Problemas Estruturais, Conjuntura, Incompetência e Mérito

“Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.”

Já passaram mais de duas semanas desde o desfecho das legislativas. É mais do que tempo suficiente para uma reflexão que gostaria de partilhar.

Não querendo demonstrar uma arrogância desmedida ao fazer uma listagem de todas as culpas existentes para eleição de 60 mandatos do Chega, destaco, porém, quatro sub-análises, não indissociáveis, que espelham a realidade que enfrentamos e uma conclusão sobre possíveis aprendizagens e próximos passos do Governo e Parlamento.

Questões Estruturais

Salários baixos, falência do elevador social, crise na habitação, falta de coesão territorial e diminuição da reputação das instituições e do Estado, são problemas conhecidos e que servem de combustível para o descontamento e ressentimento da população para com aqueles que lideraram o país nos últimos anos: PS e PSD. Acresce a isto a promessa, muitas vezes falhada, de que com estudo e trabalho qualquer pessoa, independentemente do seu contexto, atingiria sucesso e prosperidade.

A Conjuntura

Uma esquerda que se dedicou e, sobretudo, foi mais vocal nas questões identitárias e de género, deixando como segunda prioridade a luta de classes e a desigualdade social; um fosso maior entre o povo e as elites; a desintermediação da partilha de informação nas redes sociais; a crise do jornalismo e o crescente cepticismo sobre a sua real imparcialidade, e o aumento dos movimentos de partidos populistas nacionalistas de direita radical com figuras carismáticas, são algumas das questões conjunturais dos quais é impossível fugir em qualquer análise do ambiente político atual.

Quando baixamos a nossa análise ao nível nacional temos de acrescentar que 22 dos últimos 30 anos foram governados pelo Partido Socialista. Ora, assim fica difícil para um eleitor, quando tem de tomar a decisão de atribuir culpas sobre o estado da Nação não apontar o dedo ao PS quando para muitos foi praticamente o único rosto visível da governação do país, reforçando a minha ideia de que fosse Pedro Nuno Santos, fosse outro qualquer, o desfecho seria pouco diferente.

A Incompetência

Seja por arrogância, seja por incapacidade, os partidos políticos, sobretudo da esquerda, foram, aparentemente incapazes de fazer uma análise do que aí vinha. Refugiados na sua “Torre de Marfim”, faltou a consciência do nível de insatisfação, irritação e frustração que o país vive. Juntando os problemas estruturais, com os conjunturais, mais a enorme incapacidade de os políticos, ditos tradicionais, fugirem das suas inúteis e por vezes infantis “tricas políticas”, levaram a este desfecho incontornável.

Pedro Nuno Santos foi parece que foi totalmente incapaz de antever tudo isto que descrevi atrás, preferindo “cascar na direita” e tentar, a todo o custo, empurrar o PSD para os braços do Chega. Luís Montenegro com o seu “não é não”, desarmou o antigo Secretário-geral do PS, cuja única narrativa que tinha era a de alimentar o medo da captura do país pela extrema-direita onde o PSD seria também cúmplice. Admito também, que em face da situação que descrevi, pouco ou nada interessava ao eleitor qual seria o programa dos Socialistas. A política vive de ciclos e este claramente não é o do centro-esquerda.

Não podemos também esquecer que o Presidente da República, ao assumir a bitola de deitar abaixo o Governo sempre que haja alguma crise, seja com os Primeiros-ministro, seja com o Orçamento, acelerou algo que poderia ter demorado mais de uma década. Estes ciclos políticos curtos e com finais envoltos em polémica, foram o rastilho ideal para o Chega.

O Mérito

Ventura soube aproveitar tudo isto que aqui descrevi. Com uma narrativa pouco diferente das grandes referências da extrema-direita a nível internacional, cavalgou tudo o que tinha ao seu dispor. Foi um oportunista inteligente, trabalhou bem e este é o resultado de todo esse esforço. Se há 6 anos olhavam para ele como uma anedota, agora toda a gente sabe que sobre aquele homem existe a possibilidade da conquista do poder.

Há que também prestar o devido tributo a Luís Montengro. Eu, que escrevi no artigo “A estrelinha de campeão de Luís Montenegro” sobre a enorme chico-espertice do Primeiro-ministro, e não retirando uma única vírgula a isso, tenho de lhe reconhecer o enorme sentido de oportunidade que teve, reforçando assim a posição da AD. Todavia, a sua astúcia e capacidade serão postas à prova nesta legislatura, pois agora o alvo do Chega é o PSD, e creio que ele tem consciência disso.


Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.

Eu, tal como dois terços dos simpatizantes da AD, sou contra uma aliança com o Chega. Não significa que não possam existir conversas em alguns temas, mas para mim, caso haja vontade de reformar o país e de estabelecer pactos em matérias de política externa, defesa, segurança e justiça, o PS é o melhor e mais bem preparado parceiro. Tenho mais dúvidas nas questões económicas e de reforma do Estado, mas esperemos por aquilo que o novo Secretário-geral possa apresentar. Talvez nestes dois últimos temas a IL seja uma boa aliada.

É defendido que eventuais alianças e coligações entre os dois partidos do poder pode favorecer o crescimento do Chega, posicionando-o como única alternativa política. Compreendo a perspectiva, mas convenhamos que nos últimos 10 anos os socialistas e sociais-democratas andaram sempre às “turras” e com enormes dificuldades de consensos e ainda assim o Chega chegou aos 60 mandatos em 2025. Tenho razões para acreditar que possa não ser bem assim, sobretudo se realmente os principais partidos estiverem interessados em resolver os problemas das pessoas.

Para além disso, pode ser polémico, mas e se realmente o país quiser o Chega a liderar o Governo? Se tal se suceder há duas coisas que me parecem importantes: a primeira é que o dano nas instituições seja baixo e que a capacidade de reverter em eleições qualquer rumo autoritário continue a ser possível em caso de incompetência e insatisfação pelo trabalho feito; a segunda é que prefiro que o PSD tenha as suas “mãos limpas” e que não tenha compactuado com políticas populistas insanas, impraticáveis e desrespeitadoras.

Estarei eu a ser anjinho? Veremos…

Escrito a 9 de junho de 2025 por Sérgio Brandão

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Ventura diz que foi convidado a integrar Governo. Montenegro nega: “É mentira e desespero”

Serão os eleitores do CHEGA eleitores de segunda?

Miguel Sousa Tavares, entre outras figuras e até mesmo uma parte da opinião pública, defendem que os eleitores do CHEGA não devem ser ouvidos e devem sim “ser combatidos e derrotados”, citando o próprio Miguel Sousa Tavares. Mas, será que deve ser assim?

A maioria maior e a maré de crise

As eleições legislativas de 2025 deram uma vitória “à vontadinha” à AD – Coligação PSD-CDS, que, contas feitas, acumula um total de 91 deputados com assento parlamentar, demonstrando que, a maioria do povo português quer deixar o Luís trabalhar.

Contudo, também o CHEGA viu o seu número de deputados ser reforçado, passando dos 50 – digo, 49 deputados, sem contar com o assistente da TAP, Miguel Arruda – para 60 deputados, “roubando” uma parte dos eleitores ao PS, que foi, digamos, o parente pobre da noite eleitoral, levando Pedro Nuno Santos a abdicar do cargo de secretário-Geral do Partido Socialista, arrecadando o pior resultado eleitoral dos últimos 40 anos, sentando apenas 58 deputados no parlamento, abaixo do número conseguido pelo CHEGA.

Há cerca de um ano, escrevia no artigo Espelho meu, espelho meu, que democracia sou eu?, neste mesmo blog, que “de São Bento ao Palácio Bourbon, os movimentos populistas têm tomado as conversas e até mesmo as urnas, especialmente na Europa, criando um efeito ao qual eu costumo chamar “maré de crise”. Maré de crise pois, historicamente, os partidos ou movimentos populistas tomam proporções de representação avassaladoras aquando de um período de descontentamento popular generalizado, como o que atravessa grande parte da Europa e até mesmo o mundo.”.

Pois bem, a verdade não constitui uma fórmula absoluta, mas, a realidade é que é justo afirmar que o povo vive o momento de maior descontentamento com as instituições democráticas, desde o pré 25 de abril.

Será justo afirmar que os eleitores do CHEGA não devem ser ouvidos?

Prontamente digo que não! Miguel Sousa Tavares, citado no início deste artigo, afirma que também ele está “zangado com a governação do país e com a falta de categoria da classe política atual”, mas, defende que isso não o leva a “estar zangado com a democracia”.

Pois bem, vamos por partes. Uma boa parte da população portuguesa vive, atualmente, descontente com a prestação das instituições democráticas, seja pela demora dos serviços, seja pela corrupção quase sistémica que se vive, ou até pela marca de Costa deixada ao país, a da imigração descontrolada e extinção do SEF. Vive descontente com os baixos rendimentos, com a precariedade do SNS, e com a crescente dor de cabeça que se tornou o acesso à habitação.

Além do mais, o interior de Portugal não tem conseguido, após sucessivos governos ao longo de 51 anos, combater o grave fenómeno do despovoamento, ajudando à “festa” o facto de terem sido desativados quase 500 quilómetros de linha ferroviária ao longo dos últimos 30 anos, e de haver capitais de distrito do interior ainda sem acesso direto a uma autoestrada.

Repito, além do mais, assiste-se a uma constante degradação do debate político, sendo os programas eleitorais cada vez mais um conjunto bacoco de frases líricas que soam bem ditas da boca para fora, mas não têm em consideração as contas pública do país onde se vive.

Neste cenário, alguém que – também por responsabilidade de todos, por não se prezar por isso em casa e nas escolas – tenha uma literacia política menos vasta, vê-se claramente representado no discurso de cavaleiro que vai aparecer na manhã de nevoeiro, após as eleições que dizem que irão ganhar, para “salvar Portugal”.

Não, os eleitores do CHEGA, principalmente aqueles que deixaram o PS, o PSD, o CDS, o PCP, entre outros, não são contra a democracia, até porque muitos sabem o que é viver sem ela.

Votar num partido que quer acabar com as portagens, com a “mama” dos subsídios, com os “monhés”, e com a “ciganada que não quer trabalhar”, pode ser tentador a muitos, principalmente àqueles que sentem na pele as vicissitudes negativas que citei, mas, tenham sempre consciência que a conservação da democracia é uma responsabilidade enorme, e cabe-nos a todos nós sermos conscientes e olhar para a nossa história.

Portanto, sim, não devemos ignorar os eleitores do CHEGA, mas devemos não deixar que o seu descontentamento passe para o desrespeito pela democracia, e, para isso, é necessário resolver as pendências do país dos velhos sonhos adiados.

Serão eles os salvadores da pátria?

O Partido CHEGA afirma querer acabar com a imigração ilegal, que sim, deve acabar, mas, muitas vezes, afirma nos discursos dos seus representantes ser contra a imigração no geral; defende acabar com a subsidiodependência, mas esquece, largas vezes, que ao “fechar a torneira”, pode colocar pessoas efetivamente carenciadas em situação de pobreza agravada; defende que quer acabar com as portagens, que seria excelente, não fossem os custos avassaladores da reparação de uma rede de autoestradas tão elevados para o orçamento do estado.

Acima de tudo, votem naqueles que mais vos dizem algo, mas tenham sempre consciência que nada se faz num estalar de dedos; que o problema da natalidade não se resolve em 4 anos e sem imigrantes, e que Portugal não precisa de ser salvo, porque não está a ser invadido, precisa sim que os democratas, que devemos ser todos nós, se preocupem em governar também em consciência, e que façam valer os 51 anos já passados.

Terminando, digo que a melhor forma de combater os eleitores do CHEGA, é mostrar trabalho, respeito, espírito democrático e, acima de tudo, um enorme amor à liberdade.

Que os ventos do passado não se façam soar por cá nunca mais e que a melhor arma que tenhamos contra o populismo seja a consciência!

Escrito a 2 de junho de 2025 por Francisco de Melo Ambrósio.

A Estrelinha de Campeão de Montenegro

Surfando o grande momento económico e financeiro do país e a paz social feita à custa de distribuição de dinheiro pelas clientelas importantes como idosos e funcionários públicos, o Primeiro Ministro parte para estas eleições confiante e à vontade. Talvez até à vontadinha.

O que é que está em causa nestas eleições? Porque vamos a votos?

Tal como o Presidente da República enunciou no discurso da sua terceira dissolução, esta crise foi provocada por um desentendimento entre o Governo e a oposição quanto à existência de uma confusão entre a política e interesses económicos. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou “Para uns, a confiança ética e moral era óbvia. Para outros, a desconfiança é que era óbvia“.

Portanto, desengane-se quem considera que esta campanha é sobre “políticas”. Aliás, eu atrevo-me a dizer que quase nunca é sobre políticas que há mudança de cor no Executivo Português. Aquilo que tem acontecido é que chega a um momento em que os eleitores se cansam do partido que os governa e optam por outro. Sendo assim, a pergunta que se impõe é: “Estão os portugueses fartos do PSD?”. Eu diria que não, e é a isto que Montenegro se agarra.

Deste modo, seria de concluir que o objetivo do PS durante esta campanha seria conseguir convencer o povo da incapacidade ética e da falta de transparência do atual Primeiro-Ministro. O problema é que os socialistas, como nunca tiveram um verdadeiro momento de reflexão sobre o caso José Sócrates, não têm um álibi suficientemente robusto para entrar por essas águas turbulentas. Por isso, vemos aí Pedro Nuno Santos, num esforço hercúleo a demonstrar que tem um programa para o país diferente dos últimos 10 anos do partido que representa. De facto, tem para ali umas coisas novas, mas parece-me que o eleitorado está nem aí depois de 8 anos de Costa. Estou convencido que, tal como aconteceu na Madeira, a ética e o bom nome vão para o caixote do lixo e “deixa o Luís trabalhar“.

Sejamos práticos, até ver, com as informações que temos ao dia de hoje, há indícios de corrupção? Não, não há. Há tráfico de influências? Nada disso. Há crime? Parece que se tem de vasculhar ainda muito. É chico-espertice? Ui, se é. É para correr com o Primeiro-Ministro? Se não foi com Miguel Albuquerque como arguido, então aqui não será de certeza para a maioria dos portugueses.

Luís Montenegro tem aquilo que os mais velhos chamam de “verdadeira cara de pau” (para os mais jovens, recomendo pesquisarem a definição no Google). Faz-me confusão a sua incapacidade de se justificar, tendo sempre a postura de dizer que é uma cabala contra ele, que é um homem de honra inabalável e impenetrável e depois lança explicações a conta-gotas que são muito pouco claras e demasiado palavrosas, deixando espaço para dúvidas e a sensação de “Estás-me a atirar a areia para os olhos ou é só impressão minha?“.

Depois de andar semanas e semanas a culpar o PS e o Chega pela crise, foi no programa do Goucha, seu claro apoiante nas últimas eleições, que revelou aquilo que todos nós ja desconfiávamos: ele queria estas eleições, era a oportunidade certa. E está tudo bem com isso, mas escusava de omitir (ou mentir) sobre as suas reais intenções.

Montenegro está com aquilo a que no futebol chamamos de “estrelinha de campeão”. Surfando o grande momento económico e financeiro do país e a paz social feita à custa de distribuição de dinheiro pelas clientelas importantes, como idosos e funcionários públicos, o Primeiro Ministro parte para estas eleições confiante e à vontade. Talvez até à vontadinha. Por isso, põe todos os ministros como cabeças de lista e ainda tem a ousadia de colocar Hernâni Dias por Bragança. Relembro que o antigo autarca e ministro do último Governo tinha sido afastado por ter criado duas imobiliárias quando mudava a lei dos solos. Agora volta, novamente, a ter a confiança do líder do seu partido.

Prosseguimos, no leme dos destinos do país, com pessoas que não acreditam em nada que não seja a conquista e a manutenção do poder. Capturados pelas agências de comunicação, os recentes líderes políticos vivem de truques, esquemas e táticas que tentam deixar a sua cara sempre limpa, ainda que tenham o fato já cheio de nódoas. Se todos são assim? Não quero fazer esse salto populista, mas a experiência dos últimos anos assim nos faz pender para essa triste conclusão.

Em 2009 (e com aquilo que se sabia nesse ano, não o que se soube depois), Sócrates, envolto em muitas dúvidas éticas, foi reeleito com as palmas e a euforia total do seu partido e as críticas ferozes da oposição. Agora em papéis invertidos, Montenegro prepara-se e procura o mesmo. Estou convencido de que não teremos um novo Sócrates 2014, isso é certo, mas da minha parte, e com estas dúvidas e inquietações no ar, os eleitores deveriam ser mais críticos no momento que lhes pedem um voto de confiança na integridade e honorabilidade do líder da direita. Não é para isso que servem as eleições. Se começamos a permitir que os políticos usem os processos eleitorais para limpar a sua imagem, começamos a cavar a campa das democracias. Vejam o que se passa do outro lado do Atlântico.


Tudo indica que continuaremos, depois de 18 de maio, num cenário de enorme instabilidade. Agora com a consciência que acordos, e alinhamentos entre o PSD e outros partidos poderão ser ainda mais difíceis devido ao seu líder. Quem arrisca aliar-se a alguém que depois lhe pode manchar o currículo? Que triste e desanimador momento para a política nacional.

Escrito a 17 de abril de 2025 por Sérgio Brandão

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Luís Montenegro apresenta programa da AD

Precisa-se Extremamente Moderados

“Quando partidos que historicamente sempre tiveram as suas divergências, mas se alinhavam naquilo que realmente era importante para o povo, entram numa óptica de quererem ser “moderados extremados” vai haver um dia em que realmente a escolha será somente entre os radicais da esquerda e radicais da direita.”

Quem ligasse a televisão ou fosse às redes sociais há duas semanas sentiria que o país parecia à beira de uma Guerra Civil por causa da morte de Odair Moniz. De um lado tínhamos a extrema-esquerda a pedir a “cabeça” do polícia que atirou sobre a vítima e a acusar toda a PSP de racismo. Do outro tínhamos a extrema-direita com lamentáveis e indesculpáveis declarações sobre o incidente e as comunidades que vivem em bairros sociais.

Não querendo entrar em detalhe na análise de cada um dos lados, o que me irritou (e me tem vindo a irritar) é esta ocupação mediática regular por parte dos extremos, assumindo que a sociedade portuguesa está mais radicalizada do que na realidade está.

Infelizmente já vem sendo hábito o tardar da entrada em cena de opiniões que sejam minimamente ponderadas, sensatas e moderadas.

Aqui, claramente António Filipe, do PCP (que não é certamente um partido moderado), durante a sua intervenção à saída da Assembleia da República, e também de Carlos Guimarães Pinto, na sua intervenção na CNN, colocaram o tema sob um prisma que muito me agrada, atacando-o com uma atitude de abertura e assumindo que as conclusões a tirar são muito mais difíceis e dúbias do que parecem.

Ser Moderado cansa.

Abstermo-nos de ter uma opinião, de partilhar um post ou de simplesmente dizer “não sei” sobre algo que se está a passar é um exercício de enorme força. Ser moderado não está na moda e tem muito pouco de atrativo, pois não dá “likes”, nem “shares”.

Há um domínio do discurso por parte dos radicais, mas aquilo que nós temos visto até agora é que os moderados continuam a “ganhar”. Bem sei que este artigo está a ser escrito a poucos dias das eleições norte-americanas, mas convenhamos que, olhando para todas as eleições livres e democráticas de 2024, a ameaça da chegada dos extremos ao poder tem sido francamente bloqueada. Fazem imenso ruído e são cada vez menos uma minoria silenciosa, mas, até ver, ainda não têm a preponderância que por vezes parece que nos querem fazer crer.

Ser extremista é estar do lado de uma ideologia polarizada e ser intolerante em relação a outras opiniões. Ser extremista é mostrar uma arrogância perante a moralidade dos outros, assumindo a existência de lados bons e maus, de correto e incorreto, de preto e branco sem nunca haver cinzento. Daqui retira-se a lógica conclusão destes posicionamentos: a dificuldade na criação de pontes, de espaços discussão e negociação, pois cada pólo assume que só existe uma verdade absoluta.

Descartes, aquando da publicação do Método Cartesiano, assumia a dúvida como pilar fundamental para a razão. E a racionalidade só pode funcionar se conseguirmos retirar todo o preconceito e enviesamento que esteja por detrás da dita verdade absoluta. Foi isto que durante anos os moderados fizeram, mas hoje em dia começa a ser cansativo até para eles. A excessiva emocionalidade do pensamento lógico começa também a assoberba-los.

A Polarização é Ideológica ou Emocional?

Nas passadas eleições intercalares nos EUA, circularam os resultados de um inquérito que dizia que 81% dos Democratas achavam que a agenda política Republicana iria destruir a América, e que 79% dos Republicanos achavam justamente o contrário. Aquando da confrontação destes resultados, a minha pergunta foi: “Mas então como é possível que esta gente se vá entender alguma vez na vida na mais simples coisa?”

O efeito tribal dos extremos, que está muito associado à identidade de cada um, tem vindo nos últimos anos a passar para os moderados. E a razão disso não advém de uma polarização ideológica, mas sim emocional, afectiva.

Grande parte dos debates que vemos entre as grandes forças políticas dos países ocidentais não versam sobre as ideias que cada uma tem para o país. Se formos críticos na nossa análise, essas discussões são mais atribuições de “rótulos” do que outra coisa. Há uma necessidade de criar distanciamento mesmo quando ele não existe propriamente, levando o exercício da política a aparentar-se a um arrufo de miúdos no recreio da escola.

Quando partidos que historicamente sempre tiveram as suas divergências, mas se alinhavam naquilo que realmente era importante para o povo, entram numa ótica de quererem ser “moderados extremados”, vai haver um dia em que realmente a escolha será somente entre os radicais da esquerda e radicais da direita. Vejam a atual crispação entre o PS e o PSD. Que sentido faz quando na realidade têm tanto em comum?

Esta polarização emotiva que põe partidos contra partidos, candidatos contra candidatos, pessoas contra pessoas, destrói a base para a estabilidade das democracias ocidentais. Para quê criar divergências na base apenas das “cores” que representam? É insustentável.


Por isso, sempre que há uma nova polémica, a minha atitude tem sido a de me manter cada vez mais recatado e em dúvida perante o sucedido. Sinto que os primeiros dias são reações mais emocionais do que lógicas e mais vale esperar um pouco, ler e escutar várias visões sobre os assuntos antes de começar a disparar conclusões que se podem revelar como disparatadas.

Espero que os moderados parem de cair na tentação de extremar, pois, tal como dizia Rui Veloso na sua canção romântica: “muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa”.

Escrito a 1 de novembro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Os extremos não se atraem. Odeiam-se. Eis meia hora de debate entre Mariana Mortágua e André Ventura

Referências de Interesse:
Polarization, Democracy, and Political Violence in the United States: What the Research Says
Both parties think the other will destroy America, NBC News poll finds

Será Trump uma ameaça para a Europa?

Desde 2016 que o atual candidato republicano à Casa Branca demonstra as suas controversas ideologias, colocando-nos a pensar: deve a Europa temer um regresso da administração de Donald Trump?

“America first” significa “Europa por sua conta”?

Desde a primeira vez que foi eleito, em 2016, Donald Trump grita a todos os ventos “America first”, tornando as suas crenças bem visíveis.

O ex-presidente americano defende expulsar imigrantes, fomentar a indústria petrolífera, aumentar as taxas de importações, mas, mais grave ainda, fomenta o discurso anti-NATO com as suas polémicas declarações. No entanto, que peso trariam estas premissas ao continente Europeu? 

A Europa, como continente de estados soberanos e, maioritariamente moderados, não se representa na grande parte das declarações tecidas por Donald Trump, e a prova disso mesmo são as declarações do Primeiro-Ministro Belga feitas no início deste ano no Parlamento Europeu, onde afirmou que se a “América primeiro” voltar “outra vez”, será mais a “Europa por sua conta”.

Contudo, De Croo afirma também que, caso a eleição do republicano suceda, a Europa ficaria com uma “base mais forte” podendo “abraçar outras oportunidades”, dando assim ao continente ainda mais espaço para se afirmar como grande potência. 

A imigração

Donald Trump defende fechar as fronteiras, facilitar deportações, condenar à pena de morte qualquer estrangeiro que mate um americano civil ou força da autoridade e, para além disso, prega a todos os ventos que os imigrantes “comem os animais de estimação dos cidadãos americanos”, algo que já veio a público ser desmentido pelas autoridades. 

Trump, ao fazer este tipo de declarações, está a rotular comunidades, a agredi-las e menosprezá-las enquanto as mesmas trabalham diariamente para colocar sustento em casa e desenvolver a economia do país.

Este tipo de discurso é antitético ao europeu que, por outro lado, de um modo geral, afirma o valor dos imigrantes, considerando que são essenciais ao desenvolvimento das economias do continente, valorizando as suas raízes culturais e, em alguns casos, dando-lhes proteção e asilo. 

Segundo Ronald Reagan, republicano, por graça, nas suas declarações feitas em 1989, disse que os imigrantes “são homens e mulheres corajosos que deixam as suas casas e que vão para um país novo para procurar uma vida melhor e que contribuem mais do que recebem”, provando a priori que as ideias são as pessoas que as fazem. 

“Drill, baby, drill…”

No seu mandato Trump decidiu abandonar o Acordo de Paris, fazendo com que os EUA se tornassem mais uma vez uma nação sem rumo face às alterações climáticas, criando um fosso no caminho para a neutralidade carbónica.

É objetivo de grande parte dos países europeus atingir a neutralidade carbónica até 2050 e, por isso, a grande maioria tem apostado, por exemplo, no setor da energia elétrica, onde está bastante vincada a transição energética, optando cada vez mais por fontes sustentáveis e renováveis, contribuindo assim para as metas climáticas europeias.

No mesmo ponto, Trump, devido ao aumento exponencial dos preços da energia nos EUA, defende o regresso à exploração em massa do petróleo no Alasca, indo contra os objetivos mundiais de utilização sustentável de recursos, reavivando a teoria republicana “drill, baby, drill…” citada pela primeira vez em 2008 pelo, à data, vice-governador do Maryland, Michael Steele.

Esta ideia de uma economia assente na exploração de petróleo para qualquer fim, neste caso, alegadamente para a produção de eletricidade, é antitética às políticas anti-imigração, isto porque uma economia assente em produtos de alto valor acrescentado, tende a necessitar de uma mão de obra mais barata, sendo normalmente proveniente da imigração.

 O futuro da Aliança Atlântica 

Trump, com toda a sua convicção que já nos é habitual afirmou, encorajando a Rússia, “a fazer o que raio quiser” com os aliados da NATO que não cumprissem as diretrizes de gastos de 2% do PIB previstos para a defesa. Como seria de calcular, estas declarações preocuparam a comunidade europeia, levando o responsável pela política externa e de defesa da União Europeia, Josep Borrell, a dizer que “a NATO não pode ser uma aliança militar ‘à la carte’”. 

Estas afirmações apenas comprovam que, para o republicano, o seu sentido de Estado está constantemente dependente de falácias e pensamentos irrisórios acerca do mundo que o rodeia, podendo, como vemos, prejudicar, hipoteticamente, a segurança e soberania de outros estados, principalmente os europeus, onde a defesa da Ucrânia, por exemplo, é uma questão intrínseca, tal como citou no seu discurso o Primeiro-Ministro Belga:

Para os Estados Unidos e para outros aliados, o apoio à Ucrânia é uma questão estratégica, é uma consideração geopolítica. Para nós, europeus, o apoio à Ucrânia é existencial.

– Alexandre De Croo, Primeiro-Ministro Belga.

Esta possível descredibilização das forças da NATO, podiam provocar uma afirmação dos BRICS como potência militar, sendo que representam cerca de 45% da população mundial e as suas economias têm vindo a registar crescimentos económicos significativos e um aumento das suas forças militares.

Economia

Donald Trump segue a ferro e fogo pregando políticas protecionistas evidenciando uma economia de mercado bastante vincada (como à boa moda americana), taxas adicionais de 10% a todos os produtos importados e um valor ainda mais elevado sobre os produtos chineses.

Trump incita ainda a que a população americana invista em criptomoedas, mercado este que é instável e que pode conduzir a más decisões financeiras, levando as pessoas a perder, hipoteticamente, milhares de dólares investidos.  

A Europa, continente de livre circulação de bens e pessoas, através do espaço Schengen, condena categoricamente estas propostas do ex-presidente americano, isto pois, de um modo generalizado, iriam afetar a economia europeia e também americana, visto que um dos principais importadores de certos setores da sua indústria é os EUA. 

Ainda sobre o petróleo, mercado este manchado, literalmente, ao longo dos anos por crises e grandes catástrofes ambientais, não deveria em pleno século XXI continuar a ser fonte de rendimento de qualquer economia, apenas salvas as exceções de transição, isto por considerar ser um mercado lucrador, sim, mas que, como pudemos ver, pode acabar com a sobrevivência das espécies e do planeta em pouco mais de um século. 

“Imagine a world…”

Concluindo, e tendo em conta que, no total, estas medidas custariam, por ano, 500 mil milhões de dólares aos americanos, considero que Trump é sim uma ameaça para o continente europeu e para a sua própria nação, pois, como está exposto ao longo deste artigo, as suas políticas preocupam não só a comunidade europeia como também a comunidade internacional, tudo por alguns “trocos” para seu favor próprio e nunca para o desenvolvimento da nação e da paz comum. 

Falando em paz, é imperativo não esquecer a inspiração de Trump em líderes autoritários, como Viktor Orbán e Giorgia Meloni, o que descredibiliza, e muito, a figura dos Estados Unidos como “pai” das democracias liberais. 

É importante combater estes movimentos políticos, como o de Trump, para prevenir que sirvam de “escola” para as gerações vindouras, evitando assim uma Europa fragmentada e um mundo destruído por crenças hediondas.

Escrito a 31 de outubro de 2024 por Francisco de Melo Ambrósio.

Alguns vídeos informativos como complemento aos temas abordados:

Imigração

“Drill, baby, drill”

Espelho meu, espelho meu, que democracia sou eu?

Nos últimos anos os partidos populistas têm tomado o território político das democracias liberais, falando sempre “em nome do povo” e das “pessoas de bem”. Mas será mesmo que falam?

Neste ano de 2024, de São Bento ao Palácio Bourbon, os movimentos populistas têm tomado as conversas e até mesmo as urnas, especialmente na Europa, criando um efeito ao qual eu costumo chamar “maré de crise”. Maré de crise pois, historicamente, os partidos ou movimentos populistas tomam proporções de representação avassaladoras aquando de um período de descontentamento popular generalizado, como o que atravessa grande parte da Europa e até mesmo o mundo. 

Falarei aqui, apenas, dos dois grandes exemplos mais próximos dos nossos olhos e ouvidos, França e, claro, Portugal. 

Incidentes pontuais ou acontecimentos permanentes?

Nas eleições de 10 de março, vimos alcançar, por parte do partido CHEGA, o seu maior resultado eleitoral de sempre, 18,8 p.p; e em França, a 7 de julho, o partido de Marine Le Pen, o Rassemblement National, na segunda volta das eleições, alcançou 32,05 p.p, sendo que na primeira volta havia saído vencedor com 29,26 p.p., segundo o mapa eleitoral da CNE e o Ministère De L’intérieur Et Des Outre-Mer.

És tu, populismo, forte o suficiente?

Para muitos, pouco há de significar, para outros, de uma ameaça se trata, mas a realidade é que quando olhamos para as propostas de ambos os partidos conseguimos, sem muito esforço, desconstruí-las, como, por exemplo, a proposta do Rassemblement National, que pretende “Reservar apenas aos cidadãos franceses certos direitos actualmente disponíveis a todos os residentes, incluindo a educação gratuita”.

Ora, partindo do princípio que os residentes sem nacionalidade francesa estejam atualmente inscritos no sistema de ensino francês e que o frequentam, a esses mesmos indivíduos teria de lhes ser retirado, contra a sua vontade, a frequência de um bem essencial à civilização do mundo contemporâneo, a educação. Estas pessoas estariam, claro, privadas de evoluir as suas capacidades, mesmo se o quisessem, causando assim um sentimento de não pertença e de desigualdade social de uma avassaladora escala, tendo em conta a população de habitantes sem nacionalidade francesa. Para além do mais, esta medida redutora e exclusiva, estaria a impedir que, no futuro, a mão-de-obra francesa fosse mais qualificada, e assim, impeditiva de um melhor e maior crescimento económico.

No caso português, as premissas do partido de André Ventura mudam de panorama face às francesas, isto porque o partido tem passado por inúmeras polémicas devido a algumas das suas controversas medidas, tentando, assim, “deixar de parte” o seu lado populista. Contudo, uma das suas medidas mais controversas, na minha opinião, é o Projeto-Resolução nº 237/XVI/1ª, que “Recomenda ao Governo que altere as regras de inscrição nas creches aderentes ao programa “Creche Feliz” dando prioridade a crianças com pais trabalhadores”. Esta medida até pode parecer algo defensável, tendo em conta que não faz sentido que os pais que trabalham abdiquem, possivelmente, dos seus empregos para cuidar dos seus filhos por não haver vagas no sistema. Contudo, esta medida recentemente aprovada na Assembleia Legislativa dos Açores, é facilmente “derrubável” quando olhamos para o ponto de vista da igualdade de oportunidades e da justiça social.

Vejamos, uma criança filha de pais em que, apenas um ou os dois progenitores não estão empregados, não teria prioridade no acesso a uma creche, por se considerar que um dos progenitores pode, por não ter emprego, ficar a cuidar da criança em casa. Porém, como a criança passa para o fim da lista priorizando sempre os filhos de pais empregados, este jovem estaria a ser privado, indiretamente, do acesso a um local seguro e pedagógico, dificultando, à partida, o seu sucesso académico no futuro, segundo indicam estudos recentes citados no Projeto-Resolução acima referido. Para além disso, esta medida demonstra-se impraticável a partir do momento em que, não havendo vagas, os pais que trabalham, mesmo tendo a prioridade apresentada pelo partido, podem, alguns deles, terem de ficar na mesma com as crianças em casa, por esse mesmo motivo, podendo ser obrigados a deixar de trabalhar.

Atualmente a falta de vagas é o maior problema nas creches e no sistema de ensino por si só, por isso, esta medida apenas estaria a privar de forma indireta algumas crianças de se desenvolverem, e de darem a oportunidade aos seus pais de procurarem um trabalho, porque sim, não podemos partir do princípio que a maioria dos pais não empregados são pais dos “meninos do RSI”, “que depositam as crianças nas creches” e “ficam em casa e não estão à procura de emprego.”, segundo diz o deputado do CHEGA Açores, José Pacheco, em entrevista à TSF.

CHEGA de populismo!

Percebemos então, com os curtos exemplos dados, que o populismo e os seus fracos argumentos e medidas que marcaram presença notória nas eleições que tiveram lugar, recentemente, na Europa, são ameaças aos valores e crenças de uma Europa próspera e plural, de um mundo equitativo e distribuidor, e de democracias livres e plenas, nas quais ainda a maioria das pessoas quer viver. Por isso, não, o populismo não fala em nome “das pessoas de bem” e, muito menos, da “maioria”. 

Créditos de imagem: Guardian Opinion Illustrations / Eva Bee

Escrito a 26 de Agosto de 2024 por Francisco de Melo Ambrósio.

Entre a Decadência e a Psicopatia: o retrato de um país

“Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo?”

No passado dia 27 de junho ocorreu um debate entre Biden e Trump. Foi um primeiro teste em que se esperaria que o Partido Democrata, cavalgando a onda de deterioração da imagem do antigo presidente Republicano devido aos recentes casos judiciais, pudesse catapultar Biden para uma posição de vantagem a menos de 6 meses da eleição da democracia mais influente do Mundo.

Debate Completo: Primeiro frente-a-frente de Biden e Trump para a Casa Branca | WSJ

Sou fascinado por eleições. Adoro todo o processo da escolha dos candidatos por parte dos partidos, a apresentação de propostas, o jogo político, os debates, as campanhas, as análises feitas, a cobertura mediática. E felizmente 2024 tem sido meu amigo. Para além de todas aquelas que estão diretamente ligadas ao nosso país, tivemos já Taiwan, Índia, União Europeia, Reino Unido (terminou há dias), França a decorrer neste momento, e claro está, as eleições nos Estados Unidos da América. Tivesse eu mais tempo para ler, ouvir e estudar mais sobre cada uma delas…

Há um misto de emoções que decorrem em todos os processos eleitorais, mas aquela que me dá maior alento e motivação para acompanhar tudo isto é sem dúvida a esperança. Ainda que, em teoria, as eleições que mais me interessariam fossem as do meu país, ao vivermos num mundo globalizado e cada vez mais interligado, as eleições (quando feitas em países que vivem em democracias plenas) trazem-me sempre a esperança no reforço da democracia e de um mundo melhor e mais próspero para todos.

No entanto, é impossível ver o que se passa nos Estados Unidos e ficar entusiasmado. Os Americanos têm de ir às urnas escolher entre alguém com um claro declínio cognitivo e um psicopata descontrolado.

É lamentável que se tenha escondido dos americanos (e do Mundo) a clara deterioração das capacidades do Presidente dos Estados Unidos e, chegados aqui, o Partido Democrata vê-se em claras dificuldades para enfrentar e ganhar a um lunático que nunca escondeu ao que ia. Trump não apareceu de surpresa nestas eleições, toda a gente sabia e ninguém se acautelou. Culpa da Casa Branca, dos Democratas e também de Biden e da sua equipa, claro.

Ainda assim, eu não coloco os dois no mesmo patamar, como é obvio. Aflige-me até ver a quantidade de tinta que correu na descrição e deprecriação do atual estado de um homem como Joe Biden, que tem um currículo invejável na política interna e externa do seu país. Como é possível a sociedade global, como um todo, assumir que o Presidente perdeu o debate? Do outro lado tínhamos alguém que mais uma vez mentiu, mentiu e mentiu como já seria de esperar.

O New York Times identificou 20 declarações falsas de Trump, com outras 21 que considerou serem ou enganosas ou carecendo de contexto ou evidências. Este jornal não apontou declarações falsas proferidas por Biden, mas revelou que 11 se enquadravam no campo do “enganoso” ou “fora de contexto”.

Why Biden must withdraw?” – Artigo do The Economist

Num debate paupérrimo, moderado por jornalistas que fizeram perguntas básicas e que tiveram tudo menos o papel de moderar e desafiar os debatentes a elevar a discussão, permitiu-se a infantilização de temas como economia, imigração, saúde, segurança, entre outros, que tanto interessam aos eleitores e até ao Mundo. A CNN, representada por aqueles dois indivíduos, carregou no “play” e deixou correr um filme de terror visto por mais de 50 milhões de pessoas.

Biden vs Trump: Momentos chave do Debate Presidencial

Que sociedade é esta que permite que o país mais poderoso do Mundo leve a votos dois indivíduos assim? Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo? Que sociedade é esta que permite que dois jornalistas amorfos e acríticos liderem um debate desta importância?

É angustiante assistir a tudo isto no tantas vezes chamado “Farol das Democracias Liberais”. Será mesmo a esperança a última a morrer?

Escrito a 6 de julho de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Biden-Trump election rematch?

FCPorto, um voto na cadeira de sonho

No próximo sábado dia 27 decide-se o futuro da presidência do FCPorto, de um lado temos o carisma e história de quem fez de um pequeno, um grande gigante e do outro um vencedor, um sonhador que se apresenta agora às urnas, prometendo projetar o clube para um futuro de modernidade, rumo a novo sucesso.

Sei que precisamos de mudança mas não estou iludido, quaisquer que sejam os resultados das eleições do próximo sábado, esperam-nos períodos de grandes desafios e instabilidade, partilho com vocês a minha visão para o futuro do clube e que pode ser lida por qualquer uma das listas a candidatar-se.

Um clube é uma empresa

Um clube de futebol é uma empresa, como tal para atingir os objetivos a que se propõe tem de garantir de que dispõe das pessoas certas, imbuída da cultura certa (vencedora), com processos eficazes e eficientes, que em conjunto consolidem vantagens competitivas que o aproximem de maiores chances de sucesso e vitória.

Negar esta realidade não é negar o futuro, é negar o presente. São vários os exemplos de como os clubes que se gerem como empresas têm os maiores sucessos desportivos: Bayern de Munique e o seu record de campeonatos consecutivos, RB Leipzig e RB Salzburg que competem por títulos e vencem campeonatos nas respetivas ligas ou ainda mais relevante o histórico FCPorto das primeiras duas décadas deste século, que mantinha uma estrutura tão forte que um qualquer treinador arriscava ser campeão só por passar pelo Dragão.

Uma empresa tem de ser bem gerida

O Porto apresenta neste momento um passivo que ronda os 500 milhões de euros, dos quais à data da apresentação do Relatório de Contas do primeiro semestre da época 23/24, 265 milhões são passivo corrente (por isso executáveis num período de um ano) e embora apresentem cerca de 90 milhões de ativos correntes, iniciamos o dia 1 de janeiro apenas com 8.5 milhões de euros mobilizáveis em caixa, manifestamente pouco para o custo de Gastos com pessoal, acima dos 100 milhões de euros/época.

Este descalabro financeiro só pode ser explicado pelo acumular de más praticas de gestão, intencionais ou não, que só contribuem para distanciar o Porto do sucesso que todos ambicionamos, voltar a ganhar e ganhar repetidamente.

Um clube é uma empresa especial

Se pensarmos de forma abstrata um clube de futebol é uma sociedade cujo sucesso económico depende da valorização de ativos (jogadores), que está intimamente ligada aos processos de geração de valor (scouting, prospeção e desenvolvimento dos jogadores pela equipa técnica), cujo valor facial é altamente volátil e dependente de critérios de sucesso (vencer jogos, fazer boas exibições e vencer competições).

Os clubes que consolidarem os melhores processos de gestão e valorização de ativos e definirem o modelo de negócio com rentabilidade mais elevada que a dos concorrentes (absoluta e/ou percentual) serão aqueles que estarão em melhor posição para alimentar o funil de prospeção futuro e por isso mais perto da vitória seguinte.

Os desafios da empresa FCPorto

É verdade que hoje o FCPorto é uma marca internacional fruto do legado de um homem, mas Jorge Nuno Pinto da Costa não fez história sozinho, o seu sucesso define-se grandemente por ao longo do tempo ter sabido reunir as pessoas certas para o ajudar a conduzir os destinos do clube, seja na direção, na equipa técnica, nos capitães e restantes jogadores.

Infelizmente, ao longo dos últimos anos esse parece não ter sido o caso, a última década foi a menos reluzente para o nosso museu, e a trajetória financeira mostra que não encontraram a melhor forma de gerir a empresa FCPorto, e sem querer, com isso, esqueceram a importância de pensar no presente sem hipotecar o futuro da organização.

Pinto da Costa é e será sempre recordado pelo futebol mundial como o Presidente dos Presidentes! Que se façam estatuas, que se dê nomes a ruas, que se escrevam livros, cantos e odes, celebremos todos a felicidade de podermos ter vivido o seu sucesso.

Não haverá melhor forma de honrar a sua história do que permitir que se faça aqui a passagem de testemunho para um sucessor legítimo, um verdadeiro herdeiro, democraticamente eleito, que impeça a abertura de guerras futuras pela sucessão de autodenominados sucessores que ambicionem para proveito próprio a liderança do clube.

O meu apelo ao voto

Se o meu avô estivesse aqui hoje iria continuar a defender o Pinto de Costa, para ele o presidente foi sempre o homem certo no lugar certo e por isso defenderia a sua permanência à frente do nosso clube, eternamente grato por tudo aquilo que teve a oportunidade de viver.

Aprendi com ele que ao longo da vida podíamos mudar de tudo, de cidade, de país, de nacionalidade, de profissão, de partido, de amor, mudar até de religião, mas de clube nunca, esse seria sempre um amor eterno, seria sempre o nosso clube até morrer.

Sou nascido e criado no Porto, portista desde bébé, saltei os torniquetes das Antas quando era menino, vivi tardes incríveis no estádio antigo, celebrei inúmeros golos no Dragão, chorei pelo Kelvin a ser campeão, vivi os meus longos anos da adolescência num museu, o museu privado do FCPorto que o meu avô criou, fruto do seu amor e dedicação, que tanto o enchia de orgulho, por isso o meu destino era inevitável, penso sinto e respiro azul e branco.

Fotos do museu do meu Avô Alexandrino Azevedo

O meu avô fez parte da comissão que apoiou a candidatura do nosso presidente desde o primeiro momento, e desde muito novo me levou para a missão de recolher assinaturas para firmar a recondução da sua liderança, mandato após mandato. Comecei a fazê-lo muito jovem e recordo com carinho a forma como todos os portistas assinavam de bom grado, desejando que o nosso presidente continuasse a alimentar a chama da vitória.

Recordo-me de um dia em que fui para a loja do associado do estádio do dragão recolher assinaturas e um sócio me disse “não”. Não queria assinar por ter tido uma interação com o presidente que o tinha deixado triste, teria tentado cumprimentá-lo sem sucesso e esperava maior simpatia para outro sócio dragão.

Recordo-me com orgulho desse dia, pois foi o primeiro dia da minha vida em que tive a oportunidade de transformar um não em sim, recordo-me de lhe ter dito que lhe pedia a assinatura não pelas qualidades pessoais do homem Jorge Nuno Pinto da Costa, mas antes pelas competências profissionais do nosso presidente, o melhor presidente de todos os tempos.

Guardo com carinho esse dia, talvez por ter sido a primeira “venda” que fiz, uma venda fácil diga-se, ainda assim o dia em que mobilizei um sócio para apoiar o presidente em que eu acreditava que nos poderia continuar a fazer feliz.

Hoje faço-o novamente, volto a tentar mobilizar o apoio no candidato que acredito estar em melhores condições para nos fazer feliz, apelo por isso ao voto na candidatura de André Vilas Boas e escrevo este texto quiçá para convencer um indeciso, ou fazer duvidar um decidido que possa preferir votar em branco e assim em vez de ceder ao sabor da gratidão, possa permitir ao clube abraçar o melhor futuro.

Ao escrever este texto sei que honro a memória do meu avô, honro as convicções que ele me ensinou, devemos lutar pelo que achamos estar certo, e tal como ele disse desde a barriga da sua mãe até ao seu ultimo dia, não há nada mais certo que defender o clube que nos unia, partilho por isso o meu apelo a defender o clube que me inspirou a amar, no próximo 27 é dia de ir ao Dragão, é dia de mudar.

Escrito a 23 de abril de 2024 por João Tiago Teixeira

Exasperação, Excitação e Culpados após Eleições

“Não podes adorar o teu país apenas quando ganhas”

Já passou uma semana desde que soubemos os resultados das eleições legislativas de Portugal e temos de tudo: excitação à direita, exasperação à esquerda e claro, o exercício fatal e previsível da política: a lista de culpados.

Importante dizer que, à data em que escrevo este artigo, ainda não temos os resultados finais, pois faltam ainda atribuir quatro mandatos pelo círculo da Europa e fora da Europa. É pouco provável que haja grandes mudanças nos resultados finais, mas até por respeito a mim próprio e ao meu voto, vou-me abster de perspectivar cenários definitivos.

Considerando-me eu um aborrecido e entediante moderado, já tive tempo para maturar e fazer uma reflexão mais profunda, ajudando-me a analisar tudo isto de forma mais ponderada.

Vamos a números: um milhão e cem pessoas votaram no Chega. São mais 700 mil votos do que nas Legislativas de 2022, demonstrando assim um brutal crescimento deste jovem partido. E, praticamente, cinco milhões votaram noutros partidos, sendo que 3,5 milhões de votos foram feitos ao centro (Partido Socialista e AD), ou seja, menos cerca de 500 mil votos versus 2022. É verdade que é uma descida bastante significativa, mas não ignoremos que seguimos com 60% de pessoas “moderadas”. Deste modo, parece-me inadequado colocar um peso descabido no futuro do país dependente de “somente” 20% de Portugueses.

Mas devemos ignorar o facto de haver este crescimento de votação num partido populista e demagogo? Claro que não! Analisemos então…

A Exasperação

É evidente que Portugal votou massivamente por uma mudança liderada pela direita. Mais de 50% dos votos foram atribuídos à AD, Iniciativa Liberal e Chega. A última vez que aconteceu algo semelhante foi nos idos tempos de Cavaco Silva, num tempo e realidade completamente distintos.

Mesmo ainda sendo necessários alguns estudos sobre estas eleições, a verdade é que este crescimento aconteceu sobretudo graças aos jovens e por aqueles que tipicamente se abstinham de votar. Para além desta enorme sede de mudança de cor política, que até fez levantar os abstencionistas do sofá, parece que há uma mudança sociológica no país, havendo uma maior procura de soluções mais associadas a este quadrante político. Algo que vai completamente contra o recente histórico português dos últimos trinta anos.

Claro que isto faz soar os alarmes à esquerda, representada nas urnas por um eleitorado tendencialmente mais velho e de qualificações mais baixas. Será isto surpreendente? Para mim não… São anos a fio com o PS ao leme do país e como é obvio isso leva ao desgaste tanto dos políticos como do povo, principalmente quando os mais jovens sentem que o seu futuro está hipotecado.

A esquerda assumir que a culpa do crescimento do Chega é só da direita é de uma enorme falta de consciência. O partido de Ventura foi a cola que manteve a esquerda unida nestes últimos anos e depois de milhentas trapalhadas, o mais baixo investimento nos serviços públicos e sua consequente degradação, e da enorme dificuldade em apresentar um projeto económico de futuro que fizesse “aumentar o bolo” para a seguir o redistribuir, assumir que não têm um mínimo de culpa nisto é ridículo. Nestes últimos anos, tentaram ao máximo associar o PSD ao Chega, acusando-o do mesmo radicalismo e demagogia porque sabiam que o medo garantia votos nas eleições. O povo deixou de ter medo e num grito de revolta, perdeu a suposta vergonha e respondeu desta forma nas urnas.

A exasperação demonstrada por esta nova realidade chega a ser cómica. O país acordou e descobriu que não tem só progressistas, defensores de direitos LGBT, pessoas anti-aborto, pró-imigrantes e anti-capitalistas. O país tem conservadores, anti-socialistas, racistas e xenófobos, indignados e revoltados, e pessoas anti-sistema que só precisavam de ter a pessoa e o partido certo a expressar aquilo que eles tantas vezes disseram no café e vomitaram nas caixas de comentário das redes sociais.

A Excitação

Alguma direita, mas sobretudo a extrema direita, saiu demasiada entusiasmada destas eleições. Vemos muitos a referir que é impossível ignorar o Chega e mais de um milhão de votantes. Pois, eu digo que tanto não se deve ignorar os eleitores do Chega, como os outros cinco milhões, dos quais quase dois votaram AD, sabendo que “não é não”. Quem votou em Luís Montenegro, votou com a clara consciência de que não haveria uma coligação nem acordo parlamentar com Ventura. Isto não significa que não hajam negociações com ele, nem com os outros partidos, claro. É isto que um Governo minoritário faz. Comparar esta realidade com a de 2015 é desadequado.

Primeiro, porque o que o PS fez com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista Português (PCP) foi só um acordo parlamentar e não uma coligação de Governo como por vezes Ventura quer deixar passar. E segundo, porque eu não ponho no mesmo saco o Chega e os dois partidos que estão à esquerda do PS, aos dias de hoje. Se defendem políticas extremistas? Sim, na minha opinião defendem, mas não “jogam sujo” como o Chega. André Ventura tanto está uma semana a chamar “prostituta” ao PSD, como na seguir quer ser Governo com eles. O Bloco e o PCP são muitíssimo mais previsíveis e claramente “aburguesaram-se” com o tempo. Talvez um dia aconteça o mesmo com o Chega, mas não agora. Deste modo, compreende-se que a AD, e os seus eleitores, não tolerem e respeitem da mesma forma a extrema direita como o PS e os seus eleitores toleram e respeitam a extrema esquerda.

A excitação tem de se conter, porque este milhão de pessoas não são propriedade do Chega e não têm que ser apaparicados só por serem do Chega. Os eleitores não são de ninguém e se hoje votaram neste partido, amanhã, com uma realidade diferente, com políticas diferentes, com uma perspetiva de futuro diferente, poderão a vir a votar noutros. Se vale a pena a direita tentar cativá-los? Vale e deve! Se vale a pena a esquerda tentar convencê-los? Vale e deve.

É por isso que eu acho que estivemos, estamos e vamos continuar a estar em campanha durante este ano. Montenegro pode ter uma oportunidade de ouro se controlar a excitação da direita e mostrar frieza. Acredito que durante 2024 não o vamos ver a governar. Vamos vê-lo a fazer política dura e crua para se preparar para umas próximas eleições (isto se sempre for indigitado Primeiro-ministro, claro).

Os Culpados

A esquerda (e até alguma direita) ficou indignada e revoltada com os portugueses após a noite de 10 de março. Aqueles que louvaram os eleitores em 2022 quando deram uma maioria ao PS, não podem agora acusá-los de ignorância e fascismo em 2024. Este resultado advém de anos de desesperança, de casos e casinhos e de incompetência. Prosseguir com a postura de superioridade moral só irá continuar a afastar estes eleitores e não permite fazer um verdadeiro mea culpa de tudo o que se passou nestes últimos anos. Para além disso, acusar o Presidente da República de ter levado o país a este estado é verdadeiramente absurdo. Depois de mais de 10 demissões por incompetência, insurgência, casos judiciais e depois de aparecerem 75 mil euros no gabinete do braço direito do Primeiro-Ministro, estavam à espera do quê? A esquerda tem culpas no cartório…

E a direita moderada não pode achar que agora que tem a possibilidade de ser Governo que deve virar as costas a todos, inclusive à esquerda. A reforma da Justiça, do sistema eleitoral, devolução do tempo dos professores, aeroporto, ferrovia, energia e acção climática, entre tantos outros temas, podem pôr o PS e o PSD em acordo aquando do momento de negociações para o Orçamento. Não vale a pena fazer com os socialistas aquilo que eles fizeram com os sociais democratas durante estes anos. Relembro a frase de António Costa em entrevista ao Expresso em 2020: ““No dia em que a subsistência deste Governo depender de um acordo com o PSD, nesse dia este Governo acabou”.

Ainda assim, o PSD, num cenário de enorme desgaste do PS, não conseguiu crescer o que se esperava comparativamente a 2022. Talvez porque não foi visto como um verdadeiro líder da oposição. Foi muitas vezes, nestes últimos anos, frouxo, hesitante, vazio, pouco cativante. E se por acaso entrar em jogos de enorme calculismo político e continuar a não dar respostas ao povo arrisca-se a ser engolido pelo Chega. O PSD tem também culpas no cartório…

Termino a minha análise dizendo que também, todos nós, como sociedade temos culpas no cartório. Há dias vi esta story no Instagram do Carlos Guimarães Pinto:

Seguidores de Cabeças de Lista nas Redes Sociais

Reparem como André Ventura tem praticamente mais 800 mil seguidores do que a Marisa Matias que ocupa o segundo lugar. Tem mais 900 mil seguidores que Pedro Nuno Santos e mais 950 mil que Luís Montenegro. Se formos ao detalhe vemos que é incomparável a audiência a que ele chega no TikTok comparativamente com os demais líderes políticos. Era por isso que o Chega não fazia grandes arruadas, nem grandes comícios. Não precisava! E quando a bolha dizia que eles estavam a fazer uma péssima campanha, que Ventura perdeu todos os debates, eles demonstraram o contrário, porque claramente a mensagem continuava a passar como queriam e da maneira que queriam, ou seja, sem qualquer contraditório. Assim chegaram aos mais jovens e aos revoltados com o sistema.

Eu dei-me ao trabalho de ver alguns dos posts e percebe-se claramente que ele vai direto às emoções das pessoas e ao encontro daquilo que elas querem ouvir e que nenhum político tradicional consegue dizer. Somos culpados como sociedade por acreditarmos nisso e não termos formado pessoas com suficiente espírito crítico para perceber que não há soluções fáceis para problemas complexos. No entanto, eu sei que é difícil fazer política com protagonistas assim, por isso eu consigo empatizar que para os partidos tradicionais a adaptação e a mudança na forma de fazer passar a sua mensagem não é fácil quando se tem de concorrer com estes partidos.


“You can’t love your country only when you win”

Joe Biden, discurso do Estado da União, 7 de março de 2024

Escolhi esta frase do Presidente dos Estados Unidos, “não podes adorar o teu país somente quando ganhas”, para demonstrar que a democracia é isto mesmo. O povo é soberano e se por acaso o resultado não for o que queremos, isso não nos faz melhor que os outros, deve é fazer-nos refletir e analisar sem palas nem ideias pré feitas o que aconteceu.

Já escrevi aqui que as eleições são feitas para ganhar e nisso a extrema direita populista está disposta a tudo: mentir, enganar, exagerar, prometer, insultar, tudo. Por muito que custe, isso vale e funciona.

Representar 20% dos eleitores não é determinante, mas já traz algum peso. São 50 deputados que agora entram e que vão ter os holofotes apontados. Ventura é claramente mais brilhante que todos os outros (e se calhar o menos extremista) e se até aqui ele levava o partido controlado, agora vai ser mais complicado. Ele não quer arriscar perder a importância que a sua bancada parlamentar tem hoje. Ele só irá deitar um Governo abaixo se souber que ganha com isso. A política é trabalhar para a causa pública, mas também é um projeto de poder. Que poder vai continuar Ventura a ter? Estará preparado para esta responsabilidade e exigência? Será que a sua possível normalização o vai fazer perder gás?

Sejam bem-vindos ao jogo político. Vai ser um embate interessante nos próximos meses… Os portugueses estão a ver e à espera da mudança, seja à esquerda, seja à direita.

Escrito a 16 de março de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
O candidato a secretário-geral do PS Pedro Nuno Santos assinalou este sábado, em Penafiel, no distrito do Porto, que o seu partido se apresenta a eleições para vencer e não “para ser muleta do PSD”.
Tudo ou nada: Ventura ameaça com eleições “no menor tempo possível”
Montenegro à procura da governabilidade após vitória por margem mínima
Mais de 673 mil votos foram “desperdiçados” nas eleições legislativas de 2024: foi um em cada nove

A Sociedade Portuguesa de Sensações

E assim vamos, de sensação em sensação, sem discutir verdadeiramente o que devíamos e sem sermos capazes de ter “adultos na sala” a apresentar propostas para aquilo que nos interessa: combater o envelhecimento do nosso país e atrair imigração de forma humanista e integradora.

A campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2024 já vai avançada e esta análise, tendo em conta o ritmo vertiginoso como hoje em dia as coisas correm, já “vai tarde”. Contudo, quero na mesma fazê-la…

Pedro Passos Coelho (PPC) esteve presente na campanha da Aliança Democrática (AD) no dia 26 de fevereiro, em Faro, e fez um discurso de cerca de 20 minutos que, pasme-se, deu em polémica… E eu tentei perceber porquê, pois podia haver o risco de ser algo retirado de um contexto pouco claro. Por isso, para os mais curiosos, deixo abaixo o discurso na íntegra que começa por volta do minuto 14:

Houve duas frases que encheram títulos de jornais:

“Precisamos de ter um país aberto à imigração, mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro. (…) hoje as pessoas sentem uma insegurança que é resultado da falta de investimento e de prioridade que se deu a essas matérias.”

Vamos, então, esmiuçar o tema em três pontos: envelhecimento e imigração, segurança e sensações.

1 – Envelhecimento e Imigração

Um dos temas menos abordados na campanha é o inverno demográfico pelo qual Portugal passa e irá passar nos próximos anos. Lideramos o ranking dos países da UE com maior proporção de pessoas com 65 ou mais anos (24% da população). O nosso país envelheceu 4,4 anos, em média, na última década.

EU median age increased by 2.3 years since 2013

Quanto ao rácio de dependência de idosos, o número de pessoas idosas (com 65 ou mais anos) em comparação com o número de pessoas em idade ativa (15-64 anos) atingiu os 38% em 2023 em Portugal. Uma vez mais, o rácio mais alto na Europa.

Com o êxodo de jovens qualificados de Portugal para outros países, a situação económica e de sustentabilidade da segurança social é verdadeiramente assustadora. Por um lado, necessitamos de crescimento, e por outro, de garantir qualidade de vida e cuidados aos mais velhos.

Deste modo, não espanta que todos os partidos, de uma maneira ou de outra, defendam a atração de imigrantes para o nosso país, de preferência com o intuito de ficarem largos anos e constituir família, para reverter esta pirâmide demográfica preocupante.

O grande problema está no discurso utilitário que se faz sobre os imigrantes, havendo uma enorme dificuldade em abordar o tema de uma forma profunda e construtiva. Se a esquerda puxa do tema, a extrema direita diz que é uma bandalheira o que propõem e que vai por em risco a nossa sociedade. Se a direita puxa do tema, a extrema esquerda apelida-os de racistas e xenófobos.

Estamos num ponto em que os moderados não podem abordar o que precisa urgentemente de ser discutido. Primeiro, porque de facto necessitamos de atrair e cativar imigrantes, e segundo porque o temos de o fazer de uma forma organizada e humanista.

Do meu ponto de vista, as portas devem estar abertas, sem dúvida, mas isso deve ser feito de forma organizada e estruturada por duas ordens de grandeza: primeiro porque é preciso proporcionar condições favoráveis e dignas aos imigrantes, acolhendo com humanidade e respeito, e segundo porque também devemos ser nós a definir a nossa agenda e o nosso ritmo para que a integração seja feita, respondendo às necessidades do país e dos interessados em para cá vir.

Deste modo, evitamos a “bandalheira” e o “racismo”…

2 – Falta de segurança devido a imigrantes

Ainda não temos indícios que a imigração tenha levado a um aumento de insegurança em Portugal. Aliás, os dados mais recentes dizem exatamente o contrário:

  • Portugal é o sétimo país mais seguro do mundo, segundo Global Peace Index de 2023 .
  • O número de crimes em Portugal foi mais baixo em 2022 do que em 2014 e 2015, anos de governação de PPC, segundo o último Relatório Anual de Segurança Interna publicado.
  • 84,7% dos reclusos em Portugal são portugueses. O número de reclusos estrangeiros em proporção ao número total também diminuiu 3,8% na última década.

Isto tudo com um aumento de 98% de estrangeiros entre 2014 e 2022.

Concluindo, aparentemente não há nenhuma correlação entre o aumento de imigrantes e o número de crimes em Portugal. Deixo apenas em aberto a possibilidade de muitas vezes as pessoas não reportarem pequenos delitos, pois estes dados são alimentados com as queixas apresentadas pelos visados. Se as queixas não forem feitas, o que temos registado pode não espelhar a realidade. Contudo, ainda assim acho improvável poder correlacionar ambos os pontos.

3 – A Sociedade Portuguesa de Sensações

Passos foi ao Algarve com um objetivo: roubar eleitorado ao Chega nessa região (e noutras, certamente) e apelar ao voto útil na AD. Tudo o que escrevi acima ele sabe melhor que eu, melhor que a maioria.

Num discurso galvanizador, identificativo da matriz ideológica liberal que PPC nos habituou, só faltou mesmo dizer “não perguntes o que Portugal pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer por Portugal”, em linha com a mítica frase de John F. Kennedy: “Ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”. Todavia, esse discurso foi manchado por esta frase muito infeliz relativa à imigração: “as pessoas sentem uma insegurança”.

Sensações não são factos. Sensações podem não ter evidência por detrás. Sensações alimentam discursos da extrema direita e da extrema esquerda, tais como alguns bem conhecidos: a sensação de que os políticos são todos corruptos, a sensação de que os patrões exploram os empregados, a sensação de que o país está cheio de subsídio-dependentes, a sensação de que o problema da habitação é dos Vistos Gold, entre outros.

As sensações são as coisas que se ouvem no café, nos bancos de jardim, nas redes sociais, nos media sensacionalistas. Sensações só ajudam à polarização e não à análise e apresentação de soluções dos problemas reais da sociedade.

Este comentário, vindo de quem vem, alimenta e une a esquerda de uma forma simples: criando a sensação de que a direita democrática é igual à populista e que os problemas do país são “culpa do Passos”…

E assim vamos, de sensação em sensação, sem discutir verdadeiramente o que devíamos e sem sermos capazes de ter “adultos na sala” a apresentar propostas para aquilo que nos interessa: combater o envelhecimento do nosso país e atrair imigração de forma humanista e integradora.


1 milhão de imigrantes já cá estão e quase meio espera ser legalizado e integrado em Portugal. Destes, 31% encontra-se em situação de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Eurostat.

Permitindo-me então ao atrevimento de dizer que me dá a sensação do seguinte: se a frase de PPC tivesse sido “os imigrantes se não forem bem integrados e acolhidos, se não tiverem boas condições de trabalho e habitação, poderemos vir a ter um problema de segurança”, acho que aí poderia ser mais certeiro. A guetização, o abandono e a exclusão destas pessoas pode antecipar este risco. Por isso é que temos de discutir as coisas com seriedade e sem histerismos. Os problemas estão identificados, a necessidade real de os resolver também, por isso porque não arranjar soluções em conjunto?

Escrito a 3 de março de 2024 por Sérgio Brandão

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Existe relação entre imigração e segurança, como sugeriu Passos Coelho? Não