O Homem é um animal político… e, emocional.

“…ainda que sejamos uma população mais bem formada e que tenhamos a possibilidade de um acesso à informação mais democrático, parece que somos mais vítimas das emoções, menos racionais.”

As marcas, todas elas – mas principalmente aquelas de grande sucesso – usam as emoções como forma de comunicar com o consumidor de forma a que seja criada uma afinidade suficientemente forte para que fidelize o comprador. E aqui não precisamos de falar somente da Apple, da Nike ou da Coca-Cola. Podemos também falar de políticos…

O Marketing Político já não é novidade nenhuma no Mundo, mas numa pesquisa que fiz sem grande profundidade, nota-se que não é um tema ainda muito explorado e divulgado em Portugal, embora já haja trabalhos, alguns artigos e livros no nosso país sobre o tema. Não difere muito do Marketing tradicional, só que aqui o objetivo passa por promover partidos, candidatos e movimentos junto do eleitorado. À semelhança de outras marcas, os políticos tentam destacar-se da sua concorrência e, sobretudo, explorar as emoções com o intuito de criar uma afinidade suficientemente forte para que se crie a “fidelização do cliente”.

Campanha “Hope” de Barack Obama retirado de “Why Obama ‘Hope’ artist hates Trump…but won’t draw Hillary”

Se puxarmos um bocadinho pela cabeça facilmente nos lembramos de campanhas como a “Hope and Change” (“Esperança e Mudança”) de Obama em 2008, com o mítico slogan “Yes, we can” (“Sim, nós conseguimos”), ou mais recentemente campanhas como aquela a favor do Brexit em 2016: “Take Back Control” (“Retomar o controlo”), a de Donald Trump, também em 2016: “Make America Great Again” (“Tornar a América grande outra vez”), ou a de Jair Bolsonaro em 2018: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Campanha de Jair Bolsonaro no Brasil, retirado de “Brasil acima de tudo”: conheça a origem do slogan de Bolsonaro

Portanto, os políticos já sabem muito bem que os sentimentos e as emoções não podem ser deixados de lado durante uma campanha política. Há vários que se destacam, tais como o medo, o ressentimento, a indignação, a esperança, a segurança, a compaixão, o orgulho e o patriotismo. Muitas vezes, mais do que discursos políticos e grandes programas eleitorais, o importante é apelar a uma mobilização afetiva e emocional para obter sucesso. Vamos a alguns exemplos usados nesta campanha legislativa (e até já noutras), para as eleições de 10 de março:

O conhecido “Fantasma da Troika”:

O período de 2011 a 2014, em que Portugal foi submetido a um programa de austeridade e reformas estruturais impostas pela Troika para evitar a bancarrota, não traz boas memórias os portugueses. O desemprego, os cortes nos salários e pensões e o aumento dos impostos resultaram numa deterioração significativa das condições de vida de todos. Portanto, esses tempos são regularmente lembrados pela esquerda para descrever o impacto duradouro e as memórias negativas associadas a essas medidas que tiveram de ser levadas a cabo pelo Governo de coligação entre o PSD e o CDS. Mesmo que o memorando tenha sido negociado pelo PS…

Por isso, parabéns aos socialistas, pois conseguiram proteger melhor a sua marca ao longo dos anos – embora a direita muitas vezes tente assustar os portugueses com a possibilidade de bancarrota e de políticas económicas imprudentes propostas por partidos de esquerda, não tem tido muito sucesso. Todavia, essa é a forma que tem de trazer esse “fantasma”.

As Contas Certas:

Bandeira típica do marketing da direita ao longo dos anos, roubada pela esquerda nestes últimos oito. Ainda em linha com o ponto anterior, o PS conseguiu de forma brilhante retirar-se dessa imagem negativa que os eleitores tinham deles, fazendo um verdadeiro rebranding que traz confiança e segurança aos consumidores.

A União Soviética, Cuba e Venezuela representados pela Extrema Esquerda:

Os sinais muitas vezes contraditórios de simpatia (ou até de abstenção de posição contrária) que partidos como o PCP e o Bloco de Esquerda têm por modelos socialistas e anticapitalistas é usado como bandeira de ataque da direita para gerar medo e indignação. Como muitos dessas países eram geridos de forma autoritária, nada democrática e onde a miséria e a pobreza são sinais claros, a colagem a essa realidade é uma maneira de ajudar os consumidores a perceber que este tipo de “produtos” não fazem nada bem e são de fraca qualidade.

A Teoria da Substituição:

A narrativa usada pela extrema direita ocidental com o intuito de fomentar a retórica anti-imigração incita ódio, desconfiança e sentimento de insegurança nos eleitores. Alega que há um esforço deliberado para substituir as populações nativas por outras de origem diferente. Em Portugal, vemos o Chega a cavalgar essa onda com o crescente número de imigrantes muçulmanos que têm chegado ao nosso país.


Grande parte do que aqui deixei são slogans, campanhas e movimentos com mensagens pela negativa. Creio que se deve ao facto de que, muitas vezes, são estes os que mais chamam a atenção dos media, e que consequentemente dão títulos nos jornais ou abrem que os noticiários – por se centrarem no pânico moral e na polarização da sociedade. Ainda assim, eu acredito que é a campanha pela positiva que dá alento à maioria das pessoas e que forma os grandes líderes políticos. A esperança continua a ser a grande força de mudança.

Contudo, as pessoas preocupam-se pouco em, de forma crítica, avaliar cada um destes pontos mais polarizadores, através da procura de dados, do contraditório e de visões neutras sobre os assuntos. Estar bem informado dá trabalho e dá muito mais gosto e prazer procurar e ver alguma notícia, “tweet” ou “reels” que comprove a nossa visão do mundo, mesmo que esteja errada. Somos vítimas dos algoritmos e do viés de confirmação, o que faz com que as marcas – ou políticos, neste caso – escarafunchem as nossas emoções mais profundas.

Sendo assim, ainda que sejamos uma população mais bem formada e que tenhamos a possibilidade de um acesso à informação mais democrático, parece que somos mais vítimas das emoções, menos racionais. Deixo-vos um último exemplo e chamada de atenção…

As lágrimas de Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro

Todos sabemos que o Daniel Oliveira do “Alta Definição” põe qualquer um a chorar. Também sabemos que os programas da manhã e da tarde da televisão generalista são um verdadeiro corrossel de emoções… No entanto, não acham que estes dois líderes políticos estão a chorar vezes a mais, comparado com os seus antecessores? Não tenho dúvidas que as lágrimas são genuínas, mas são sinais dos tempos e têm um propósito claro: criar compaixão entre os eleitores e humanizar a figura do político.

Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos no “Alta Definição, retirado de “Daniel Oliveira à conversa com Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos

Imaginar o Eanes, o Soares, o Cunhal ou até mesmo o Cavaco a serem entrevistados pelo Júlio Isidro, Carlos Cruz ou até Artur Agostinho a falarem da sua vida com as suas mulheres e filhos e chorarem parece quase uma anedota.

Como a maioria das coisas sobre as quais escrevo, não acredito que haja certo ou errado. Não defendo que “antigamente é que era” e que isto hoje não faz sentido nenhum ser assim. Convido apenas à reflexão…


As marcas são criadas ou adaptadas porque o mercado nos dá indicadores de que há oportunidades de negócio de sucesso, seguindo e apresentando determinadas características. Oferecer aquilo que o público procura através do despoletar das emoções mais fortes é o que nos torna leais aos produtos. No entanto, as consequências da aplicação dos conceitos de Marketing na política podem ser em muitos casos perigosas e divisivas.

Se queremos trazer à política “produtos” de consumo, ao menos que tenhamos alguma ética e responsabilidade cívica. Não vale tudo!

Quantos de nós já não compramos alguma coisa porque a publicidade era maravilhosa, a concorrência parecia super fraca e acabamos desiludidos? O mesmo se pode passar aqui. Tenhamos algum pensamento crítico na hora do voto.

Escrito a 25 de fevereiro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
De Boabdil a Pedro Sánchez, pasando por Putin y Obama: los políticos también lloran

Já sei o resultado das Legislativas de 2024!

“Se acertar nao se esqueçam: foi no Mesa de Amigos que leram primeiro!”

Estamos a mais de três meses das eleições e eu vou usufruir da ousadia que este blog permite para fazer uma análise à luz do dia de hoje. Se eu, porventura, acertar nas minhas estimativas, poderei dizer no dia 11 de março “Eu bem vos disse” e se falhar também não haverá nenhum problema, uma vez que nas últimas eleições não houve ninguém (ou quase ninguém) que antecipasse o resultado de maioria absoluta do PS. Deste modo, permitam-me ser o oráculo das próximas legislativas, aguardando pacientemente pelo contraditório vindo do vosso lado.

Taxa de Rejeição e Sondagens

Tenho dito e redito que a melhor coisa que poderia ter acontecido a Luís Montenegro (LM) foi a eleição de Pedro Nuno Santos (PNS). Na minha perspetiva, estas eleições vão jogar-se com os dois partidos do centro democrático e acho que com o aproximar do dia da ida às urnas se vai avolumar o foco dos votos no PS e PSD. A razão para defender esta minha posição está relacionada com a taxa de rejeição: um dos barómetros que tem ganhado mais relevância com a polarização política dos últimos anos.

Entenda por que a taxa de rejeição pode decidir a eleição” by Jornal O Globo

A taxa de rejeição é o reflexo da resposta do eleitor à pergunta: “Em quem nunca votaria?”. Neste campo, LM acaba por ter um potencial de voto mais elevado comparativamente aos restantes adversários: primeiro porque as sondagens ainda são tímidas relativamente a ele e segundo porque tem uma taxa de rejeição mais baixa vs PNS e outros líderes da esquerda (e da direita).

Embora os dados que partilho acima já possam estar desatualizados, pois já temos Secretário-Geral do PS, já aconteceu o Congresso do PSD, e já há uma coligação pré-eleitoral fechada entre PSD e CDS, eu acredito que ainda assim podemos tirar mais algumas conclusões com estes dados:

  • Sondagens que atribuam uma maioria de esquerda liderada pelo PS ou até um empate técnico com a Aliança Democrática podem ajudar à migração de votos do Chega (CH) e da Iniciativa Liberal (IL) para o maior partido da oposição, por haver muitos eleitores neste campo que são fortemente anti-socialistas. Estes eleitores poderão ter uma maior preocupação em garantir que o PS não é novamente Governo do que colocar uma cruz seguindo uma lógica de pureza ideológica. Vejam o que aconteceu em 2022 com a esquerda… O mesmo pode acontecer com a direita desta vez.
  • PNS vai secar a esquerda, porque, claramente, com a taxa de rejeição que André Ventura, Rui Rocha e Nuno Melo têm, o eleitorado de partidos como PCP, BE e Livre não terá pudor em aliar-se ao líder socialista posicionado (alegadamente) mais à esquerda de que há memória e garantir mais votos neste campo.
  • O CH está e vai continuar no centro político da discussão. O PSD sabe que perdeu as eleições (também) por causa deste partido em 2022 e o PS sabe que teve uma maioria absoluta à custa da narrativa do fantasma do CH. Deste modo, vamos continuar a ver jornalistas a pedir esclarecimentos a LM sobre possíveis alianças com a extrema-direita no pós 11 de março e vamos ver PS sempre a escarafunchar neste tópico para que ele seja usado como maior arma de fixação de eleitorado. Ao dia de hoje, o líder do PSD garantiu (e bem, na minha opinião) não negociar com André Ventura e também garantiu que se ficar em segundo não governa. Se depois dá mortal encarpado com flip-flap à retaguarda no dia 11 de março, então aí será julgado por essa decisão. Mas o PS não está contente com esta clareza de posição do PSD… não lhes dá mesmo jeito nenhum! (Nem a eles, nem à comunicação social que perde os seus deliciosos sound bites)
  • Os indecisos vão ter um papel determinante: Em 2022, a três meses das eleições representavam 14% do eleitorado, agora são 17%. É aqui que LM e PNS vão apostar muitas fichas e seguindo a lógica do meu argumento, vamos ver uma campanha feia e de ataques regulares com o intuito de ver a taxa de rejeição de ambos aumentar para captar eleitorado nas franjas. Será a campanha em que os dois líderes do centro chamam “radical” um ao outro… Fraco, fraquinho!

O argumento da Estabilidade e promessas eleitorais (ou eleitoralistas)

Temos assistido a ambos os partidos a defenderem-se como sendo a opção do garante da estabilidade do país. Parece-me que é o cavalo de batalha mais importante para os portugueses.

PNS usa o exemplo da gerigonça como bandeira, pois ainda recentemente se percebeu que foi o Governo mais bem avaliado pelos portugueses nos últimos 20 anos e que permitiu António Costa governar sem “grandes problemas”. Por isso é que o novo Secretário-Geral nem fala sobre a possibilidade de nova maioria absoluta… sabe que é um cartão de visita péssimo para as próximas eleições. Já os sociais democratas usam e abusam desta recente governação socialista para dizer que o PS não consegue garantir estabilidade nenhuma ao país. LM gosta deste argumento não só porque lhe dá jeito para ir buscar eleitores ao centro, como vai buscar à direita ainda que de forma mais subtil. O exemplo dos Açores e o cenário de eleições antecipadas que assistimos nesta região autónoma são o reflexo da falta de confiança que o PSD quer passar também sobre eventuais coligações com o CH e a IL, pois ambos roeram a corda aqui. É obvio que IL é muito diferente dos extremistas de direita e a sua influência no PSD é muito importante para reduzir o papel e peso do Estado na sociedade, mas o que se está aqui a jogar é o saque aos votos e aí já sabemos que vale tudo!

À parte deste argumento, saltam promessas eleitoralistas tanto dos encarnados como dos laranjas para os pensionistas, funcionários públicos e as classes mais baixas da sociedade portuguesa. Não tenho dúvida nenhuma que são medidas que vão sofrer operações de cosmética muito significativas no cenário de pós eleições. Portugal não tem espaço para aumentar a dívida pública e tem uma forte pressão da Europa para baixar custos. Ainda na semana passada, os ministros das Finanças da União Europeia chegaram a um acordo sobre a revisão das regras orçamentais, fixando tetos de dívida e défice muito claros. Não há espaço para delírios.

Sendo pragmáticos: é óbvio que ambos os líderes têm de apelar aos pensionistas, sao 3,5 milhoes de eleitores; é óbvio que têm de apelar aos mais pobres, pois 42% de famílias portuguesas não auferem rendimentos suficientes para pagar IRS, dependendo assim, largamente dos serviços do Estado; e é óbvio que têm de apelar aos funcionários públicos, são 750 mil eleitores à espera de aumentos de rendimentos, principalmente médicos e professores. Agora se o vão cumprir? Claro que não… Podem não ser os políticos mais bem preparados, mas não são estúpidos. Joga-se aqui uma vitória nas eleições, não o orçamento para os próximos 4 anos. Até lá muita coisa muda…

Personagens e enredos secundários

Acho que estas vão ser as eleições com mais intervenção de figuras e instituições externas que podem em larga medida influenciar e trazer fatores de incerteza para a conclusão que tiro a seguir:

  • António Costa, o optimista irritante que disse mais de uma dezena de vezes “confiança” no discurso de Natal, é dos políticos mais narcisos que temos. Por isso, uma perda das eleições por parte do PS é uma perda do antigo Primeiro-Ministro. Se as ganhar, pode dizer que é fruto do trabalho dele, se as perder vai dizer que foi uma cabala bem montada contra si. Vejo-o claramente a querer marcar presença regular na campanha.
  • Ministério Público, o jogador mais influente na política nos últimos anos, está aqui sob pressão para clarificar algumas acusações e insinuações feitas no caso Influencer o mais rapidamente possível. Isso poderá beneficiar ou prejudicar ambos os lados do espetro político.
  • Pedro Passos Coelho, o D. Sebastião da direita, que não dá a entender se está a espreita ou não para derrubar Montenegro num possível cenário de derrota política ou se está só a querer fazer jus à figura messiânica que aparenta ter sempre que fala. Ainda recentemente falou para atrapalhar o seu próprio partido com o tema “Chega”. A sua ambiguidade foi desnecessária… Era bom que estivesse ao lado de LM nestas eleições, para ajudar a captar eleitorado a Ventura, o seu maior fã. Acredito que se acontecer será mais para o fim da campanha.
  • Marcelo Rebelo de Sousa, o político mais popular das últimas décadas, tem lançado, recentemente, rasgados elogios ao antigo Primeiro-Ministro, esperando, certamente, que não surja mais uma sombra na política portuguesa. A sua transmissão de força e motivação para com António Costa e sua eventual ida para cargos europeus são o reflexo do jogador hábil que o Presidente da República é ao querer derrubar o político com menor taxa de rejeição do cenário português. Até porque sabe que um António Costa ressabiado e desocupado terá uma influência na política em Portugal pouco valiosa no seu ponto de vista. Um vaidoso reconhece sempre outro vaidoso…
  • Plano de Recuperação e Resiliência, o balão de oxigénio da economia portuguesa, será dos melhores aliados do Governo seguinte. É muito dinheiro e se for conseguida uma solução estável nos próximos 2 anos é quase certo que a economia (salvo algum percalço imprevisível ao dia de hoje) irá crescer e poderá garantir uma futura reeleição. Vai certamente ser uma valiosa arma de combate político.

Uma espécie de conclusão…

Acho que a Aliança Democrática vai ganhar as eleições, mas depende da cambalhota dos eleitores do Chega e da IL para tal. Segundo a sondagem de opinião realizada pela Aximage para DN/JN/TSF, 78% dos eleitores com mais de 65 anos rejeita o partido de Ventura, dando a LM a possibilidade de garantir estes eleitores. Para além disso, Rui Rocha e o líder do Chega têm 44% de potencial de voto nos mais jovens (18-34 anos), o que me leva a crer que numa visão anti-socialista, estes eleitores podem cair para o PSD por considerarem que o seu voto terá maior peso devido ao método D’Hondt. Este último ponto não é de somenos importância: a direita quer o poder ou quer fazer um voto ideologicamente puro (IL) ou contra o sistema (Chega)?

Se estou certo? Talvez sim, talvez não… Estamos a um tempo suficientemente distante das eleições para isto mudar tudo, mas estou seguro desta minha análise ao dia de hoje. O PS já leva muitos anos de governação, seria útil haver a mudança de cor. Se há aqui algum grau de análise emocional, se calhar sim, mas solidifiquei a minha posição com argumentos que me parecem bastante plausíveis. Se acertar não se esqueçam: foi no Mesa de Amigos que leram primeiro!

Escrito a 27 de dezembro de 2023 por Sérgio Brandão

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Pedro Nuno e Montenegro: dois sociais-democratas unidos por tudo o que os separa

A análise das eleições intercalares nos EUA por Rodrigo Alvarado

Quais as oportunidades e os riscos desta eleição? O que poderá mudar na política norte-americana? Quais os temas que mais poderão influenciar as decisões?

Nos Estados Unidos da América (EUA) há eleições a cada dois anos, sendo que alternam entre as Presidenciais (as últimas foram em 2020) e as eleições intercalares (as últimas foram em 2018). Isto significa que as próximas serão as últimas referidas, a 8 de novembro de 2022.

E o que irão os eleitores decidir nas intercalares?

  • Vão eleger os membros da Câmara dos Representantes;
  • Vão eleger um senador em 34 dos 50 Estados;
  • Vão eleger um governador em 36 Estados.
O que é o Senado e a Câmara dos Representantes? [em inglês]

Nos EUA existem dois grandes partidos políticos: o Partido Democrata e o Partido Republicano. Será então de prever que o partido que tem a maioria em cada Câmara do Congresso tem o controlo total sobre o mesmo. Como qualquer legislação requer a aprovação tanto do Senado como da Câmara dos Representantes, o controlo maioritário do Congresso é a ambição de cada um dos partidos, pois assim podem exercer a sua atividade sem objeções. Desta forma, as eleições intercalares decidem qual o partido que irá controlar as duas Câmaras nos dois anos subsequentes.

As tendências das últimas eleições intercalares dita que o partido do Presidente em funções habitualmente perde assentos tanto na Câmara dos Representantes como no Senado. Em 17 das últimas 19 eleições intercalares isso aconteceu na Câmara dos Representantes, enquanto aconteceu o mesmo em 13 das últimas 19 eleições no Senado. Nas eleições Presidenciais, os eleitores atribuem um aumento dos representantes do partido no Congresso, mas volvidos dois anos, habitualmente há uma penalização do partido vencedor.

Como funcionam as eleições intercalares nos EUA? [em inglês; legendas em Português]

A uma semana das eleições, Biden vê 54,3% dos americanos a desaprovar a forma como tem exercido o cargo, contra 42,7% que aprovam (mais info aqui). Esta análise não difere muito dos seus antecessores aquando destas eleições. Colocando toda a história e dados em análise, a expectativa é que Biden perca um número grande de assentos no Congresso. Atualmente, os Democratas têm uma maioria de apenas 6 assentos na Câmara dos Representantes e o Senado está empatado. 

Quais as oportunidades e os riscos desta eleição? O que poderá mudar na política norte-americana? Quais os temas que mais poderão influenciar as decisões?

A responder a estas questões temos Rodrigo Alvarado, advogado nascido em El Salvador que vive em Washington, D.C., há 7 anos. Rodrigo mudou-se para D.C. para concluir o mestrado em direito na Georgetown University e trabalha atualmente no departamento jurídico de um banco multilateral de desenvolvimento.

Há imensas referências à inversão de Roe v. Wade como sendo um dos tópicos principais durante estas eleições intercalares, mas que outros temas têm também sido objeto de discussão? Criminalidade? COVID? Inflação? O que está a influenciar mais a opinião pública, na tua opinião?

A decisão de Dobbs que reverteu Roe v. Wade foi definitivamente uma questão chave nas eleições intercalares, especialmente durante o verão, onde houve muita cobertura dos media sobre ela. Durante esse período, houve também muita cobertura sobre a violência e controlo de armas, pois ocorreram três tiroteios em massa num período de três meses, incluindo o tiroteio na Robb Elementary School em Uvalde. Outra questão que esteve em primeiro plano foi a das audiências de 6 de janeiro, que foram amplamente cobertas e escrutinadas pelas televisões nacionais. Nestas questões, a maioria dos eleitores tende a favorecer a posição democrata e servem para mobilizar a sua base eleitoral. Isto pode ajudar a explicar por que é que os democratas estavam tão bem nas sondagens e pareciam estar a conseguir evitar a perda das eleições intercalares, as que o partido que está na Casa Branca habitualmente é vítima.

Contudo, essas questões têm vindo a ser substituídas por outras em que os eleitores tendem a favorecer as posições republicanas: inflação, imigração e crime. Como todos sabem, os preços continuam a subir na taxa mais rápida alguma vez vista em mais de 40 anos, com a inflação geral a atingir os 8,2% ao longo do ano e até setembro. As pessoas estão a lidar todos os dias com o aumento constante dos custos e os republicanos estão a culpar as políticas democratas por isso. Para além disso, os republicanos conseguiram colocar a imigração como uma das maiores preocupações dos eleitores, através da criação e divulgação de crises de imigração que têm sido amplamente cobertas pelos media. Especificamente no caso dos governadores republicanos, estes têm enviado imigrantes de autocarro para os redutos democratas como Washington, D.C. enquanto outros têm também focado as suas campanhas no crime. De acordo com uma pesquisa recente do NYT, 52% dos eleitores disseram que uma destas três questões é a mais importante para si, o que ajuda a explicar a oscilação nas sondagens que agora tendem a favorecer o Partido Republicano, por causa do ambiente vivido.

A Guerra na Ucrânia é discutida e afeta a atual percepção da governação Biden nos EUA? O envolvimento do país e da NATO é fator de preocupação para os americanos?

A minha percepção é a de que a guerra na Ucrânia desapareceu lentamente das primeiras páginas e não acredito que seja uma questão central nestas eleições intercalares. Talvez seja porque ambos os partidos estão de acordo com a atual abordagem dos EUA na guerra na Ucrânia (embora alguns republicanos tenham dito que repensariam a ajuda à Ucrânia enquanto um grupo de democratas tenha sugerido uma via mais diplomática com a Rússia), pelo que não é um tópico em que uns consigam ganhar eleitores a outros.

A invasão do Capitólio marcou as últimas eleições americanas e demonstrou a polarização existente no país. Com a saída de Trump da Casa Branca estão, os EUA, menos polarizados? O Trumpismo diminuiu a sua influência no partido Republicano? Achas que haverá também o risco de um aumento da agressividade e violência nestas eleições?

Não acho que os EUA estejam menos polarizados. Na verdade, se virmos as pesquisas nos estados mais disputados, podemos ver que há uma divisão de quase 50/50 nos eleitores. O que acredito que tenha mudado após a presidência de Trump é que a polarização agora não está a ser alimentada pelo presidente, o que ajuda a moderar as emoções.

Também acredito que o Trump ainda tem muita influência dentro do Partido Republicano. Isso pode ser visto especialmente nas primárias, onde os candidatos internos lutaram para obter o apoio de Trump, um apoio que podia efetivamente influenciar a sua nomeação. Vale a pena partilhar uma história curiosa onde nas primárias do Missouri, Trump apoiou “Eric”, mas não especificou qual dos “Eric” ele estava a apoiar, por isso cada um dos dois candidatos chamados “Eric” reinvindicaram para si o apoio…

Agora, as eleições intercalares também nos vão ajudar a perceber a influência do Trumpismo fora do Partido Republicano.

Sendo assim, o que achas que vai acontecer à composição do Senado? E na Câmara dos Representates? Que implicações antevês desses resultados para os EUA?

Acredito que os republicanos estão lançados para ganhar a Câmara dos Representantes. Em relação ao Senado, acho que é impossível prever. Em alguns dos estados mais disputados do Senado (Arizona, Geórgia, Nevada e Pensilvânia) as últimas sondagens mostram os candidatos democratas a vencer por margens mínimas, no entanto os republicanos só precisam ganhar uma cadeira para ganhar o controlo do mesmo. Vai ser quase como atirar uma moeda ao ar. De qualquer das formas, acredito que o governo Biden vai ser forçado a governar através de ordens executivas, pois não vai ser possível aprovar os seus projetos no Congresso. Tanto Trump como Obama já tiveram de fazer isso no passado, o que leva a um resultado onde se desenvolvem planos de curto prazo que são rapidamente revertidos no momento em que um novo Presidente chega ao cargo. Qual será a eficácia do governo Biden a lidar com isso? Vamos ver…

Escrito a 31 de outubro de 2022 por Sérgio Brandão e Rodrigo Alvarado


Analysis of the USA Midterm elections by Rodrigo Alvarado

In the United States of America (USA) there are elections every two years, alternating with the Presidential (the last ones were in 2020) and the midterm elections (the last ones were in 2018). This means that the next ones will be the latter mentioned, on November 8, 2022.

And what will voters decide in the midterms?

  • They will elect the members of the House of Representatives;
  • They will elect a senator in 34 of the 50 states;
  • They will elect a governor in 36 states.
What is the Senate and House of Representatives? [in English]

In the US there are two major political parties: the Democratic Party and the Republican Party. It is therefore to be expected that the party that has the majority in the Congress has complete control over it. As any legislation requires the approval of both the Senate and the House of Representatives, majority control of Congress is the ambition of each of the parties, so that they can carry out their activity without objections. In this way, the midterm elections decide which party will control the both in the next two following years.

Trends in recent midterm elections dictate that the incumbent President’s party routinely loses seats in both the House of Representatives and the Senate. It is confirmed in the last 17 of the 19 midterm elections with regard to the House of Representatives and in the Senate the same happened in 13 of the last 19. In Presidential elections, voters attribute an increase in party representatives in Congress, but after two years, usually the winning party is penalized.

How do midterm elections work in the US? [in English]

One week before the election, Biden has 54.3% of Americans disapproving of his job, against 42.7% who approve it (more info here). This analysis does not differ much from its predecessors at the time of these elections. Putting all the history and data on perspective, Biden is expected to lose a large number of Congress seats. Currently, Democrats have a majority of just 6 seats in the House of Representatives and the Senate is tied.

What are the risks of this election? What could change in American politics? What are the issues that will most influence decisions?

To answer these questions we have Rodrigo Alvarado, a Salvadoran lawyer who has been living in Washington, D.C., for 7 years. Rodrigo first moved to D.C. to complete his master in laws at Georgetown University and currently works in the legal department of a multilateral development bank.

There are many references to the reversal of Roe v. Wade as one of the main topics during these midterm elections, but what other topics are also being discussed? Crime? COVID? Inflation? What is influencing the most, in your opinion?

The Dobbs decision overturning Roe v. Wade has definitely been a key issue surrounding the midterm elections, especially during the summer, where there was a lot of media coverage around it. During that time, there was also a lot of coverage about gun violence and gun control, as there were three mass shootings in a three-month period, including the shooting at Robb Elementary School in Uvalde. And the other issue in the forefront was the January 6 hearings, which were nationally televised and widely covered. On these issues, most voters tend to favor the Democratic position and they serve to motivate the Democratic Party base. This may help explain why the Democrats were doing well in the polls and seemed to be avoiding the usual loss of midterm elections by the party that controls the White House.

However, these issues have been replaced by issues in which voters tend to favor the Republican positions: inflation, immigration and crime. As you know, prices have continued to climb at the fastest rate in more than 40 years with overall inflation reaching 8.2% over the year through september. People are struggling every day with rising costs and Republicans are effectively blaming Democratic policies for those increases. Moreover, Republicans have successfully put immigration the minds of voters by creating immigration crises widely covered in the media. Specifically, Republican Governors have been sending immigrants by bus to Democratic strongholds such as Washington, D.C. And Republican strategists have also focused their campaigns on crime. Per a recent poll by the NYT, 52% of voters said that one of these three issues is the most important issue in their minds, which helps explain the swing in the polls that now tend to favor the Republican Party because of the environment .

Is the War in Ukraine discussed and does it affect the current perception of Biden governance in the US? Is the involvement of the country and NATO a factor of concern for the Americans?

My perception is that the war in Ukraine has slowly faded off the front page and I don’t believe it is a central issue surrounding the midterm elections. Perhaps this is because both parties are in general agreement with the current U.S. approach to the war in Ukraine (although some Republicans have said they would rethink aid to Ukraine while a group of Democrats called for discussions with Russia) so there is not an issue to be won.

The invasion of the Capitol marked the last American elections and demonstrated the polarisation that exists in the country. With Trump’s departure from the White House, is the US less polarised? Has Trumpism diminished its influence in the Republican Party? Do you think there will also be a risk of an increase in aggression and violence in these elections?

I don’t think that the U.S. is less polarised. In fact, if you see the polls in the battleground states, you can see that there is an almost 50/50 divide in the voters. What I believe has changed post-Trump presidency is that the polarisation is no longer being fueled by the President, which tempers emotions.

I also believe that Trump is still very influential within the Republican Party. This could be seen especially in the primaries, where internal candidates were fighting to get Trump’s endorsement, which could effectively seal their nomination. A curious anecdote: in the Missouri primary, Trump endorsed “Eric”, but did not specify which Eric he was endorsing, so the two candidates named Eric scrambled to claim him. 

Now the midterm elections will help us measure how influential Trumpism is outside the Republican Party.

So, after your analysis, what do you think will happen to the composition of the Senate? And in the House of Representatives? What implications for the US do you foresee with your expected results?

I believe that Republicans are poised to retake the House. Regarding the Senate, I think it is impossible to predict. The latest polls show Democratic candidates winning by razor-thin margins in key Senate races (Arizona, Georgia, Nevada and Pennsylvania). However, Republicans only need to win one seat to gain control of the Senate. It is going to be a toss-up. In any case, I believe that the Biden administration will be forced to govern by executive orders as they will not be able to pass their bills through Congress. Both Trump and Obama have done this in the past, but this results in short-live programs that are reverted the minute that a new President arrives in office. How effective will the Biden administration be in doing this? We will see…

Written on October 31, 2022 by Sérgio Brandão and Rodrigo Alvarado