COP 27: Aquecimento Global: Verdade ou Consequência

Embora Portugal seja um país onde se escusa uma discussão sobre a aceitação das alterações climáticas, vale a pena abordar a gravidade da situação atual.

No passado dia 6 de novembro foi dado início à cimeira do clima COP 27, onde se reúnem a quase totalidade dos estados do mundo, se partilham atualizações sobre a deterioração das alterações climáticas e se tentam firmar compromissos para a correção da fatídica trajetória.

Foi com um apelo ao sentido de urgência que o Secretário Geral da ONU António Guterres escolheu iniciar a sua intervenção, “Estamos numa auto-estrada rumo ao inferno, com o pé no acelerador”, com um aviso de alarme procurou agitar as comitivas, apelando à ação, deixando-as alerta e responsabilizadas pela escolha mais importante das nossas vidas: “cooperar ou morrer”.

Portugal é um país em que se escusa a discussão sobre a aceitação das alterações climáticas, estas são amplamente aceites pelo poder político, agentes económicos e sociedade cívil, que comungam uma estratégia comum de desenvolvimento e sustentabilidade.

No raking do Climate Change Performance Index (CCPI) Portugal surge em 14º lugar. Este indíce é uma ferramenta que congrega 59 países, representa 92% dos emissores de gases de estufa e promove a transparência na cooperação internacional no âmbito da gestão da crise climática.

Embora Portugal surja bem classificado num ranking liderado pela Dinamarca e se distinga como um dos países que tem desenvolvido mais esforços para combater as alterações climáticas, as ações que têm sido desenvolvidas não permitiram atingir as metas definidas em 2015 no acordo de Paris.

As emissões de gases de estufa voltaram a aumentar em 2021

Os gases de estufa estão associados de uma forma global à atividade antropogénica e a sua emissão é feita de uma forma muito desigual, pois são os indivíduos de países mais ricos os responsáveis pela sua emissão corrente e histórica.

Apesar da sua emissão ter vindo a ser reduzida em regiões como a Europa e Estados Unidos, em 2021 vimos o nível de emissões globais “recuperar” da quebra da pandemia COVID, e atingir os níveis de 2019.

Vale a pena referir que embora a China seja a região do mundo que emite mais gases de estufa (38,7% dos gases em 2021), os Estados Unidos são o país com maiores emissões per capita do mundo, com 14 tCO2e (toneladas de CO2 equivalente), seguidos de Rússia e China com 13 tCO2e 9.7 tCO2e respetivamente. Em contraste os países em desenvolvimento emitem apenas 2.3 tCO2e per capita, que compara com a média global de 6.3 tCO2e.

Total and per capita GHG emissions of major emitters in 2020, including inventory-based LULUCF – Emissions GAP report – Climate crisis calls for rapid transformation of societies – UN

Um clima de alarme

Recorrendo ao relatório do Provisional State of the Global Climate 2022, realço três das dimensões mais importantes que justificam o alarme que Guterres fez soar e que são prova da deterioração acelerada da maior crise das nossas vidas.

Aumento da Temperatura Global Média à Superfície (TGMS)

Em 2022 experenciámos o efeito climático La Niña, um efeito que se caracteriza pela redução da temperatura da água na superfície do oceano pacífico e que ao contrário do El Niño, contribui para a redução da TGMS.

Apesar da ocorrência do efeito La Niña, até setembro de 2022 a TGMS foi 1.15ºc mais quente do que a baseline pré revolução industrial (1850-1900) e tudo indica que 2022 venha a ser o 5º ano mais quente desde que há registos, numa série em que registamos consecutivamente os 8 anos mais quentes desde sempre.

A temperatura do Oceano voltou a subir em 2021

À medida que a acumulação de gases com efeito de estufa leva ao aumento da TGMS, os oceanos absorvem 90% dessa energia (calor), o que se traduz no aumento da temperatura da água e no aumento do nível do mar:

  • Através do aumento do volume da água devido à expansão termal;
  • Pelo derretimento das calotes polares e dos glaciares.

Reconhecendo a importância desta dinâmica na evolução do nível do mar, a comunidade cientifica encontrou na Ocean Heat Content (OHC) uma escala que permite aferir a acumulação de calor no sistema marinho. A OHC é medida a diferentes profundidades e permite estimar o calor entre a superfície até aos 2000 metros de profundidade.

Os resultados mais recentes não são animadores, a OHC tem evoluido de forma significativa em todos os graus de profundidade, mostrando uma aceleração significativa na acumulação de calor ao longo dos últimos 20 anos e que em 2021 atingiu um novo máximo.

Ocean Heat Content measure 1960 – 2021

25 de fevereiro de 2022: o dia em que a extensão de gelo marinho no Ártico atingiu o nível mais baixo de sempre

A extensão de gelo marinho é a medida da área marítima que está coberta por uma concentração de gelo superior a 15% e é um dos indicadores mais importantes das alterações climáticas, dada a rapidez com que ocorre no ártico e às repercussões globais que o seu degelo pode provocar.

2022 será infelizmente recordado pelos maus recordes. No dia 25 de fevereiro a extensão de gelo marinho no ártico atingiu o nível mais baixo desde que há registos, que estado permanentemente abaixo da média de longo prazo (anos 1981-2010).

No dia 25 de fevereiro a extensão de gelo marinho desceu até uma área de 1.92 milhões de km2, quase 1 milhão de km2 abaixo da média de longo prazo (1981-2010), o que equivale à perda de uma área quase duas vezes superior a toda a peninsula Ibérica.

Here is a sense in which the nations, to deal with this problem, have to make a change from their traditional concern about themselves and not about the planet and the species, a change from the traditional short term to longer-term objectives.
Carl Sagan testifying before Congress in 1985 on climate change

As alterações climáticas só poderão ser combatidas se a emissão de gases for neutralizada e a COP27 afigura-se como (mais) um momento chave para que a humanidade possa abraçar uma estratégia definitiva, que permita inverter a tendência do aumento da temperatura no mundo e com isso salvar a vida de milhões de pessoas.

Sabemos todos que um verdadeiro compromisso só poderá ser atingido se todos os países abraçarem uma verdade comum, de outra forma não teremos escolha a não ser enfrentar todos a mesma consequência.

Escrito a 17 de novembro de 2022 por João Tiago Teixeira

Créditos foto: Capa relatório ONU: Emissions GAP report – Climate crisis calls for rapid transformation of societies

Provisional State of the Global Climate 2022

Emissions Gap Report 2022 UN

Climate change and the future: facts and figures

CCPI – Portugal 2022