Nos últimos tempos tenho-me dedicado a tentar perceber um pouco melhor o que está por detrás destes movimentos de extrema-direita nas democracias ocidentais. Há a tendência de se assumir que é algo pouco concertado, que apenas capitaliza a insatisfação dos “derrotados” da globalização, e que é um presente de muito mau gosto, embrulhado em ideias populistas, para ser entregue à população angustiada e frustrada. Talvez esta descrição seja demasiado depreciativa de tudo isto, pois vemos cada vez mais estudos, reflexões e ensaios publicados a olhar de forma séria e pragmática para o tema. E ainda bem.
O que se sabe hoje em dia é que há pontos das narrativas dos líderes da extrema direita que se tocam. Há alinhamento entre os países para junção de forças no reforço da mensagem. E há sobretudo um enorme conhecimento das pulsões primárias e pretensões do eleitorado radical refletidas em ideologias que têm autores por detrás delas e que são seguidos pelas principais caras que estão à frente destes movimentos.
Vejamos um caso que toca numa dessas ideias conspirativas que têm sido alimentadas nos últimos anos:
O Chega assumiu que para viabilizar o Orçamento do Governo terá de ser negociada a possibilidade de um referendo à imigração. Não vamos entrar no detalhe da proposta, vamos antes perguntar: “Porquê esta perseguição aos imigrantes?”
A Teoria da Grande Substituição
O grande combustível ideológico da extrema-direita é a teoria da substituição.
O “Le Grand Remplacement” foi popularizado pelo crítico literário francês Renaud Camus em 2011. Camus argumenta que as elites estão a promover uma substituição deliberada da população europeia branca através de políticas migratórias. Esta teoria encontra as suas raízes inspiracionais no nacionalismo francês do início do século XX, com foco na preocupação com a preservação da identidade cultural e étnica dos europeus.
Líderes de extrema-direita, como Marine Le Pen, de França, e Viktor Orbán, da Hungria, têm usado esta ideologia para justificar políticas anti-imigração e reforçar a identidade nacional.
Nos Estados Unidos, a Teoria da Substituição encontrou um terreno fértil, especialmente em fóruns online como 4chan e 8chan, onde estas ideias foram amplamente disseminadas. No entanto, foi através dos grupos de comunicação social mais conservadores que estes movimentos ganharam mais destaque. Tucker Carlson, um dos pivots mais conhecidos da Fox News, mencionou a teoria no seu programa mais de 400 vezes, ajudando a trazê-la do anonimato da internet para o centro do diálogo político. Carlson é dos poucos jornalistas que consegue entrevistar Donald Trump sem ser rebaixado e insultado por ele e é um feroz aliado do candidato republicano mesmo depois de sair da cadeia televisiva que o levou ao estrelato.
A disseminação da Teoria da Substituição e de ideologias que enfatizam a substituição deliberada da população tem consequências preocupantes.
Uma das principais consequências é a propagação do medo e da desconfiança em relação a grupos minoritários. Estas teorias tendem a pintar os imigrantes, refugiados e outras comunidades marginalizadas como uma ameaça à cultura e identidade da população maioritária, que na maioria dos casos é a população branca. Ter políticos e outras figuras influentes da sociedade a defender e a reforçar este tipo de discurso normaliza o preconceito, aprova a xenofobia e aumenta a discriminação dentro de comunidades multiculturais.
Além disso, a Teoria da Substituição serve de plataforma para a radicalização e o extremismo. Grupos supremacistas brancos e nacionalistas podem sentir-se justificados nas suas ações violentas, acreditando que estão a defender as suas comunidades contra uma suposta invasão. Abaixo listo três casos conhecidos:
- Tiroteio em Buffalo, Nova York (2022): Um homem branco armado com uma rifle AR-15 entrou num supermercado e matou 10 pessoas, quase todas afro-americanas. O atirador tinha publicado um manifesto racista de 180 páginas, referenciando repetidamente a Teoria da Substituição.
- Massacre na Mesquita em Christchurch, Nova Zelândia (2019): 51 pessoas mortas por um atirador que tinha publicado um artigo com o título “A Grande Substituiçao”;
- Morte em Charlottesville, Virginia (2017): Protestantes da “Unite the Right” mataram uma mulher ao som de cânticos “Tu não nos irás substituir“.
A retórica política baseada na Teoria da Substituição pode influenciar a formulação de políticas que visam limitar ou restringir a entrada de imigrantes e refugiados, contribuindo para uma narrativa de exclusão e isolacionismo. É isto que o Chega quer cavalgar na sua proposta para aprovar o Orçamento.
A Teoria da Substituição é baseada em suposições infundadas e preconceitos raciais que são propagados de forma descontrolada pelas redes sociais. Estudos demográficos refutaram-nas, e reforçaram que a diversidade e a imigração trazem benefícios sociais, culturais e económicos para as sociedades. Quando, por exemplo, pensamos na população muçulmana europeia, mesmo nos melhores cenários é apontado para que em 2050 haja menos de 20% de muçulmanos na Europa. Se nos querem substituir talvez ainda possam levar algum tempo…
A Grande Teoria da Substituição assumiu um papel perturbador nas políticas de extrema-direita do século XXI. É sem dúvida uma força a ser reconhecida e um componente crítico da ideologia que impulsiona estes movimentos. No entanto, a sua base em falácias perniciosas e ideias carregadas de racismo tornam-na um perigo a ter em conta.
A tomada de consciência desta agenda é fundamental para a avaliação crítica destas e outras propostas provenientes deste espectro político. Provavelmente ajuda-nos a fugir dos nossos impulsos mais primários e a compreender melhor o que está por detrás de tudo isto. Para além disso, como acção gera reacção, é fácil perceber o aumento do próprio radicalismo das minorias contra as maiorias hoje em dia.
É neste ambiente de caos e polarização que vemos a sociedade a caminhar. E é justamente isto que deveremos evitar.
Escrito a 8 de setembro de 2024 por Sérgio Brandão
Créditos de imagem:
In chat rooms, Unite the Right organizers planned to obscure their racism
Se tens curiosidade para saber mais sobre a ideologia por detrás da direita radical do século XXI recomendo-te ouvir o podcast Epidemia Ultra. Para além de explicar detalhadamente toda a realidade europeia e norte-americana, ajuda também a compreender o que se passa na América do Sul e na Ásia. A não perder…



