Problemas Estruturais, Conjuntura, Incompetência e Mérito

“Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.”

Já passaram mais de duas semanas desde o desfecho das legislativas. É mais do que tempo suficiente para uma reflexão que gostaria de partilhar.

Não querendo demonstrar uma arrogância desmedida ao fazer uma listagem de todas as culpas existentes para eleição de 60 mandatos do Chega, destaco, porém, quatro sub-análises, não indissociáveis, que espelham a realidade que enfrentamos e uma conclusão sobre possíveis aprendizagens e próximos passos do Governo e Parlamento.

Questões Estruturais

Salários baixos, falência do elevador social, crise na habitação, falta de coesão territorial e diminuição da reputação das instituições e do Estado, são problemas conhecidos e que servem de combustível para o descontamento e ressentimento da população para com aqueles que lideraram o país nos últimos anos: PS e PSD. Acresce a isto a promessa, muitas vezes falhada, de que com estudo e trabalho qualquer pessoa, independentemente do seu contexto, atingiria sucesso e prosperidade.

A Conjuntura

Uma esquerda que se dedicou e, sobretudo, foi mais vocal nas questões identitárias e de género, deixando como segunda prioridade a luta de classes e a desigualdade social; um fosso maior entre o povo e as elites; a desintermediação da partilha de informação nas redes sociais; a crise do jornalismo e o crescente cepticismo sobre a sua real imparcialidade, e o aumento dos movimentos de partidos populistas nacionalistas de direita radical com figuras carismáticas, são algumas das questões conjunturais dos quais é impossível fugir em qualquer análise do ambiente político atual.

Quando baixamos a nossa análise ao nível nacional temos de acrescentar que 22 dos últimos 30 anos foram governados pelo Partido Socialista. Ora, assim fica difícil para um eleitor, quando tem de tomar a decisão de atribuir culpas sobre o estado da Nação não apontar o dedo ao PS quando para muitos foi praticamente o único rosto visível da governação do país, reforçando a minha ideia de que fosse Pedro Nuno Santos, fosse outro qualquer, o desfecho seria pouco diferente.

A Incompetência

Seja por arrogância, seja por incapacidade, os partidos políticos, sobretudo da esquerda, foram, aparentemente incapazes de fazer uma análise do que aí vinha. Refugiados na sua “Torre de Marfim”, faltou a consciência do nível de insatisfação, irritação e frustração que o país vive. Juntando os problemas estruturais, com os conjunturais, mais a enorme incapacidade de os políticos, ditos tradicionais, fugirem das suas inúteis e por vezes infantis “tricas políticas”, levaram a este desfecho incontornável.

Pedro Nuno Santos foi parece que foi totalmente incapaz de antever tudo isto que descrevi atrás, preferindo “cascar na direita” e tentar, a todo o custo, empurrar o PSD para os braços do Chega. Luís Montenegro com o seu “não é não”, desarmou o antigo Secretário-geral do PS, cuja única narrativa que tinha era a de alimentar o medo da captura do país pela extrema-direita onde o PSD seria também cúmplice. Admito também, que em face da situação que descrevi, pouco ou nada interessava ao eleitor qual seria o programa dos Socialistas. A política vive de ciclos e este claramente não é o do centro-esquerda.

Não podemos também esquecer que o Presidente da República, ao assumir a bitola de deitar abaixo o Governo sempre que haja alguma crise, seja com os Primeiros-ministro, seja com o Orçamento, acelerou algo que poderia ter demorado mais de uma década. Estes ciclos políticos curtos e com finais envoltos em polémica, foram o rastilho ideal para o Chega.

O Mérito

Ventura soube aproveitar tudo isto que aqui descrevi. Com uma narrativa pouco diferente das grandes referências da extrema-direita a nível internacional, cavalgou tudo o que tinha ao seu dispor. Foi um oportunista inteligente, trabalhou bem e este é o resultado de todo esse esforço. Se há 6 anos olhavam para ele como uma anedota, agora toda a gente sabe que sobre aquele homem existe a possibilidade da conquista do poder.

Há que também prestar o devido tributo a Luís Montengro. Eu, que escrevi no artigo “A estrelinha de campeão de Luís Montenegro” sobre a enorme chico-espertice do Primeiro-ministro, e não retirando uma única vírgula a isso, tenho de lhe reconhecer o enorme sentido de oportunidade que teve, reforçando assim a posição da AD. Todavia, a sua astúcia e capacidade serão postas à prova nesta legislatura, pois agora o alvo do Chega é o PSD, e creio que ele tem consciência disso.


Não havendo uma maioria absoluta, pede-se então ao atual Governo, capacidade de diálogo e consensos. Sendo eu um feroz defensor do parlamentarismo, descarrego todas as responsabilidades do rumo do país, justamente na Assembleia da República, preferencialmente sem extremismos.

Eu, tal como dois terços dos simpatizantes da AD, sou contra uma aliança com o Chega. Não significa que não possam existir conversas em alguns temas, mas para mim, caso haja vontade de reformar o país e de estabelecer pactos em matérias de política externa, defesa, segurança e justiça, o PS é o melhor e mais bem preparado parceiro. Tenho mais dúvidas nas questões económicas e de reforma do Estado, mas esperemos por aquilo que o novo Secretário-geral possa apresentar. Talvez nestes dois últimos temas a IL seja uma boa aliada.

É defendido que eventuais alianças e coligações entre os dois partidos do poder pode favorecer o crescimento do Chega, posicionando-o como única alternativa política. Compreendo a perspectiva, mas convenhamos que nos últimos 10 anos os socialistas e sociais-democratas andaram sempre às “turras” e com enormes dificuldades de consensos e ainda assim o Chega chegou aos 60 mandatos em 2025. Tenho razões para acreditar que possa não ser bem assim, sobretudo se realmente os principais partidos estiverem interessados em resolver os problemas das pessoas.

Para além disso, pode ser polémico, mas e se realmente o país quiser o Chega a liderar o Governo? Se tal se suceder há duas coisas que me parecem importantes: a primeira é que o dano nas instituições seja baixo e que a capacidade de reverter em eleições qualquer rumo autoritário continue a ser possível em caso de incompetência e insatisfação pelo trabalho feito; a segunda é que prefiro que o PSD tenha as suas “mãos limpas” e que não tenha compactuado com políticas populistas insanas, impraticáveis e desrespeitadoras.

Estarei eu a ser anjinho? Veremos…

Escrito a 9 de junho de 2025 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Ventura diz que foi convidado a integrar Governo. Montenegro nega: “É mentira e desespero”

Exasperação, Excitação e Culpados após Eleições

“Não podes adorar o teu país apenas quando ganhas”

Já passou uma semana desde que soubemos os resultados das eleições legislativas de Portugal e temos de tudo: excitação à direita, exasperação à esquerda e claro, o exercício fatal e previsível da política: a lista de culpados.

Importante dizer que, à data em que escrevo este artigo, ainda não temos os resultados finais, pois faltam ainda atribuir quatro mandatos pelo círculo da Europa e fora da Europa. É pouco provável que haja grandes mudanças nos resultados finais, mas até por respeito a mim próprio e ao meu voto, vou-me abster de perspectivar cenários definitivos.

Considerando-me eu um aborrecido e entediante moderado, já tive tempo para maturar e fazer uma reflexão mais profunda, ajudando-me a analisar tudo isto de forma mais ponderada.

Vamos a números: um milhão e cem pessoas votaram no Chega. São mais 700 mil votos do que nas Legislativas de 2022, demonstrando assim um brutal crescimento deste jovem partido. E, praticamente, cinco milhões votaram noutros partidos, sendo que 3,5 milhões de votos foram feitos ao centro (Partido Socialista e AD), ou seja, menos cerca de 500 mil votos versus 2022. É verdade que é uma descida bastante significativa, mas não ignoremos que seguimos com 60% de pessoas “moderadas”. Deste modo, parece-me inadequado colocar um peso descabido no futuro do país dependente de “somente” 20% de Portugueses.

Mas devemos ignorar o facto de haver este crescimento de votação num partido populista e demagogo? Claro que não! Analisemos então…

A Exasperação

É evidente que Portugal votou massivamente por uma mudança liderada pela direita. Mais de 50% dos votos foram atribuídos à AD, Iniciativa Liberal e Chega. A última vez que aconteceu algo semelhante foi nos idos tempos de Cavaco Silva, num tempo e realidade completamente distintos.

Mesmo ainda sendo necessários alguns estudos sobre estas eleições, a verdade é que este crescimento aconteceu sobretudo graças aos jovens e por aqueles que tipicamente se abstinham de votar. Para além desta enorme sede de mudança de cor política, que até fez levantar os abstencionistas do sofá, parece que há uma mudança sociológica no país, havendo uma maior procura de soluções mais associadas a este quadrante político. Algo que vai completamente contra o recente histórico português dos últimos trinta anos.

Claro que isto faz soar os alarmes à esquerda, representada nas urnas por um eleitorado tendencialmente mais velho e de qualificações mais baixas. Será isto surpreendente? Para mim não… São anos a fio com o PS ao leme do país e como é obvio isso leva ao desgaste tanto dos políticos como do povo, principalmente quando os mais jovens sentem que o seu futuro está hipotecado.

A esquerda assumir que a culpa do crescimento do Chega é só da direita é de uma enorme falta de consciência. O partido de Ventura foi a cola que manteve a esquerda unida nestes últimos anos e depois de milhentas trapalhadas, o mais baixo investimento nos serviços públicos e sua consequente degradação, e da enorme dificuldade em apresentar um projeto económico de futuro que fizesse “aumentar o bolo” para a seguir o redistribuir, assumir que não têm um mínimo de culpa nisto é ridículo. Nestes últimos anos, tentaram ao máximo associar o PSD ao Chega, acusando-o do mesmo radicalismo e demagogia porque sabiam que o medo garantia votos nas eleições. O povo deixou de ter medo e num grito de revolta, perdeu a suposta vergonha e respondeu desta forma nas urnas.

A exasperação demonstrada por esta nova realidade chega a ser cómica. O país acordou e descobriu que não tem só progressistas, defensores de direitos LGBT, pessoas anti-aborto, pró-imigrantes e anti-capitalistas. O país tem conservadores, anti-socialistas, racistas e xenófobos, indignados e revoltados, e pessoas anti-sistema que só precisavam de ter a pessoa e o partido certo a expressar aquilo que eles tantas vezes disseram no café e vomitaram nas caixas de comentário das redes sociais.

A Excitação

Alguma direita, mas sobretudo a extrema direita, saiu demasiada entusiasmada destas eleições. Vemos muitos a referir que é impossível ignorar o Chega e mais de um milhão de votantes. Pois, eu digo que tanto não se deve ignorar os eleitores do Chega, como os outros cinco milhões, dos quais quase dois votaram AD, sabendo que “não é não”. Quem votou em Luís Montenegro, votou com a clara consciência de que não haveria uma coligação nem acordo parlamentar com Ventura. Isto não significa que não hajam negociações com ele, nem com os outros partidos, claro. É isto que um Governo minoritário faz. Comparar esta realidade com a de 2015 é desadequado.

Primeiro, porque o que o PS fez com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista Português (PCP) foi só um acordo parlamentar e não uma coligação de Governo como por vezes Ventura quer deixar passar. E segundo, porque eu não ponho no mesmo saco o Chega e os dois partidos que estão à esquerda do PS, aos dias de hoje. Se defendem políticas extremistas? Sim, na minha opinião defendem, mas não “jogam sujo” como o Chega. André Ventura tanto está uma semana a chamar “prostituta” ao PSD, como na seguir quer ser Governo com eles. O Bloco e o PCP são muitíssimo mais previsíveis e claramente “aburguesaram-se” com o tempo. Talvez um dia aconteça o mesmo com o Chega, mas não agora. Deste modo, compreende-se que a AD, e os seus eleitores, não tolerem e respeitem da mesma forma a extrema direita como o PS e os seus eleitores toleram e respeitam a extrema esquerda.

A excitação tem de se conter, porque este milhão de pessoas não são propriedade do Chega e não têm que ser apaparicados só por serem do Chega. Os eleitores não são de ninguém e se hoje votaram neste partido, amanhã, com uma realidade diferente, com políticas diferentes, com uma perspetiva de futuro diferente, poderão a vir a votar noutros. Se vale a pena a direita tentar cativá-los? Vale e deve! Se vale a pena a esquerda tentar convencê-los? Vale e deve.

É por isso que eu acho que estivemos, estamos e vamos continuar a estar em campanha durante este ano. Montenegro pode ter uma oportunidade de ouro se controlar a excitação da direita e mostrar frieza. Acredito que durante 2024 não o vamos ver a governar. Vamos vê-lo a fazer política dura e crua para se preparar para umas próximas eleições (isto se sempre for indigitado Primeiro-ministro, claro).

Os Culpados

A esquerda (e até alguma direita) ficou indignada e revoltada com os portugueses após a noite de 10 de março. Aqueles que louvaram os eleitores em 2022 quando deram uma maioria ao PS, não podem agora acusá-los de ignorância e fascismo em 2024. Este resultado advém de anos de desesperança, de casos e casinhos e de incompetência. Prosseguir com a postura de superioridade moral só irá continuar a afastar estes eleitores e não permite fazer um verdadeiro mea culpa de tudo o que se passou nestes últimos anos. Para além disso, acusar o Presidente da República de ter levado o país a este estado é verdadeiramente absurdo. Depois de mais de 10 demissões por incompetência, insurgência, casos judiciais e depois de aparecerem 75 mil euros no gabinete do braço direito do Primeiro-Ministro, estavam à espera do quê? A esquerda tem culpas no cartório…

E a direita moderada não pode achar que agora que tem a possibilidade de ser Governo que deve virar as costas a todos, inclusive à esquerda. A reforma da Justiça, do sistema eleitoral, devolução do tempo dos professores, aeroporto, ferrovia, energia e acção climática, entre tantos outros temas, podem pôr o PS e o PSD em acordo aquando do momento de negociações para o Orçamento. Não vale a pena fazer com os socialistas aquilo que eles fizeram com os sociais democratas durante estes anos. Relembro a frase de António Costa em entrevista ao Expresso em 2020: ““No dia em que a subsistência deste Governo depender de um acordo com o PSD, nesse dia este Governo acabou”.

Ainda assim, o PSD, num cenário de enorme desgaste do PS, não conseguiu crescer o que se esperava comparativamente a 2022. Talvez porque não foi visto como um verdadeiro líder da oposição. Foi muitas vezes, nestes últimos anos, frouxo, hesitante, vazio, pouco cativante. E se por acaso entrar em jogos de enorme calculismo político e continuar a não dar respostas ao povo arrisca-se a ser engolido pelo Chega. O PSD tem também culpas no cartório…

Termino a minha análise dizendo que também, todos nós, como sociedade temos culpas no cartório. Há dias vi esta story no Instagram do Carlos Guimarães Pinto:

Seguidores de Cabeças de Lista nas Redes Sociais

Reparem como André Ventura tem praticamente mais 800 mil seguidores do que a Marisa Matias que ocupa o segundo lugar. Tem mais 900 mil seguidores que Pedro Nuno Santos e mais 950 mil que Luís Montenegro. Se formos ao detalhe vemos que é incomparável a audiência a que ele chega no TikTok comparativamente com os demais líderes políticos. Era por isso que o Chega não fazia grandes arruadas, nem grandes comícios. Não precisava! E quando a bolha dizia que eles estavam a fazer uma péssima campanha, que Ventura perdeu todos os debates, eles demonstraram o contrário, porque claramente a mensagem continuava a passar como queriam e da maneira que queriam, ou seja, sem qualquer contraditório. Assim chegaram aos mais jovens e aos revoltados com o sistema.

Eu dei-me ao trabalho de ver alguns dos posts e percebe-se claramente que ele vai direto às emoções das pessoas e ao encontro daquilo que elas querem ouvir e que nenhum político tradicional consegue dizer. Somos culpados como sociedade por acreditarmos nisso e não termos formado pessoas com suficiente espírito crítico para perceber que não há soluções fáceis para problemas complexos. No entanto, eu sei que é difícil fazer política com protagonistas assim, por isso eu consigo empatizar que para os partidos tradicionais a adaptação e a mudança na forma de fazer passar a sua mensagem não é fácil quando se tem de concorrer com estes partidos.


“You can’t love your country only when you win”

Joe Biden, discurso do Estado da União, 7 de março de 2024

Escolhi esta frase do Presidente dos Estados Unidos, “não podes adorar o teu país somente quando ganhas”, para demonstrar que a democracia é isto mesmo. O povo é soberano e se por acaso o resultado não for o que queremos, isso não nos faz melhor que os outros, deve é fazer-nos refletir e analisar sem palas nem ideias pré feitas o que aconteceu.

Já escrevi aqui que as eleições são feitas para ganhar e nisso a extrema direita populista está disposta a tudo: mentir, enganar, exagerar, prometer, insultar, tudo. Por muito que custe, isso vale e funciona.

Representar 20% dos eleitores não é determinante, mas já traz algum peso. São 50 deputados que agora entram e que vão ter os holofotes apontados. Ventura é claramente mais brilhante que todos os outros (e se calhar o menos extremista) e se até aqui ele levava o partido controlado, agora vai ser mais complicado. Ele não quer arriscar perder a importância que a sua bancada parlamentar tem hoje. Ele só irá deitar um Governo abaixo se souber que ganha com isso. A política é trabalhar para a causa pública, mas também é um projeto de poder. Que poder vai continuar Ventura a ter? Estará preparado para esta responsabilidade e exigência? Será que a sua possível normalização o vai fazer perder gás?

Sejam bem-vindos ao jogo político. Vai ser um embate interessante nos próximos meses… Os portugueses estão a ver e à espera da mudança, seja à esquerda, seja à direita.

Escrito a 16 de março de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
O candidato a secretário-geral do PS Pedro Nuno Santos assinalou este sábado, em Penafiel, no distrito do Porto, que o seu partido se apresenta a eleições para vencer e não “para ser muleta do PSD”.
Tudo ou nada: Ventura ameaça com eleições “no menor tempo possível”
Montenegro à procura da governabilidade após vitória por margem mínima
Mais de 673 mil votos foram “desperdiçados” nas eleições legislativas de 2024: foi um em cada nove

O Homem é um animal político… e, emocional.

“…ainda que sejamos uma população mais bem formada e que tenhamos a possibilidade de um acesso à informação mais democrático, parece que somos mais vítimas das emoções, menos racionais.”

As marcas, todas elas – mas principalmente aquelas de grande sucesso – usam as emoções como forma de comunicar com o consumidor de forma a que seja criada uma afinidade suficientemente forte para que fidelize o comprador. E aqui não precisamos de falar somente da Apple, da Nike ou da Coca-Cola. Podemos também falar de políticos…

O Marketing Político já não é novidade nenhuma no Mundo, mas numa pesquisa que fiz sem grande profundidade, nota-se que não é um tema ainda muito explorado e divulgado em Portugal, embora já haja trabalhos, alguns artigos e livros no nosso país sobre o tema. Não difere muito do Marketing tradicional, só que aqui o objetivo passa por promover partidos, candidatos e movimentos junto do eleitorado. À semelhança de outras marcas, os políticos tentam destacar-se da sua concorrência e, sobretudo, explorar as emoções com o intuito de criar uma afinidade suficientemente forte para que se crie a “fidelização do cliente”.

Campanha “Hope” de Barack Obama retirado de “Why Obama ‘Hope’ artist hates Trump…but won’t draw Hillary”

Se puxarmos um bocadinho pela cabeça facilmente nos lembramos de campanhas como a “Hope and Change” (“Esperança e Mudança”) de Obama em 2008, com o mítico slogan “Yes, we can” (“Sim, nós conseguimos”), ou mais recentemente campanhas como aquela a favor do Brexit em 2016: “Take Back Control” (“Retomar o controlo”), a de Donald Trump, também em 2016: “Make America Great Again” (“Tornar a América grande outra vez”), ou a de Jair Bolsonaro em 2018: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Campanha de Jair Bolsonaro no Brasil, retirado de “Brasil acima de tudo”: conheça a origem do slogan de Bolsonaro

Portanto, os políticos já sabem muito bem que os sentimentos e as emoções não podem ser deixados de lado durante uma campanha política. Há vários que se destacam, tais como o medo, o ressentimento, a indignação, a esperança, a segurança, a compaixão, o orgulho e o patriotismo. Muitas vezes, mais do que discursos políticos e grandes programas eleitorais, o importante é apelar a uma mobilização afetiva e emocional para obter sucesso. Vamos a alguns exemplos usados nesta campanha legislativa (e até já noutras), para as eleições de 10 de março:

O conhecido “Fantasma da Troika”:

O período de 2011 a 2014, em que Portugal foi submetido a um programa de austeridade e reformas estruturais impostas pela Troika para evitar a bancarrota, não traz boas memórias os portugueses. O desemprego, os cortes nos salários e pensões e o aumento dos impostos resultaram numa deterioração significativa das condições de vida de todos. Portanto, esses tempos são regularmente lembrados pela esquerda para descrever o impacto duradouro e as memórias negativas associadas a essas medidas que tiveram de ser levadas a cabo pelo Governo de coligação entre o PSD e o CDS. Mesmo que o memorando tenha sido negociado pelo PS…

Por isso, parabéns aos socialistas, pois conseguiram proteger melhor a sua marca ao longo dos anos – embora a direita muitas vezes tente assustar os portugueses com a possibilidade de bancarrota e de políticas económicas imprudentes propostas por partidos de esquerda, não tem tido muito sucesso. Todavia, essa é a forma que tem de trazer esse “fantasma”.

As Contas Certas:

Bandeira típica do marketing da direita ao longo dos anos, roubada pela esquerda nestes últimos oito. Ainda em linha com o ponto anterior, o PS conseguiu de forma brilhante retirar-se dessa imagem negativa que os eleitores tinham deles, fazendo um verdadeiro rebranding que traz confiança e segurança aos consumidores.

A União Soviética, Cuba e Venezuela representados pela Extrema Esquerda:

Os sinais muitas vezes contraditórios de simpatia (ou até de abstenção de posição contrária) que partidos como o PCP e o Bloco de Esquerda têm por modelos socialistas e anticapitalistas é usado como bandeira de ataque da direita para gerar medo e indignação. Como muitos dessas países eram geridos de forma autoritária, nada democrática e onde a miséria e a pobreza são sinais claros, a colagem a essa realidade é uma maneira de ajudar os consumidores a perceber que este tipo de “produtos” não fazem nada bem e são de fraca qualidade.

A Teoria da Substituição:

A narrativa usada pela extrema direita ocidental com o intuito de fomentar a retórica anti-imigração incita ódio, desconfiança e sentimento de insegurança nos eleitores. Alega que há um esforço deliberado para substituir as populações nativas por outras de origem diferente. Em Portugal, vemos o Chega a cavalgar essa onda com o crescente número de imigrantes muçulmanos que têm chegado ao nosso país.


Grande parte do que aqui deixei são slogans, campanhas e movimentos com mensagens pela negativa. Creio que se deve ao facto de que, muitas vezes, são estes os que mais chamam a atenção dos media, e que consequentemente dão títulos nos jornais ou abrem que os noticiários – por se centrarem no pânico moral e na polarização da sociedade. Ainda assim, eu acredito que é a campanha pela positiva que dá alento à maioria das pessoas e que forma os grandes líderes políticos. A esperança continua a ser a grande força de mudança.

Contudo, as pessoas preocupam-se pouco em, de forma crítica, avaliar cada um destes pontos mais polarizadores, através da procura de dados, do contraditório e de visões neutras sobre os assuntos. Estar bem informado dá trabalho e dá muito mais gosto e prazer procurar e ver alguma notícia, “tweet” ou “reels” que comprove a nossa visão do mundo, mesmo que esteja errada. Somos vítimas dos algoritmos e do viés de confirmação, o que faz com que as marcas – ou políticos, neste caso – escarafunchem as nossas emoções mais profundas.

Sendo assim, ainda que sejamos uma população mais bem formada e que tenhamos a possibilidade de um acesso à informação mais democrático, parece que somos mais vítimas das emoções, menos racionais. Deixo-vos um último exemplo e chamada de atenção…

As lágrimas de Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro

Todos sabemos que o Daniel Oliveira do “Alta Definição” põe qualquer um a chorar. Também sabemos que os programas da manhã e da tarde da televisão generalista são um verdadeiro corrossel de emoções… No entanto, não acham que estes dois líderes políticos estão a chorar vezes a mais, comparado com os seus antecessores? Não tenho dúvidas que as lágrimas são genuínas, mas são sinais dos tempos e têm um propósito claro: criar compaixão entre os eleitores e humanizar a figura do político.

Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos no “Alta Definição, retirado de “Daniel Oliveira à conversa com Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos

Imaginar o Eanes, o Soares, o Cunhal ou até mesmo o Cavaco a serem entrevistados pelo Júlio Isidro, Carlos Cruz ou até Artur Agostinho a falarem da sua vida com as suas mulheres e filhos e chorarem parece quase uma anedota.

Como a maioria das coisas sobre as quais escrevo, não acredito que haja certo ou errado. Não defendo que “antigamente é que era” e que isto hoje não faz sentido nenhum ser assim. Convido apenas à reflexão…


As marcas são criadas ou adaptadas porque o mercado nos dá indicadores de que há oportunidades de negócio de sucesso, seguindo e apresentando determinadas características. Oferecer aquilo que o público procura através do despoletar das emoções mais fortes é o que nos torna leais aos produtos. No entanto, as consequências da aplicação dos conceitos de Marketing na política podem ser em muitos casos perigosas e divisivas.

Se queremos trazer à política “produtos” de consumo, ao menos que tenhamos alguma ética e responsabilidade cívica. Não vale tudo!

Quantos de nós já não compramos alguma coisa porque a publicidade era maravilhosa, a concorrência parecia super fraca e acabamos desiludidos? O mesmo se pode passar aqui. Tenhamos algum pensamento crítico na hora do voto.

Escrito a 25 de fevereiro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
De Boabdil a Pedro Sánchez, pasando por Putin y Obama: los políticos también lloran