Estados de Guerra, Promessas de Paz

Embora o país tenha mergulhado ao longo dos últimos meses num transe coletivo em que a nossa atenção foi completamente capturada pelas dinâmicas dos debates, partidos e resultados eleitorais, a realidade está muito para lá das notícias de rodapé a que tem sido remetida.

Na passada sexta-feira a Rússia foi alvo de ataques terroristas em Moscovo, que em resposta a esta fatalidade acusa a Ucrânia de participar no seu planeamento anunciando estar em estado de guerra. Do outro lado aumenta a urgência de financiar o esforço de defesa na Ucrânia para que possa continuar a resistir ao assédio russo, ao qual não ajuda em nada o impasse no financiamento norte-americano.

Na Europa temos visto posições de força distintas, por um lado Emmanuel Macron (re)afirmou não poder excluir a possibilidade do envio de tropas europeias para a Ucrânia, por outro Olaf Scholz mantém uma posição ponderada, cimentando a Alemanha como uma das nações mais prudentes na gestão do conflito, sendo ainda assim das mais generosas no suporte financeiro e militar que está a prestar à primeira linha de defesa da Europa.

No passado dia 15 de Março os lideres francês e alemão fizeram-se acompanhar do seu congénere polaco com o objetivo de afirmar uma posição de unidade, perspetivando entre si um reforço no apoio dado à resistência Ucraniana, declarando ainda a vontade de compatibilizar visões contrastantes.

Além disto, apesar dos (não) desenvolvimentos no conflito, tem existido uma pressão crescente da NATO para que os estados membros da Aliança reforcem o investimento em defesa para pelo menos 2% do PIB, meta atingida por menos de metade dos aliados e onde Portugal surge ainda com um investimento inferior a 1,5%.

Embora Portugal esteja ainda longe de um objetivo que se estima concretizável em 2030, tem mostrado uma evolução positiva, fazendo crescer a rúbrica de investimento em material militar, onde se destaca a compra de 4 aviões de transporte militar KC-390 que encaixam na estratégia de aquisição de material cujo uso possa ser civil e militar.

Embora o agora indigitado primeiro ministro Luís Montenegro tenha declarado no período eleitoral estar comprometido com a meta da NATO dos 2% do PIB, não chegou a concretizar a forma como pretende que tal investimento se faça.

Durante o período eleitoral o Grupo de Reflexão Estratégica Independente fez chegar a todos os partidos a sua posição sobre a situação de emergência que se vive nas Forças Armadas, depauperadas de quadros, com falta de recursos de base e em perda crescente motivada pelas sucessivas reduções de privilégios.

Pela sensibilidade que os temas de defesa nacional acarretam é compreensível que não se discutam em praça publica as opções estratégicas no escopo militar, ainda assim é fundamental que se estabeleçam metas sobre o que significa investir 2% do PIB em defesa, seja na valorização do pessoal militar seja no investimento em infraestruturas ou de equipamento, ainda mais num futuro em que as armas convencionais perdem tração e vemos na Ucrânia drones de poucos milhares de euros a rivalizar com misseis de milhões na proporção de danos e retrocessos que conseguem causar no seu opositor.

E se é verdade que os portugueses estão no topo dos defensores da permanência na NATO (88%), e há uma larga maioria que dizem que o investimento do país em matéria de defesa deve manter-se (34%) ou aumentar (43%), também é verdade que estes índices de resposta só são compatíveis com a ausência do dilema de enviar tropas portuguesas para cenários de guerra ou de ver diminuídos alguns benefícios sociais para acomodar um maior investimento na área militar.

Estar numa economia de guerra significa empobrecer, reduzir apoios sociais e ampliar sentimentos de injustiça, algo que só pode beneficiar partidos como os que de forma consistente rejeitam estas opções. Se esse momento chegar o PCP não estará sozinho, serão seguramente mais aqueles que por oportunismo ou por convicção concordarão com a posição comunista.

Hoje não temos verdadeiramente que fazer escolhas, mas é possível que esse dia chegue, e se chegar, será mais do que nunca importante ter lideres capazes de aspirar a algo mais para o nosso futuro coletivo:

“My fellow Americans, the issue facing our nation isn’t how old we are; it’s how old are our ideas. 

Hate, anger, revenge, retribution are the oldest of ideas.  But you can’t lead America with ancient ideas that only take us back.  To lead America, the land of possibilities, you need a vision for the future and what can and should be done. 

Tonight, you’ve heard mine. 

I see a future where [we’re] defending democracy, you don’t diminish it.

I see a future where we restore the right to choose and protect our freedoms, not take them away. “

Biden, Discurso do Estado da União, Março 2024

Se esse momento chegar espero que possamos contar com líderes que se afirmem como guardiões da democracia, líderes que acreditem num futuro em que valha a pena defender uma democracia, uma sociedade em que impera o direito de escolha e se protege a liberdade, onde se protege a liberdade de todos, mesmo daqueles que a queiram boicotar.

Escrito a 26 de março de 2024 por João Tiago Teixeira

Créditos de imagem: © Tobias SCHWARZ / AFP

Notícias de interesse:

Já há 11 aliados da NATO a gastar mais de 2% do PIB na defesa | Guerra na Ucrânia | PÚBLICO (publico.pt)

Infografia: 11 países da NATO já gastam pelo menos 2% do PIB em defesa (sapo.pt)

Futuro Governo tem apoio popular para reforçar investimento na Defesa (dn.pt)

‘Unity is strength,’ insist Macron, Scholz and Tusk as trio tries to bury the hatchet over Ukraine strategy – POLITICO

Lula no 25 de Abril, sim ou não? | A liberdade permite-nos discordar…

“Dizer (ou neste caso escrever) o que pensamos de forma não polarizada, construtiva, ainda que contraditória é um hino ao 25 de Abril. Orgulhamo-nos disso!”

No dia 25 de Abril vamos celebrar o quadragésimo nono aniversário da democracia. Há 49 anos que vivemos em liberdade, uma liberdade conquistada pelos nossos pais e avós e que a nossa geração, por vezes, parece desvalorizar.

O convite feito ao Presidente do Brasil, Lula da Silva, para vir a Portugal na altura das celebrações do 25 de Abril e a sua (alegada) inclusão no discurso da cerimónia oficial das comemorações gerou discórdia nos partidos da Assembleia da República e na opinião pública. Pior ficou depois das declarações feitas na visita oficial à China, quando referiu que os EUA e a União Europeia devem parar de encorajar a guerra e começar a falar de paz.

No Mesa de Amigos não ficamos indiferentes ao tema e até temos opiniões diferentes sobre o assunto, por isso escolhemos celebrar o 25 de Abril esgrimindo argumentos sobre os nossos pontos de vista.


Presidente Lula no 25 de Abril? Não, obrigado!

O Brasil é um dos maiores países do mundo, faz parte dos BRICS (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e é um dos parceiros estratégicos mais importantes de Portugal, seja pela história que nos une, seja pelo que o futuro nos reserva, pois será seguramente através dele que a língua portuguesa viverá.

Compreendo aqueles que realçam o privilégio que é poder contar com a presença do Presidente de um país como este na Assembleia da República, ainda assim não vejo de que forma é que a nossa relação diplomática justifica um convite de Estado para discursar na celebração do dia da Liberdade de Portugal e compreendo ainda menos quando este é um convite que depende do nome da pessoa que ocupa esse lugar.

Este não é um convite endereçado ao Presidente do Brasil, Lula da Silva, mas antes ao Lula da Silva, Presidente do Brasil. Todos sabemos (e concordamos) que este convite nunca teria sido endereçado ao Presidente Bolsonaro, pois nenhum dos partidos democráticos com assento parlamentar aceitaria a sua presença.

Assim sendo, de que forma é que o contributo de Lula da Silva pode enriquecer as celebrações do 25 de Abril?

Não podemos ser reféns do nosso passado e Lula já pagou pelos seus crimes, ainda assim falamos de um político que foi condenado por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e viu a condenação ser confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça do Brasil. Temos paralelismos suficientes na nossa democracia que justificam uma maior prudência na formalização deste tipo de convites.

Falando do presente, a recente visita de Lula à China mostrou que este é um político alinhado com a narrativa do bloco dos países revisionistas (China, Rússia, Irão, Coreia do Norte), seja pela defesa do surgimento de uma reserva de valor alternativa ao dólar (como o Renminbi), o enfraquecimento do poder das sanções económicas da Europa e Estados Unidos aos países autoritários, seja pela forma como  responsabilizou a Europa e Estados Unidos pela guerra que grassa na Ucrânia.

Se é compreensível que o Presidente do Brasil defina a política externa da nação que dirige da forma que melhor possa proteger os interesses dos seus eleitores e é aceitável que países aliados que fomentam relações diplomáticas fortes e estáveis possam existir pontos significativamente divergentes, não se compreende como é que no dia em que celebramos a nossa liberdade possamos convidar para discursar em nossa casa alguém que não reconheça ao povo ucraniano, nosso aliado, o direito de serem igualmente livres.

Por isso, considerando o que a celebração desta data significa para a memória coletiva do nosso país e para o nosso regime político, à pergunta “Presidente Lula no 25 de Abril?” respondo: Não, obrigado!


Presidente Lula no 25 de Abril? Sim, mas…

No final do século XIX, Otto von Bismarck, “O Chanceler de Ferro”, liderou a Alemanha com o intuito de garantir a sua unificação após uma série de batalhas conhecidas como as Guerras de Unificação Alemã, que garantiram a preservação da paz na Europa durante quase duas décadas. Conseguiu alcançar de uma forma extremamente hábil a reunificação do seu país em 1871, seguindo uma política de alianças e guerra, que foi posteriormente apelidada de Realpolitik. Esta palavra de origem germânica signfica “Política internacional ou de relações diplomáticas baseada essencialmente em questões práticas e pragmáticas, em detrimento de questões ideológicas ou éticas” (“realpolitik“, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Antes que me acusem de falta de escrúpulos ou ausência de consciência, eu acho que há limites que devem ser considerados aquando do exercício de funções políticas, não vale tudo para os interesses da Nação. Contudo, o ingrato ato de governar ou tomar decisões com base numa perspetiva de bem geral futuro envolve cinismo, pragmatismo e claro está, em determinados momentos a realpolitik. Foi a isto que assistimos neste episódio, tanto do lado português, como do lado brasileiro. Analisemos a situação em três pontos-chave:

Primeiro Ponto: A NATO representa 31 estados que têm um população combinada de mais de 950 milhões de pessoas (~16,5% da população mundial). Os BRICS em 2021 tinham uma população estimada de 3.200 milhões (>40% da população mundial). Deste modo, assumir uma visão do mundo meramente Eurocêntrica (ou “NATOcêntrica”) é uma atitude de enorme presunção e arrogância perante quase metade do mundo. Para o Brasil, a guerra na Ucrânia está tão distante como para nós estão as guerras e conflitos no Sudão, Myanmar, Iémen, Afeganistão ou até Cabo Delgado em Moçambique. Nem preciso explorar a relação e os interesses portugueses neste último país, pois não? É que assim vão-me obrigar a falar dos negócios (obscuros) que temos com os PALOPs…

Segundo Ponto: Os BRICS, como grupo de países de economias emergentes adotam, sem surpresa para ninguém e há muito tempo, posições anti-NATO e sobretudo anti-EUA. Há divergências ideológicas, pois são países com sistemas e valores políticos distintos. Há competição pela influência na ordem mundial e por defesa da multipolaridade em vez do domínio único americano. E há a questão da soberania nacional e não intervenção por parte da NATO em matéria de assuntos internos dos países. Campo onde há muito há a dizer sobre o papel dos EUA, com virtudes e contradições, claro…

Terceiro Ponto: A referida Realpolitik
Portugal viu durante o período Bolsonarista a criação de um fosso gigante entre os dois países irmãos. Por todas as razões históricas, políticas, económicas, sociais e culturais existentes, o nosso país (de 10 milhões de habitantes) pretende manter estreitas as relações com esta potência (de mais de 200 milhões de habitantes). Poderei ser criticado, mas acredito que Portugal neste momento poderá depender mais do Brasil, do que o Brasil de nós. Daí perceber a ousadia do Estado em convidar o Presidente do Brasil a estar presente, com algum destaque, numa, senão a mais importante, data da história contemporânea portuguesa.
Agora, claro está, Lula da Silva, o “tal” Presidente do Brasil, também sabe qual é o jogo político. Por um lado tem consciência que a principal porta de entrada na Europa do maior país da América Latina é Portugal, por outro sabe que a sua economia e poder no panorama mundial dependem de estar nas boas graças dos seus aliados não-europeus.

Se o que o Lula defendeu é contra o que eu defendo? Claro que é! Mas sejamos francos… Surpreendeu assim tanto? Não estavam à espera disso dele? Achavam que ia ter outra posição? Se sim foram ingénuos. E mais serão se acharem que devemos ter uma atitude pedagógica perante o sucedido com discursos paternalistas e armados em paladinos da ordem mundial.

Há necessidade de ter um governante externo ao nosso país presente nas celebrações do 25 de Abril? Sinceramente, acho que não, mas compreendo a presença deste em particular pelas razões acima descritas.

Por isso, à pergunta “Presidente Lula no 25 de Abril?” respondo: Sim, mas que seja de facto a excepção e não a regra. O jogo político e os interesses têm limites. Por isso não manchemos o quadragésimo nono aniversário da nossa democracia com isto. Talvez o Presidente da República, na sua astúcia e subtileza deixe umas mensagens interessantes no discurso. Todos queremos a paz, mas nem todos vemos que a culpa é do invasor e não do invadido. Vejamos o que se passará…


O espaço democrático não se faz de verdades absolutas ou posições indiscutíveis, o progresso faz-se de cedências e compromissos. Este é, por isso, o nosso contributo para que esta data continue a ser celebrada de uma forma aberta, construtiva e inclusiva. Valores que a liberdade nos trouxe e que aqui celebramos. Dizer (ou neste caso escrever) o que pensamos de forma não polarizada, construtiva, ainda que contraditória é um hino ao 25 de Abril. Orgulhamo-nos disso!

Escrito a 24 de abril de 2023 por João Tiago Teixeira e Sérgio Brandão

Personalidade Internacional de 2022: Volodymyr Zelensky

A personalidade internacional de 2022: Volodymyr Zelensky

Iniciando um dos textos sobre a análise internacional do ano 2022, confesso que embora tenha tentado, é impossível fugir ao tema central que preenche as publicações dos media sobre o balanço do ano. Sinto-me obrigado a escrever sobre Zelensky e a sua participação na guerra da Ucrânia, até porque foi à volta dele e da sua nação que foram escritos os primeiros textos no Mesa de Amigos.

Passados mais de 300 dias da eclosão da guerra que deflagrou após a incursão russa em território ucraniano, é admirável a forma como este povo resiste na defesa da sua pátria, revelando uma valentia estoica, acredito que inspirada pela forma como o seu presidente agiu no momento zero, recusando o convite de fuga proposto por Washington e optando por lutar ao lado dos seus eleitos, abdicando assim de uma qualquer ilusão de segurança.

 “The fight is here; I need ammunition, not a ride

Zelensky, 26.02.2022

Não há confirmação de que tenha sido exatamente assim a frase que Zelensky disse quando recusou o convite, ainda assim, seja ou não 100% verdade, esta é uma frase que fará parte da história deste século, parte do percurso de um líder e das suas gentes, de um mito que Zelensky inspirou e que se chama Ucrânia, de uma nação que respira na terra daquelas gentes, independentemente da bandeira que a câmara da sua cidade possa estar a hastear.

Volodymyr Zelensky tem de ser destacado como a personalidade internacional do ano por ser o David que decidiu combater Golias, por ser o homem que escolheu defender o seu povo e a sua terra, por ser o comediante que vestiu a farda de tropa e trocou os sorrisos de plateias pelos gritos de militar, por ser o líder que escolheu defender a democracia e o nosso modo de vida, aquele que uniu os Estados Unidos e a Europa no seu desígnio pela defesa da liberdade.

Zelensky surpreendeu o mundo desde o primeiro dia e tem-se mostrado à altura do conflito, liderando a resistência do assalto a Kyiv que a Rússia estimava estar concluída em 3 dias e garantindo que a causa ucraniana se mantém viva nos media, junto de todos os países que o possam ajudar.

Ao longo dos últimos meses tem conseguido reconquistar território e derrubar posições estratégicas russas, que significam vitórias para a moral e irradiam a luz da liberdade no horizonte de populações esquecidas. A guerra não terminou e sendo cada vez maiores os custos humanos e materiais infligidos pelo agressor, os pedidos de ajuda de Zelensky multiplicam-se e a sua presença reinventa-se como é disso exemplo o discurso que fez perante o Congresso dos Estados Unidos a 21 de dezembro, onde reforçou o apelo por material bélico, uma ajuda fundamental que permita aos ucranianos continuar a sonhar.

Washington Post – Zelensky’s address to US Congress in three minutes – Dec. 21

Estimam-se que sejam precisos mais de 350 mil milhões de euros para reconstruir o território destruído, um valor crescente que embora possa vir a ser parcialmente suportado pela integração do país na comunidade europeia, será obrigatoriamente taxado ao país invasor.

Esta é uma guerra cara para o povo invadido, mas também cara para o povo que invade, é um confronto sangrento que custa vidas a ambas as partes e que tarde ou cedo terá de findar. O próximo ano trará a Zelensky novas oportunidades, poderá surpreender novamente o mundo se conseguir elevar a Ucrânia para uma posição estratégica que lhe permita assumir uma forma justa e equilibrada para falar de paz e com a Rússia de Putin um armistício negociar.

A guerra é injusta, é suja e sangrenta, dela não ficam memórias boas, apenas tristes silêncios que esperam ansiosos pela interrupção, pelo som das bombas, pelo som dos que ficam, dos que choram e dos que esperam, dos que esperam pela sua vez, a vez de partir ou de chorar. A guerra é fria crua e dolorosa, mas também é esperança, é morte mas também é vida, é a memória dos que ficam, que não a esquecem e rezam para uma nova paz perdurar.

Opto por destacar a personalidade que acredito vá ficar registada nos livros de história como um dos líderes deste século, um dos maiores líderes políticos e militares do Séc. XXI. Volodymyr Zelensky é a figura do ano de 2022, é o líder de hoje e do amanhã, por tudo aquilo que já fez, será um dia a memória de um mito, o mito de um povo que resistiu, lutou e gritou bem alto: “Tenho direito a existir, e vou lutar pela minha liberdade!”

Escrito a 28 de dezembro de 2022 por João Tiago Teixeira

O que matará mais? A guerra ou a fome?

“Perdoe-me por esta frieza e até insensibilidade, mas as consequências maiores e mais devastadoras desta guerra irão muito para além daqueles que são todos os dias mortos nos campos de batalha da Ucrânia”

Nos primeiros dias em que o “mundo ocidental” assistia pela primeira vez em direto através da televisão e das redes sociais a uma guerra nas portas da Europa, uma onda de solidariedade nasceu. No entanto, as coisas podem estar a mudar rapidamente. Passaram-se 4 meses desde a invasão da Ucânia por parte da Rússia e já se percebeu que as vidas destruídas por este acontecimento vão para além do campo de batalha.
Num mundo globalizado, foi inocente acharmos que os únicos afetados e a precisar de ajuda seriam aqueles que estavam no lado leste do Velho Continente. Por isso a vontade de ajudar começa a esmorecer, porque todos estamos a ser direta ou indiretamente, mais ou menos afetados com tudo isto, mas…

O que matará mais? A guerra ou a fome?

Chamo a atenção para o gráfico abaixo:

A Rússia e a Ucrânia juntas são responsáveis por 27% das exportações de trigo (wheat), 23% de cevada (barley), 16% de milho (maize), 12% sementes de colza (rapessed) e 10% de sementes de girassol (sunflowerseed). Estes países fornecem quase 50% dos cereais importados pelo Líbano e a Tunísia e dois terços dos importados pela Líbia e pelo Egipto. As exportações provenientes da Ucrânia alimentam cerca de 400 milhões de pessoas.
Atualmente vamos vendo bloqueios nos portos a sul da Ucrânia, principalmente Odessa, aumentos exponenciais no preço dos cereais, campos agrícolas minados, celeiros e vias ferroviárias atacadas e máquinas agrícolas que trabalham muitas vezes sob o risco de estarem debaixo de fogo. Consegue antecipar a resposta à minha pergunta acima?

Nos países menos desenvolvidos, a escassez agravou e continua a piorar o risco destas pessoas morrerem à fome, sobretudo na Somália, no Quénia, na Etiópia, na Eritreia e no Sudão. É evidente que todos nós vamos sofrer com o aumento do custo de vida e com o prolongar cada vez mais indeterminado desta guerra. A economia poderá entrar em recessão, pessoas poderão ficar desempregadas, regimes políticos poderão ser afetados, mas morrer de fome??? Num mundo em que se estima que 25.000 pessoas, das quais 10.000 são crianças, morrem diariamente de fome ou causas relacionadas, imagina isto a piorar? O problema é que é possível, pois as estatísticas publicadas pelas Nações Unidas indicam que existem 854 milhões de pessoas desnutridas no mundo e a guerra pode colocá-las em ainda maior risco e arrastá-las fatalmente para a fome.

A Europa tem a responsabilidade de arranjar soluções!

A 4 de junho, Luigi di Maio, ministro dos negócios estrangeiros de Itália disse o seguinte: “A guerra mundial do pão já está em marcha e temos de a parar. Arriscamo-nos a ter instabilidade política em África, a haver proliferação de organizações terroristas, a ter golpes de estado. É isto que pode produzir a crise dos cereais que estamos a viver“. A análise e o comentário foram certeiros e desde então, não se sabe se como consequência ou não destas palavras que arrepiaram a Europa, têm sido feitos esforços para arranjar rotas alternativas para fazer chegar as toneladas de cereais retidos na Ucrânia aos países que deles precisam.

Talvez possa ter sido um comentário exagerado e pode-se dizer que aos políticos se deva solicitar prudência e recato na gestão destas situações. Contudo, perdoe-me por esta frieza e até insensibilidade, mas as consequências maiores e mais devastadoras desta guerra irão muito para além daqueles que são todos os dias mortos nos campos de batalha da Ucrânia. A fome será uma das consequências devastadoras, outras se avizinham.

Uma nova ordem mundial se afigura. No curto prazo parece-me que será certamente pior que a anterior a 24 de fevereiro de 2022, mas analisaremos noutro artigo.

Escrito a 19 de junho de 2022 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
A woman carries an infant as she queues in line for food, at the Tsehaye primary school, which was turned into a temporary shelter for people displaced by conflict, in the town of Shire, Tigray region, Ethiopia, March 15, 2021. REUTERS/Baz Ratner/File Photo

Links de interesse:
War in Ukraine: the emerging global food crisis | The Economist

Aumentos de 20%, no salário ou inflação?

A  taxa de inflação em maio ficou acima dos 8%, o valor mais alto desde 1993. O BCE vai aumentar as taxas de juro em julho. Há uma crise económica no horizonte, o que é que isto pode significar para o nosso futuro?

No início deste mês de Junho o primeiro-ministro António Costa convocou as empresas a participar num esforço nacional para fazer crescer o salário médio dos trabalhadores em 20% durante os próximos quatro anos da legislatura.

Com um golpe de magia política digno de Houdini, o Primeiro Ministro fugiu ao contexto inflacionista que vivemos e relegou para segundo plano todas as propostas dos partidos de oposição para subir rendimentos, surpreendendo os portugueses com um novo tema para discutir, conseguindo “relegar para” terceiros a responsabilidade de ajudar os portugueses a fazer face à emergente crise económica.

A  taxa de inflação em maio ficou acima dos 8%, o valor mais alto desde 1993

Segundo o INE a  taxa de inflação em maio ficou acima dos 8%, o valor mais alto desde 1993, com os produtos energéticos a liderar a subida com uma inflação superior a 27%, valor record desde 1985. Estamos num ciclo inflacionista que parece ter tido início no período COVID, impulsionado pelos milhares de milhões de euros despejados na economia para fazer face à crise sanitária.

in jornal Eco

Este ciclo terá sido sustentado pelas dificuldades logísticas nas cadeias globais de abastecimento que incrementaram muito custos de transporte e reforçado pelos picos de procura pós desconfinamento que baixaram níveis de stock e não refletiram sensibilidade às subidas de preço registadas. Este surto inflacionista não parece ter um fim para breve dado o impacto brutal que o esforço de guerra está a ter nos custos energéticos na Europa e que inevitavelmente se propaga no custo de tudo o que consumimos: produtos e serviços.

A responsabilidade institucional dos Bancos Centrais para com o sistema financeiro e o tradicional papel que desempenham, tornava inevitável que tarde ou cedo tomassem medidas para conter uma economia “sobre aquecida”.

Não discutindo a eficácia real que o aumento das taxas de juro pode ter na redução da procura dos combustíveis, a realidade é que a eventual falta de clareza e aparente timidez da ação do Banco Central Europeu (BCE) quando comparada à ação da Reserva Federal Americana, parece estar a levar ao enfraquecimento do Euro versus Dólar, o que per si alimenta um efeito cambial negativo que encarece o preço de compra dos combustíveis.

O BCE vai aumentar as taxas de juro em 0,25% em julho

O BCE já informou sobre a sua reação e a partir de julho vai terminar com as compras líquidas de dívida e aumentar as taxas de juro em 0,25%, tendo aberto a possibilidade de subir e chegar até aos 0,75% em setembro.

O objetivo da subida das taxas de juro passa por arrefecer a economia, reduzir a taxa de inflação para níveis compatíveis com os 2%  anuais através da redução da procura, que pode ser atingido pela redução do volume de dinheiro disponível entre quem compra produtos e serviços – particulares ou empresas, pressionando quem vende a manter ou baixar preços para conseguir escoar stocks.

Na prática a redução do volume de dinheiro disponível na economia é atingido pelo aumento dos custos de empréstimos, novos ou existentes, reservando parte do dinheiro que podia ser usado no consumo.

O que é que isto significa na prática?

Pensando nos empréstimos existentes e na sua relação com os particulares, o aumento das prestações de crédito pessoal ou habitação indexados à taxa Euribor vão subir e ocupar uma maior proporção de rendimento mensal, reduzindo o volume de dinheiro disponível para as restantes despesas o que se traduz na redução do consumo privado e respetivo poder de compra.

Para quem tiver interesse em simular o possível impacto da Euribor na mensalidade do crédito à habitação, recomendo esta plataforma, sendo que para efeitos de simulação dos valores da Euribor podem utilizar máximos de crises anteriores ou previsões recentes (mais negativas, a rondar os 5/5,5%).

Do lado das empresas o aumento do custo de crédito pode refletir-se na redução ou adiamento de novos investimentos, o que aliado à redução do consumo privado pode levar a desemprego. A interpretação da situação pode tornar-se complexa, no entanto o vídeo do The Economist explica de forma clara e simples todas estas relações.

Com tamanha hecatombe à porta, como fica o Estado Português? Sendo um dos países da Zona euro com maior percentagem de divida do PIB, superior a 130%, e estando os mercados a pedir garantias que não ocorrerá uma fragmentação da zona Euro, o governo português vai ser um dos que vão sentir maior pressão para manter uma trajetória orçamental “responsável”, que pode vir a ser severamente condicionada por um aumento dos custos do serviço de dívida.

Neste contexto o Estado poderá ver-se obrigado a reforçar os apoios sociais, o que seguramente reduzirá a capacidade financeira para outros investimentos públicos. Ora, não admira que o Primeiro Ministro desafie as empresas a subir salários pois não parece poder ser o Estado a poder patrocinar tal objetivo.

Ao longo dos últimos anos perderam-se muitas oportunidades e discutiram-se muitas (más) opções que apenas agora vão mostrar as verdadeiras implicações. A crise está mesmo aí e vai-nos afetar a todos. Não afetando todos de forma igual vai afetar principalmente aqueles que têm menos recursos e serão eles a passar (novamente) por mais sacrifícios. Aumentos de 20%, no salário? Tudo indica que a meta do aumento de 20% vai ser atingida, mas no aumento do custo de vida. Temos de estar preparados para isso!

Escrito a 13 de junho de 2022 por João Tiago Teixeira

Image Credit: Imagem do euro em frente à sede do Banco Central Europeu em Frankfurt na Alemanha © REUTERS/Alex Domanski

Links de interesse:

In Observador: É possível um aumento do salário de 20% em 4 anos? Entrevista com Luís Aguiar-Conraria

Video do The Economist: How does raising interest rates control inflation?

Doutor Finanças: Simulador da variação da Euribor no Crédito Habitação

Previsões Pessimistas das taxas de Juro: Central Banks Are Still Far Behind the Inflation Curve

Sobre o efeito cambial: Dollar gains with inflation data on tap, euro falls after ECB

Fragmentation risk in the euro area: no easy way out for the European Central Bank

Juros da dívida portuguesa em máximo de cinco anos após anúncios do BCE. 

A pior face da humanidade

Dia 4 de Abril acordamos para um novo Holocausto. Bucha é uma memória de Auschwitz, um fantasma que se levanta e lembra à humanidade qual a sua pior face.

Acreditámos num mito de que uma educação superior levaria à elevação da sociedade. Convenceram-nos de que uma democracia assente numa população formada, seria informada, esclarecida e coerente.

Vivemos à sombra de um iluminismo que, apesar de lógico, perde terreno para a obscuridade da crença, do desejo e da emoção. Torna-se cada vez mais difícil convencer terceiros, pessoalmente ou pelas redes sociais, da falta de razoabilidade de algumas das suas opiniões. Hoje é frequente cruzar com facilidade os domínios científicos, éticos, políticos, morais e até de fé, misturar tudo e definir posições abjetas sobre coisas que deviam ser simples, quase unânimes.

A história é uma interpretação aceite da memória coletiva da humanidade

A história não é uma coleção de factos, mas antes uma interpretação aceite da memória coletiva da humanidade. Por muito que os historiadores queiram ser objetivos, não é possível compreender os factos da história sem vê-los à luz do seu contexto e sem teorizar sobre a forma como as dinâmicas externas condicionaram as decisões tomadas pelos protagonistas da altura.

Embora seja importante assegurar um registo factual dos acontecimentos passados, é fundamental ir além dos factos observáveis e compreender os porquês, pois só através desta reflexão é que a humanidade pode evoluir de uma forma incremental. São os factos invisíveis, inobserváveis e muitas vezes não confirmáveis que nos podem munir de armas que previnam a criação de contextos similares, que nos façam precipitar para abismos passados.

Os anos 20 do século XXI serão provavelmente dos mais importantes da nossa história e à medida que passam os dias sobre o início da invasão Russa na Ucrânia, fica cada vez mais evidente que esta não é uma batalha que se trave apenas para lá do Dniepre.

A opinião pública é chave para pressionar os lideres políticos a tomar ações

A envolvente não convencional da guerra está a ganhar escala e torna-se cada vez mais clara o quão acertadas foram algumas das ações tomadas pelos líderes europeus. A opinião pública é chave para pressionar os lideres políticos a tomar ações e a guerra comunicacional inerente às duas fações em disputa, pretende influenciá-la de forma a paralisar a Europa e impedir a defesa e apoio ao território ucraniano.

Muitas opiniões rejeitaram a decisão de censurar os canais propagandísticos dos interesses russos e de forma bastante fundamentada alertaram que a Europa não devia utilizar as mesmas armas de um ditador, alertaram para a imprudência que seria abrir precedentes que pudessem criar fissuras para com os princípios democráticos europeus e até para com a própria liberdade de expressão. Algumas dessas opiniões defenderam até que a manutenção dos canais propagandísticos podia permitir acompanhar a visão russófona do conflito e que pela sua falta de coerência da comunicação, a falta de razoabilidade seria óbvia e por isso ineficaz a confundir a opinião europeia.

O Massacre de Bucha é provavelmente o primeiro grande acontecimento que prova o quão certa foi esta tomada de decisão. Este infeliz evento, equiparável aos fantasmas de Auschwitz, mostra como os mesmos factos podem ser interpretados de forma tão diferente pelos diferentes interesses políticos, e como a vivência do pós verdade pode justificar que apesar de investigações jornalísticas inatacáveis (os trabalhos do NY Times e do Guardian) possam ser caracterizadas por alguns como falsas e propagandísticas.

Bucha: os factos são os mesmos, no entanto existem diferentes histórias à volta destes acontecimentos

Os factos são os mesmos em todas as versões: “foram mortos dezenas de civis em Bucha”, no entanto existem diferentes histórias à volta destes acontecimentos. Infelizmente não precisamos de sair do nosso país para ver isto, temos tido diferentes comentadores que perante estes factos, têm tentado contaminar a opinião publica através dos jornais e talvez com isso abrandar o apoio que Portugal pode dar a este conflito.

Se para alguns a comunicação é racional, intencional e cumpre uma agenda deliberada, para aqueles que a ouvem é a emoção as suas crenças e a sua fé que os faz decidir sobre quem tem razão e o que será ou não verdade.

Embora todos pareçam desejar a prevalência da racionalidade, não podemos ignorar a forma como a emoção assiste o pensamento. Talvez seja a forma como a emoção e a razão se confundem que faz a humanidade única, talvez seja essa a característica chave que nos faz tomar sentido do mundo e ser diferentes de todas as outras espécies, e talvez por isso seja esta a pior face da humanidade.

Image Credit: Partilhado por @Carlosgpinto

Outras notícias de interesse:

https://www.theguardian.com/world/2022/apr/05/satellite-images-of-corpses-in-bucha-prove-russian-claims-wrong

https://rr.sapo.pt/noticia/mundo/2022/04/03/ucrania-denuncia-execucao-de-civis-em-bucha-e-fala-em-nova-srebrenica/278858/

Tenho medo, tenho esperança

“Venha daí mais um calhamaço, senhor Primeiro Ministro!”

Todos nos recordamos daquele icónico momento em que António Costa, no debate com o líder da “oposição” (as aspas foram propositadas), qual Moisés que mostra os 10 mandamentos ao povo, apontou às câmaras a proposta de Orçamento do Estado de 2022. Relembro ao leitor que isso aconteceu no dia 13 de janeiro do presente ano, ou seja, há cerca de dois meses e meio. Já Putin tinha o seu exército a desfilar na passarela junto ao Donbass e a inflação disparava no centro da Europa, e nós cá enchíamos jornais a discutir a governabilidade do país e os animais domésticos dos líderes dos partidos. Louvado pragmatismo português que nos levou a uma maioria absoluta (e reduziu o PAN a um deputado, já que falamos em animais).

É com jocosidade que agora relembramos esse momento, já que o calhamaço (ou grande parte dele) pode ir diretamente para o lixo, porque as coisas mudaram.

Quando o meu amigo João Tiago Teixeira, na passada semana, nos fazia refletir sobre o que todos nós podemos perder com esta guerra (ver aqui), estava, de facto, a chamar a atenção para a importância de pensarmos em tudo o que mudou – recordo – em dois meses e meio. O cenário em que o novo orçamento será escrito é diferente e, sobre isso, eu tenho a dizer: tenho medo, tenho esperança…

Entendidos dizem que a primeira fase da guerra já passou e, pasme-se, Putin perdeu-a. Encontrou um povo ucraniano destemido e organizado que, movido por um forte espírito nacionalista e libertário esteve, até agora, disposto a lutar até às últimas consequências. É importante ter a clara consciência que eles estão a lutar por nós. Estão a lutar pelos valores europeus. Estão a lutar pela liberdade, pela igualdade, pela justiça, pelos direitos humanos, pelo pluralismo… pela democracia. E isso uniu a Europa de forma absolutamente supreendente.

No entanto, não esquecer que, mesmo a perder, Putin continua a lutar pelos valores da História que ele (r)escreveu, e diz-se que um cão com medo e raivoso tem tendência a ser imprevisível e a atacar para se defender. Pois, cada dia que passa o meu medo relativamente ao que possa fazer é maior. O custo humano, económico e político do não atingimento dos objetivos a que este tirano se propôs leva ao risco de ataques mais violentos e agressivos. Um míssil que atravesse uma fronteira errada, uma escalada química, ou até mesmo nuclear, pode levar a que a NATO não possa simplesmente continuar a enviar armamento para a Ucrânia e aí as consequências são dramaticamente superiores, se a sua intervenção for chamada.

Esse receio já levou a uma mudança brutal da estratégia dos orçamentos dos países no que diz respeito à defesa. Numa Europa, que depois da Segunda Guerra Mundial, e sobretudo depois da queda do muro de Berlim, parecia viver numa paz eterna e sem necessidade de se capacitar militarmente, vê-se agora confrontada com a urgênica de se reforçar rapidamente. E o lençol não estica… O que tapa na defesa, destapa nos cuidados de saúde, na educação e sobretudo no combate às alterações climáticas que, mais uma vez, vê-se a ser um tópico arrumado para o fundo da gaveta. Contudo, é minha esperança que isto acelere na Europa a transição energética, há tanto tempo falada, mas vítima de uma inércia que era até então conveniente. Portugal aí até se encontra numa posição diferenciada.

Por isso, antecipam-se tempos de enorme incerteza e de muito perigo. Não estamos a ter a recuperação pós-pandémica que queríamos e, embora devamos estar orgulhosos da enorme onda de solidariedade a que temos assistido, ela irá terminar quando sentirmos as consequências desta crise nos nossos bolsos. Vamos precisar certamente de um novo orçamento e de um governo forte e que intervenha para evitar consequências piores (os meus amigos “liberais” até se sobressaltaram com esta afirmação).

Preveem-se tempos de sacrifício – aquela narrativa esgotada que estamos todos cansados de ouvir nos últimos dois anos. Esperemos que o Parlamento seja suficientemente bom para desafiar um Governo de maioria absoluta neste contexto imprevisível. Pede-se mais objetividade e menos discussões supérfulas nos assentos do hemiciclo. Algo que a Ucrânia conseguiu mostrar ao Ocidente foi o tempo perdido nos últimos anos a discutir esquerda e direita, liberalismo e nacionalismo e o quão superficial e inconsequente esse debate por vezes é. Este país demonstrou que é possível ser nacionalista e lutar por valores liberais, e isso deve-nos fazer pensar o quão unidos precisamos de estar para sermos mais fortes e salvaguardar os valores europeus e das democracias liberais. Polos opostos e negociações bloqueadas antes de se sentarem à mesa não cumprem os interesses dos cidadãos.

Todavia, tenho medo que talvez o orçamento não chegue para evitar as crises económicas e sociais que se antecipam. Ao mesmo tempo tenho esperança que tudo isto se resolva mais rápido do que achamos (difícil na realidade). Que um Governo de maioria absoluta não se torne numa ilha e que as intervenções dos deputados que nos representam não fiquem reduzidas a conteúdo para Tweets ou para o soundbite de abertura de Telejornal. São tempos de crise que exigem uma intervenção construtiva e ambiciosa. Isso passará, certamente, por uma liderança forte e renovada da oposição, mas essa é uma discussão que fica para outro artigo…

Bem, paremos um pouco de tentar antecipar cenários. Venha daí mais um calhamaço, senhor Primeiro Ministro!

Escrito a 30 de março de 2022 por Sérgio Brandão

Guerra da Ucrânia, perderemos todos ou não?

Guerra na Ucrânia: alguém que não tenha nada a perder, pode simplesmente querer que todos os outros percam também.

Olhando ao presente, a Rússia já perdeu. Putin está condenado a perder. A Ucrânia chora as suas perdas e resiste. A questão que o futuro se encarregará de dar resposta é se perderemos todos ou não.

Dia 24 de Fevereiro de 2022 ficará registado como o dia em que a Europa acordou para o início da primeira guerra nas suas fronteiras no Século XXI. Foi um dia igual àqueles que recordo de estudar na infância, onde aprendi sobre as atrocidades longínquas, outrora cometidas nas velhas Guerras Mundiais, cujo gradiente cinza das imagens engana o ingénuo espírito das crianças, que crescem num tempo de paz e prosperidade, pensando que aquela história teria sido vivida por outros que nada tinham a ver consigo ou com os seus.

O exército Russo apresentou-se nas fronteiras ucranianas como um dos maiores do mundo, mais de 700.000 soldados, o maior arsenal nuclear do Mundo e um orçamento anual militar apenas superado pelos da China e Estados Unidos.

Dado o contexto económico e social da Rússia se traduzir num estado híper centralizado nos corredores do Kremlin, ineficiente, pensado para favorecer a persistência das forças de poder existentes, alicerçado num esquema de incentivos que anula a competitividade interna, levam a que o exército de Putin seja acompanhado por um PIB de 1.478 Milhões de Euros, valor equiparado ao espanhol, assente na extração de recursos naturais e alicerçado por uma cadeia de valor altamente dependente da importação de tecnologia ocidental.

GDP (current US$) – Spain, Russian Federation, France, Germany, United Kingdom, World Bank national accounts data, and OECD National Accounts data files.

O exército russo combate com o objetivo de defender e reforçar as posições de poder existente

Tal como o contexto económico, as ações militares são desenvolvidas dentro do mesmo contexto, o exército que combate em território ucraniano luta pelos objetivos definidos pelo seu líder, que para todos os efeitos tem como objetivo o de defender e reforçar as posições de poder existente na Rússia.

Na aceção da sua população a Rússia já perdeu, pois as sanções económicas que se fazem sentir no país estão a empobrecer e a prejudicar uma população já de si pobre, que vive numa sociedade muitíssimo desigual e que caminha para um trilho de faltas e privação.

Putin está condenado a perder, ora porque perdeu um dos seus principais trunfos, o mythos da invencibilidade do seu exército, ora porque se deixou trair a si próprio, ofuscado pelo brilho da sua liderança, chegou a um isolamento tal que se apresenta receoso daqueles que o rodeiam, parecendo recear o vazio da sua própria sombra.

A Ucrânia chora as suas perdas, as muitas vidas perdidas em combate, os muitos civis inocentes que foram abatidos na escalada militar e todas as infraestruturas que estão a ser destruídas pelos intensos bombardeamentos. A Ucrânia chora as suas perdas, mas faz delas a uma força e resiste, insiste e cresce sob um novo mythos de uma resistência que se parece querer perpetuar.

Alguém que não tenha nada a perder, pode simplesmente querer que todos os outros percam também

Imaginando as tentações que podem passar pela mente de um condenado, não é descabido pensar que alguém que não tenha nada a perder possa simplesmente querer que todos os outros percam também. Por isso, só o futuro conseguirá responder à questão: No fim perderemos todos, ou não?  

Outras notícias de interesse:

Understanding Putin’s war of resentment and how to stop it – European Politics and Policy or the London School of Economics

Russia Is Too Small to Win – Project Syndicate

The world’s 20 strongest militaries – Business Insider

Featured image credit: Revista Time Março 2022