Sociedades modernas, evoluídas e civilizadas dependem de instituições. Instituições que deverão ser estáveis, previsíveis e fiáveis para criar confiança entre elas mesmas e nos cidadãos que servem.
De que instituições falo? Das políticas, económicas, educacionais, religiosas, jurídicas, culturais, de saúde. No fundo, todas. Todavia, as mais importantes para qualquer Nação são aquelas que pertencem ao Estado. São essas que, nos dias de hoje, são vistas como um inimigo.
Há um combate feroz feito ao valor e ao papel que o Estado tem num país. Todos aqueles que se sentem abandonados, desiludidos, depreciados pela Sociedade onde vivem, depositam uma boa parte da culpa (se não toda) no Estado, em especial no Governo que as dirige.
Esse Estado, maior ou menor, dependendo do país que analisamos, é hoje, nas democracias mais maduras, objeto de escrutínio violento e crítica agressiva. Movimentos por todo o mundo surgem, justamente, no âmbito de eleger pessoas que vão “pôr a mão” nesse bicho descontrolado, vil e obscuro que nos tem limitado ao sucesso e à prosperidade e que está capturado e gerido por interesses contrários àqueles que o povo, a classe trabalhadora, os que descontam, defendem (atenção, há aqui ironia).
É evidente que, sobretudo em Portugal, há “Estado a mais” em algumas áreas e que, naquelas em que está, muitas vezes nos falha e é ineficiente (escutar a série de podcasts “porque Falha o Estado?” do Expresso). Não sendo eu, para surpresa do leitor, um especialista em eficiência do setor público, abstenho-me de dar grandes sugestões de melhoria neste campo. Todavia, não falta obra publicada que pode ser lida e analisada por qualquer cidadão interessado em saber o que os especialistas defendem para a melhoria do Estado e do setor público.
Sendo consciente da situação e do seu impacto e das apreensões mais ou menos legítimas e compreensíveis, lanço abaixo alguns pontos de reflexão sobre a atual hostilidade e repulsa sobre o Estado:
1) Cortar, despedir, substituir. Até onde?
Esta visão messiânica de que determinado líder ou movimento, ao aplicar a “motoserra” no Estado, todos os problemas do Povo ficam resolvidos, parece-me uma visão demasiado optimista (e infantil) de como as coisas funcionam. Uma Sociedade complexa, próspera e democrática deverá lutar por um Estado moderno que sirva os seus cidadãos de forma competente, profissional, neutra, transparente e, sobretudo, longe de influências partidárias. Tal serve de plataforma para um impacto que perdure no tempo e não seja objeto de pressão constante mediante a cor e os ventos políticos.
O perigo da chegada de um herói, um salvador, que promete mundos e fundos sobre a melhoria dos serviços do Estado poderá levar à substituição de funcionários públicos por verdadeiros acólitos. Isto pode ser um primeiro passo para a autocracia ou até a plutocracia, onde o Estado, alimentado somente por pessoas afetas ao seu líder, servirá apenas a este e àqueles que o rodeiam, deixando de parte os cidadãos.
2) As limitações da nossa mente. Estaremos a exagerar?
O viés da negatividade resulta da tendência que temos de valorizar mais as coisas negativas em detrimento das positivas.
Vários estudos feitos nas redes sociais avaliam justamente isto. Conteúdo que apresente um tom negativo, polémico ou abjeto é muitíssimo mais partilhado e alimentado pelos algoritmos. Tal faz com que uma determinado notícia ou opinião que se enquadre nesta categoria, independentemente da sua veracidade, seja mais facilmente difundida de maneira descontrolada.
Será então de esperar que a atual percepção que temos do Estado esteja a ser massivamente afetada por esta realidade. Independentemente de todos os indicadores existentes ditarem que há menos pobreza, mais saúde, mais educação, melhor qualidade de vida, etc, etc, a ideia que temos é a de que estamos cada vez pior e sem rumo ou solução. Tal também é hiperbolizado devido ao que descrevo no terceiro e último ponto.
3) A expectativa que o capitalismo criou. Tem mesmo tudo de ser para ontem?
Foi exatamente Estados inseridos em sociedades capitalistas democráticas que nos permitiram sonhar mais alto e deter uma riqueza e uma qualidade de vida que eram há 100 anos completa miragem para grande parte da população mundial.
Esse capitalismo levou à criação de ferramentas, aplicações e soluções que nos resolvem problemas e necessidades em segundos e de forma personalizada. Coisas comuns do nosso dia a dia que antes podiam tardar imenso, hoje são imediatas.
Como cidadão, eu estou habituado a ter internet a toda a hora, a receber um livro que está do outro lado do mundo em casa no dia seguinte, a ver um filme sueco desconhecido por 99,99% da população que se encontra à distância de um clique, a ter uma resposta à pergunta “resume-me todos os capítulos da Anna Karenina de Tolstoy em 1000 caracteres” em menos de um minuto.
Se no meu dia a dia vivo com toda esta facilidade e rapidez, é normal que procure o mesmo no Estado. O problema é que saber como vou resolver o problema de integração dos imigrantes não está à distância de um clique, descobrir o melhor modelo económico a aplicar no meu país não nos é dado no ChatGPT, e que aumentar os salários não é tão rápido como fazer o download de uma série de 10 temporadas.
Sendo este artigo uma reflexão que vem em defesa do Estado e das instituições públicas, não deixo de reforçar a importância de rever o seu papel, a sua dimensão e influência.
A provocação deixada vai mais no sentido de questionar a narrativa facilitista e de resolução imediata que vemos por aí. Nunca problemas complexos foram resolvidos de maneira simples e imediata. Deste modo, não caiamos na tentação de pensar que lá porque muitas das tarefas da nossa vida são muito mais simples de realizar do que eram para os nossos pais e avós, isso signifique que a Sociedade também o seja. Muito menos sejamos cegos e esqueçamos onde estamos e de onde vimos.
Falta esperança e positivismo hoje em dia. Tudo nos parece mal e em decadência. Fica aqui o meu humilde contributo no combate a este aflitivo e ofegante pessimismo.
Escrito a 29 de outubro de 2025 por Sérgio Brandão
Créditos de Imagem:
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