Será Trump uma ameaça para a Europa?

Desde 2016 que o atual candidato republicano à Casa Branca demonstra as suas controversas ideologias, colocando-nos a pensar: deve a Europa temer um regresso da administração de Donald Trump?

“America first” significa “Europa por sua conta”?

Desde a primeira vez que foi eleito, em 2016, Donald Trump grita a todos os ventos “America first”, tornando as suas crenças bem visíveis.

O ex-presidente americano defende expulsar imigrantes, fomentar a indústria petrolífera, aumentar as taxas de importações, mas, mais grave ainda, fomenta o discurso anti-NATO com as suas polémicas declarações. No entanto, que peso trariam estas premissas ao continente Europeu? 

A Europa, como continente de estados soberanos e, maioritariamente moderados, não se representa na grande parte das declarações tecidas por Donald Trump, e a prova disso mesmo são as declarações do Primeiro-Ministro Belga feitas no início deste ano no Parlamento Europeu, onde afirmou que se a “América primeiro” voltar “outra vez”, será mais a “Europa por sua conta”.

Contudo, De Croo afirma também que, caso a eleição do republicano suceda, a Europa ficaria com uma “base mais forte” podendo “abraçar outras oportunidades”, dando assim ao continente ainda mais espaço para se afirmar como grande potência. 

A imigração

Donald Trump defende fechar as fronteiras, facilitar deportações, condenar à pena de morte qualquer estrangeiro que mate um americano civil ou força da autoridade e, para além disso, prega a todos os ventos que os imigrantes “comem os animais de estimação dos cidadãos americanos”, algo que já veio a público ser desmentido pelas autoridades. 

Trump, ao fazer este tipo de declarações, está a rotular comunidades, a agredi-las e menosprezá-las enquanto as mesmas trabalham diariamente para colocar sustento em casa e desenvolver a economia do país.

Este tipo de discurso é antitético ao europeu que, por outro lado, de um modo geral, afirma o valor dos imigrantes, considerando que são essenciais ao desenvolvimento das economias do continente, valorizando as suas raízes culturais e, em alguns casos, dando-lhes proteção e asilo. 

Segundo Ronald Reagan, republicano, por graça, nas suas declarações feitas em 1989, disse que os imigrantes “são homens e mulheres corajosos que deixam as suas casas e que vão para um país novo para procurar uma vida melhor e que contribuem mais do que recebem”, provando a priori que as ideias são as pessoas que as fazem. 

“Drill, baby, drill…”

No seu mandato Trump decidiu abandonar o Acordo de Paris, fazendo com que os EUA se tornassem mais uma vez uma nação sem rumo face às alterações climáticas, criando um fosso no caminho para a neutralidade carbónica.

É objetivo de grande parte dos países europeus atingir a neutralidade carbónica até 2050 e, por isso, a grande maioria tem apostado, por exemplo, no setor da energia elétrica, onde está bastante vincada a transição energética, optando cada vez mais por fontes sustentáveis e renováveis, contribuindo assim para as metas climáticas europeias.

No mesmo ponto, Trump, devido ao aumento exponencial dos preços da energia nos EUA, defende o regresso à exploração em massa do petróleo no Alasca, indo contra os objetivos mundiais de utilização sustentável de recursos, reavivando a teoria republicana “drill, baby, drill…” citada pela primeira vez em 2008 pelo, à data, vice-governador do Maryland, Michael Steele.

Esta ideia de uma economia assente na exploração de petróleo para qualquer fim, neste caso, alegadamente para a produção de eletricidade, é antitética às políticas anti-imigração, isto porque uma economia assente em produtos de alto valor acrescentado, tende a necessitar de uma mão de obra mais barata, sendo normalmente proveniente da imigração.

 O futuro da Aliança Atlântica 

Trump, com toda a sua convicção que já nos é habitual afirmou, encorajando a Rússia, “a fazer o que raio quiser” com os aliados da NATO que não cumprissem as diretrizes de gastos de 2% do PIB previstos para a defesa. Como seria de calcular, estas declarações preocuparam a comunidade europeia, levando o responsável pela política externa e de defesa da União Europeia, Josep Borrell, a dizer que “a NATO não pode ser uma aliança militar ‘à la carte’”. 

Estas afirmações apenas comprovam que, para o republicano, o seu sentido de Estado está constantemente dependente de falácias e pensamentos irrisórios acerca do mundo que o rodeia, podendo, como vemos, prejudicar, hipoteticamente, a segurança e soberania de outros estados, principalmente os europeus, onde a defesa da Ucrânia, por exemplo, é uma questão intrínseca, tal como citou no seu discurso o Primeiro-Ministro Belga:

Para os Estados Unidos e para outros aliados, o apoio à Ucrânia é uma questão estratégica, é uma consideração geopolítica. Para nós, europeus, o apoio à Ucrânia é existencial.

– Alexandre De Croo, Primeiro-Ministro Belga.

Esta possível descredibilização das forças da NATO, podiam provocar uma afirmação dos BRICS como potência militar, sendo que representam cerca de 45% da população mundial e as suas economias têm vindo a registar crescimentos económicos significativos e um aumento das suas forças militares.

Economia

Donald Trump segue a ferro e fogo pregando políticas protecionistas evidenciando uma economia de mercado bastante vincada (como à boa moda americana), taxas adicionais de 10% a todos os produtos importados e um valor ainda mais elevado sobre os produtos chineses.

Trump incita ainda a que a população americana invista em criptomoedas, mercado este que é instável e que pode conduzir a más decisões financeiras, levando as pessoas a perder, hipoteticamente, milhares de dólares investidos.  

A Europa, continente de livre circulação de bens e pessoas, através do espaço Schengen, condena categoricamente estas propostas do ex-presidente americano, isto pois, de um modo generalizado, iriam afetar a economia europeia e também americana, visto que um dos principais importadores de certos setores da sua indústria é os EUA. 

Ainda sobre o petróleo, mercado este manchado, literalmente, ao longo dos anos por crises e grandes catástrofes ambientais, não deveria em pleno século XXI continuar a ser fonte de rendimento de qualquer economia, apenas salvas as exceções de transição, isto por considerar ser um mercado lucrador, sim, mas que, como pudemos ver, pode acabar com a sobrevivência das espécies e do planeta em pouco mais de um século. 

“Imagine a world…”

Concluindo, e tendo em conta que, no total, estas medidas custariam, por ano, 500 mil milhões de dólares aos americanos, considero que Trump é sim uma ameaça para o continente europeu e para a sua própria nação, pois, como está exposto ao longo deste artigo, as suas políticas preocupam não só a comunidade europeia como também a comunidade internacional, tudo por alguns “trocos” para seu favor próprio e nunca para o desenvolvimento da nação e da paz comum. 

Falando em paz, é imperativo não esquecer a inspiração de Trump em líderes autoritários, como Viktor Orbán e Giorgia Meloni, o que descredibiliza, e muito, a figura dos Estados Unidos como “pai” das democracias liberais. 

É importante combater estes movimentos políticos, como o de Trump, para prevenir que sirvam de “escola” para as gerações vindouras, evitando assim uma Europa fragmentada e um mundo destruído por crenças hediondas.

Escrito a 31 de outubro de 2024 por Francisco de Melo Ambrósio.

Alguns vídeos informativos como complemento aos temas abordados:

Imigração

“Drill, baby, drill”

O futuro de Portugal precisa dos jovens. O presente dos jovens precisa de Portugal.

Vivemos num país onde 20% da população está em situação de pobreza ou exclusão social. Um país onde a desigualdade persiste, um país pobre e que vê a sua classe média a esfumar-se.

O desemprego apresenta-se entre os diferentes catalisadores de um contexto de vida adverso como uma das principais razões de pobreza. Segundo o relatório sobre as Desigualdades, a incidência de pobreza nos desempregados ascende a quase 50% e mesmo entre os que trabalham, vemos mais de meio milhão pessoas que não consegue garantir um nível digno de vida.  

Se pensarmos que a taxa de desemprego do país atingiu uma marca histórica no último mês de Fevereiro, reduzindo para 6% e que está em mínimos dos últimos 20 anos, então diríamos que temos razões para ser otimistas, razões para acreditar no futuro. Do lado do governo é notório o orgulho na marca conseguida, não fosse esse o título da sua comunicação.

Apesar da celebração da empregabilidade estar em alta, não podemos dizer que esta seja uma festa para onde os jovens tenham sido convidados. Uma leitura atenta da mesma comunicação fica a saber que a taxa de desemprego jovem reduziu -2,7% face a janeiro de 2021 mas fica sem saber onde chegou, onde está ou de onde partiu.

Tendo de complementar a leitura com uma consulta rápida dos dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, conseguimos descobrir que a taxa de desemprego jovem é de 23,4% e continua a estar num patamar superior aos níveis observados no período pré troika.

Num contexto onde o desemprego é um dos principais fatores de pobreza, quase 50% da incidência de pobreza está no grupo dos desempregados e um quarto dos jovens está nesta situação, é compreensível que segundo a sondagem à boca das urnas, um governo eleito por maioria absoluta, tenha tido tão poucos jovens a votar nele.

Uma estrutura demográfica envelhecida faz dos jovens uma geração esquecida pelos políticos, como não é com eles que se ganham eleições, são um grupo de voto sem interesse, que menos importa defender ou agradar, pelo que não vale a pena fazer vãs promessas ou apelar sequer ao voto. Estamos perante um executivo que pode governar de forma absoluta e que governa absolutamente pouco a favor dos mais jovens.

Perante esta realidade é difícil convencer um jovem do quão auspicioso é o seu futuro.

Um jovem que não tem emprego não sabe se vai poder comprar uma casa algum dia. Um jovem que não tem emprego não sabe sequer o dia em que vai conseguir sair do quarto de sempre, que fica ali ao lado do quarto dos seus pais.

Um jovem que não tem emprego não sabe quanto tempo falta para se sentir capaz de constituir família. Um jovem que não tem emprego não sabe o que vai fazer no dia de amanhã se no amanhã a família lhe faltar.

Um jovem sem emprego não teve oportunidade de entrar no mercado de trabalho e influencia-lo com as suas ideias e produtividade, não pode constituir família e contribuir para a natalidade, não pode receber um salário e pagar impostos que permitam sustentar a segurança social.

Pior que um jovem não ter emprego, é ter emprego, mas dada a precariedade continuar a não saber responder a nenhuma destas questões.

Não há maior barreira à prosperidade, desenvolvimento e crescimento de um país, que a falta de esperança e perspetivas para um futuro favorável e melhor para aqueles que vão fazer dele o seu futuro.

A desigualdade e a falta de perspetivas de futuro para os mais jovens pode levar à erosão do sistema democrático.

Discutir o futuro da nossa sociedade, o futuro que as diferentes gerações desempenham nela e a transformação que pretendemos para o país é urgente e fulcral, ou de outra forma arriscamos não conseguir manter vivo o sistema plural em que vivemos.

Se o sistema em que vivemos não se mostra capaz de os defender é compreensível que mais tarde ou cedo, sejam eles a querer defender-se do sistema. O futuro de Portugal precisa dos jovens, mas o presente dos jovens precisa de Portugal. A bem de todos está na altura de dizermos: Presente!

Image Credit: Dal Marcondes

Outros sites de interesse:

https://portugaldesigual.ffms.pt/evolucaodasdesigualdades

https://www.dinheirovivo.pt/economia/desemprego-continua-a-subir-para-os-mais-novos-e-apanha-jovens-da-ultima-crise-14582325.html

https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+desemprego+total+e+por+grupo+et%C3%A1rio+(percentagem)-553

https://rr.sapo.pt/noticia/politica/2022/02/18/legislativas-2022-mais-velhos-votam-ps-jovens-e-mais-instruidos-preferem-a-direita/272968/