Abril, Sempre!

Uma mensagem à liberdade.

Foi há 51 anos que Portugal se libertou da opressão, do medo, da angústia e da morte que a ditadura causava. Muito aprendemos, muito esquecemos. Mais do que nunca, precisamos de nos lembrar!

Pelo mundo, há guerra na Ucrânia, que leva milhares de vidas todos os anos; guerra em Gaza, que o mesmo caminho segue; discursos de ódio, que matam os cravos de abril e, mais grave do que tudo, há quem nestes veja verdades. Como dizia Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”. Há tantos anos foi, mas tão atual está!

Cada vez mais o nosso ego é o motor que empurra a Terra, motor esse que polui os campos onde cresce a paz.

Concretizar a revolução de ’74 representa mais do que um dia, representa História, portanto, um bocadinho de cada um de nós, e, por isso, temos o dever de cuidar dela, como se fosse alguém, apesar de não o ser; e por não ser, é dum povo!

Com tanta coisa, é impossível que a liberdade, esta dos cravos, não esteja de luto!

Escrito a 25 de abril de 2025 por Francisco de Melo Ambrósio.

25 de Novembro: Guerras Culturais e coisas que tais

Certos movimentos e inquietações que aparecem na sociedade portuguesa são oportunidades de aprendizagem, de re-leitura da história e de consolidação com construção de ideias já tidas previamente.

A celebração dos 49 anos do 25 de Novembro na Assembleia da República foi tudo isso para mim. Embora tenham já passado praticamente duas semanas desde o evento, a dimensão da data, a sua complexidade, o seu impacto e envolvência exigiu-me ouvir, ler e aprender para agora poder escrever qualquer coisa que fique para a prosperidade e que me orgulhe de ler no futuro.

Desengane-se quem pensa que vou cobrir toda a sucessão de eventos. Vou antes dar o meu ponto de vista e reflexão sobre a sua aparição na nossa agenda mediática.

Guerras Culturais: visões diferentes sobre os mesmos factos

Uma guerra tradicionalmente assume que haja dois lados em confronto. Quando adjetivamos a mesma com a palavra “cultural” assumimos uma dimensão de discórdia sobre a leitura e impacto de factos históricos, valores, visões ou mundividência.

Ora, numa sociedade crescentemente polarizada em que duas bandas se debatem de maneira constante, é normal a propagação e crescimento das mencionadas. Por si só isto não é mau, diria até que é normal, pois tal explica o mundo onde estamos e o mundo que queremos. É um reflexo da importância e vivacidade da sociedade civil nas democracias maduras.

Mas então de onde vem tanta preocupação sobre o aumento destes episódios?

Não há bela sem senão… A democracia assenta sobre o primado do consenso e quando visões tão díspares se confrontam de forma regular por tudo e por nada há quebra de pontes, ausência de acordos e perde-se o chão comum essencial para a progressão serena da sociedade. Não vivemos “duas Américas” como acontece nos Estados Unidos, mas há cada vez mais temas que envolvem confronto no nosso país e o problema está sobretudo assente na proliferação de factos falsos, reescrita errónea da história e omissão da verdade. E é aqui que entra a discussão sobre o 25 de Novembro, que disto que refiro tem de tudo um pouco.

O que foi o 25 de Novembro de 1975?

O 25 de Abril tendo começado como um movimento militar contra a ditadura de 48 anos, rapidamente se converteu numa revolução. A partir desse dia houve uma forte mobilização de forças civis, até então na clandestinidade, que tiveram influência nas clivagens do Movimento das Forças Armadas e que levaram a uma sucessão de acontecimentos que criaram uma tensão enorme na sociedade portuguesa, principalmente quando chegamos a esse fatídico Verão Quente de ’75.

Justamente durante esse período, Portugal tinha 3 setores distintos em tensão: o lado militar de extrema-esquerda liderado por Otelo Saraiva de Carvalho, o segundo lado que envolvia o partido comunista e tinha como símbolo maior o Primeiro Ministro Vasco Gonçalves e depois a frente encabeçada por Mário Soares e o Partido Socialista com apoio, ainda que tímido e céptico em alguns momentos, do PPD e o CDS.

Portugal vivia um clima de conflitualidade onde o caos reinava e tínhamos um cenário de Guerra Civil à espreita. Houve assaltos a sedes de partidos tanto de esquerda, como de direita, com recurso à violência física e intimidação por parte de movimentos clandestinos de ambos os espetros politicos.

Não querendo entrar em grandes detalhes, como prometi no início deste artigo, o que o Grupo dos Nove, Costa Gomes, Mário Soares e Ramalho Eanes fizeram foi frenar uma deriva radical, impedindo o país de ser tomado de assalto por grupos radicais de extrema esquerda e que tinha à espreita outros de extrema direita preparados para uma contra-revolução. Foi a partir desse dia que se deu mais um passo importante na consolidação de Portugal como democracia pluralista de estilo ocidental. Consequência clara de um processo iniciado a partir do dia 25 de abril de 1974.

Não tendo eu todos os pergaminhos para descrever em detalhe toda a sucessão de eventos passados, qualquer curioso que tenha investigado um pouco sobre o assunto conclui que no 25 de Novembro não se assiste à vitoria da direita sobre a esquerda. Bastando ler estes poucos parágrafos que deixo acima, no 25 de Novembro, quanto muito, pelos protagonistas que enuncio, houve uma vitória da esquerda sobre a esquerda. Uma vitória dos moderados.

Então por que é que quer a direita puxar para si esta data?

A Direita quer protagonismo

Aqueles que me leem mais regularmente sabem que considero o binómio esquerda direita francamente limitado. Ainda assim, creio que para esta reflexão ele ajuda-nos perfeitamente a perceber o que quero explicar.

Com descrevi acima, o 25 de Abril tornou-se numa revolução. Ora, como a própria palavra indica, o que se passou foi uma repentina mudança na sociedade portuguesa. Foi o fim de um ciclo imperial de cinco séculos e o fim de uma ditadura conservadora, nacionalista, repressora e de direita que durou quase cinco décadas.

É difícil contrariar que nos anos após o 25 de abril de 1974 dizer-se que se era de direita criaria algum prurido e era visto como negativo. Repare-se nos nomes dos principais partidos construtores da nossa democracia: Partido Comunista, Socialista, Social Democrata e até o CDS tem “Centro” no seu nome. Se for pela nomenclatura partidária, qualquer país europeu acharia que em Portugal só haveria representação de esquerda.

Reparemos que aqui ao lado em Espanha, talvez até graças à aprendizagem obtida com o nosso caso, a criação da democracia foi um processo muito mais negociado e menos intenso. Creio que o carácter “revolucionário” da nossa transição democrata, e por factualmente as grandes forças motrizes da mesma estarem sobretudo à esquerda do antigo regime, fez com que durante anos houvesse uma assumida vergonha das pessoas dizerem: “Eu sou de direita”.

Para além disso, houve sempre do lado da esquerda um reclamar e um espírito possessivo na celebração do 25 de abril. Muitas pessoas sentiram-se órfãs de protagonismo na conquista da liberdade e da democracia no nosso país. Foram constantemente renegados de fazer parte dessa celebração e já sabemos: para cada ação, uma reação (ainda que tardia).

Ora volvidos 50 anos do 25 de abril, estamos a assistir ao fim da vergonha. Há vontade de ter um papel na história. Quando assistimos, parece, à mudança sociológica do país no que à ideologia diz respeito, a extrema direita e também a própria Iniciativa Liberal encontraram a oportunidade certa para tentar reescrever o que se passou na transição para o novo regime. Para além disso, a cada vez mais fraca implantação e protagonismo do Partido Comunista foi a cereja no topo do bolo para esse aproveitamento.

Por isso, a minha leitura é que agora a direita quer também reclamar para si algumas personalidades, datas e eventos de proa, para enaltecer o seu papel na sociedade e na história moderna do país. A política vive muito de momentos, símbolos e até da existência de figuras quase messiânicas que ajudam a criar identidade própria. É aqui que nasce a necessidade de quase “recriar” o 25 de Novembro, ainda que com omissões e mentiras e sem grande adesão da grande maioria da sociedade civil.


É curioso perceber como a História nunca é somente uma recitação de factos. Pode ter várias interpretações consoante o momento e as pessoas que a evocam. Há que ter o espírito crítico suficientemente apurado para não engolir tudo aquilo que nos vem aos olhos e saber investigar para que de forma mais informada percebamos quem tem ou não razão nestas guerras culturais e saber distinguir o que é propaganda e o que são factos. Estou convencido que vão ser mais comuns do que se poderia pensar.

Escrito a 8 de dezembro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
25 de Novembro de 1975: Os protagonistas, os factos e a polémica de uma data que escalda

Lula no 25 de Abril, sim ou não? | A liberdade permite-nos discordar…

“Dizer (ou neste caso escrever) o que pensamos de forma não polarizada, construtiva, ainda que contraditória é um hino ao 25 de Abril. Orgulhamo-nos disso!”

No dia 25 de Abril vamos celebrar o quadragésimo nono aniversário da democracia. Há 49 anos que vivemos em liberdade, uma liberdade conquistada pelos nossos pais e avós e que a nossa geração, por vezes, parece desvalorizar.

O convite feito ao Presidente do Brasil, Lula da Silva, para vir a Portugal na altura das celebrações do 25 de Abril e a sua (alegada) inclusão no discurso da cerimónia oficial das comemorações gerou discórdia nos partidos da Assembleia da República e na opinião pública. Pior ficou depois das declarações feitas na visita oficial à China, quando referiu que os EUA e a União Europeia devem parar de encorajar a guerra e começar a falar de paz.

No Mesa de Amigos não ficamos indiferentes ao tema e até temos opiniões diferentes sobre o assunto, por isso escolhemos celebrar o 25 de Abril esgrimindo argumentos sobre os nossos pontos de vista.


Presidente Lula no 25 de Abril? Não, obrigado!

O Brasil é um dos maiores países do mundo, faz parte dos BRICS (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e é um dos parceiros estratégicos mais importantes de Portugal, seja pela história que nos une, seja pelo que o futuro nos reserva, pois será seguramente através dele que a língua portuguesa viverá.

Compreendo aqueles que realçam o privilégio que é poder contar com a presença do Presidente de um país como este na Assembleia da República, ainda assim não vejo de que forma é que a nossa relação diplomática justifica um convite de Estado para discursar na celebração do dia da Liberdade de Portugal e compreendo ainda menos quando este é um convite que depende do nome da pessoa que ocupa esse lugar.

Este não é um convite endereçado ao Presidente do Brasil, Lula da Silva, mas antes ao Lula da Silva, Presidente do Brasil. Todos sabemos (e concordamos) que este convite nunca teria sido endereçado ao Presidente Bolsonaro, pois nenhum dos partidos democráticos com assento parlamentar aceitaria a sua presença.

Assim sendo, de que forma é que o contributo de Lula da Silva pode enriquecer as celebrações do 25 de Abril?

Não podemos ser reféns do nosso passado e Lula já pagou pelos seus crimes, ainda assim falamos de um político que foi condenado por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e viu a condenação ser confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça do Brasil. Temos paralelismos suficientes na nossa democracia que justificam uma maior prudência na formalização deste tipo de convites.

Falando do presente, a recente visita de Lula à China mostrou que este é um político alinhado com a narrativa do bloco dos países revisionistas (China, Rússia, Irão, Coreia do Norte), seja pela defesa do surgimento de uma reserva de valor alternativa ao dólar (como o Renminbi), o enfraquecimento do poder das sanções económicas da Europa e Estados Unidos aos países autoritários, seja pela forma como  responsabilizou a Europa e Estados Unidos pela guerra que grassa na Ucrânia.

Se é compreensível que o Presidente do Brasil defina a política externa da nação que dirige da forma que melhor possa proteger os interesses dos seus eleitores e é aceitável que países aliados que fomentam relações diplomáticas fortes e estáveis possam existir pontos significativamente divergentes, não se compreende como é que no dia em que celebramos a nossa liberdade possamos convidar para discursar em nossa casa alguém que não reconheça ao povo ucraniano, nosso aliado, o direito de serem igualmente livres.

Por isso, considerando o que a celebração desta data significa para a memória coletiva do nosso país e para o nosso regime político, à pergunta “Presidente Lula no 25 de Abril?” respondo: Não, obrigado!


Presidente Lula no 25 de Abril? Sim, mas…

No final do século XIX, Otto von Bismarck, “O Chanceler de Ferro”, liderou a Alemanha com o intuito de garantir a sua unificação após uma série de batalhas conhecidas como as Guerras de Unificação Alemã, que garantiram a preservação da paz na Europa durante quase duas décadas. Conseguiu alcançar de uma forma extremamente hábil a reunificação do seu país em 1871, seguindo uma política de alianças e guerra, que foi posteriormente apelidada de Realpolitik. Esta palavra de origem germânica signfica “Política internacional ou de relações diplomáticas baseada essencialmente em questões práticas e pragmáticas, em detrimento de questões ideológicas ou éticas” (“realpolitik“, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Antes que me acusem de falta de escrúpulos ou ausência de consciência, eu acho que há limites que devem ser considerados aquando do exercício de funções políticas, não vale tudo para os interesses da Nação. Contudo, o ingrato ato de governar ou tomar decisões com base numa perspetiva de bem geral futuro envolve cinismo, pragmatismo e claro está, em determinados momentos a realpolitik. Foi a isto que assistimos neste episódio, tanto do lado português, como do lado brasileiro. Analisemos a situação em três pontos-chave:

Primeiro Ponto: A NATO representa 31 estados que têm um população combinada de mais de 950 milhões de pessoas (~16,5% da população mundial). Os BRICS em 2021 tinham uma população estimada de 3.200 milhões (>40% da população mundial). Deste modo, assumir uma visão do mundo meramente Eurocêntrica (ou “NATOcêntrica”) é uma atitude de enorme presunção e arrogância perante quase metade do mundo. Para o Brasil, a guerra na Ucrânia está tão distante como para nós estão as guerras e conflitos no Sudão, Myanmar, Iémen, Afeganistão ou até Cabo Delgado em Moçambique. Nem preciso explorar a relação e os interesses portugueses neste último país, pois não? É que assim vão-me obrigar a falar dos negócios (obscuros) que temos com os PALOPs…

Segundo Ponto: Os BRICS, como grupo de países de economias emergentes adotam, sem surpresa para ninguém e há muito tempo, posições anti-NATO e sobretudo anti-EUA. Há divergências ideológicas, pois são países com sistemas e valores políticos distintos. Há competição pela influência na ordem mundial e por defesa da multipolaridade em vez do domínio único americano. E há a questão da soberania nacional e não intervenção por parte da NATO em matéria de assuntos internos dos países. Campo onde há muito há a dizer sobre o papel dos EUA, com virtudes e contradições, claro…

Terceiro Ponto: A referida Realpolitik
Portugal viu durante o período Bolsonarista a criação de um fosso gigante entre os dois países irmãos. Por todas as razões históricas, políticas, económicas, sociais e culturais existentes, o nosso país (de 10 milhões de habitantes) pretende manter estreitas as relações com esta potência (de mais de 200 milhões de habitantes). Poderei ser criticado, mas acredito que Portugal neste momento poderá depender mais do Brasil, do que o Brasil de nós. Daí perceber a ousadia do Estado em convidar o Presidente do Brasil a estar presente, com algum destaque, numa, senão a mais importante, data da história contemporânea portuguesa.
Agora, claro está, Lula da Silva, o “tal” Presidente do Brasil, também sabe qual é o jogo político. Por um lado tem consciência que a principal porta de entrada na Europa do maior país da América Latina é Portugal, por outro sabe que a sua economia e poder no panorama mundial dependem de estar nas boas graças dos seus aliados não-europeus.

Se o que o Lula defendeu é contra o que eu defendo? Claro que é! Mas sejamos francos… Surpreendeu assim tanto? Não estavam à espera disso dele? Achavam que ia ter outra posição? Se sim foram ingénuos. E mais serão se acharem que devemos ter uma atitude pedagógica perante o sucedido com discursos paternalistas e armados em paladinos da ordem mundial.

Há necessidade de ter um governante externo ao nosso país presente nas celebrações do 25 de Abril? Sinceramente, acho que não, mas compreendo a presença deste em particular pelas razões acima descritas.

Por isso, à pergunta “Presidente Lula no 25 de Abril?” respondo: Sim, mas que seja de facto a excepção e não a regra. O jogo político e os interesses têm limites. Por isso não manchemos o quadragésimo nono aniversário da nossa democracia com isto. Talvez o Presidente da República, na sua astúcia e subtileza deixe umas mensagens interessantes no discurso. Todos queremos a paz, mas nem todos vemos que a culpa é do invasor e não do invadido. Vejamos o que se passará…


O espaço democrático não se faz de verdades absolutas ou posições indiscutíveis, o progresso faz-se de cedências e compromissos. Este é, por isso, o nosso contributo para que esta data continue a ser celebrada de uma forma aberta, construtiva e inclusiva. Valores que a liberdade nos trouxe e que aqui celebramos. Dizer (ou neste caso escrever) o que pensamos de forma não polarizada, construtiva, ainda que contraditória é um hino ao 25 de Abril. Orgulhamo-nos disso!

Escrito a 24 de abril de 2023 por João Tiago Teixeira e Sérgio Brandão

Cuidemos da Liberdade, sempre.

“Talvez não paremos tempo suficiente para valorizá-la e cuidar dela devidamente. Que neste 25 de Abril relembremos a responsabilidade que temos de manter vivo este prazer que queremos passar aos nossos filhos. O prazer da liberdade!”

Em dia de celebrações do 25 de abril de 1974, no ano em que os portugueses atingem a marca histórica de viver mais anos em democracia do que em ditadura, faço uma reflexão com o caro leitor do Mesa de Amigos sobre a importância que a minha geração tem em manter viva a memória desse dia, os tempos que o antecederam e o valor dos regimes democráticos.

É para mim um exercício de enorme esforço assumir que a ditadura é um modelo possível de existir na sociedade portuguesa. Para quem como eu nasceu depois disso, equacionar não poder andar livremente pelas ruas do meu país à hora que eu quero, sentar-me num café ou restaurante e dizer mal dos que nos governam ou saber que qualquer agrupamento de pessoas com pensamento contra-corrente tem de ser feito na clandestinidade, parece uma realidade somente descrita nos aborrecidos livros de História que temos de ler quando andamos na escola.

De facto, para alguém que como eu seguiu um percurso mais dedicado às ciências exatas, deixei de ser obrigado a ler e refletir sobre a história do nosso país e do mundo desde os 14 anos. De certo, existem outros que deixaram mais tarde, aos 18, mas a grande reflexão é que a maioria dos jovens não teve mais a obrigatoriedade de estudar sobre estes tópicos desde que atingiu a idade adulta.

Ora, bem sabemos que a maturidade com que olhamos para as coisas determina muito as conclusões tiradas das mesmas. Sendo assim, sinto-me cada vez mais responsável por rever a história recente do meu país para perceber o impacto que ela teve nas gerações mais velhas, ainda vivas, e das quais eu sou descendente. Para os quarentões e trintões (estou quase a lá chegar) de Portugal, a realidade de viver sob um regime autoritário é algo existente só nos países pouco desenvolvidos, longe de nós, que nos achamos a elite intelectual do Ser Humano que habita a Terra.

Não tenho suficientes conhecimentos sobre ciência política para afirmar se é um modelo brilhante, mas ao consultar o Índice de Democracia criado pela revista The Economist (ver aqui) percebemos que em 2021, 55,7% dos 167 países que são objeto de estudo, não atingem um score mínimo de 6 em 10 que lhes garante a categoria de regime democrático. Nestes países, vive 54,3% da população mundial. Dentro deste valor, mais de 68% vive num regime assumidamente autoritário. Significa, então, que quase 3000 milhões de pessoas no mundo vive num regime onde não existem nem processos eleitorais e pluralismo, nem liberdades civis, nem cultura e participação política. Dá que pensar, não dá?

Portugal, à semelhança de muitos dos países atualmente democráticos, goza da conquista da democracia há muito pouco tempo. A ditadura está longe de ser uma memória distante do povo, mas num mundo onde se vê mais “stories” do que História, os retrocessos são sempre possíveis quando não há um cultivo dos seus valores. Na realidade, e olhando para os números, a liberdade é uma escolha coletiva das pessoas, porque a natureza dita que aquilo que nós realmente gostamos é de nos destruir uns aos outros. Queremos nós continuar com essa escolha?

Estudos indicam que os portugueses estão cada vez mais disponíveis para aceitar líderes autoritários. Essa tendência tem vindo a crescer desde 1999 quando, nessa altura, metade dos inquiridos considerava mau ou muito mau ser governado por um líder autoritário que não respondesse perante o Parlamento ou voto popular. Em 2021, esse número passou para 37%. Curioso que neste estudo, liderado por Alice Ramos e Pedro Magalhães, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa mostram também que esta maior disponibilidade dos portugueses para regimes autoritários, tecnocráticos ou militares anda lado a lado com uma avaliação crescentemente positiva da democracia. Nove em cada dez dos inquiridos afirmam que ter um sistema político democrático é uma maneira boa ou mesmo muito boa de governar o país. Dizem os investigadores que esta contradição está relacionada com uma noção pouca correta entre os inquiridos do que é a democracia.

Percebem onde quero chegar? Conseguem entender a importância de recorrentemente voltarmos a ler e a refletir sobre isto? Estas perguntas ganham relevo quando há poucos dias, Zelensky disse no Parlamento: “O vosso povo vai daqui a nada celebrar o aniversário da revolução dos cravos e sabem perfeitamente o que estamos a sentir”. Será que a maioria de nós sabe realmente?

Num mundo cada vez mais complexo, cujos problemas sociais e económicos são de difícil resolução e a nossa atenção está dispersa e pouco focada para perceber o mundo em que vivemos, quando um sabichão ou sabichona chega ao palanque e nos abana com uma cartilha bem contada e apelativa com soluções fáceis para resolver as nossas preocupações e dificuldades, fica difícil para a maioria não pensar “Será que o fulano tem razão? Siga tentar… Posso votar nele!”. Se calhar muitos desses que lutam para ter esse voto, querem torná-lo tão inútil quanto possível. Portanto, o risco de ser a última vez que fazemos essa decisão livremente pode ser real.

Acredito verdadeiramente que a maioria da população procure a liberdade e fuja das ditaduras, pois estas são o travão da felicidade e da prosperidade. Haverá poucas coisas mais prazerosas do que poder fazer o que quisermos, dizer o que quisermos e estar com quem quisermos. Talvez não paremos tempo suficiente para valorizá-la e cuidar dela devidamente. Que neste 25 de abril relembremos a responsabilidade que temos de manter vivo este prazer que queremos passar aos nossos filhos. O prazer da liberdade!

Escrito a 24 de abril de 2022 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem: Partilhada pelo Jornal Público