a criminalidade e trazido problemas aos serviços públicos britânicos, nomeadamente na saúde e na segurança social.

O curioso no meio disto tudo é vermos um “moderado” e filho de imigrantes, Rishi Sunak, a usar uma cartilha semelhante àquela que outros partidos de extrema-direita têm utilizado pela Europa fora. Isto acaba por ser o último ato desesperado que o Partido Conservador demonstra após anos de falhanços que impactaram econónica e socialmente os britânicos após o Brexit.

“O Efeito Brexit: como ter deixado a UE afetou o RU?” (em inglês)

Como é que Gary Lineker aparece e faz tremer isto tudo?

Num tweet, Gary Lineker, fez chegar este tema a uma outra dimensão:

Ao lermos com calma e ponderação o que ele escreveu percebemos duas coisas: Gary Lineker sabe que o terror do Nazismo e do Holocausto não apareceram de repente numa madrugada, mas sim num processo longo de autoritarismo e desrespeito pelas minorias frágeis; e que a BBC teve uma reação de cancelamento absolutamente desmensurada face à situação descrita.

No entanto, que sorte termos tido alguém, absolutamente improvável, mas de enorme respeito por parte dos britânicos e do mundo, que olhou para este tema de uma outra forma. Aqui, a suposta restrição de liberdade de expressão que a BBC teve, não se traduziu no resultado que a estação de TV e rádio previa, mas num outro extremamente melhor. E o facto de alguém, como Gary Lineker, não ter voltado atrás com a palavra, nem ter pedido desculpa ou se ter deixado condicionar por um suposto contrato milionário que detém, mostra que os valores individuais de cada um podem valer muito mais que o dinheiro e a fama.

Ainda assim, custa-me imenso ter vindo a assistir a esta decadência das instituições mais prestigiadas do Reino Unido. É um país que contribuiu imenso para a construção da democracia, do estado social, foi pioneiro na revolução industrial, na inovação científica e na filantropia. Ao volante foi sempre tendo sucessivos governos com figuras determinantes e inspiradoras. Para além disso, todos sabemos que não se pode falar de jornalismo e da democratização da informação no século XX sem falar da BBC.


Está a ser uma novela muito triste que certamente terá mais episódios nas próximas semanas. Ainda que com a suas contradições (pois todos os países as têm), o Mundo sente falta do vanguardismo e das práticas políticas de referência que o Reino Unido lhe deu nos últimos 150 anos. Sabemos que não tem apenas para oferecer “blood, toil, tears and sweat“(sangue, sofrimento, suor e lágrimas) como Churchill proferiu no seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns, a 13 de maio de 1940…

Escrito a 19 de março de 2023 por Sérgio Brandão

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Rishi Sunak wades into Gary Lineker row and says ‘not everyone will agree’

Imigrantes: um problema, uma solução, ou os dois?

O que é preciso mostrar mais para percebermos que precisamos de uma estratégia política, de um plano concertado para atrair e integrar imigrantes?

Portugal viu-se confrontado, uma vez mais, com dois casos que põem em claro a nossa enorme dificuldade em acolher, integrar e respeitar a dignidade de uma franja significativa dos nossos imigrantes. Primeiro as agressões em Olhão e depois a tragédia na Mouraria. O que é preciso mostrar mais para percebermos que precisamos de uma estratégia política, de um plano concertado para atrair e integrar imigrantes?

Das muitas conclusões retiradas dos Censos 2021 feitos em Portugal, decidi retirar as seguintes para a análise deste tema:

  • Ao dia 19 de abril de 2021, viviam em Portugal 10.343.066 pessoas. Menos 2,1% do que em 2011
  • À data da realização dos Censos 2021, residiam em Portugal 542.314 pessoas de nacionalidade estrangeira, o que representa 5,2% da população (mais 1,5% do que em 2011).
  • 23,4% da população é idosa e só 12,9% tem menos de 14 anos.
  • A idade média no país é de 45,4 anos (mais 3,1 do que em 2011), mas a da população estrangeira é de 37,3 anos.
  • 182 idosos por cada 100 jovens (em 2011 eram 128) e por cada 100 pessoas na faixa etária dos 55-64 anos, há agora 76 pessoas na casa dos 20-29 anos (em 2011 eram 94).
  • Cerca de 37,7% da população estrangeira reside em alojamentos sobrelotados.

Mesmo assumindo que pode haver indicadores que têm um erro maior e o intervalo de confiança possa ser inferior, após analisar estas conclusões não nos choca perceber que caminhamos para ter a seguinte pirâmide etária em Portugal daqui a 30 anos se nada for feito:

Pirâmides etárias de Portugal 2022 vs 2052

O maior risco associado a esta “evolução” está relacionado com o declínio da população ativa em idade de trabalho que irremediavelmente irá levar a um crescimento mais lento da economia, redução da produtividade e aumento da dívida pública. O acesso a serviços públicos de qualidade será um luxo cada vez mais utópico, principalmente no que diz respeito à saúde e à educação.

Há imensas medidas que podem ser tidas em conta, mas aquela que me parece ser a mais óbvia, e que toda a gente que reflita minimamente sobre isto percebe, é que temos urgentemente de atrair jovens estrangeiros para o nosso país.

Portanto, a desumanização que temos visto refletida na forma como temos tratado uma fatia dos nossos imigrantes, pricipalmente asiáticos, é criminosa e reflete a falta de organização (uma vez mais) no tratamento de um problema que tem urgência em obter uma solução. Olhando para os números acima e os casos que têm sido mediatizados, nomeadamente o que se passou em Odemira e na Mouraria, percebemos logo duas coisas: provavelmente o número de emigrantes é superior ao descrito nos Censos e a percentagem que reside em alojamentos sobrelotados também. Simplesmente, não estão legalizados, porque se permite a criação e o funcionamento de organizações que são autênticas redes de tráfico humano.

Os imigrantes vão continuar a chegar e rídiculo será achar que conseguiremos reduzir o impacto da inversão da nossa pirâmide demográfica só com “nómadas digitais” ou reformados provenientes do norte da Europa ou da América do Norte. Precisamos de todos e de os saber acolher e integrar de forma a evitar a segregação racial que funciona muitas vezes como dinamite para instabilidade social. A integração e o bom entendimento entre as diferentes culturas nos países mais “globalizados” é a chave para o sucesso. Para isso é importante haver regras, um bom plano de atração e ajuda aos emigrantes e fiscalização das atrocidades que se praticam e irão sempre praticar. No que diz respeito ao papel do Governo e oposição, a falha tem sido profunda na discussão e trabalho feito. É importante manter este nível de escrutínio e mediatização do tema por parte da comunicação social. O SEF não tem dado a devida resposta, mas na realidade nenhum de nós tem dado.

Mais uma vez, o nosso Presidente da República mostrou uma atitude de enorme humanidade e de responsabilidade política perante o ocorrido em Olhão. Ao ir de imediato ter com os imigrantes nepaleses e a estar na cidade onde aconteceu o crime, Marcelo foi confrontado com a possível catalogação de Portugal como país racista e xenófobo e aproveitou para sublinhar de forma acertada o seguinte: “o envelhecimento das sociedades europeias criou aquilo a que eu chamo o medo, uma atitude reativa, defensiva e, portanto, de rejeição da diferença, e daí até à xenofobia é um pequeno passo e tem de se estar atento a esse pequeno passo porque significa menos democracia e, até, menos respeito daquilo que é a nossa experiência como país de emigrantes“.

O Governo apenas condenou o sucedido, o partido líder da oposição atirou umas ideias pouco concretas para cima da mesa, demonstrando, uma vez mais, que ainda pensou pouco (ou nada) sobre mais um assunto. Valha-nos o Presidente nestas situações… Até agora, o único capaz de dar lições de empatia e respeito e de colocar estes temas na agenda política.

A imigração em Portugal é um problema, mas é das poucas soluções imediatas que temos para o nosso futuro. Temos de ser exigentes na sua abordagem, pois mesmo que fosse apresentada hoje uma forte política de incentivo à natalidade, ela só teria resultados daqui a 20 anos ou mais. Desta forma, olhemos para os estrangeiros como os nossos melhores aliados, respeitemos as diferenças que existem, e deixemo-nos de os destratar. Ajudemo-los, que eles irão ajudar-nos a todos nós.

Escrito a 12 de fevereiro de 2023 por Sérgio Brandão

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Marcelo pede desculpa a imigrante por ter sido agredido sem justificação