A última vez que escrevi no Blog já vai longe e estes quase seis meses desde a última crónica trouxeram algumas mudanças na minha vida.
Não querendo maçar os leitores com ela, realço apenas que há pouco mais de um mês deixei de trabalhar em Portugal e comecei a fazê-lo na vizinha Espanha. Os motivos que me levaram a esta decisão são vários e, não querendo aqui explorar tanto a questão do desenvolvimento de carreira profissional, vou antes debruçar a minha atenção sobre outro ponto: o aspeto social e financeiro.
Portugal é um país periférico, com uma economia pouco sofisticada, desenvolvida e globalizada, que representa um mercado interno que ronda os dez milhões de habitantes e onde as oportunidades de crescimento e desenvolvimento profissional e consequente subida salarial gradual são cada vez mais escassas. Ainda que me encontre a trabalhar num setor que é claramente um oásis neste país, a verdade é que a ambição e a projeção daquilo que pretendo para mim e para minha família fica claramente aquém do que creio que seja o melhor para um futuro confortável e folgado. Por essa razão, procurei oportunidades fora e integro agora, oficialmente, estes dados estatísticos que traduzem um aumento progressivo do número de emigrantes desde 2019, depois de baixas significativas que se deram de 2013 até perto do início da pandemia.
A teimosia em fazer cenários na minha vida e jogar com os dados existentes sobre a realidade social e financeira do país tiveram um enorme peso nesta decisão. E porquê? Porque os filhos de hoje (e de amanhã) vão ganhar menos e ter uma qualidade de vida inferior aos seus pais ainda que apresentem um grau de formação e conhecimento superior. Ora, isto é uma quebra total da expectativa do desenvolvimento de prosperidade familiar entre gerações mantida ao longo das últimas décadas no país, especialmente no pós 25 de abril. Quem não se lembra dos pais e dos avós dizerem que quanto mais estudássemos melhor seria a nossa vida? Pois, hoje em dia as coisas já não são bem assim…
As constantes crises económicas (umas mais duras do que outras) levaram a que as gerações mais jovens se tornassem significativamente mais pobres e que seja mais difícil às classes mais baixas ajudarem os seus filhos a serem beneficiados pelo chamado elevador social. Amordaçados pela enorme carga fiscal e com os custos de vida cada vez mais altos, sobretudo no que diz respeito a pagamento de rendas e empréstimos para a casa, o cenário idílico de ir para uma grande cidade para fazer dinheiro e ter “uma boa vida”, ou então investir na educação dos filhos que saem do interior para as boas e grandes universidades do litoral, já parece algo que se encaixa, para alguns, mais no campo da fantasia do que no da realidade. Ainda há bons exemplos disso, mas eles estão a diminuir e com isso vêm as frustrações e indignações sociais que levam à radicalização da minha e das gerações seguintes, por sentirem que não têm as oportunidades que merecem.
No estudo “Portugal e o elevador social: nascer pobre é uma fatalidade?“, da autoria dos economistas Bruno Carvalho, Miguel Fonseca e Susana Peralta, publicado em outubro de 2023, percebe-se a importância que o contexto familiar tem no futuro das gerações seguintes. O dado mais relevante que destaco é o de que mais de 20% das pessoas que eram pobres aos 14 anos assim permaneciam na vida adulta, quer tivessem nascido nas décadas de 60, 70 ou 80. Rendimentos que os pais têm hoje, impactam nos rendimentos dos filhos amanhã.
Foi por me encontrar nessas condições mais extremas que emigrei? Felizmente não, estou bem longe disso e sei que sou um privilegiado, mas sei onde comecei e a sorte que tive de me ter cruzado com excelentes professores na escola pública, de os meus pais até há bem pouco tempo nunca terem precisado de ter seguro de saúde, porque o SNS dava resposta, e de ter tido uma casa oferecida pelos avós. Sabendo que o mundo é diferente, hoje em dia quero proporcionar aos meus filhos a possibilidade de estar num patamar que os impeça de ter uma vida mais difícil do que a minha e por isso procurei esta oportunidade fora para me ajudar nesse objetivo. Tenho um mestrado, uma pós-graduação e um MBA e penso nisto. Não dou o privilégio que tive e tenho como adquirido para a minha descendência, imaginem outros em muito piores condições que eu… Como mandam os seus filhos da “aldeia” para a cidade e os ajudam a pagar a renda do quarto para estudar na Universidade? Como podem as próximas gerações serem financeiramente independentes e ter a sua própria casa? Quando começam a construir família?
Precisamos muitas vezes de sair de perto dos nossos, sentir saudade, lutar e ambicionar mais porque a imprevisibilidade do futuro é tenebrosa. Que crises poderão estar por vir? Que custos vamos ter de acartar? Preocupações que decidi reduzir ao apostar nesta decisão. Irá compensar? Sim… já está e não só nesta perspectiva que aqui escrevi, claro!
Escrito a 2 de dezembro de 2023 por Sérgio Brandão
Créditos de imagem:
Taxing the super-rich a good start to ending wealth inequality