Estado da Nação: um problema estrutural chamado Portugal

Estimulado pela ocasião do Debate do Estado da Nação, partilho uma reflexão sobre o estado do nosso país, cobrindo de forma leve 4 áreas fundamentais: Saúde – SNS, Infraestruturas – Aeroporto, Educação – Professores e a nossa Sociedade.

No passado dia 20 de julho tivemos a oportunidade de assistir ao debate do estado da nação na Assembleia da República, onde os diferentes partidos do hemiciclo pediram respostas a um governo que vai gerindo a sua maioria absoluta de crise em crise, nada abalado pelas dificuldades.

Ouvimos com cada vez maior frequência os elementos do governo a falar de problemas estruturais, sem que nos expliquem qual é o plano para os resolver. Semana após semana, passamos de problema em problema, onde o governo lamenta a situação em que nos encontramos, lamenta o caminho que fizemos, como aqui chegamos, mas não apresenta uma ideia útil de como sair dali.

Ao longo do primeiro trimestre de governação ouvimos falar de inflação, de pobreza, de falhas no SNS, de problemas nas urgências, de falta de médicos, de problemas no aeroporto, de problemas no SEF e mais recentemente dos tradicionais incêndios, que levaram até o nosso Primeiro Ministro e Presidente da República a abdicar de compromissos externos para estarem presentes em caso de urgência nacional.

Estimulado pelo tema, mas não pelo debate, decidi partilhar uma reflexão sobre o estado da nação, cobrindo de forma leve 4 áreas fundamentais: Saúde – SNS, Infraestruturas – Aeroporto, Educação – Professores e a nossa Sociedade.

Saúde – SNS

Vemos o Serviço Nacional de Saúde definhar dia após dia, faltando cada vez mais àqueles que dele precisam: utentes e a profissionais, e está a reduzir a sua existência a um mero serviço nacional de urgência. Um serviço nacional de urgência que também falha, que falha onde não pode, tendo, por exemplo, de pedir às gravidas que tenham o cuidado de escolher um momento adequado para dar à luz, não vá escolher uma noite em que a urgência possa estar encerrada.

Discute-se que é necessário rever a carreira médica, criticam-se os médicos porque preferem valorizar a sua carreira aceitando o trabalho nos privados e discute-se até em alguns cantos se estes devem ou não ficar obrigados a prestar o seu serviço no SNS, durante um período mínimo de tempo. Não se discute o papel dos privados ou como podem contribuir para o serviço público de saúde. Esse foi um assunto encerrado, como prova a decisão da PPP do Hospital de Braga que está atualmente a lesar os utentes e os contribuintes.1

Dado este panorama, não há maior sinal de alerta da falta de rumo, do que ouvir uma ministra da saúde clamar por fé, clamar por uma fé de que as coisas vão melhorar. A falta de médicos e a falta das urgências já se fazem sentir e os portugueses parecem perder a fé na ministra, embora fosse outrora destacada como a ministra mais popular do governo com um saldo de +30 pontos, as últimas sondagens já a colocam em terreno negativo, com um saldo de -5 pontos.2

Infraestruturas – Aeroporto

Não há maior sinal de que um país sofre de dificuldades estruturais, do que discutir durante 50 anos onde deve ou não ser construído um novo aeroporto. Se é verdade que uma decisão estratégica não pode ser tomada de ânimo leve, também é verdade que não pode ser adiada de tal forma, que tenham de ser feitos novos estudos a cada 5 anos, onde o enquadramento externo muda e fica significativamente diferente.3

Discuta-se o TGV, uma terceira travessia sobre o Tejo, uma nova travessia sobre o Douro, a requalificação das vias férreas, um complexo industrial do hidrogénio verde em Sines, a requalificação das instalações da Petrogal em Leça, a construção de novos hospitais, a requalificação das escolas, um plano de licenciamento e construção de habitação nos subúrbios dos grandes centros urbanos para reduzir o custo da habitação, as vias de mobilidade e transporte coletivo para reduzir o número de automóveis nas cidades…

Podemos discutir tudo, até se o ministro deve ou não demitir-se. No entanto aquilo que o país precisa é de uma visão e de um rumo, pois sem isso no meio de tanta discussão não há como definir prioridades.

Educação – Professores

O problema estrutural da educação será tema lá para setembro, quando a falta de professores se fizer sentir e pudermos contar o número de alunos a quem falta pelo menos um professor.4

A educação tem vários problemas: a estrutura demográfica da classe docente, a ausência de um modelo de avaliação profissional eficaz ou a falta de reconhecimento dos professores, que é altamente penalizado pela gestão mediática da relação sindical com o ministério e pelo modelo de contratação/colocação pública que cria uma grande incerteza na gestão da sua vida.

Em breve começará a discussão sobre o número de docentes, da sua banda salarial, dos benefícios que usufruem e das dificuldades que passam.

Ficará por discutir o propósito da educação, se esta tem ou não a qualidade que pretendemos e se cumpre ou não a sua função, que é a de preparar as gerações vindouras para o futuro e contribuir de forma significativa para a redução da desigualdade em Portugal.

A nossa Sociedade

A sociedade é o que talvez limite mais e defina melhor o principal contexto estrutural do nosso país, seja pelas suas ideias, pela forma como se aglutina, se divide ou pelos seus valores, crenças e preconceitos.

Somos uma sociedade europeia que vive “bem”, uma sociedade pacífica e segura, que está altamente concentrada na Grande Lisboa e restante litoral, envelhecida, desigual, com 3.6 milhões de pensionistas,5 740 mil funcionários públicos,6 onde quase 40% destes têm mais de 55 anos,7 de um total de 4.8 milhões de empregados, ainda longe do máximo de 5,1 milhões,8 atingido em 2008 antes da crise e da Troika levarem centenas de milhares de pessoas a emigrar do nosso país.  

A Sociedade que fica é a sociedade que somos. É a sociedade que se perde na espuma dos dias, uma sociedade que faz lembrar um barco de pesca que sai todos os dias, mas não passa da barra e fica encalhado em zona de rebentação.

Vivemos todos os dias como se fosse o último, perdidos a discutir a forma em detrimento do conteúdo, discussões ideológicas, de minorias ou de apropriações culturais, ou então discussões inúteis gastando energia em temas banais como o futebol.

Fazemos da turbulência e da rebentação das ondas um habitual barulho de fundo. Sabemos que está complicado. Sabemos onde estamos. Sabemos que estamos mal. Não sabemos porque viemos. Não sabemos para onde vamos.

Temos um problema estrutural que não nos permite avançar para alto mar. Será do motor, do casco, do capitão ou da tripulação? Ninguém sabe dizer, não importa, pois este é o Estado da Nação e nós somos parte do problema estrutural, um problema que se chama Portugal.

Para quem se queira “distrair”, fica um resumo do debate da nação.

Escrito a 25 de julho de 2022 por João Tiago Teixeira

Créditos de imagem: Tomás Silva Observador

Links de interesse:

1- Hospital de Braga encerra urgências de obstetrícia pela nona vez, SIC

2 – Sondagem: Pedro Nuno Santos reforça imagem negativa, Costa cai na popularidade, Público

3 – A novela do novo aeroporto de Lisboa. Estudos e projetos dos vários governos, RTP

4 – 110 mil alunos não terão professor a pelo menos uma disciplina dentro de um ano, DN

5 – Pensões: total, da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações, PORDATA

6- Número de funcionários públicos ultrapassa 740 mil e atinge recorde da década, Publico

7 – Fact check. Portugal é um dos países com mais funcionários públicos?, Visão

8 – População empregada: total e por grandes sectores de actividade económica, PORDATA

E um aeroporto (um pouco mais) a Sul?

Até hoje ainda nada vi que conteste a alternativa de Beja. Será ela tão estúpida e por isso ninguém a considere meritória ou simplesmente nem se quer a equacionaram? Bem, em ambos os casos estou aberto ao debate…

Vou-me atrever a fazer algo extremamente arriscado: falar sobre o investimento no(s) próximo(s) aeroporto(s) e consequentemente da sua possível localização. Uma série rocambolesca, que tem sido transmitida durante os últimos 50 anos, com temporadas mais cativantes nas últimas duas décadas e episódios intensos e hilariantes transmitidos nas passadas semanas.

Tenho de me exonerar de qualquer má interpretação da qual posso ser vítima, dizendo algo que provavelmente já saberá: Não sou (de todo) especialista em aviação! Ainda assim, e usufruindo do atrevimento que a análise a este tema pede, pesquisei um pouco mais sobre o assunto e irei emitir, não propriamente uma opinião, mas um outro ponto de vista ainda pouco explorado. No fundo, é só para ajudar a prolongar o entretenimento a que este tema nos tem habituado… Avancemos então com algumas questões e respostas sobre o tema:

Quais são as próximas tendências na aviação comercial?

Para além de tudo aquilo que diz respeito à melhoria da experiência tida no processo de reserva, de voo e de aumento de eficiência e de agilização dentro dos aeroportos, o que desperta maior atenção é o investimento feito na pesquisa e desenvolvimento de aviões com menor impacto ambiental e reduzida poluição sonora. A Airbus ainda recentemente apresentou 3 novos modelos da sua linha ZEROe, movidos a hidrogénio e, claro está, com zero-emissões (ver vídeo abaixo).

Se for curioso e quiser saber mais sobre este tópico, convido-o a assistir a este vídeo que explora as particularidades do futuro da aviação e o papel do hidrogénio.

Temos um plano estratégico transversal nas opções de mobilidade?

O tema dos transportes em Portugal tem sido objeto de discussão nos últimos anos, mas quase sempre com uma abordagem segmentada e pouco holística. Ora falamos da aviação, ora dos comboios, depois das autoestradas, passamos pelos autocarros e metro, e raramente se analisa um plano integrado de todas as opções existentes. Importante referir que há tendências claras nesta matéria: procurar soluções mais seguras, eficientes e verdes que tenham o menor impacto possível para os ecossistemas e que reduzam o peso do automóvel dentro das cidades. Neste aspeto, a via férrea é destacadamente uma das soluções mais interessantes para o futuro da mobilidade, sobretudo a nível urbano. Podemos saber mais sobre o objetivo da Europa neste tema e comprovar a estratégia defendida pelo continente ao ler esta análise da Mckinsey.

Precisamos mesmo de investir tantos milhões em aeroportos (na Margem Sul)?

Aqui é que começo a ser provocador…

Iniciemos pelo aspeto básico da abordagem a esta questão, começando por responder ao porquê de se andar a discutir este investimento há anos: a Portela tem a sua capacidade esgotada (há muito tempo), há o risco de catástrofe por causa do Aeroporto Humberto Delgado se inserir dentro de uma cidade (questionável), taxas elevadas de poluição ambiental e sonora (muito relevante), necessidade económica de tornar Lisboa num hub que liga três continentes (certíssimo, nada a acrescentar). Para além disso, alegadamente, os custos do atraso na decisão da construção de um novo aeroporto levam a perdas anuais superiores a 500 milhões de euros no turismo que, em 2019, representava 15,3% do PIB português. Estamos então conscientes que a premência de avançar com uma decisão é mais do que necessária e urgente.

O despacho publicado (e poucas horas depois revogado) apresentava a proposta de ter Montijo a médio prazo e Alcochete a longo com requalificação da Portela durante este processo (e posterior destruição, aparentemente). Embora estando certamente desatualizados, os valores para o Montijo rondavam os 500 milhões de euros e Alcochete poderia ir até 7,6 mil milhões de euros (cinco mil milhões seriam em acessibilidades e que sairiam do Orçamento do Estado). A proposta Portela mais Montijo permitiria acomodar até 55 milhões de passageiros anualmente e só Alcochete conseguiria acomodar 60 milhões. Em 2019 (antes da pandemia), aterraram em Lisboa cerca de 31 milhões de passageiros, o que significa que estamos a tentar acomodar quase o dobro do que temos hoje, investindo mais de 5,5 mil milhões de euros…

Sendo assim, antecipando um futuro em que os aviões terão um impacto na poluição muito reduzido e as tecnologias associadas reduzirão ainda mais o risco de acidente; sabendo que a Europa procura uma aposta cada vez maior na ferrovia por razões não só ambientais, como também de segurança e comodidade; e que os investimentos centralizados na zona de Grande Lisboa exigem um aumento do turismo e da economia que talvez a zona não tenha capacidade de acarretar, questionei-me se não haveria outros sítios mais interessantes para desenvolver o novo aeroporto, sobretudo para as chamadas companhias low cost. Nessa pesquisa apareceram várias opções menos ruidosas na praça pública, mas aquela que me despertou mais atenção foi Beja.

Reforço que este é um exercício de “E se…?” e que estou aberto ao contraditório. Não há, tanto quanto sei, estudos robustos e bem fundamentados que atestem a viabilidade económica e ambiental do local, mas mesmo assim houve aspetos que despertaram o meu interesse:
1º – Beja tem já um aeroporto construído e aparentemente com capacidade de se expandir e para receber aviões de média e grande dimensão;
2º – Está a cerca de 150km tanto de Lisboa, como de Faro, podendo funcionar como suporte para ambos os aeroportos;
3º – Pode estabelecer uma boa conexão com o Porto de Sines (com o prometido investimento no IP8) que tem um projeto de expansão aprovado e aproveitar ainda mais o empreendimento do Alqueva;
4º – Descongestiona a zona da Grande Lisboa que já tem, na minha opinião, muito pouco por onde crescer: seja em habitantes, turistas ou empresas. Tendo em conta que o perfil dos turistas que temos recebido nas duas grandes cidades do país é maioritariamente do segmento low cost, pode-se explorar a possibilidade de distribuir os mesmos por outras zonas do território e apostar mais num segmento alto e de estadia mais prolongada para aqueles que aterram na Portela. Isso exige um plano estratégico de investimento ainda mais robusto, claro…
5º – Pode estimular o investimento na ferrovia a sul do Tejo com opções mais rápidas e atualizadas que façam a ligação Lisboa-Faro de forma mais eficiente.

Portanto, assim a cru nem parece uma opção descabida. Há imensos aeroportos pelo mundo fora cuja localização da cidade principal dista mais de 100kms, por isso não seria uma novidade e com o devido investimento poder-se-ia reduzir o tempo de transporte através da ferrovia de ponta. Além disso, ajudaria a fazer crescer uma das áreas menos exploradas do nosso território nacional: o Baixo Alentejo. Segundo os Censos de 2021, teve uma descida populacional de 9,3%, sendo que Beja foi o concelho do país que mais perdeu população em termos absolutos (menos 2453 residentes em 10 anos). Talvez não seja a solução número um, mas de forma transitória e como alternativa complementar parece-me uma ideia mais interessante do que estourar dinheiro na “temporária” Base Área do Montijo antes de avançar para Alcochete.

É curioso que o único partido que vi a explorar esta solução foi o Partido Comunista Português. Talvez pelo mesmo racional, mas também por interesse tendo em conta que é uma das zonas onde mantém uma expressão maior do seu eleitorado. Mais relevante ainda é saber que na Assembleia Municipal de Beja foi aprovada por unanimidade no dia 21 de junho, uma moção proposta pela coligação “Beja Consegue”, que junta PSD, CDS-PP, PPM, Iniciativa Liberal e Aliança em que defende o aeroporto da cidade como “uma excelente e útil alternativa”. A Câmara de Beja é liderada pelo PS, por isso a concordância neste tema foge à habitual “partidarite” a que estamos habituados.

Independentemente da opção tomada, é impressionante a quantidade de fatores que podem e devem ser considerados na decisão final. É evidente que muitos deles já foram vistos e revistos mais do que uma vez, mas o meu receio como cidadão é que nos endividemos sem tirar partido de todas as oportunidades que temos à nossa frente. Pior que isto será ter que ceder às pressões da Vinci nesta matéria, que poderão não nos estar a ser transmitidas de forma transparente. A investir, que seja de forma racional e que capitalize (provavelmente) a maior obra pública dos últimos cinquenta anos e que impactará os cinquenta seguintes. Até hoje ainda nada vi que conteste a alternativa de Beja. Será ela tão estúpida e por isso ninguém a considere meritória ou simplesmente nem sequer a equacionaram? Bem, em ambos os casos estou aberto ao debate…

Escrito a 6 de julho de 2022 por Sérgio Brandão