EUA: Uma mudança de Regime, um novo Mundo

Há uma mudança de regime em marcha e um novo e incerto mundo pela frente. Foi o que os eleitores escolheram. O povo é soberano, mas até quando?

Passado pouco mais de um mês após a tomada de posse de Donald Trump, vemos uma mudança acelerada e dramática daquilo que conhecemos dos Estados Unidos da América. A nível interno assistimos à erradicação e profunda alteração daquilo que é o federal civil service, ou seja, a função pública, e a nível externo vemos uma guinada muito forte naquilo que é o histórico posicionamento dos EUA em matéria de política externa.

Podemos estar a assistir a uma mudança de regime, onde Donald Trump une esforços “dentro de casa”, com Elon Musk, para mudar valores, cultura e o âmbito das instituições federais, e “fora de casa”, com os seus cães de fila Mark Rubio e J. D. Vance, com a redefinição do valor das alianças que foram forjadas após a Segunda Guerra Mundial, causando incerteza e preocupação entre os velhos aliados dos Americanos.

Estas duas narrativas convergem num foco de transformar a atual ordem mundial para criar uma nova realidade tanto dentro, como fora dos Estados Unidos.


A reconstrução do Serviço Público Americano

Apesar do seu nome, o Department of Government Efficiency (DOGE), encabeçado por Musk, aparenta estar menos preocupado com a eficiência e mais focado em aniquilar e destruir os valores e costumes dos serviços públicos federais. Agora com o apoio de Russel Vought, o recém nomeado diretor do Gabinete de Gestão e Orçamento e arquitecto do projeto de mudança de regime, Project 2025, Donald Trump tem em marcha a sua propaganda para transformar a Função Pública.

Durante a campanha de 2024, Trump referiu-se ao Dia da Eleição como o “Dia da Libertação” dos “vermes” e “lunáticos radicais de esquerda”, sugerindo, desde logo, a sua intenção numa renovação completa das instituições americanas. Apoiado por figuras como o seu vice-presidente, J.D. Vance, que sugeriu despedir burocratas e substituí-los por aquilo a que ele chama como “os nossos aliados”, destacou o objetivo mais amplo de desconstruir o estado administrativo. Estas ideias, embora agressivas, não são novas. Outros líderes como Hugo Chávez e Viktor Orbán usaram táticas semelhantes, visando consolidar melhor o seu poder ao eliminar normas civis estabelecidas e todos aqueles que iam contra a sua narrativa, ou seja, possíveis ameaças.

Ainda há poucos dias, Musk enviou um e-mail oferecendo um “buyout” (vários meses de salário em troca de demissão) à grande maioria dos funcionários federais, destacando que eles eram 100% descartáveis. Simultaneamente, Musk atacou a USAID, forçando os seus funcionários a abandonar projetos vitais, resultando num possível risco para a sobrevivência de milhares de vidas em todo o Mundo. A administração Trump não reconheceu o impacto real destas ações, optando por desinformar sobre o papel mundial da USAID, dizendo que deu milhões de donativos ao Político, que financiou visitas de celebridades à Ucrânia, que enviou 50 milhões de dólares de preservativos para Gaza e ainda que pagou 84 milhões de dólares a Chelsea Clinton. Tudo mentira. Este caso deixou em alerta todos os funcionários públicos, que agora sabem que podem ser os próximos a sofrer cortes abruptos e campanhas vis de difamação. Agências como o Consumer Financial Protection Bureau e a Environmental Protection Agency já foram afetadas, com outras potencialmente seguindo o mesmo caminho, especialmente aquelas envolvidas em iniciativas mais progressistas ou apelidadas como de cultura “woke”.

A degradação da identidade e responsabilidades do serviço público, que tinha muito enraizado o respeito pelo estado de direito e a manutenção da neutralidade política, ameaça transformar a administração federal num sistema de compadrio, mais preocupado com a lealdade cega ao movimento Make America Great Again e a pureza ideológica do atual Partido Republicano, do que com a competência e imparcialidade. Esta mudança radical é um prenúncio perigoso daquilo que é o processo de transformação em marcha das instituições democráticas americanas que garantem o sistema de freios e contrapesos do regime.


O Desmantelamento da Ordem Mundial do Pós-Guerra

As ramificações destas mudanças domésticas vão depois além fronteiras, influenciando drasticamente a nova forma dos EUA interagirem com os seus tradicionais aliados e moldando as novas e imprevisíveis realidades geopolíticas. Por mais de oito décadas, as alianças da América têm sustentado a sua inegável influência global, tanto a nível político, como ao nível da segurança e do seu modelo económico. No entanto, as políticas da recente administração Trump ameaçam desmantelar todos esses vínculos históricos, o que tem deixado o mundo ocidental inseguro e desconfiado da realidade que aí vem.

Indo aos arquivos das posições públicas de Donald Trump descobrimos que estes sentimentos “anti-aliados” fazem parte da retórica do atual Presidente há muito, muito tempo. Já em 1987, ele criticava os custos das alianças dos EUA com o Japão e outras nações, o que prova que ele está a cumprir aquilo que sempre defendeu. Embora, durante o seu primeiro mandato, estes esforços para destruir estas relações tivessem sido um pouco mais restringidos pela administração de então, nesta sua nova, mais firme e apoiada versão, Trump não vê limites, nem travões para o corte de laços e de cooperação com os velhos parceiros.

Exemplo disto é o recente discurso de Vance numa conferência de segurança multinacional em Munique, onde deliberadamente ignorou as ameaças reais à segurança Europeia provenientes da Rússia e assumiu que o verdadeiro inimigo da União Europeia era interno, partilhando uma série de histórias enganadoras que visavam demonstrar que as democracias europeias eram na realidade anti-democráticas e castradoras da liberdade de expressão. A mensagem foi clara: a ameaça da segurança da Europa é um problema dos europeus, os EUA estão fora disso agora.

Para além disto, poucos dias antes desta conferência em Munique, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, foi a Kiev e apresentou a Zelensky um documento que requeria que a Ucrânia cedesse 50% de todo o valor económico associado aos seus recursos, incluindo minerais, petróleo, gás, portos e outras infraestruturas, com cláusula de preferência para os EUA de futuras licenças de exportação de minerais. Tudo isto funcionaria como forma de contrapartida ao contributo que os americanos deram aos ucranianos em matéria de defesa. Apesar dos europeus terem contribuído mais para o esforço de guerra do país, estes seriam totalmente excluídos deste acordo.

A crueldade do documento é impressionante, e como se não chegasse, Trump ainda disparou uma série de mentiras: não, não foi a Ucrânia que iniciou a guerra; não, os EUA não gastaram 350 mil milhões de dólares neste país; não, Zelensky não tem 4% de popularidade, mas sim mais de 50% (superior inclusive que à de Donald Trump); não, Zelensky não é um ditador, simplesmente está vigente a lei marcial até um cessar fogo.

O 47º presidente dos EUA tem demonstrado um fascínio e um alinhamento superior com líderes autocráticos e é difícil perceber que benefícios terão os americanos em seguirem uma linha de política externa que poderá beneficiar mais países como a Rússia, China, Bielorussia, Coreia do Norte, etc.


Que Futuro?

Tanto as políticas domésticas como as externas da atual administração dos EUA apresentam uma clara e alarmante quebra das normas existentes até então. Internamente, o desmantelamento da cultura dos serviços públicos e a introdução de um sistema de compadrio ameaçam as próprias bases de uma boa e imparcial administração federal americana. Internacionalmente, a erosão das alianças construídas ao longo de décadas arriscam isolar os EUA e a encorajar um ataque ao Mundo Ocidental e das democracias liberais tal como as conhecemos.

O regozijo e satisfação dos partidos europeus de extrema-direita populista face à versão Trump 2.0 e as suas políticas são uma anedota. O declínio da União Europeia é um dos objetivos desta nova ordem mundial de influência autocrática. Separarmo-nos, desalinharmo-nos, desentendermo-nos será motivo de chacota e levará muita gente a esfregar as mãos de contente. Querer criar novos “DOGE’s” e aplicar políticas “Make Europe Great Again” são um caminho para o fim gradual dos Estados Europeus como os conhecemos. É isto que os idiotas úteis querem se chegarem ao leme dos destinos do velho continente. No entanto, os moderados que ainda estão à frente dos destinos dos europeus devem abster-se de estados de alma e reações emocionais exacerbadas e começar a planificar uma nova Europa. Pede-se frieza e rapidez na decisão do nosso futuro.


As democracias não acabam depois de uma eleição. Elas acabam com a constante e gradual degradação das instituições que as rodeiam. Acabam com a alteração do padrão de valores e cultura vigente. Acabam quando os moderados se abstêm de actuar sobre um interesse superior ao dos partidos que representam.

Uma coisa parece clara, os EUA parecem estar com uma mudança de regime em marcha, levando-nos a assistir a um novo e incerto mundo. Foi o que os eleitores escolheram. O povo é soberano, mas até quando?

Escrito a 23 de fevereiro de 2025 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Elon Musk Commits $70 Million to Boost Donald Trump

Será Trump uma ameaça para a Europa?

Desde 2016 que o atual candidato republicano à Casa Branca demonstra as suas controversas ideologias, colocando-nos a pensar: deve a Europa temer um regresso da administração de Donald Trump?

“America first” significa “Europa por sua conta”?

Desde a primeira vez que foi eleito, em 2016, Donald Trump grita a todos os ventos “America first”, tornando as suas crenças bem visíveis.

O ex-presidente americano defende expulsar imigrantes, fomentar a indústria petrolífera, aumentar as taxas de importações, mas, mais grave ainda, fomenta o discurso anti-NATO com as suas polémicas declarações. No entanto, que peso trariam estas premissas ao continente Europeu? 

A Europa, como continente de estados soberanos e, maioritariamente moderados, não se representa na grande parte das declarações tecidas por Donald Trump, e a prova disso mesmo são as declarações do Primeiro-Ministro Belga feitas no início deste ano no Parlamento Europeu, onde afirmou que se a “América primeiro” voltar “outra vez”, será mais a “Europa por sua conta”.

Contudo, De Croo afirma também que, caso a eleição do republicano suceda, a Europa ficaria com uma “base mais forte” podendo “abraçar outras oportunidades”, dando assim ao continente ainda mais espaço para se afirmar como grande potência. 

A imigração

Donald Trump defende fechar as fronteiras, facilitar deportações, condenar à pena de morte qualquer estrangeiro que mate um americano civil ou força da autoridade e, para além disso, prega a todos os ventos que os imigrantes “comem os animais de estimação dos cidadãos americanos”, algo que já veio a público ser desmentido pelas autoridades. 

Trump, ao fazer este tipo de declarações, está a rotular comunidades, a agredi-las e menosprezá-las enquanto as mesmas trabalham diariamente para colocar sustento em casa e desenvolver a economia do país.

Este tipo de discurso é antitético ao europeu que, por outro lado, de um modo geral, afirma o valor dos imigrantes, considerando que são essenciais ao desenvolvimento das economias do continente, valorizando as suas raízes culturais e, em alguns casos, dando-lhes proteção e asilo. 

Segundo Ronald Reagan, republicano, por graça, nas suas declarações feitas em 1989, disse que os imigrantes “são homens e mulheres corajosos que deixam as suas casas e que vão para um país novo para procurar uma vida melhor e que contribuem mais do que recebem”, provando a priori que as ideias são as pessoas que as fazem. 

“Drill, baby, drill…”

No seu mandato Trump decidiu abandonar o Acordo de Paris, fazendo com que os EUA se tornassem mais uma vez uma nação sem rumo face às alterações climáticas, criando um fosso no caminho para a neutralidade carbónica.

É objetivo de grande parte dos países europeus atingir a neutralidade carbónica até 2050 e, por isso, a grande maioria tem apostado, por exemplo, no setor da energia elétrica, onde está bastante vincada a transição energética, optando cada vez mais por fontes sustentáveis e renováveis, contribuindo assim para as metas climáticas europeias.

No mesmo ponto, Trump, devido ao aumento exponencial dos preços da energia nos EUA, defende o regresso à exploração em massa do petróleo no Alasca, indo contra os objetivos mundiais de utilização sustentável de recursos, reavivando a teoria republicana “drill, baby, drill…” citada pela primeira vez em 2008 pelo, à data, vice-governador do Maryland, Michael Steele.

Esta ideia de uma economia assente na exploração de petróleo para qualquer fim, neste caso, alegadamente para a produção de eletricidade, é antitética às políticas anti-imigração, isto porque uma economia assente em produtos de alto valor acrescentado, tende a necessitar de uma mão de obra mais barata, sendo normalmente proveniente da imigração.

 O futuro da Aliança Atlântica 

Trump, com toda a sua convicção que já nos é habitual afirmou, encorajando a Rússia, “a fazer o que raio quiser” com os aliados da NATO que não cumprissem as diretrizes de gastos de 2% do PIB previstos para a defesa. Como seria de calcular, estas declarações preocuparam a comunidade europeia, levando o responsável pela política externa e de defesa da União Europeia, Josep Borrell, a dizer que “a NATO não pode ser uma aliança militar ‘à la carte’”. 

Estas afirmações apenas comprovam que, para o republicano, o seu sentido de Estado está constantemente dependente de falácias e pensamentos irrisórios acerca do mundo que o rodeia, podendo, como vemos, prejudicar, hipoteticamente, a segurança e soberania de outros estados, principalmente os europeus, onde a defesa da Ucrânia, por exemplo, é uma questão intrínseca, tal como citou no seu discurso o Primeiro-Ministro Belga:

Para os Estados Unidos e para outros aliados, o apoio à Ucrânia é uma questão estratégica, é uma consideração geopolítica. Para nós, europeus, o apoio à Ucrânia é existencial.

– Alexandre De Croo, Primeiro-Ministro Belga.

Esta possível descredibilização das forças da NATO, podiam provocar uma afirmação dos BRICS como potência militar, sendo que representam cerca de 45% da população mundial e as suas economias têm vindo a registar crescimentos económicos significativos e um aumento das suas forças militares.

Economia

Donald Trump segue a ferro e fogo pregando políticas protecionistas evidenciando uma economia de mercado bastante vincada (como à boa moda americana), taxas adicionais de 10% a todos os produtos importados e um valor ainda mais elevado sobre os produtos chineses.

Trump incita ainda a que a população americana invista em criptomoedas, mercado este que é instável e que pode conduzir a más decisões financeiras, levando as pessoas a perder, hipoteticamente, milhares de dólares investidos.  

A Europa, continente de livre circulação de bens e pessoas, através do espaço Schengen, condena categoricamente estas propostas do ex-presidente americano, isto pois, de um modo generalizado, iriam afetar a economia europeia e também americana, visto que um dos principais importadores de certos setores da sua indústria é os EUA. 

Ainda sobre o petróleo, mercado este manchado, literalmente, ao longo dos anos por crises e grandes catástrofes ambientais, não deveria em pleno século XXI continuar a ser fonte de rendimento de qualquer economia, apenas salvas as exceções de transição, isto por considerar ser um mercado lucrador, sim, mas que, como pudemos ver, pode acabar com a sobrevivência das espécies e do planeta em pouco mais de um século. 

“Imagine a world…”

Concluindo, e tendo em conta que, no total, estas medidas custariam, por ano, 500 mil milhões de dólares aos americanos, considero que Trump é sim uma ameaça para o continente europeu e para a sua própria nação, pois, como está exposto ao longo deste artigo, as suas políticas preocupam não só a comunidade europeia como também a comunidade internacional, tudo por alguns “trocos” para seu favor próprio e nunca para o desenvolvimento da nação e da paz comum. 

Falando em paz, é imperativo não esquecer a inspiração de Trump em líderes autoritários, como Viktor Orbán e Giorgia Meloni, o que descredibiliza, e muito, a figura dos Estados Unidos como “pai” das democracias liberais. 

É importante combater estes movimentos políticos, como o de Trump, para prevenir que sirvam de “escola” para as gerações vindouras, evitando assim uma Europa fragmentada e um mundo destruído por crenças hediondas.

Escrito a 31 de outubro de 2024 por Francisco de Melo Ambrósio.

Alguns vídeos informativos como complemento aos temas abordados:

Imigração

“Drill, baby, drill”

Entre a Decadência e a Psicopatia: o retrato de um país

“Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo?”

No passado dia 27 de junho ocorreu um debate entre Biden e Trump. Foi um primeiro teste em que se esperaria que o Partido Democrata, cavalgando a onda de deterioração da imagem do antigo presidente Republicano devido aos recentes casos judiciais, pudesse catapultar Biden para uma posição de vantagem a menos de 6 meses da eleição da democracia mais influente do Mundo.

Debate Completo: Primeiro frente-a-frente de Biden e Trump para a Casa Branca | WSJ

Sou fascinado por eleições. Adoro todo o processo da escolha dos candidatos por parte dos partidos, a apresentação de propostas, o jogo político, os debates, as campanhas, as análises feitas, a cobertura mediática. E felizmente 2024 tem sido meu amigo. Para além de todas aquelas que estão diretamente ligadas ao nosso país, tivemos já Taiwan, Índia, União Europeia, Reino Unido (terminou há dias), França a decorrer neste momento, e claro está, as eleições nos Estados Unidos da América. Tivesse eu mais tempo para ler, ouvir e estudar mais sobre cada uma delas…

Há um misto de emoções que decorrem em todos os processos eleitorais, mas aquela que me dá maior alento e motivação para acompanhar tudo isto é sem dúvida a esperança. Ainda que, em teoria, as eleições que mais me interessariam fossem as do meu país, ao vivermos num mundo globalizado e cada vez mais interligado, as eleições (quando feitas em países que vivem em democracias plenas) trazem-me sempre a esperança no reforço da democracia e de um mundo melhor e mais próspero para todos.

No entanto, é impossível ver o que se passa nos Estados Unidos e ficar entusiasmado. Os Americanos têm de ir às urnas escolher entre alguém com um claro declínio cognitivo e um psicopata descontrolado.

É lamentável que se tenha escondido dos americanos (e do Mundo) a clara deterioração das capacidades do Presidente dos Estados Unidos e, chegados aqui, o Partido Democrata vê-se em claras dificuldades para enfrentar e ganhar a um lunático que nunca escondeu ao que ia. Trump não apareceu de surpresa nestas eleições, toda a gente sabia e ninguém se acautelou. Culpa da Casa Branca, dos Democratas e também de Biden e da sua equipa, claro.

Ainda assim, eu não coloco os dois no mesmo patamar, como é obvio. Aflige-me até ver a quantidade de tinta que correu na descrição e deprecriação do atual estado de um homem como Joe Biden, que tem um currículo invejável na política interna e externa do seu país. Como é possível a sociedade global, como um todo, assumir que o Presidente perdeu o debate? Do outro lado tínhamos alguém que mais uma vez mentiu, mentiu e mentiu como já seria de esperar.

O New York Times identificou 20 declarações falsas de Trump, com outras 21 que considerou serem ou enganosas ou carecendo de contexto ou evidências. Este jornal não apontou declarações falsas proferidas por Biden, mas revelou que 11 se enquadravam no campo do “enganoso” ou “fora de contexto”.

Why Biden must withdraw?” – Artigo do The Economist

Num debate paupérrimo, moderado por jornalistas que fizeram perguntas básicas e que tiveram tudo menos o papel de moderar e desafiar os debatentes a elevar a discussão, permitiu-se a infantilização de temas como economia, imigração, saúde, segurança, entre outros, que tanto interessam aos eleitores e até ao Mundo. A CNN, representada por aqueles dois indivíduos, carregou no “play” e deixou correr um filme de terror visto por mais de 50 milhões de pessoas.

Biden vs Trump: Momentos chave do Debate Presidencial

Que sociedade é esta que permite que o país mais poderoso do Mundo leve a votos dois indivíduos assim? Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo? Que sociedade é esta que permite que dois jornalistas amorfos e acríticos liderem um debate desta importância?

É angustiante assistir a tudo isto no tantas vezes chamado “Farol das Democracias Liberais”. Será mesmo a esperança a última a morrer?

Escrito a 6 de julho de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Biden-Trump election rematch?

COP 27: Aquecimento Global: Verdade ou Consequência

Embora Portugal seja um país onde se escusa uma discussão sobre a aceitação das alterações climáticas, vale a pena abordar a gravidade da situação atual.

No passado dia 6 de novembro foi dado início à cimeira do clima COP 27, onde se reúnem a quase totalidade dos estados do mundo, se partilham atualizações sobre a deterioração das alterações climáticas e se tentam firmar compromissos para a correção da fatídica trajetória.

Foi com um apelo ao sentido de urgência que o Secretário Geral da ONU António Guterres escolheu iniciar a sua intervenção, “Estamos numa auto-estrada rumo ao inferno, com o pé no acelerador”, com um aviso de alarme procurou agitar as comitivas, apelando à ação, deixando-as alerta e responsabilizadas pela escolha mais importante das nossas vidas: “cooperar ou morrer”.

Portugal é um país em que se escusa a discussão sobre a aceitação das alterações climáticas, estas são amplamente aceites pelo poder político, agentes económicos e sociedade cívil, que comungam uma estratégia comum de desenvolvimento e sustentabilidade.

No raking do Climate Change Performance Index (CCPI) Portugal surge em 14º lugar. Este indíce é uma ferramenta que congrega 59 países, representa 92% dos emissores de gases de estufa e promove a transparência na cooperação internacional no âmbito da gestão da crise climática.

Embora Portugal surja bem classificado num ranking liderado pela Dinamarca e se distinga como um dos países que tem desenvolvido mais esforços para combater as alterações climáticas, as ações que têm sido desenvolvidas não permitiram atingir as metas definidas em 2015 no acordo de Paris.

As emissões de gases de estufa voltaram a aumentar em 2021

Os gases de estufa estão associados de uma forma global à atividade antropogénica e a sua emissão é feita de uma forma muito desigual, pois são os indivíduos de países mais ricos os responsáveis pela sua emissão corrente e histórica.

Apesar da sua emissão ter vindo a ser reduzida em regiões como a Europa e Estados Unidos, em 2021 vimos o nível de emissões globais “recuperar” da quebra da pandemia COVID, e atingir os níveis de 2019.

Vale a pena referir que embora a China seja a região do mundo que emite mais gases de estufa (38,7% dos gases em 2021), os Estados Unidos são o país com maiores emissões per capita do mundo, com 14 tCO2e (toneladas de CO2 equivalente), seguidos de Rússia e China com 13 tCO2e 9.7 tCO2e respetivamente. Em contraste os países em desenvolvimento emitem apenas 2.3 tCO2e per capita, que compara com a média global de 6.3 tCO2e.

Total and per capita GHG emissions of major emitters in 2020, including inventory-based LULUCF – Emissions GAP report – Climate crisis calls for rapid transformation of societies – UN

Um clima de alarme

Recorrendo ao relatório do Provisional State of the Global Climate 2022, realço três das dimensões mais importantes que justificam o alarme que Guterres fez soar e que são prova da deterioração acelerada da maior crise das nossas vidas.

Aumento da Temperatura Global Média à Superfície (TGMS)

Em 2022 experenciámos o efeito climático La Niña, um efeito que se caracteriza pela redução da temperatura da água na superfície do oceano pacífico e que ao contrário do El Niño, contribui para a redução da TGMS.

Apesar da ocorrência do efeito La Niña, até setembro de 2022 a TGMS foi 1.15ºc mais quente do que a baseline pré revolução industrial (1850-1900) e tudo indica que 2022 venha a ser o 5º ano mais quente desde que há registos, numa série em que registamos consecutivamente os 8 anos mais quentes desde sempre.

A temperatura do Oceano voltou a subir em 2021

À medida que a acumulação de gases com efeito de estufa leva ao aumento da TGMS, os oceanos absorvem 90% dessa energia (calor), o que se traduz no aumento da temperatura da água e no aumento do nível do mar:

  • Através do aumento do volume da água devido à expansão termal;
  • Pelo derretimento das calotes polares e dos glaciares.

Reconhecendo a importância desta dinâmica na evolução do nível do mar, a comunidade cientifica encontrou na Ocean Heat Content (OHC) uma escala que permite aferir a acumulação de calor no sistema marinho. A OHC é medida a diferentes profundidades e permite estimar o calor entre a superfície até aos 2000 metros de profundidade.

Os resultados mais recentes não são animadores, a OHC tem evoluido de forma significativa em todos os graus de profundidade, mostrando uma aceleração significativa na acumulação de calor ao longo dos últimos 20 anos e que em 2021 atingiu um novo máximo.

Ocean Heat Content measure 1960 – 2021

25 de fevereiro de 2022: o dia em que a extensão de gelo marinho no Ártico atingiu o nível mais baixo de sempre

A extensão de gelo marinho é a medida da área marítima que está coberta por uma concentração de gelo superior a 15% e é um dos indicadores mais importantes das alterações climáticas, dada a rapidez com que ocorre no ártico e às repercussões globais que o seu degelo pode provocar.

2022 será infelizmente recordado pelos maus recordes. No dia 25 de fevereiro a extensão de gelo marinho no ártico atingiu o nível mais baixo desde que há registos, que estado permanentemente abaixo da média de longo prazo (anos 1981-2010).

No dia 25 de fevereiro a extensão de gelo marinho desceu até uma área de 1.92 milhões de km2, quase 1 milhão de km2 abaixo da média de longo prazo (1981-2010), o que equivale à perda de uma área quase duas vezes superior a toda a peninsula Ibérica.

Here is a sense in which the nations, to deal with this problem, have to make a change from their traditional concern about themselves and not about the planet and the species, a change from the traditional short term to longer-term objectives.
Carl Sagan testifying before Congress in 1985 on climate change

As alterações climáticas só poderão ser combatidas se a emissão de gases for neutralizada e a COP27 afigura-se como (mais) um momento chave para que a humanidade possa abraçar uma estratégia definitiva, que permita inverter a tendência do aumento da temperatura no mundo e com isso salvar a vida de milhões de pessoas.

Sabemos todos que um verdadeiro compromisso só poderá ser atingido se todos os países abraçarem uma verdade comum, de outra forma não teremos escolha a não ser enfrentar todos a mesma consequência.

Escrito a 17 de novembro de 2022 por João Tiago Teixeira

Créditos foto: Capa relatório ONU: Emissions GAP report – Climate crisis calls for rapid transformation of societies

Provisional State of the Global Climate 2022

Emissions Gap Report 2022 UN

Climate change and the future: facts and figures

CCPI – Portugal 2022

A análise das eleições intercalares nos EUA por Rodrigo Alvarado

Quais as oportunidades e os riscos desta eleição? O que poderá mudar na política norte-americana? Quais os temas que mais poderão influenciar as decisões?

Nos Estados Unidos da América (EUA) há eleições a cada dois anos, sendo que alternam entre as Presidenciais (as últimas foram em 2020) e as eleições intercalares (as últimas foram em 2018). Isto significa que as próximas serão as últimas referidas, a 8 de novembro de 2022.

E o que irão os eleitores decidir nas intercalares?

  • Vão eleger os membros da Câmara dos Representantes;
  • Vão eleger um senador em 34 dos 50 Estados;
  • Vão eleger um governador em 36 Estados.
O que é o Senado e a Câmara dos Representantes? [em inglês]

Nos EUA existem dois grandes partidos políticos: o Partido Democrata e o Partido Republicano. Será então de prever que o partido que tem a maioria em cada Câmara do Congresso tem o controlo total sobre o mesmo. Como qualquer legislação requer a aprovação tanto do Senado como da Câmara dos Representantes, o controlo maioritário do Congresso é a ambição de cada um dos partidos, pois assim podem exercer a sua atividade sem objeções. Desta forma, as eleições intercalares decidem qual o partido que irá controlar as duas Câmaras nos dois anos subsequentes.

As tendências das últimas eleições intercalares dita que o partido do Presidente em funções habitualmente perde assentos tanto na Câmara dos Representantes como no Senado. Em 17 das últimas 19 eleições intercalares isso aconteceu na Câmara dos Representantes, enquanto aconteceu o mesmo em 13 das últimas 19 eleições no Senado. Nas eleições Presidenciais, os eleitores atribuem um aumento dos representantes do partido no Congresso, mas volvidos dois anos, habitualmente há uma penalização do partido vencedor.

Como funcionam as eleições intercalares nos EUA? [em inglês; legendas em Português]

A uma semana das eleições, Biden vê 54,3% dos americanos a desaprovar a forma como tem exercido o cargo, contra 42,7% que aprovam (mais info aqui). Esta análise não difere muito dos seus antecessores aquando destas eleições. Colocando toda a história e dados em análise, a expectativa é que Biden perca um número grande de assentos no Congresso. Atualmente, os Democratas têm uma maioria de apenas 6 assentos na Câmara dos Representantes e o Senado está empatado. 

Quais as oportunidades e os riscos desta eleição? O que poderá mudar na política norte-americana? Quais os temas que mais poderão influenciar as decisões?

A responder a estas questões temos Rodrigo Alvarado, advogado nascido em El Salvador que vive em Washington, D.C., há 7 anos. Rodrigo mudou-se para D.C. para concluir o mestrado em direito na Georgetown University e trabalha atualmente no departamento jurídico de um banco multilateral de desenvolvimento.

Há imensas referências à inversão de Roe v. Wade como sendo um dos tópicos principais durante estas eleições intercalares, mas que outros temas têm também sido objeto de discussão? Criminalidade? COVID? Inflação? O que está a influenciar mais a opinião pública, na tua opinião?

A decisão de Dobbs que reverteu Roe v. Wade foi definitivamente uma questão chave nas eleições intercalares, especialmente durante o verão, onde houve muita cobertura dos media sobre ela. Durante esse período, houve também muita cobertura sobre a violência e controlo de armas, pois ocorreram três tiroteios em massa num período de três meses, incluindo o tiroteio na Robb Elementary School em Uvalde. Outra questão que esteve em primeiro plano foi a das audiências de 6 de janeiro, que foram amplamente cobertas e escrutinadas pelas televisões nacionais. Nestas questões, a maioria dos eleitores tende a favorecer a posição democrata e servem para mobilizar a sua base eleitoral. Isto pode ajudar a explicar por que é que os democratas estavam tão bem nas sondagens e pareciam estar a conseguir evitar a perda das eleições intercalares, as que o partido que está na Casa Branca habitualmente é vítima.

Contudo, essas questões têm vindo a ser substituídas por outras em que os eleitores tendem a favorecer as posições republicanas: inflação, imigração e crime. Como todos sabem, os preços continuam a subir na taxa mais rápida alguma vez vista em mais de 40 anos, com a inflação geral a atingir os 8,2% ao longo do ano e até setembro. As pessoas estão a lidar todos os dias com o aumento constante dos custos e os republicanos estão a culpar as políticas democratas por isso. Para além disso, os republicanos conseguiram colocar a imigração como uma das maiores preocupações dos eleitores, através da criação e divulgação de crises de imigração que têm sido amplamente cobertas pelos media. Especificamente no caso dos governadores republicanos, estes têm enviado imigrantes de autocarro para os redutos democratas como Washington, D.C. enquanto outros têm também focado as suas campanhas no crime. De acordo com uma pesquisa recente do NYT, 52% dos eleitores disseram que uma destas três questões é a mais importante para si, o que ajuda a explicar a oscilação nas sondagens que agora tendem a favorecer o Partido Republicano, por causa do ambiente vivido.

A Guerra na Ucrânia é discutida e afeta a atual percepção da governação Biden nos EUA? O envolvimento do país e da NATO é fator de preocupação para os americanos?

A minha percepção é a de que a guerra na Ucrânia desapareceu lentamente das primeiras páginas e não acredito que seja uma questão central nestas eleições intercalares. Talvez seja porque ambos os partidos estão de acordo com a atual abordagem dos EUA na guerra na Ucrânia (embora alguns republicanos tenham dito que repensariam a ajuda à Ucrânia enquanto um grupo de democratas tenha sugerido uma via mais diplomática com a Rússia), pelo que não é um tópico em que uns consigam ganhar eleitores a outros.

A invasão do Capitólio marcou as últimas eleições americanas e demonstrou a polarização existente no país. Com a saída de Trump da Casa Branca estão, os EUA, menos polarizados? O Trumpismo diminuiu a sua influência no partido Republicano? Achas que haverá também o risco de um aumento da agressividade e violência nestas eleições?

Não acho que os EUA estejam menos polarizados. Na verdade, se virmos as pesquisas nos estados mais disputados, podemos ver que há uma divisão de quase 50/50 nos eleitores. O que acredito que tenha mudado após a presidência de Trump é que a polarização agora não está a ser alimentada pelo presidente, o que ajuda a moderar as emoções.

Também acredito que o Trump ainda tem muita influência dentro do Partido Republicano. Isso pode ser visto especialmente nas primárias, onde os candidatos internos lutaram para obter o apoio de Trump, um apoio que podia efetivamente influenciar a sua nomeação. Vale a pena partilhar uma história curiosa onde nas primárias do Missouri, Trump apoiou “Eric”, mas não especificou qual dos “Eric” ele estava a apoiar, por isso cada um dos dois candidatos chamados “Eric” reinvindicaram para si o apoio…

Agora, as eleições intercalares também nos vão ajudar a perceber a influência do Trumpismo fora do Partido Republicano.

Sendo assim, o que achas que vai acontecer à composição do Senado? E na Câmara dos Representates? Que implicações antevês desses resultados para os EUA?

Acredito que os republicanos estão lançados para ganhar a Câmara dos Representantes. Em relação ao Senado, acho que é impossível prever. Em alguns dos estados mais disputados do Senado (Arizona, Geórgia, Nevada e Pensilvânia) as últimas sondagens mostram os candidatos democratas a vencer por margens mínimas, no entanto os republicanos só precisam ganhar uma cadeira para ganhar o controlo do mesmo. Vai ser quase como atirar uma moeda ao ar. De qualquer das formas, acredito que o governo Biden vai ser forçado a governar através de ordens executivas, pois não vai ser possível aprovar os seus projetos no Congresso. Tanto Trump como Obama já tiveram de fazer isso no passado, o que leva a um resultado onde se desenvolvem planos de curto prazo que são rapidamente revertidos no momento em que um novo Presidente chega ao cargo. Qual será a eficácia do governo Biden a lidar com isso? Vamos ver…

Escrito a 31 de outubro de 2022 por Sérgio Brandão e Rodrigo Alvarado


Analysis of the USA Midterm elections by Rodrigo Alvarado

In the United States of America (USA) there are elections every two years, alternating with the Presidential (the last ones were in 2020) and the midterm elections (the last ones were in 2018). This means that the next ones will be the latter mentioned, on November 8, 2022.

And what will voters decide in the midterms?

  • They will elect the members of the House of Representatives;
  • They will elect a senator in 34 of the 50 states;
  • They will elect a governor in 36 states.
What is the Senate and House of Representatives? [in English]

In the US there are two major political parties: the Democratic Party and the Republican Party. It is therefore to be expected that the party that has the majority in the Congress has complete control over it. As any legislation requires the approval of both the Senate and the House of Representatives, majority control of Congress is the ambition of each of the parties, so that they can carry out their activity without objections. In this way, the midterm elections decide which party will control the both in the next two following years.

Trends in recent midterm elections dictate that the incumbent President’s party routinely loses seats in both the House of Representatives and the Senate. It is confirmed in the last 17 of the 19 midterm elections with regard to the House of Representatives and in the Senate the same happened in 13 of the last 19. In Presidential elections, voters attribute an increase in party representatives in Congress, but after two years, usually the winning party is penalized.

How do midterm elections work in the US? [in English]

One week before the election, Biden has 54.3% of Americans disapproving of his job, against 42.7% who approve it (more info here). This analysis does not differ much from its predecessors at the time of these elections. Putting all the history and data on perspective, Biden is expected to lose a large number of Congress seats. Currently, Democrats have a majority of just 6 seats in the House of Representatives and the Senate is tied.

What are the risks of this election? What could change in American politics? What are the issues that will most influence decisions?

To answer these questions we have Rodrigo Alvarado, a Salvadoran lawyer who has been living in Washington, D.C., for 7 years. Rodrigo first moved to D.C. to complete his master in laws at Georgetown University and currently works in the legal department of a multilateral development bank.

There are many references to the reversal of Roe v. Wade as one of the main topics during these midterm elections, but what other topics are also being discussed? Crime? COVID? Inflation? What is influencing the most, in your opinion?

The Dobbs decision overturning Roe v. Wade has definitely been a key issue surrounding the midterm elections, especially during the summer, where there was a lot of media coverage around it. During that time, there was also a lot of coverage about gun violence and gun control, as there were three mass shootings in a three-month period, including the shooting at Robb Elementary School in Uvalde. And the other issue in the forefront was the January 6 hearings, which were nationally televised and widely covered. On these issues, most voters tend to favor the Democratic position and they serve to motivate the Democratic Party base. This may help explain why the Democrats were doing well in the polls and seemed to be avoiding the usual loss of midterm elections by the party that controls the White House.

However, these issues have been replaced by issues in which voters tend to favor the Republican positions: inflation, immigration and crime. As you know, prices have continued to climb at the fastest rate in more than 40 years with overall inflation reaching 8.2% over the year through september. People are struggling every day with rising costs and Republicans are effectively blaming Democratic policies for those increases. Moreover, Republicans have successfully put immigration the minds of voters by creating immigration crises widely covered in the media. Specifically, Republican Governors have been sending immigrants by bus to Democratic strongholds such as Washington, D.C. And Republican strategists have also focused their campaigns on crime. Per a recent poll by the NYT, 52% of voters said that one of these three issues is the most important issue in their minds, which helps explain the swing in the polls that now tend to favor the Republican Party because of the environment .

Is the War in Ukraine discussed and does it affect the current perception of Biden governance in the US? Is the involvement of the country and NATO a factor of concern for the Americans?

My perception is that the war in Ukraine has slowly faded off the front page and I don’t believe it is a central issue surrounding the midterm elections. Perhaps this is because both parties are in general agreement with the current U.S. approach to the war in Ukraine (although some Republicans have said they would rethink aid to Ukraine while a group of Democrats called for discussions with Russia) so there is not an issue to be won.

The invasion of the Capitol marked the last American elections and demonstrated the polarisation that exists in the country. With Trump’s departure from the White House, is the US less polarised? Has Trumpism diminished its influence in the Republican Party? Do you think there will also be a risk of an increase in aggression and violence in these elections?

I don’t think that the U.S. is less polarised. In fact, if you see the polls in the battleground states, you can see that there is an almost 50/50 divide in the voters. What I believe has changed post-Trump presidency is that the polarisation is no longer being fueled by the President, which tempers emotions.

I also believe that Trump is still very influential within the Republican Party. This could be seen especially in the primaries, where internal candidates were fighting to get Trump’s endorsement, which could effectively seal their nomination. A curious anecdote: in the Missouri primary, Trump endorsed “Eric”, but did not specify which Eric he was endorsing, so the two candidates named Eric scrambled to claim him. 

Now the midterm elections will help us measure how influential Trumpism is outside the Republican Party.

So, after your analysis, what do you think will happen to the composition of the Senate? And in the House of Representatives? What implications for the US do you foresee with your expected results?

I believe that Republicans are poised to retake the House. Regarding the Senate, I think it is impossible to predict. The latest polls show Democratic candidates winning by razor-thin margins in key Senate races (Arizona, Georgia, Nevada and Pennsylvania). However, Republicans only need to win one seat to gain control of the Senate. It is going to be a toss-up. In any case, I believe that the Biden administration will be forced to govern by executive orders as they will not be able to pass their bills through Congress. Both Trump and Obama have done this in the past, but this results in short-live programs that are reverted the minute that a new President arrives in office. How effective will the Biden administration be in doing this? We will see…

Written on October 31, 2022 by Sérgio Brandão and Rodrigo Alvarado

Aborto, um direito para a clandestinidade…

“Se uma mulher tiver de fazer um aborto, vai fazê-lo de qualquer maneira… Irá fazê-lo num lugar sem segurança para a sua saúde, se estiver desesperada, e não conseguir que um médico o faça. É assim que tem acontecido desde o início dos tempos. Portanto, se 25 homens no Alabama a considerarem uma criminosa, isso só aumentará o seu sofrimento”, Paula Rego

A decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América em revogar a jurisprudência da decisão do caso Roe v. Wade, deve ser lembrada hoje e no futuro como uma prova clara de que os direitos não podem ser dados como adquiridos ou independentes das nossas escolhas políticas.

A partir de agora o aborto passará a ser legislado estado a estado, o que significa que os EUA serão um país a duas velocidades, com mais uma razão para reforçar a sua divisão crescente.

Apesar de tomada por um tribunal, esta é uma decisão política, não judicial.

A estrutura judicial do Supremo Tribunal existe para equilibrar os poderes Executivo e Legislativo do Estado Federal, tem um quórum de juízes nomeados pelo Presidente, referendados pelo Senado, que ocorre apenas quando algum dos juízes decide sair voluntariamente ou por reforma.

O Tribunal é uma estrutura que garante estabilidade ao sistema e que ao longo do tempo tem funcionado como um contra peso do poder político do governo norte americano.

Só é possível justificar que um retrocesso desta magnitude ocorra  no período de vigília do Presidente Democrata Joe Biden, pela alteração significativa do quórum de juízes ao longo do mandato de Donald Trump. Apesar de Trump ter abandonado a casa branca em 2020 as consequências das suas decisões continuam a fazer-se refletir no país.

Que impacto é que esta decisão pode ter nos EUA?

Apesar do direito ao aborto ter sido revogado da esfera constitucional para a realidade de cada estado, esta deverá ser uma decisão com um impacto limitado no redução do número total de abortos ou na restrição do acesso, devido a:

1. Os estados que se preparam para banir o aborto já têm atualmente em vigor um conjunto de medidas que restringiram significativamente o acesso a prestadores médicos abortivos, pelo que estes já estão fechados ou deslocalizados em outros estados;

2. Dos estados que vão legislar para ilegalizar o aborto, três (Texas, Idaho e Oklahoma) já tomaram medidas ao longo do último ano que já impediam a maioria dos diferentes tipos de aborto, e nos restantes estados os prestadores médicos abortivos que existem representam menos de 5% de todos os abortos praticados nos EUA;

3. A compra de comprimidos abortivos pela internet será muito difícil de controlar;

4. É provável que os Estados Democratas ou Organizações dedicadas criem fundos e estruturas que possam apoiar mulheres a dirigir-se a locais que lhes permitam usufruir desta liberdade em segurança.

Apesar do número total de abortos poder não diminuir de forma significativa no país e os objetivos dos movimentos pró vida dos EUA não serem atingidos, continuará a existir um problema grave de segurança e acesso ao aborto que se vai fazer sentir principalmente nas franjas mais vulneráveis e pobres da sociedade americana.

” se uma mulher tiver de fazer um aborto, vai fazê-lo de qualquer maneira… Irá fazê-lo num lugar sem segurança para a sua saúde, se estiver desesperada, e não conseguir que um médico o faça. É assim que tem acontecido desde o início dos tempos. Portanto, se 25 homens no Alabama a considerarem uma criminosa, isso só aumentará o seu sofrimento”

Paula Rego, Lusa, 31 de maio de 2019

Nada será como dantes.

Parece estar a ser criado um contexto lose-lose onde os estados liberais veem ferido um dos direitos constitucionais das mulheres e os estados conservadores vão sentir-se traídos pelos estados liberais adjacentes por não verem cumprir os resultados desejados.

A decisão do Supremo Tribunal dos EUA pode contribuir decisivamente para a divisão de uma federação de 50 estados que vê crescer 2 países radicalmente diferentes: um democrata, cosmopolita e liberal que se concentra no Norte e nas grandes cidades/estados das costas Leste e Oeste e outro Republicano, tradicional e conservador que se concentra nos grandes estados do centro e sul do país.

Só há uma forma das mulheres vencerem. Os democratas têm de aceitar a decisão, reconhecer a mudança e construir o futuro a partir dela, construir o futuro com os republicanos, aproximando posições e compromissos que unam as partes. Sem diálogo, compromissos e união, não haverá futuro, ninguém vencerá.

Hoje é o aborto nos EUA, amanhã pode ser um direito nosso em Portugal.
Lembrar-me-ei disso, sempre que votar.

Escrito a 27 de junho de 2022 por João Tiago Teixeira

Créditos de imagem: O aborto clandestino visto por Paula Rego.

Links de interesse:

It’s now up to the states’: Republicans move to ban abortion after Roe falls

17 Ways the Supreme Court Just Changed America

Portugal em 2021, o menor número desde a legalização da IVG

O aborto, a liberdade de imprensa e um conservador entram num bar…

“Gostamos de ser grandes e de nos comparar aos “grandes”, mas somos tão pequeninos, por vezes…”

O caso “Roe vs Wade“, do qual eu até há poucas semanas desconhecia, foi fundamental nos EUA para garantir o direto à interrupção da gravidez até cerca das 23 semanas de gestação. Voltou a ser discutido por ter sido divulgado um projeto do Supremo Tribunal Federal que ditava que a opinião maioritária dos juízes seria de revogar a decisão que tem quase 50 anos. (ver mais aqui).
O que acontece se tal for avante? Dá aos Estados a tutela da regulamentação relativamente ao aborto. Ora, sabendo da existência da gestão ultraconservadora de alguns estados, maioritariamente republicanos, isso levaria à proibição imediata da interrupção voluntária da gravidez.
Quem seria afetado? As mulheres das classes baixas, de baixo rendimento e muitas vezes de minorias étnicas americanas.

É evidentemente um caso de enorme preocupação e que nos deixa apreensivos e a questionar que tudo aquilo que assumimos como avanços civilizacionais estão sempre em risco.

Porque chamo a atenção a este tema?

Vi, nos últimos dias, na comunicação social, uma onda de inquietação sobre a questão do aborto em Portugal. Numa abordagem sensacionalista e de associação às tendências americanas acima descritas, assisti, muito confuso à discussão da cooptação para juiz do Tribunal Constitucional do Prof. António Almeida e Costa. A razão de estar confuso é simples: é o aborto em Portugal um problema?

Vamos a um pouco de clareza sobre a situação: há 10 juízes que são indicados por votação no Parlamento e estes cooptam três no maior secretismo e sem qualquer transparência. Deste modo, nós só sabemos disto quando a escolha está feita. É evidente que isto é alvo de críticas por haver pouco escrutínio na eleição de um cargo tão importante. Ora, como é recorrente em Portugal, houve uma fuga de informação que divulgou o nome do possível “candidato”. Com esta situação, claro está que seria impossível não se fazer um raio-x ao senhor. Estamos a falar de alguém que em 1984 escreveu um artigo jurídico, publicado na revista da Ordem dos Advogados, que argumentava que nem em caso de violação as mulheres devem ter direito a abortar e usa exemplos e alegados “estudos” medievais que ditam que é praticamente impossível haver uma gravidez em caso de violação.

Construiu-se, a partir daí, uma narrativa que criou um alerta social sobre o risco de reverter a despenalização do aborto em Portugal associada à cooptação deste professor catedrático e ao que se passava na possível revogação do “Roe vs Wade”, num estilo verdadeiramente provinciano ao qual Portugal já nos habituou.

Portugal, parece-me, arrumou este assunto em 2007 no referendo que fez. Fez sentido voltar a trazê-lo para cima da mesa? Não existe nenhuma onda em Portugal que indique que estejamos em risco de reverter a lei. Aos olhos de todos, parece bem feita e equilibrada. Nem o Chega trouxe para a ordem pública este assunto. E se o Chega não trouxe é porque ele não proporciona soundbyte, likes no Twitter ou visualizações no YouTube. Estamos de acordo, não estamos?

Então porque se falou disto? Por que razão eu próprio estou a escrever sobre isto?

Estou, porque nos últimos dias saiu a notícia de que o candidato defendeu que a solução para resolver os casos de violação de segredo de justiça passa por punir os jornalistas. Almeida Costa defendeu esta tese na Comissão de Assuntos Constitucionais, onde foi ouvido a 27 de abril. Aproveitou ainda para acusar os políticos de falta de coragem para castigar quem divulga casos sujeitos a segredo de justiça. A sua posição mostra ignorância por contrariar a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, com decisões condenatórias a Portugal, onde segredo de justiça não se sobrepõe em circunstância alguma à liberdade de imprensa.

Fiquei, com toda esta informação que partilhei com o caro leitor, com a sensação que estamos perante uma forma de condicionamento pública. Posso estar a ter a leitura errada e a fazer uma interpretação injusta, mas parece-me que, mesmo um senhor tendo posições hediondas sobre estes temas, houve aqui alguém a querer abrir guerras passadas e a ocupar o espaço mediático com “não-temas”. Os jornalistas fizeram o seu papel, claro está, pois certamente influenciaram a decisão que impediu que Almeida Costa, na terça-feira, não obtivesse os dois terços de votos de que precisava para ser eleito. A democracia também passa por fazer esta pressão sobre (possíveis) decisores que ocupam cargos públicos. Só me custa que tenham ido comparar a nossa realidade com a dos EUA e trazer para discussão temas delicados só para sensibilizar a sociedade. Embora perceba, defendo que não vale tudo…

A inflação dispara; o poder de compra dos portugueses reduz-se, principalmente dos mais pobres e pensionistas; os juros sobem; a precariedade atinge ainda mais os jovens e nós andamos quase três semanas a abrir temas do passado em vez de escrutinar mais o Governo e as decisões provenientes do Orçamento. Gostamos de ser grandes e de nos comparar aos “grandes”, mas somos tão pequeninos, por vezes…

Escrito a 2 de junho de 2022 por Sérgio Brandão