O Reino Unido “Só tem para oferecer sangue, sofrimento, suor e lágrimas”?

“Está a ser uma novela muito triste que certamente terá mais episódios nas próximas semanas. O Mundo sente falta do vanguardismo e das práticas políticas de referência que o Reino Unido lhe deu.”

Há dias confrontei-me com a notícia de que Gary Lineker, apresentador do programa “Match of the Day” da BBC, tinha sido afastado após criticar as políticas migratórias do governo britânico nas redes sociais, interrompendo assim a emissão do programa que dirigia. Depois de uma avalanche de críticas, o comentador foi autorizado a regressar e a BBC anunciou que iria rever as sua política de utilização de redes sociais por parte dos colaboradores. O diretor-geral da BBC, Tim Davie, pediu desculpas pela interrupção do programa e reconheceu que o equilíbrio entre a imparcialidade exigida pela empresa e a liberdade de expressão é difícil. Para além disso, admitiu que as novas orientações da BBC vão ter em conta os freelancers como Lineker, pois a postura não pode ser igual àquela que se aplica às figuras que estão na esfera da cobertura política ou de notícias.

Embora o desfecho tenha sido positivo, houve várias coisas que me preocuparam. Vejamos o tema em duas partes: primeiro a causa, depois a consequência…

Que políticas polémicas quer o governo britânico aplicar?

Em 2022, 45.755 homens, mulheres e crianças atravessaram o Canal da Mancha em pequenos botes para chegar ao Reino Unido e a maioria deles já solicitou asilo. Quase 3.000 pessoas já fizeram a travessia este ano, estimando que se atinja os 80.000 até ao final de 2023.

Rishi Sunak prometeu acabar com isto, introduzindo a “Illegal Immigration Bill” (lei de imigração ilegal). O lei visa dissuadir migrantes e traficantes de pessoas a atravessar o Canal, recusando, por isso, asilo àqueles que cheguem ao país ilegalmente. Deste modo, a referida lei permitiria deter imigrantes ilegais nos primeiros 28 dias, sem medidas de coação ou recurso judicial, até que possam ser removidas. Confere também ao “dever de remoção” precedência sobre o direito de asilo, com exceções para menores de 18 anos e pessoas com problemas médicos graves. A legislação representa um sério teste ao compromisso do Reino Unido com a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e a Convenção das Nações Unidas sobre Refugiados, que conferem direitos aos requerentes de asilo que chegam a este país.

Sejamos francos, é óbvio que a migração ilegal e a chegada de refugiados a qualquer país, se for feita de forma descontrolada, acarreta uma pressão brutal nos serviços públicos prestados e cria tensões sociais que leva a conflitos hostis e à dificuldade de integração. Mas estes atos que o governo britânico propõe visam criminalizar quem foge da guerra e da fome para os locais onde há paz, prosperidade e emprego, como é caso do Reino Unido. Custa ainda mais a assistir a isto quando este país tem tido nos últimos anos políticas até bastante humanistas e que servem de exemplo para qualquer um. Aqui refiro-me aos protocolos estabelecidos com a Ucrânia e Hong Kong, de onde receberam de braços abertos de cada um dos países 270.600 e 150.000 pessoas, respetivamente.

As razões para o desenvolvimento desta política são fáceis de perceber: o Partido Conservador tem estado mal nas sondagens e uma das principais preocupações do seu eleitorado é a imigração ilegal, pois alegam que esta chegada de migrantes e refugiados tem aumentado a criminalidade e trazido problemas aos serviços públicos britânicos, nomeadamente na saúde e na segurança social.

O curioso no meio disto tudo é vermos um “moderado” e filho de imigrantes, Rishi Sunak, a usar uma cartilha semelhante àquela que outros partidos de extrema-direita têm utilizado pela Europa fora. Isto acaba por ser o último ato desesperado que o Partido Conservador demonstra após anos de falhanços que impactaram econónica e socialmente os britânicos após o Brexit.

“O Efeito Brexit: como ter deixado a UE afetou o RU?” (em inglês)

Como é que Gary Lineker aparece e faz tremer isto tudo?

Num tweet, Gary Lineker, fez chegar este tema a uma outra dimensão:

Ao lermos com calma e ponderação o que ele escreveu percebemos duas coisas: Gary Lineker sabe que o terror do Nazismo e do Holocausto não apareceram de repente numa madrugada, mas sim num processo longo de autoritarismo e desrespeito pelas minorias frágeis; e que a BBC teve uma reação de cancelamento absolutamente desmensurada face à situação descrita.

No entanto, que sorte termos tido alguém, absolutamente improvável, mas de enorme respeito por parte dos britânicos e do mundo, que olhou para este tema de uma outra forma. Aqui, a suposta restrição de liberdade de expressão que a BBC teve, não se traduziu no resultado que a estação de TV e rádio previa, mas num outro extremamente melhor. E o facto de alguém, como Gary Lineker, não ter voltado atrás com a palavra, nem ter pedido desculpa ou se ter deixado condicionar por um suposto contrato milionário que detém, mostra que os valores individuais de cada um podem valer muito mais que o dinheiro e a fama.

Ainda assim, custa-me imenso ter vindo a assistir a esta decadência das instituições mais prestigiadas do Reino Unido. É um país que contribuiu imenso para a construção da democracia, do estado social, foi pioneiro na revolução industrial, na inovação científica e na filantropia. Ao volante foi sempre tendo sucessivos governos com figuras determinantes e inspiradoras. Para além disso, todos sabemos que não se pode falar de jornalismo e da democratização da informação no século XX sem falar da BBC.


Está a ser uma novela muito triste que certamente terá mais episódios nas próximas semanas. Ainda que com a suas contradições (pois todos os países as têm), o Mundo sente falta do vanguardismo e das práticas políticas de referência que o Reino Unido lhe deu nos últimos 150 anos. Sabemos que não tem apenas para oferecer “blood, toil, tears and sweat“(sangue, sofrimento, suor e lágrimas) como Churchill proferiu no seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns, a 13 de maio de 1940…

Escrito a 19 de março de 2023 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
Rishi Sunak wades into Gary Lineker row and says ‘not everyone will agree’