Para este balanço, eu e o João Tiago Teixeira vamo-nos dividir entre a análise de Portugal e do Mundo, tendo ficado eu com aquilo a que ao nosso país diz respeito. Decidimos destacar um acontecimento e uma personalidade nos dois contextos e deixar algumas perspetivas futuras sobre estes. Tentamos fugir dos habituais destaques dados pela restante imprensa e opinião partilhada, mas torna-se difícil escapar a eventos ou figuras chave que 2022 nos trouxe. Esperamos que pelo menos a nossa análise traga um ponto de vista diferente e que ajude à discussão nestas habituais rubricas retrospectivas.
Personalidade Nacional do Ano de 2022: Cristiano Ronaldo
Quando de futebol se trata e, sobretudo, nesta análise em específico, parece haver dificuldade em se ter uma análise moderada da figura em questão por aparentemente só ser possível haver duas posições: a favor ou contra. Talvez não fosse a personalidade que os leitores esperavam, mas Cristiano Ronaldo e as histórias em redor dele realmente marcaram o ano dos portugueses.
Para mim Cristiano Ronaldo é um ídolo. A sua capacidade de trabalho, o foco incontornável, e o talento são para mim inspiradores. O futebol tem uma componente emocional forte e admito que o simples facto de um português juntar estas três características são mais do que motivo para desenvolver uma empatia e conexão muito forte. Lembro-me que, quando era mais novo, sempre que jogava qualquer simulador de futebol numa consola ou computador, escolhia a equipa onde ele estava pelo genuíno prazer de estar a comandar o “melhor do mundo” e esse ser português. Quando me tornei adulto e comecei a viajar mais percebi a grandeza que Ronaldo detinha. O mundo pode não fazer a mínima ideia de onde se localiza Portugal, mas sabe quem é o Ronaldo e que país representa. Ele tornou-se muito maior do que a nação de onde vem. Não é bom, nem mau, são factos…
Antes da sua chegada, Portugal tinha estado presente em 3 campeonatos do mundo, tendo sido a prestação da seleção nacional no anterior à chegada dele, ou seja, 2002, para lá de medíocre. Volvidos 20 anos desde então, acho inegável que Ronaldo conseguiu trazer prestígio, profissionalismo e… dinheiro, muito dinheiro à Federação. Com ele vieram novos patrocinadores, novas formas de trabalhar, muito investimento no futebol nacional e presenças em todos os campeonatos de seleções, sem excepção. Lembro-me de ser miúdo e de pensar que Portugal entrava em campo com a ideia de “será que vamos perder?” para passar a ganhar um campeonado Europeu e considerar-se putativo candidato a campeão do mundo. O novo normal é pensarmos “como fomos perder com estes tipos?”. Estou em crer que Ronaldo não é o único obreiro disso, mas acredito que a sua exigência contagiou os restantes e permitiu estarmos onde estamos hoje.
Por esta razão, fico perplexo como tem sido tratado nos últimos tempos, com tanto ódio e desprezo pela sua figura. De imprescendível passou a empecilho. De bestial passou a besta. Ronaldo não está isento de escrutínio, aliás, o próprio também alimenta isso ao se expor da forma que o faz. São alguns os casos jurídicos em que se viu envolvido ao longo da carreira, alguns gestos ou comentários pouco apropriados que fez, ou atitudes pouco adequadas em determinados contextos que nos permitiram e permitem avaliar e tirar algumas conclusões sobre a sua pessoa. Contudo, a forma e o método que ele seguiu para ter sucesso dentro de campo tornou-o um modelo para todos durante anos. Mas, a sua resiliência e vontade de ser o melhor passaram a ser vistos como teimosia e arrogância. O tratamento mediático a toda a cara que faz, palavra que diz, atitude que tem são com o intuito de o calcar e rebaixar. E nós todos temos potenciado isso em larga medida.
Sou da opinião de que ele não tem gerido da melhor forma a sua carreira nesta fase. Embora ache que o seu valor dentro das quatro linhas ainda esteja longe do fim, acho que está a ter dificuldades em admitir o declínio da sua rentabilidade desportiva e que outros poderão estar em melhores condições. Todavia, também não sei o que é perder um filho, ainda que à nascença, e poucos meses depois ser confrontado com uma filha a viver uma doença complicada. Aparentemente, foram momentos que afetaram aquilo que Ronaldo tinha de mais forte: a sua cabeça, e consequentemente o seu rendimento desportivo e as oportunidades de mostrar o seu valor. Por tudo o que deu ao futebol português e ao país deviamos-lhe compreensão durante este ano. No entanto, o que temos visto é pessoas a aproveitarem para se vingarem do seu sucesso e de o tratarem como mais um. A frustação que demonstra e a dificuldade em controlar os seus impulsos e emoções talvez possam advir desta falta de empatia que existe para com ele. Se ele devia saber lidar com isso? Talvez, mas também é humano…
O sucesso de Ronaldo significou em larga medida o nosso sucesso e acredito que poderão continuar a estar relacionados. Deve é perceber que os tempos são outros e que tem de encontrar uma nova forma de ser bem sucedido. Talvez não passe mais por bater recordes que estão só ao alcance dos deuses do futebol. Talvez haja uma outra forma mais adaptada à sua atual capacidade física e mental.
Ele terá de repensar no seu papel dentro e fora de campo e terá de estar preparado para abraçar uma nova fase da sua vida. Enquanto português acho que o devemos apoiar, pois somos as suas gentes e devemos estar ao seu lado neste processo. Seja qual for o seu novo rumo havemos de nos voltar a identificar com a sua ambição, a sua ética de trabalho e a sua dedicação. Elas são inspiradoras para todos nós!
Escrito a 27 de dezembro de 2022 por Sérgio Brandão
A Maioria Absoluta do Partido Socialista marcou Portugal em 2022!
Para este balanço eu e o João Tiago Teixeira vamo-nos dividir entre a análise de Portugal e do Mundo, tendo ficado eu com aquilo a que ao nosso país diz respeito. Decidimos destacar um acontecimento e uma personalidade nos dois contextos e deixar algumas perspetivas futuras. Tentamos fugir dos habituais destaques dados pela restante imprensa e opinião partilhada, mas torna-se difícil escapar a eventos ou figuras chave que 2022 nos trouxe. Esperamos que pelo menos a nossa análise traga um ponto de vista diferente e ajude à discussão nestas habituais rubricas retrospectivas.
Acontecimento Nacional do Ano de 2022: Maioria Absoluta do Partido Socialista
Destaco a maioria absoluta do PS por várias razões, mas as mais importantes têm que ver com o facto de ser totalmente inesperada por todos (inclusivé pelo partido que a ganhou) e por garantir a António Costa a possibilidade de, cumprindo o mandato até ao fim, se tornar a referência da governação portuguesa por mais de 10 anos.
Há, para mim, três grandes momentos do primeiro ano desta maioria absoluta: 1) O discurso de vitória das eleições legislativas: Na consagração da confiança e da estabilidade que os portugueses concederam ao Partido Socialista, o Primeiro-Ministro deu o pontapé de saída de uma oportunidade única que tem em mãos com um discurso que prometia ambição e diálogo no Parlamento. Ficou uma frase que será cobrada até à exaustão ao governo durante a sua legislatura: “Uma maioria absoluta não é poder absoluto, não é governar sozinho, é uma responsabilidade acrescida“. 2) A revogação do despacho de Pedro Nuno Santos sobre o novo aeroporto: Assistiu-se a meio do ano a um dos episódios mais dramáticos da telenovela que junta os dois personagens fortes do partido que governa o país. Portugal teve por horas decidido o futuro do seu novo aeroporto graças à coragem (e imprudência) do Ministro das Infraestruturas. Todavia, assistiu posteriormente a uma bizarra conferência de imprensa em que o mesmo viu-se obrigado a pedir desculpas pela sua atitude e pelas “falhas de comunicação”. Costa manteve o seu putativo sucessor, mas a que custo? Será que é um exemplo do “mantenha os seus amigos perto e os seus inimigos mais perto ainda”? 3) A entrevista de António Costa à revista Visão: A entrevista dada pelo Primeiro-Ministro teve um grande objetivo: anunciar o apoio de 240 euros para mais de um milhão de famílias carenciadas. É certo que houve um balanço feito à governação, mas também houve espaço para alguns impropérios pouco adequados quando acusou a Iniciativa Liberal de se deixar contaminar pelo Chega. A frase “Quando tentam guinchar, os queques ficam ridículos perante o vozeirão popular que o Ventura consegue fazer” caiu mal aos visados, mas sobretudo demonstrou um lado indelicado e sobranceiro de António Costa que até mereceu algumas críticas de figuras incontornáveis do PS. Outro aspeto foi o facto de apenas destacar como caso negativo a apontar à governação, o episódio que acima descrevi no ponto 2. Curioso, não?
Havia outros momentos a destacar, nomeadamente a (quase) contratação de Sérgio Figueiredo como consultor durante o verão, ou o truque de magia feito aos pensionistas, ou até o grave caso de Miguel Alves. Eu saliento estes por achar que permitem concluir melhor este primeiro ano de governação.
António Costa e o PS assumiram o Chega como principal oposição ao governo. Não é de estranhar, ao vermos um PSD frouxo, pouco pujante e sem grande capacidade de trazer novas e empolgantes ideias. Na realidade, o PS tem sido capaz de tomar medidas que incomodam os partidos à sua esquerda e que ao mesmo tempo agradam a uma parte significativa do eleitorado mais centrista do PSD. Pairando a sombra da possível aliança dos partidos de direita, assumir o Chega como a grande oposição diminui o papel e relevância dos sociais-democratas e deixa-os de mãos e pés atados. Por esta razão, o possível diálogo com o PSD torna-se pouco necessário à luz do seu fraco poder de influência mediático.
Creio que estas atitudes podem ser perigosas não só para o normal equilíbrio da democracia e da transição de poder entre partidos moderados, mas para os próprios socialistas. Não identificarmos uma figura “alternativa” para assumir a liderança numa era pós-Costa pode levar a graves problemas para o futuro do partido. Veja-se o que aconteceu ao PSD no pós-Cavaco…
Há impaciência e desconforto pela imprevisibilidade dos anos que vêm, mas também há um claro desgaste do primeiro-ministro pelos já sete anos de governação. Que legado poderá António Costa orgulhar-se no final da(s) sua(s) legislatura(s)? Que reformas? Que obras? Que medidas? Aquilo que lhe podemos enaltecer só tem que ver com a distribuição de rendimentos, pouco mais. Há até um vaidade semelhante àquele que proferia “L’État c’est moi“, mas não há medidas concretas para retirar um milhão de famílias da pobreza, de fazer aumentar a classe média, de permitir o crescimento económico. Temos de deixar de depender tanto do Estado, de ter sempre a mão estendida para definir o nosso futuro. Há um PRR e três anos pela frente. Estamos a ir da maioria absoluta à apatia absoluta? Que ambição temos?
Escrito a 26 de dezembro de 2022 por Sérgio Brandão
“Estará a Roménia melhor e Portugal pior a longo prazo?”
Há duas semanas fomos confrontados com um relatório da Comissão Europeia que prevê que a Roménia – antigamente o país mais pobre dos 27 estados-membro – ultrapasse Portugal no ranking de desenvolvimento económico da União Europeia.
Após a divulgação desses dados, iniciou-se a típica “futebolização” na análise dos mesmos. No entanto, mais importante do que saber a evolução do PIB per capita de ambos os países, é perceber o que isto nos diz (ou não) dos países em causa, das implicações destes resultados e que aprendizagens poderemos retirar.
O que é o PIB per capita e que importância tem para os países da União Europeia?
Numa rápida procura na internet pela sua definição, percebemos que o produto interno bruto (PIB) é composto pelo conjunto de todos os bens e serviços, que geram valor por parte de empresas nacionais, ou estrangeiras, num determinado país. É habitualmente calculado com base na produção de um ano ou trimestre e serve para medir a evolução económica de uma nação. Para o cálculo do mesmo são considerados vários indicadores, como o consumo das famílias, o consumo público, o investimento e as exportações líquidas de importações. Deste modo, é fácil perceber que o PIB per capita consiste na divisão deste indicador pelo total da população de um país.
A Comissão Europeia usa-o com o objetivo de definir a repartição dos fundos europeus em função do grau de desenvolvimento das diferentes regiões europeias face à média dos 27. Há revisões recorrentes porque o PIB per capita tem de ser alinhado e expresso em paridades de poder de compra. Isso é feito com o intuito de eliminar as diferenças nos níveis de preços entre países, para que se realize a comparação da riqueza que cada Estado-membro consegue criar por habitante.
Se fossemos a analisar o PIB per capita em si, sem este ajuste em paridade do poder de compra, Portugal está e estará à frente da Roménia em 2024 (em % da média da UE, o primeiro terá 66% vs 48,8% do segundo). Por isso é usada esta espécie de conversor monetário, tornando a discussão à volta do tema muito mais interessante e desafiadora.
Roménia salta para a frente, Portugal anda para trás
Em 2000, assumindo 100% para a UE27 no PIB per capita em paridades de poder de compra, a Roménia era três vezes menos desenvolvida que Portugal: 26.4% vs 85,3%. A expectativa é que a Roménia salte do 27º lugar do início do milénio para 19º (79%) em 2024, enquanto Portugal no mesmo período baixa do 15º para o 20º (78,8%).
O país de leste só entrou na UE em 2007 e tem beneficiado largamente dessa condição, estando cada vez mais a convergir com a Europa desenvolvida. O mesmo aconteceu a Portugal durante os anos 90.
Evolução do PIB per capita até 2019 dos países da UE desde a adesão de Portugal
A verdade é que tal também é conseguido graças a um pujante crescimento da economia romena nos últimos anos e redução constante da sua população (em 2000 eram 22 e agora são 19 milhões), levando ao incremento significativo do seu PIB per capita. A divergência no comportamento de Portugal face aos restantes países da UE devido à brutal crise económica que viveu na última década e a estagnação da sua economia cria espaço para que países como a Roménia estejam a subir vários degraus no “ranking“.
Apesar do PIB per capita ser amplamente utilizado pelos economistas e muito apreciado pelos políticos como arma de discussão, este indicador tem várias limitações. Não inclui qualquer medida de bem-estar ou de qualidade de vida da sociedade; não inclui o trabalho voluntário ou até negócios ilegais que afetam negativamente os países; não refere como é feita distribuição de rendimento, não permitindo aferir o grau de desigualdade do país; e ignora algumas externalidades como o uso dos recursos e o seu impacto climático.
Por isso, usando o “futebolês” como linguagem descritiva, Portugal dá uma “abada” à Roménia nos campos que o PIB per capita não consegue avaliar. A Roménia tem mais 4% da população em risco de pobreza comparado com Portugal (22,6% vs 18,4%), sendo ela bem mais severa. Tem quase menos 8 anos de esperança média de vida (72,9 vs 81,2 anos) e 5,6 óbitos por mil nascimentos comparado com os 2,4 que Portugal apresenta no campo da mortalidade infantil. Estão também descritas graves deficiências no sistema educativo e de saúde romeno quando comparado com o português.
Com uma redução de quase 15% da sua população nos últimos 20 anos, a aproximação feita ao centro da Europa com exportações de produtos provenientes de uma crescente industrialização do país e as vantagens retiradas da (ainda) recente ligação à União Europeia, seria expectável este aumento no PIB per capita. Importa também destacar que a Roménia ainda não aderiu à moeda única, o que os torna muito competitivos nas exportações pela desvalorização da sua moeda face ao euro.
De qualquer das formas, talvez a maioria de nós não fosse para lá viver, muito menos os mais pobres que aparentam ter muito menos direitos e oportunidades que aqui, hoje em dia. Ainda assim, há coisas importantes a aprender da estratégia deste país nos últimos anos.
Roménia converge, Portugal diverge. Porquê?
Podem haver algumas explicações para o facto da Roménia ter uma taxa média de crescimento de 4% e Portugal de 0,6% entre 2000 e 2019 (pré-pandemia).
A Roménia, nos últimos 20 anos, tem um rácio médio de 24,2% de investimento em percentagem do PIB comparado com os 21,9% de Portugal. Temos um índice de educação francamente superior ao romeno e o índice de liberdade económica dos dois países é praticamente sobreponível. São três indicadores que, embora sejam sempre explorados nestas comparações, as diferenças são ínfimas para trazer conclusões. Por isso, onde estão as maiores diferenças?
Um dos aspectos tem que ver com o peso do Estado na economia em percentagem do PIB. A Roménia tem uma média 36,1% de despesas públicas em % do PIB e Portugal de 45,8%. Evidentemente que isso pode em parte justificar a quantidade e qualidade da oferta dos serviços públicos portugueses, nomeadamente na educação e na sáude quando comparado com a romena. Todavia, acarreta duas consequências de enorme impacto num país economicamente débil como Portugal: mais dívida e mais impostos.
Em 2023 a expectativa é que a dívida pública portuguesa atinja os 109,1% do PIB e a romena 47,3%. No campo dos impostos, a Roménia tem uma flat tax de 10% e Portugal tem taxas que podem chegar aos 53%. Para além disso, o IRC romeno é de 16% e o português é progressivo e pode chegar aos 31,5%.
Conseguimos então perceber que o atual modelo económico de ambos os países é distinto. Em Portugal grande parte dos investimentos são decididos pelo próprio Estado e este subcontrata empresas para atingir esses objetivos. Vemos isso nas grandes obras públicas que Portugal tem planeado, como por exemplo o novo aeroporto, ou a ferrovia ou o novo hospital do Oeste. Por outro lado, a Roménia depende em larga medida da iniciativa privada e da atração de investimento externo para “aquecer” a sua economia. Tal pode justificar em larga medida as diferenças ao nível do peso do Estado em % do PIB, a dívida pública e a fiscalidade aplicada.
Estará a Roménia melhor e Portugal pior a longo prazo? Não se pode concluir isso, mas assumindo que o grande desígnio para o nosso país para os próximos anos é conseguir crescimento económico, não nos podemos abstrair de um possível debate sobre aplicação de outras políticas. Todavia, descurar o enorme impacto que uma dívida pública e consequente baixa atravidade da nossa fiscalidade tem no desenvolvimento do país e na flexibilidade de um novo rumo seria intelectualmente desonesto.
Procuram-se ideias conscientes e ambiciosas!
Ainda que acredite que haja muito mais para além do PIB, o nosso país também pode retirar boas lições das políticas aplicadas pelos países como a Roménia em matéria de economia. Um Estado mais pequeno e eficiente, mais amigo da poupança e do investimento poderá retirar o nosso país da rota da “cauda da Europa”. Hoje é muito melhor viver aqui do que lá, mas no futuro tenho dúvidas… Ainda estão longe, mas Portugal tem perdido o fôlego nesta maratona.
Escrito a 11 de dezembro de 2022 por Sérgio Brandão
A subida do ISP é um custo de transição energética. Estamos ou não disponíveis para a pagar?
O anúncio feito pelo ministério das finanças de que decidiram reduzir o desconto sobre o imposto ISP no início desta semana, anulando assim a queda prevista para os preços dos combustíveis, levou-me a refletir sobre o quão prontos estamos para pagar os custos da transição energética.
Os partidos foram rápidos a reagir criticando o governo pela decisão, na linha da frente esteve Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, que referiu que “ao não permitir que os combustíveis baixem por via fiscal” e ao “congelar salários não permitindo que os mesmos acompanhem a inflação”, o governo está a agravar a crise das pessoas.
Dada a magnitude e importância que a crise climática tem para o nosso futuro, o enquadramento proporcionado esta semana permite discutir de forma prática e pragmática o alcance das medidas que alguns ativistas climáticos defendem, nomeadamente no que concerne ao fim dos subsídios aos combustíveis fósseis.
É muito frequente ver discussões complexas resumidas a soundbites e conclusões precipitadas que em nada contribuem para uma discussão informada sobre as opções que temos e quais as verdadeiras implicações das decisões que tomamos.
Se for perguntado a alguém se “Concorda com a subsidiação do setor dos combustíveis fósseis?”, serão seguramente poucas as pessoas que concordarão com tal medida. Provavelmente serão ainda mais vocais na sua indignação se lhes disserem que em 2021 o Mundo contribuiu de forma direta com mais de 440 mil milhões de dólares, um valor bastante superior ao investido na subsidiação de energias renováveis.
É neste enquadramento que a decisão anunciada pelo governo se torna interessante visto que se trata de um exemplo prático de subsidiação ao setor dos combustíveis fósseis.
Se repetirmos o exercício anterior, transformando a pergunta para algo como: “Concorda com a subsidiação do setor dos combustíveis fósseis, como por exemplo obter um desconto maior sobre o imposto ISP e assim a redução do preço do Gasóleo/Gasolina?”, seriam provavelmente muito menos as pessoas que discordariam desta medida, visto que estariam a escolher pagar menos na bomba de gasolina.
Os subsídios às indústrias dos combustíveis fósseis são geralmente associados ou à capacidade produtiva, como isenções fiscais, transferências diretas que possam reduzir o custo de produção e suporte à construção de infraestruturas como gasodutos e oleodutos, ou subsídios ao consumo onde o preço ao consumidor final é reduzido artificialmente, passando pela fixação ou redução do preço na bomba garantindo que o mesmo é inferior aos praticados no mercado.
Figura 1: Suporte financeiro (média entre 2017 e 2019 em Dólares) dado à Indústria de combustíveis fósseis pelos países G20 por tipologia de subsidiação e por tipo de atividade.
Segundo o relatório publicado em novembro de 2020 pelo International Institute for Sustainable Development, cerca de 50% do valor subsidiado pelos países G20 foi feita por países fora da OCDE como China, Rússia e Arábia Saudita. Estes representam quase 50% destas transferências e têm nestas indústrias interesses estratégicos pelo peso que as exportações destes bens representam na sua economia.
Se é verdade que têm de ser as sociedades ocidentais a liderar a transição energética, disponibilizando-se a custeá-la, também é verdade que todas as ações que tomem de forma isolada nunca serão suficientes se não existir uma estratégia comum que possa unir a humanidade sob o mesmo desígnio.
É legítimo e compreensível que os diferentes governos, em especial dos países mais pobres, defendam o interesse das populações que representam e procurem a adoção de estratégias equilibradas que não contribuam para cenários de ingovernabilidade, permitindo o atingimento destes objetivos ainda que em detrimento de metas temporais já estabelecidas.
As consequências das alterações climáticas estão bem estudadas mas as implicações financeiras não são simples. Embora o objetivo que se pretende é o de tentar salvar o mundo da humanidade, devemos tentar fazê-lo evitando o sacrifício humano.
Mais que qualquer discussão etérea a prova dos nove faz-se nas decisões do nosso dia a dia. Embora tenhamos todos razões para nos sentir indignados com o aumento do ISP, se concordamos com a necessidade e urgência de lidar com a emergência climática, então não há volta a dar, temos mesmo que concordar que este é um custo que temos de estar preparados para pagar.
Escrito a 5 de dezembro de 2022 por João Tiago Teixeira
“Milagrário Pessoal” de José Eduardo Agualusa é a segunda sugestão que vos trago para a mesa.
Li-o este ano e foi mais uma forma de admirar a escrita deste autor angolano. Mas atenção, não significa isto que esta leitura tenha sido apenas elevação.
Na verdade, passei por diversas fases enquanto o folheava. De um entusiasmo inicial, passando por uma certa apatia a meio da história, à reviravolta final que me deixou a querer mais. Podem então vocês questionar-me porque vos sugiro esta leitura.
Simples. Agualusa é dos escritores que mais me desafia, pelo seu vocabulário rico – gosto daqueles livros em que tenho de abrir o dicionário, aprender novos vocábulos e refletir no seu significado – pelo fascínio pela Língua Portuguesa e pelas suas origens, que adiciona a cada uma das suas obras com o seu jeito poético.
Este “Milagrário Pessoal” é um romance não só de amor entre duas pessoas, mas também de amor à Língua Portuguesa. Uma viagem às origens da lusofonia, e assim também uma viagem entre Portugal, Angola e Brasil.
Nele, conhecemos Iara, uma jovem linguista que tem como trabalho recolher novas palavras e catalogá-las. Mas o que poderia ser um trabalho de amor à Língua Portuguesa rapidamente se transforma, com a descoberta de novas palavras, numa ameaça de subversão da beleza do nosso idioma. É aí que com a ajuda do seu antigo professor, Iara parte em busca da origem das palavras que dizem ter sido roubadas à “língua dos passáros”.
Esta história cúmplice, entre Iara e o professor, faz também uma reflexão sobre o poder das palavras.
“Assim como criamos as línguas, também as línguas nos criam a nós. Mesmo que não o façamos de forma deliberada, todos tendemos a selecionar palavras que utilizamos com maior frequência, e esse uso forma-nos ou deforma-nos, no corpo e no espírito.”
Milagrário Pessoal, José Eduardo Agualusa
Nesta reflexão sobre identidade da língua, há também espaço a reflectir sobre hábitos de leitura numa clara crítica aos media e ao interesse que certas obras conhecem apenas quando existe o sentimento de rebeldia ao serem folheadas:
“Em Portugal ainda lêem os Lusíadas? Sim, confirmei. Os jovens portugueses são forçados a ler Os Lusíadas no liceu. Isso explica porque muitos nunca o leram. (…) Deviam proibi-lo, disse. Deviam retirar de circulação todos os exemplares existentes. Talvez mesmo queimá-los. Se os proibissem seria um enorme sucesso. Imagine então se o queimassem em praça pública com as televisões a filmarem. Seria um sucesso internacional.”
Milagrário Pessoal, José Eduardo Agualusa
O menos positivo? Talvez o sentimento de fragmentação a cada capítulo. Dos relatos de sonhos, à narração de fábulas, houve ainda espaço a visitar consagrados autores portugueses, como Sophia e Camilo.
Na verdade, de algo aparentemente disperso ligado por um ténue fio condutor, regressamos nos capítulos finais ao velho Agualusa de sempre
Esta não será certamente a última sugestão que vos trarei deste autor angolano, que é sem dúvida, criador de uma das obras a que me dá mais gosto regressar.
Para despedida, e vos aquecer o dia, partilho convosco a música com o mesmo nome. Fruto da genialidade de Agualusa, surge a letra que dá corpo à música de António Zambujo. Um ritmo quente que nos embala nesta viagem pelas palavras, e por “Alfama, Leblon Marçal”.
Embora Portugal seja um país onde se escusa uma discussão sobre a aceitação das alterações climáticas, vale a pena abordar a gravidade da situação atual.
No passado dia 6 de novembro foi dado início à cimeira do clima COP 27, onde se reúnem a quase totalidade dos estados do mundo, se partilham atualizações sobre a deterioração das alterações climáticas e se tentam firmar compromissos para a correção da fatídica trajetória.
Foi com um apelo ao sentido de urgência que o Secretário Geral da ONU António Guterres escolheu iniciar a sua intervenção, “Estamos numa auto-estrada rumo ao inferno, com o pé no acelerador”, com um aviso de alarme procurou agitar as comitivas, apelando à ação, deixando-as alerta e responsabilizadas pela escolha mais importante das nossas vidas: “cooperar ou morrer”.
Portugal é um país em que se escusa a discussão sobre a aceitação das alterações climáticas, estas são amplamente aceites pelo poder político, agentes económicos e sociedade cívil, que comungam uma estratégia comum de desenvolvimento e sustentabilidade.
No raking do Climate Change Performance Index (CCPI) Portugal surge em 14º lugar. Este indíce é uma ferramenta que congrega 59 países, representa 92% dos emissores de gases de estufa e promove a transparência na cooperação internacional no âmbito da gestão da crise climática.
Embora Portugal surja bem classificado num ranking liderado pela Dinamarca e se distinga como um dos países que tem desenvolvido mais esforços para combater as alterações climáticas, as ações que têm sido desenvolvidas não permitiram atingir as metas definidas em 2015 no acordo de Paris.
As emissões de gases de estufa voltaram a aumentar em 2021
Os gases de estufa estão associados de uma forma global à atividade antropogénica e a sua emissão é feita de uma forma muito desigual, pois são os indivíduos de países mais ricos os responsáveis pela sua emissão corrente e histórica.
Apesar da sua emissão ter vindo a ser reduzida em regiões como a Europa e Estados Unidos, em 2021 vimos o nível de emissões globais “recuperar” da quebra da pandemia COVID, e atingir os níveis de 2019.
Vale a pena referir que embora a China seja a região do mundo que emite mais gases de estufa (38,7% dos gases em 2021), os Estados Unidos são o país com maiores emissões per capita do mundo, com 14 tCO2e (toneladas de CO2 equivalente), seguidos de Rússia e China com 13 tCO2e 9.7 tCO2e respetivamente. Em contraste os países em desenvolvimento emitem apenas 2.3 tCO2e per capita, que compara com a média global de 6.3 tCO2e.
Total and per capita GHG emissions of major emitters in 2020, including inventory-based LULUCF – Emissions GAP report – Climate crisis calls for rapid transformation of societies – UN
Um clima de alarme
Recorrendo ao relatório do Provisional State of the Global Climate 2022, realço três das dimensões mais importantes que justificam o alarme que Guterres fez soar e que são prova da deterioração acelerada da maior crise das nossas vidas.
Aumento da Temperatura Global Média à Superfície (TGMS)
Em 2022 experenciámos o efeito climático La Niña, um efeito que se caracteriza pela redução da temperatura da água na superfície do oceano pacífico e que ao contrário do El Niño, contribui para a redução da TGMS.
Apesar da ocorrência do efeito La Niña, até setembro de 2022 a TGMS foi 1.15ºc mais quente do que a baseline pré revolução industrial (1850-1900) e tudo indica que 2022 venha a ser o 5º ano mais quente desde que há registos, numa série em que registamos consecutivamente os 8 anos mais quentes desde sempre.
A temperatura do Oceano voltou a subir em 2021
À medida que a acumulação de gases com efeito de estufa leva ao aumento da TGMS, os oceanos absorvem 90% dessa energia (calor), o que se traduz no aumento da temperatura da água e no aumento do nível do mar:
Através do aumento do volume da água devido à expansão termal;
Pelo derretimento das calotes polares e dos glaciares.
Reconhecendo a importância desta dinâmica na evolução do nível do mar, a comunidade cientifica encontrou na Ocean Heat Content (OHC) uma escala que permite aferir a acumulação de calor no sistema marinho. A OHC é medida a diferentes profundidades e permite estimar o calor entre a superfície até aos 2000 metros de profundidade.
Os resultados mais recentes não são animadores, a OHC tem evoluido de forma significativa em todos os graus de profundidade, mostrando uma aceleração significativa na acumulação de calor ao longo dos últimos 20 anos e que em 2021 atingiu um novo máximo.
Ocean Heat Content measure 1960 – 2021
25 de fevereiro de 2022: o dia em que a extensão de gelo marinho no Ártico atingiu o nível mais baixo de sempre
A extensão de gelo marinho é a medida da área marítima que está coberta por uma concentração de gelo superior a 15% e é um dos indicadores mais importantes das alterações climáticas, dada a rapidez com que ocorre no ártico e às repercussões globais que o seu degelo pode provocar.
2022 será infelizmente recordado pelos maus recordes. No dia 25 de fevereiro a extensão de gelo marinho no ártico atingiu o nível mais baixo desde que há registos, que estado permanentemente abaixo da média de longo prazo (anos 1981-2010).
No dia 25 de fevereiro a extensão de gelo marinho desceu até uma área de 1.92 milhões de km2, quase 1 milhão de km2 abaixo da média de longo prazo (1981-2010), o que equivale à perda de uma área quase duas vezes superior a toda a peninsula Ibérica.
Here is a sense in which the nations, to deal with this problem, have to make a change from their traditional concern about themselves and not about the planet and the species, a change from the traditional short term to longer-term objectives.
Carl Sagan testifying before Congress in 1985 on climate change
As alterações climáticas só poderão ser combatidas se a emissão de gases for neutralizada e a COP27 afigura-se como (mais) um momento chave para que a humanidade possa abraçar uma estratégia definitiva, que permita inverter a tendência do aumento da temperatura no mundo e com isso salvar a vida de milhões de pessoas.
Sabemos todos que um verdadeiro compromisso só poderá ser atingido se todos os países abraçarem uma verdade comum, de outra forma não teremos escolha a não ser enfrentar todos a mesma consequência.
Escrito a 17 de novembro de 2022 por João Tiago Teixeira
Créditos foto: Capa relatório ONU: Emissions GAP report – Climate crisis calls for rapid transformation of societies
Gonçalo Aguiar desmistifica o artigo de José Gomes Ferreira sobre a política de energia e ambiente. O fecho das centrais a carvão de Sines e Pego está relacionada com o aumento das importações de eletricidade de Espanha? Faz sentido a construção do novo gásoduto de Portugal para Espanha? Quanto ao hidrogénio verde, fará sentido apostar neste vetor de descarbonização?
Na semana passada tive a oportunidade de corrigir algumas das falácias do artigo de dia 29 de Outubro de 2022 do jornalista da SIC José Gomes Ferreira (JGF) intitulado Quase tudo errado na política do Ambiente e da Energia. Ao contrário de JFG, apresentei informação factual sobre os custos da energia renovável e demonstrei que o preço da eletricidade em Portugal é agora dos mais competitivos da Europa, especialmente para clientes não domésticos. As energias renováveis são um fator importante para tornar o país atrativo para investimentos. Escrevi também sobre as sugestões de JGF no que toca à política de desenvolvimento industrial, que em tudo se assemelham às propostas económicas mercantilistas do PCP de substituição de importações.
Dado o volume de distorções de factos presente no artigo de JGF, não foi possível manter toda a informação em apenas uma publicação. De seguida apresenta-se a segunda parte da análise ponto por ponto do seu artigo.
Fecho das centrais a carvão de Sines e Pego e aumento de importações de Espanha
Em relação à continuação da dependência de Portugal nos combustíveis fósseis, JGF volta a reiterar que foi um erro encerrar as centrais de carvão de Sines e Pego:
O fecho das duas centrais a carvão de Sines e do Pego teve como efeito imediato provocar uma subida em flecha das importações de eletricidade de Espanha.
José Gomes Ferreira, 2022
É factual que as importações de eletricidade de Espanha aumentaram nos últimos 18 meses. No entanto isto não tem nada a ver com o fecho das centrais de Sines e Pego. Tem a ver sim com a situação de seca em Portugal e Espanha, que limitam a utilização das centrais hidroelétricas Portuguesas. Mas a principal razão foi o crescimento notável da capacidade instalada de solar em Espanha, que mais do que duplicou entre 2018 (6.8 GW) e 2021 (14.6 GW), e que é muito superior à capacidade de produção solar fotovoltaica em Portugal (< 2 GW em 2022). A abundância de energia solar tem o efeito de deprimir o preço da eletricidade grossista nas horas de sol. Durante estas horas de preços grossistas baixos, Portugal importa eletricidade solar barata de Espanha para evitar de mobilizar meios próprios mais caros (hídricas em seca ou centrais a gás natural), como mostra o gráfico seguinte. A seca extrema desde o verão de 2021 até hoje sem dúvida que teria sido muito pior sem a bombagem, que JGF costuma arrasar, e sem a energia solar que a alimenta.
Figura 9 Preço da eletricidade médio em Espanha no mercado grossista a cada hora do dia vs produção de energia solar e eólica na Espanha vs importações de Espanha (fonte: ENTSOE)Figura 10 Correlação entre quantidade de produção renovável em Espanha e volume de importações de eletricidade (fonte: ENTSOE)
Importa também contextualizar a insignificância da central do Pego para o aumento das importações: em 2021, durante os meses em que a central funcionou até ser encerrada, apenas produziu energia 30% do tempo e gerou apenas 13% da sua potência instalada. Isto corresponde menos de 2% do consumo nacional, que é um valor muito inferior à quantidade de energia importada de Espanha.
Figura 11 Histograma da produção de eletricidade na central do Pego durante 2021 (fonte: ENTSOE)
Investimento em gasódutos
O artigo de JGF também disserta sobre o investimento anunciado pelo governo num novo gasoduto de gás natural de Portugal para Espanha (Celorico da Beira até Zamora). JGF afirma, e bem, que Portugal não precisa do gasoduto porque não tem capacidade de exportar gás natural de Portugal para Europa. Não sendo um país produtor de gás natural, como é a Argélia, à partida não faz sentido utilizar o terminal de Sines para servir de entreposto de gás natural liquefeito, existindo outros 7 terminais em Espanha, um dos quais ainda por utilizar. Existe também a alternativa de instalar terminais móveis de receção de gás natural liquefeito no mar do Norte, perto de onde o gás será consumido.
(…) o troço português do gasoduto internacional (…) não vai servir para exportar gás de Portugal para a Europa, nem sequer para servir a área de território nacional onde passa, porque esta é pouco industrializada. Ao invés, precisamos de mais importações e essas terão de vir pelo terminal de Sines ou pelo próprio gasoduto entre a Argélia e Espanha.
José Gomes Ferreira, 2022
No entanto, na última frase da citação acima, JGF assume que Portugal tem de aumentar importações de gás natural, uma vez mais contradizendo a sua própria ideia que devíamos substituir importações. Diz também que não compensa construir infraestrutura onde não existe indústria, ignorando o facto de que a indústria precisa precisamente dessa infraestrutura para poder ter custos de produção baixos.
Gasóduto para exportar hidrogénio verde
De seguida JGF manifesta-se contra a futura utilização do gasoduto de permitir escoar a produção de gases renováveis (como o bio-metano e o hidrogénio verde) de Portugal para Espanha e o resto da europa.
Numa palavra, Portugal está a posicionar-se para gastar 300 milhões de euros num novo gasoduto de ligação a Espanha que não vai servir para quase nada. A não ser que seja para exportar o chamado “hidrogénio verde”, mas essa é uma história ainda mais escandalosa e prejudicial para os consumidores e contribuintes portugueses.
José Gomes Ferreira, 2022
Se realmente o desejo do JGF fosse substituir importações, estaria de acordo com esta aplicação do gasoduto, pois a produção doméstica de hidrogénio verde será a única forma de poder substituir as importações de gás natural de países pouco fiáveis como a Nigéria e o Qatar, que estão pouco interessados na nossa independência energética e segurança de abastecimento.
Objeções contra o hidrogénio verde
Ainda sobre o hidrogénio verde, JGF enumera uma lista de objeções contra esta aposta defendida a nível europeu:
Primeiro, é preciso construir em Sines uma central de dessalinização da água do mar para abastecer a futura fábrica de hidrogénio verde, sob pena de se esgotar os recursos aquíferos da região; depois é preciso construir uma mega central de energia fotovoltaica para obter eletricidade a usar na eletrólise da água para produzir hidrogénio (a ver vamos, se a fábrica não vai precisar de eletricidade importada, parte da qual produzida em Espanha a carvão, deixando assim de ser “verde”…)
José Gomes Ferreira, 2022
Diz primeiro que seria necessário construir uma central de dessalinização de água do mar para fornecer água ao eletrolisador de produção de hidrogénio. Este pormenor é de facto correto, mas totalmente irrisório. Na realidade, o custo de produzir água dessalinizada é uma fração do custo total de produção de hidrogénio (cerca de 1%). A central dessalinizadora poderá também ser usada para abastecimento de água potável, permitindo rentabilizar o investimento com duas aplicações comerciais.
De seguida, JGF dá a entender que o hidrogénio verde vai ser produzido com energia importada de Espanha, que é produzida com carvão. Não só este argumento é enganador, porque apenas 2% da energia na Espanha é produzida com carvão, como revela desconhecimento de como funciona a produção de hidrogénio verde. Para este ser considerado verde, a eletricidade consumida no eletrolisador terá de vir de fontes limpas. Isto é garantido através do consumo de eletricidade produzida localmente com painéis solares fotovoltaicos e/ou parques eólicos, ou através de compra de energia à rede, desde que haja a garantia de haver um contrato de fornecimento de energia (PPA, power purchase agreement) com um produtor renovável.
De seguida realça a quantidade de energia que é necessária para produzir uma unidade de hidrogénio (1.6 de eletricidade para 1 de hidrogénio verde).
Sendo certo que do ponto de vista técnico, conforme ficou escrito nos documentos sobre o projeto do hidrogénio verde divulgados pelo próprio Governo, para produzir uma unidade desta energia, é preciso gastar 1,6 unidades de energia clássica, eletricidade ou outra…isto é, trata-se de mais um enorme disparate.
José Gomes Ferreira, 2022
Este valor corresponde a um rendimento de 62%, o que é um rendimento relativamente elevado. Para contextualizar este valor, importa lembrar que as centrais termoelétricas a carvão só aproveitam 40% da energia térmica do combustível e os automóveis a gasolina em média desperdiçam 75% da energia de combustão. O que importa na realidade não é a eficiência da transformação da energia, mas o custo da utilização final dessa energia comparativamente a outras fontes. É verdade que nos dias de hoje o custo de produção de hidrogénio verde ainda não é comparável ao preço que o gás natural tinha antes desta crise. No entanto, à medida que as economias de escala tomarem efeito, os custos dos equipamentos para produção do hidrogénio verde reduzirão, tal como colapsaram os custos dos painéis solares fotovoltaicos, de turbinas eólicas e de toda a eletrónica de potência associada na última década.
Por fim a maior objeção de JGF é a necessidade de readaptar toda a rede de gás natural para poder operar com hidrogénio verde e os enormes custos que isso acarretaria.
Com a rede atual de gás natural de alta pressão só é possível injetar até 15 por cento de hidrogénio verde (o Governo que me desminta que eu posso revelar publicamente a fonte que o disse); qualquer percentagem acima deste limiar põe em risco a própria rede e poderá representar fugas em massa das moléculas que compõem o combustível.
José Gomes Ferreira, 2022
Tal como explicaram nas suas publicações no LinkedIn, António Vidigal, ex-CEO da EDP Inovação, e Paulo Preto dos Santos, General Manager da Dourogás Renovável (aqui e aqui, respetivamente), a cidade de Lisboa durante quase 100 anos utilizou um gás sintético, chamado correntemente por “gás da companhia”. Este gás, utilizado para aquecimento, fogões e esquentadores, era composto por quase 50% de hidrogénio, valor muito acima do limite de 15% que JGF falou no seu artigo. É claro que terá de ser necessário alterar equipamentos na rede, tais como queimadores, medidores de caudal, válvulas e tubagens, mas nada que seja uma impossibilidade ou um custo proibitivo. De facto essa adaptação já ocorreu no passado há 40 anos, mas em sentido inverso, quando foi necessário converter a rede do gás da companhia para gás natural.
Sugestão final
José Gomes Ferreira desafiou o governo a contestar o seu artigo. Discordo que tenha de ser o governo a contestar seja o que for, pois não é, e nunca será, o governo a única fonte de verdade absoluta. Cabe à sociedade civil fazê-lo, apesar de desmascarar desinformação ser exponencialmente mais trabalhoso do que desinformar.
Gostaria de terminar deixando uma sugestão ao José Gomes Ferreira: que se procure informar com fontes alternativas às que utiliza recorrentemente. Que comunique com especialistas na área da energia e ambiente, das diferentes universidades, entidades reguladoras e institutos de investigação espalhados pelo país, ou mesmo de empresas do setor. Que os traga para o seu palco e que promova o contraditório. Com certeza que este tipo de discussões traria audiências, sem precisar de papaguear teorias da conspiração, desinformação, distorções de factos e falsidades.
Embora não concorde incondicionalmente com toda a política ambiental e de energia de Portugal e da Europa, enquanto entendido na área de Energia, não posso deixar passar em branco a distorção dos factos presente no artigo do jornalista José Gomes Ferreira.
Nos últimos tempos o fenómeno das notícias falsas e da desinformação têm vindo a ganhar palco nas redes sociais, em particular nas áreas relacionadas com temas complexos, como a saúde, ambiente e economia. Invariavelmente, estas correntes acabam por chegar aos órgãos de comunicação social tradicionais, o que amplifica o seu alcance.
É neste âmbito que me vejo no dever como cidadão de comentar o artigo de dia 29 de Outubro de 2022 do jornalista José Gomes Ferreira (JGF) intitulado Quase tudo errado na política do Ambiente e da Energia. Não porque concordo incondicionalmente com toda a política ambiental e de energia de Portugal e da Europa, mas sim, porque como entendido na área de Energia, não posso deixar passar em branco a distorção dos factos presente neste artigo.
De facto nada do que foi escrito no artigo é novo. Os argumentos falaciosos e distorções factuais têm sido repetidas ad nauseam em jornais e programas de TV de comentário político por cépticos que falam publicamente sobre a energia e ambiente.
De seguida apresenta-se uma análise ponto por ponto dos argumentos apresentados no artigo de JGF:
Fiscalidade ambiental
Começando pela crítica à fiscalidade ambiental:
Em Portugal, as políticas do Ambiente estão transformadas numa fonte inesgotável de receitas do Estado: a aplicação da taxa de carbono vai agora ser alargada a todo o tecido empresarial nacional. Repito, praticamente todas as empresas que desenvolvam alguma atividade com o mínimo impacto ambiental vão ter de pagar taxa de carbono.
José Gomes Ferreira, 2022
É óbvio que a fiscalidade verde não é uma fonte inesgotável de receitas para o estado. É sim uma forma de corrigir a falha de mercado que são as emissões de CO2 para a atmosfera. Qualquer economista sério admite essa necessidade. Até Milton Friedman, considerado por muitos um ultra-liberal muito cético da intervenção do estado na economia, admitiu a necessidade de taxar poluentes em 1979 numa entrevista a Phil Donahue:
A melhor maneira de fazer isso é impor um imposto sobre a quantidade de poluentes emitidos por um carro e fazer com que seja do interesse dos fabricantes de automóveis e dos consumidores reduzir a quantidade de poluição.
Milton Friedman, 1979
A taxa de carbono é também a uma forma de taxação progressiva. Segundo dados do World Inequality Database, em 2019 a população no top 10% mais rico em Portugal emitiu em média 20 toneladas de CO2 por ano, enquanto as emissões per capita a nível nacional são 4.7 toneladas de CO2 por ano. Isto quer dizer que se houver uma taxação de carbono eficaz, um português rico pagaria quase 5 vezes mais pelas suas emissões que um português médio.
Ao estado cabe definir onde aplicar esta receita, que não é de todo «inesgotável». Poderá fazê-lo de forma a apoiar os mais carenciados com o objectivo de reduzirem as suas emissões, nomeadamente a incentivar o uso de transportes públicos, a eletrificação do consumo energético, a melhorar a eficiência energética e a adquirir no mercado soluções de autoprodução de eletricidade.
O sistema europeu de comércio de licenças de emissão carbono não se cinge a ser apenas mais uma taxa. Corresponde a todo um mercado organizado com regras, sinais de preço e incentivos. O seu maior objectivo é a descarbonização da indústria europeia, incluindo Portugal. Exemplos disso são os investimentos em energias renováveis e descarbonização que têm ocorrido nos últimos anos pela indústria Portuguesa. Exemplo disso foram a CIMPOR e a NAVIGATOR que em 2020 anunciaram dezenas de milhões de € em investimento para reduzir a emissão de 10 milhões de toneladas de CO2. Fizeram-no não porque têm especial preocupação ambiental, mas porque faz sentido economicamente pagar menos taxas de carbono, evitando perder competitividade.
O resultado da aplicação da taxa de carbono está à vista de todos: levou a uma aceleração da integração de energias renováveis no mix electroprodutor e a uma redução das emissões de CO2 em praticamente todos os setores onde foi aplicado.
Estratégia de desenvolvimento industrial
Sobre estratégias de desenvolvimento industrial de Portugal e os preços da energia, a visão mercantilista de JGF de substituição de importações é em tudo muito idêntica às propostas do PCP para a economia Portuguesa:
(…) é o Ministério (da economia) que deve promover o desenvolvimento industrial e comercial, gastando-se a energia que for necessária e mais barata para a produção que substitua importações e aumente as exportações.
José Gomes Ferreira, 2022
Na sua opinião as empresas deviam de “gastar toda a energia que for necessária para a sua produção”. Esta estratégia revelou-se este ano ser um erro de proporções históricas. Não só é uma estratégia que não faz sentido económico, pois não se sustenta no principal incentivo que o capitalismo confere à economia: redução de custos para ganhar competitividade, como também resulta num desperdício desmesurado de recursos. Recursos esses que, sendo Portugal dependente de combustíveis fósseis do estrangeiro, só fariam aumentar as importações, sendo exatamente isso que JGF quer evitar…
Preços da eletricidade
No que toca à necessidade de ter preços baixos de energia, é impossível de discordar com JGF. O problema é o caminho que JGF propõe para chegar a esses preços baixos. No seu artigo, JGF insinua várias vezes que os preços dos combustíveis fósseis é que mantinham o preço da eletricidade baixo, e que, portanto, descarbonizar foi um erro.
O “mix”, ou o conjunto de tecnologias usadas para a produção de eletricidade em Portugal era relativamente equilibrado, com os vários contributos a moderar os preços mais elevados das energias alternativas.
José Gomes Ferreira, 2022
O que na prática JGF defende é que a estratégia correta para Portugal era continuar a ser dependente do carvão colombiano e do gás natural nigeriano, pois isso sim iria tornar o nosso preço da eletricidade barato e competitivo. Uma vez mais JGF equivocou-se. Os últimos 12 meses provam que deixar Portugal refém da volatilidade do preço dos combustíveis fósseis é precisamente o oposto que se deve fazer para conseguir energia mais barata.
Figura 1 Contribuição do combustível no custo da eletricidade produzida por centrais térmicas (gás natural e carvão) vs custo das tarifas feed-in renováveis (eólico, solar e biomassa) em Portugal (fontes: ERSE, MIBGAS e Marketwatch)
O gráfico da Figura 1 mostra a evolução do custo da eletricidade produzida para centrais térmicas a carvão e gás natural desde 2015, apenas contando com os custos dos respetivos combustíveis (custo marginal), e sem contar com a mal-amada taxa de carbono. Devido à escassez energética que resultou da recuperação económica pós-COVID, bem como o choque da oferta provocado pela Rússia durante 2021 e a guerra na Ucrânia desde Fevereiro de 2022, os preços de produção de eletricidade a partir de combustíveis fósseis dispararam nos últimos 18 meses. Inclusivamente estes ultrapssaram o preço das “rendas garantidas” das eólicas e do solar no caso do gás natural. Apesar deste aumento histórico de preços da energia, em Portugal, o preço da eletricidade, quer para clientes domésticos e não-domésticos, praticamente não sofreu aumentos, como mostram as seguintes figuras:
Esta desconexão dos preços da eletricidade em Portugal face ao crescente preço do gás e do carvão na Europa explica-se exatamente pelas políticas mais criticadas por JGF: as energias renováveis e as licenças de carbono.
As energias renováveis em Portugal são na sua maioria remuneradas a um preço fixo (tarifa “feed-in”), sendo que o preço final da eletricidade ao consumidor é moderado por esse preço fixo. É verdade que antes da atual crise o preço fixo dos produtores em regime especial (solar, eólico, biomassa, co-geração e mini-hídricas) era superior aos preços das energias fósseis, e os consumidores domésticos pagavam o sobrecusto. O mesmo já não se observa atualmente, como se pode observar no gráfico da Figura 1. O sobrecusto passou a ser um “sobreganho”.
JGF insiste em afirmar que as energias renováveis são caras e os combustíveis fósseis baratíssimos, mesmo havendo evidência factual que o contraria:
Antes da decisão arbitrária e unilateral do Governo de multiplicar a taxa de carbono sobre o carvão, estas centrais produziam eletricidade a 40 euros o MWh, enquanto as eólicas produzem a 100 euros e as fotovoltaicas a mais de 300 euros o MWh. O valor médio do MWh era assim naturalmente regulado pela própria existência das centrais a carvão que contribuíam para moderar as subidas artificiais dos preços subsidiados.
José Gomes Ferreira, 2022
Nesta citação JGF utiliza preços de 2010, e ignora o aumento avassalador dos combustíveis fósseis nos últimos 18 meses bem como a redução do custo de produção das renováveis que caiu desde então, no solar -88% e no eólico on-shore -67%, como mostram os seguintes gráficos do relatório do IRENA referente a 2021.
Figura 4 Evolução do custo de instalação, fator de capacidade e custo nivelado do solar e eólico desde 2010 (fonte: IRENA, RENEWABLE POWER GENERATION COSTS IN 2021)
A consequência direta destas reduções dos custos das energias renováveis é que em vez da energia solar custar 300 €/MWh (preço aplicado a uma pequena quantidade de energia produzida), como afirma JGF, Portugal conseguiu preços inferiores a 20 €/MWh através dos leilões de solar fotovoltaico realizados em 2019 e 2020. Em vez de prejudicar os consumidores, estas novas tarifas reduzidas permitirão descer ainda mais o preço da eletricidade, ao contrário do que JGF escreveu no seu artigo:
Sendo certo que os novos projetos, que têm de ser pagos pelo sistema, ainda vão acrescentar mais custos aos já elevados preços que os consumidores têm de pagar.
José Gomes Ferreira, 2022
Se não existissem energias renováveis no mix pagas a preço fixo com as tarifas “feed-in” que JGF constantemente critica, e sem a devolução de receitas da taxa de carbono ao sistema elétrico nacional (SEN), não teria sido possível manter o preço da eletricidade praticamente inalterado perante talvez a maior crise energética de sempre.
Os gráficos das seguintes figuras do Eurostat provam isso. Portugal é dos poucos países a conseguir não subir o preço da eletricidade na primeira metade de 2022 para clientes domésticos e é atualmente o terceiro país com a eletricidade mais barata da EU para clientes não domésticos. É com este preço barato que se atrai investimento e indústria para Portugal.
A ERSE também já veio confirmar a continuação deste cenário para 2023 no anúncio das novas tarifas de eletricidade no dia 17 de outubro. As tarifas de acesso às redes, uma componente do termo variável da fatura de eletricidade, terão descidas históricas para valores negativos e a tarifa regulada subirá apenas 1.1% face a dezembro de 2022. Tudo isto foi possível sem comprometer o balanço tarifário, isto é, não existiu défice em 2022, antes pelo contrário: a dívida tarifária no final de 2022 foi reduzida em 1/3 e no final de 2023 deverá ser reduzida para metade (ver gráfico da Figura 7).
Para depois de 2023, é impossível fazer previsões. Não obstante, pode-se consultar as tendências para onde os mercados de futuros de eletricidade apontam e a conclusão é a mesma:
Figura 8 Evolução do preço da eletricidade em Portugal, Espanha, França e Alemanha nos mercados de futuros (fonte: OMIP.PT, dia 07/11/2022)
Em 2029, Portugal e Espanha, principalmente devido às suas geografias que privilegiam a energia solar, terão custos de energia menos de metade de França e Alemanha, as duas potências industriais da Europa.
Para finalizar o tema do preço, vale a pena também relembrar qual era a solução de JGF para o aumento dos preços da eletricidade nos tempos da troika. Em declarações à SIC em 2013, JGF defendia na prática a destruição do mercado de eletricidade em Portugal através da tabulação de preços de eletricidade, bem ao estilo de Nicolas Maduro na Venezuela:
Em mercados de 10 milhões de consumidores, quando há poucos operadores, colam-se todos acima e ninguém desce o preço. Deviam fazer exatamente o contrário. Deviam tabelar o preço.
José Gomes Ferreira, 2013
JGF propôs isto várias vezes e esquecendo sempre todas as consequências perversas que sempre advêm deste tipo de políticas: escassez, falências, destruição da concorrência, etc.
E não acaba aqui…
Políticas destas propostas por JGF seriam efetivamente totalmente erradas, e não zelariam pelos interesses dos consumidores e pelo desenvolvimento do país no médio/longo prazo. Mas JGF não acaba por aqui… Também usou o seu artigo para falar de gasódutos, de hidrogénio e de repetir um dos maiores mitos sobre a energia em Portugal: que o fecho das centrais a carvão levaram ao aumento das importações de eletricidade de Espanha. O debunk destes mitos ficará aqui neste blogue para a semana.
Quais as oportunidades e os riscos desta eleição? O que poderá mudar na política norte-americana? Quais os temas que mais poderão influenciar as decisões?
Nos Estados Unidos da América (EUA) há eleições a cada dois anos, sendo que alternam entre as Presidenciais (as últimas foram em 2020) e as eleições intercalares (as últimas foram em 2018). Isto significa que as próximas serão as últimas referidas, a 8 de novembro de 2022.
E o que irão os eleitores decidir nas intercalares?
Vão eleger os membros da Câmara dos Representantes;
Vão eleger um senador em 34 dos 50 Estados;
Vão eleger um governador em 36 Estados.
O que é o Senado e a Câmara dos Representantes? [em inglês]
Nos EUA existem dois grandes partidos políticos: o Partido Democrata e o Partido Republicano. Será então de prever que o partido que tem a maioria em cada Câmara do Congresso tem o controlo total sobre o mesmo. Como qualquer legislação requer a aprovação tanto do Senado como da Câmara dos Representantes, o controlo maioritário do Congresso é a ambição de cada um dos partidos, pois assim podem exercer a sua atividade sem objeções. Desta forma, as eleições intercalares decidem qual o partido que irá controlar as duas Câmaras nos dois anos subsequentes.
As tendências das últimas eleições intercalares dita que o partido do Presidente em funções habitualmente perde assentos tanto na Câmara dos Representantes como no Senado. Em 17 das últimas 19 eleições intercalares isso aconteceu na Câmara dos Representantes, enquanto aconteceu o mesmo em 13 das últimas 19 eleições no Senado. Nas eleições Presidenciais, os eleitores atribuem um aumento dos representantes do partido no Congresso, mas volvidos dois anos, habitualmente há uma penalização do partido vencedor.
Como funcionam as eleições intercalares nos EUA? [em inglês; legendas em Português]
A uma semana das eleições, Biden vê 54,3% dos americanos a desaprovar a forma como tem exercido o cargo, contra 42,7% que aprovam (mais info aqui). Esta análise não difere muito dos seus antecessores aquando destas eleições. Colocando toda a história e dados em análise, a expectativa é que Biden perca um número grande de assentos no Congresso. Atualmente, os Democratas têm uma maioria de apenas 6 assentos na Câmara dos Representantes e o Senado está empatado.
Quais as oportunidades e os riscos desta eleição? O que poderá mudar na política norte-americana? Quais os temas que mais poderão influenciar as decisões?
A responder a estas questões temos Rodrigo Alvarado, advogado nascido em El Salvador que vive em Washington, D.C., há 7 anos. Rodrigo mudou-se para D.C. para concluir o mestrado em direito na Georgetown University e trabalha atualmente no departamento jurídico de um banco multilateral de desenvolvimento.
Há imensas referências à inversão de Roe v. Wade como sendo um dos tópicos principais durante estas eleições intercalares, mas que outros temas têm também sido objeto de discussão? Criminalidade? COVID? Inflação? O que está a influenciar mais a opinião pública, na tua opinião?
A decisão de Dobbs que reverteu Roe v. Wade foi definitivamente uma questão chave nas eleições intercalares, especialmente durante o verão, onde houve muita cobertura dos media sobre ela. Durante esse período, houve também muita cobertura sobre a violência e controlo de armas, pois ocorreram três tiroteios em massa num período de três meses, incluindo o tiroteio na Robb Elementary School em Uvalde. Outra questão que esteve em primeiro plano foi a das audiências de 6 de janeiro, que foram amplamente cobertas e escrutinadas pelas televisões nacionais. Nestas questões, a maioria dos eleitores tende a favorecer a posição democrata e servem para mobilizar a sua base eleitoral. Isto pode ajudar a explicar por que é que os democratas estavam tão bem nas sondagens e pareciam estar a conseguir evitar a perda das eleições intercalares, as que o partido que está na Casa Branca habitualmente é vítima.
Contudo, essas questões têm vindo a ser substituídas por outras em que os eleitores tendem a favorecer as posições republicanas: inflação, imigração e crime. Como todos sabem, os preços continuam a subir na taxa mais rápida alguma vez vista em mais de 40 anos, com a inflação geral a atingir os 8,2% ao longo do ano e até setembro. As pessoas estão a lidar todos os dias com o aumento constante dos custos e os republicanos estão a culpar as políticas democratas por isso. Para além disso, os republicanos conseguiram colocar a imigração como uma das maiores preocupações dos eleitores, através da criação e divulgação de crises de imigração que têm sido amplamente cobertas pelos media. Especificamente no caso dos governadores republicanos, estes têm enviado imigrantes de autocarro para os redutos democratas como Washington, D.C. enquanto outros têm também focado as suas campanhas no crime. De acordo com uma pesquisa recente do NYT, 52% dos eleitores disseram que uma destas três questões é a mais importante para si, o que ajuda a explicar a oscilação nas sondagens que agora tendem a favorecer o Partido Republicano, por causa do ambiente vivido.
A Guerra na Ucrânia é discutida e afeta a atual percepção da governação Biden nos EUA? O envolvimento do país e da NATO é fator de preocupação para os americanos?
A minha percepção é a de que a guerra na Ucrânia desapareceu lentamente das primeiras páginas e não acredito que seja uma questão central nestas eleições intercalares. Talvez seja porque ambos os partidos estão de acordo com a atual abordagem dos EUA na guerra na Ucrânia (embora alguns republicanos tenham dito que repensariam a ajuda à Ucrânia enquanto um grupo de democratas tenha sugerido uma via mais diplomática com a Rússia), pelo que não é um tópico em que uns consigam ganhar eleitores a outros.
A invasão do Capitólio marcou as últimas eleições americanas e demonstrou a polarização existente no país. Com a saída de Trump da Casa Branca estão, os EUA, menos polarizados? O Trumpismo diminuiu a sua influência no partido Republicano? Achas que haverá também o risco de um aumento da agressividade e violência nestas eleições?
Não acho que os EUA estejam menos polarizados. Na verdade, se virmos as pesquisas nos estados mais disputados, podemos ver que há uma divisão de quase 50/50 nos eleitores. O que acredito que tenha mudado após a presidência de Trump é que a polarização agora não está a ser alimentada pelo presidente, o que ajuda a moderar as emoções.
Também acredito que o Trump ainda tem muita influência dentro do Partido Republicano. Isso pode ser visto especialmente nas primárias, onde os candidatos internos lutaram para obter o apoio de Trump, um apoio que podia efetivamente influenciar a sua nomeação. Vale a pena partilhar uma história curiosa onde nas primárias do Missouri, Trump apoiou “Eric”, mas não especificou qual dos “Eric” ele estava a apoiar, por isso cada um dos dois candidatos chamados “Eric” reinvindicaram para si o apoio…
Agora, as eleições intercalares também nos vão ajudar a perceber a influência do Trumpismo fora do Partido Republicano.
Sendo assim, o que achas que vai acontecer à composição do Senado? E na Câmara dos Representates? Que implicações antevês desses resultados para os EUA?
Acredito que os republicanos estão lançados para ganhar a Câmara dos Representantes. Em relação ao Senado, acho que é impossível prever. Em alguns dos estados mais disputados do Senado (Arizona, Geórgia, Nevada e Pensilvânia) as últimas sondagens mostram os candidatos democratas a vencer por margens mínimas, no entanto os republicanos só precisam ganhar uma cadeira para ganhar o controlo do mesmo. Vai ser quase como atirar uma moeda ao ar. De qualquer das formas, acredito que o governo Biden vai ser forçado a governar através de ordens executivas, pois não vai ser possível aprovar os seus projetos no Congresso. Tanto Trump como Obama já tiveram de fazer isso no passado, o que leva a um resultado onde se desenvolvem planos de curto prazo que são rapidamente revertidos no momento em que um novo Presidente chega ao cargo. Qual será a eficácia do governo Biden a lidar com isso? Vamos ver…
Escrito a 31 de outubro de 2022 por Sérgio Brandão e Rodrigo Alvarado
Analysis of the USA Midterm elections by Rodrigo Alvarado
In the United States of America (USA) there are elections every two years, alternating with the Presidential (the last ones were in 2020) and the midterm elections (the last ones were in 2018). This means that the next ones will be the latter mentioned, on November 8, 2022.
And what will voters decide in the midterms?
They will elect the members of the House of Representatives;
They will elect a senator in 34 of the 50 states;
They will elect a governor in 36 states.
What is the Senate and House of Representatives? [in English]
In the US there are two major political parties: the Democratic Party and the Republican Party. It is therefore to be expected that the party that has the majority in the Congress has complete control over it. As any legislation requires the approval of both the Senate and the House of Representatives, majority control of Congress is the ambition of each of the parties, so that they can carry out their activity without objections. In this way, the midterm elections decide which party will control the both in the next two following years.
Trends in recent midterm elections dictate that the incumbent President’s party routinely loses seats in both the House of Representatives and the Senate. It is confirmed in the last 17 of the 19 midterm elections with regard to the House of Representatives and in the Senate the same happened in 13 of the last 19. In Presidential elections, voters attribute an increase in party representatives in Congress, but after two years, usually the winning party is penalized.
How do midterm elections work in the US? [in English]
One week before the election, Biden has 54.3% of Americans disapproving of his job, against 42.7% who approve it (more info here). This analysis does not differ much from its predecessors at the time of these elections. Putting all the history and data on perspective, Biden is expected to lose a large number of Congress seats. Currently, Democrats have a majority of just 6 seats in the House of Representatives and the Senate is tied.
What are the risks of this election? What could change in American politics? What are the issues that will most influence decisions?
To answer these questions we have Rodrigo Alvarado, a Salvadoran lawyer who has been living in Washington, D.C., for 7 years. Rodrigo first moved to D.C. to complete his master in laws at Georgetown University and currently works in the legal department of a multilateral development bank.
There are many references to the reversal of Roe v. Wade as one of the main topics during these midterm elections, but what other topics are also being discussed? Crime? COVID? Inflation? What is influencing the most, in your opinion?
The Dobbs decision overturning Roe v. Wade has definitely been a key issue surrounding the midterm elections, especially during the summer, where there was a lot of media coverage around it. During that time, there was also a lot of coverage about gun violence and gun control, as there were three mass shootings in a three-month period, including the shooting at Robb Elementary School in Uvalde. And the other issue in the forefront was the January 6 hearings, which were nationally televised and widely covered. On these issues, most voters tend to favor the Democratic position and they serve to motivate the Democratic Party base. This may help explain why the Democrats were doing well in the polls and seemed to be avoiding the usual loss of midterm elections by the party that controls the White House.
However, these issues have been replaced by issues in which voters tend to favor the Republican positions: inflation, immigration and crime. As you know, prices have continued to climb at the fastest rate in more than 40 years with overall inflation reaching 8.2% over the year through september. People are struggling every day with rising costs and Republicans are effectively blaming Democratic policies for those increases. Moreover, Republicans have successfully put immigration the minds of voters by creating immigration crises widely covered in the media. Specifically, Republican Governors have been sending immigrants by bus to Democratic strongholds such as Washington, D.C. And Republican strategists have also focused their campaigns on crime. Per a recent poll by the NYT, 52% of voters said that one of these three issues is the most important issue in their minds, which helps explain the swing in the polls that now tend to favor the Republican Party because of the environment .
Is the War in Ukraine discussed and does it affect the current perception of Biden governance in the US? Is the involvement of the country and NATO a factor of concern for the Americans?
My perception is that the war in Ukraine has slowly faded off the front page and I don’t believe it is a central issue surrounding the midterm elections. Perhaps this is because both parties are in general agreement with the current U.S. approach to the war in Ukraine (although some Republicans have said they would rethink aid to Ukraine while a group of Democrats called for discussions with Russia) so there is not an issue to be won.
The invasion of the Capitol marked the last American elections and demonstrated the polarisation that exists in the country. With Trump’s departure from the White House, is the US less polarised? Has Trumpism diminished its influence in the Republican Party? Do you think there will also be a risk of an increase in aggression and violence in these elections?
I don’t think that the U.S. is less polarised. In fact, if you see the polls in the battleground states, you can see that there is an almost 50/50 divide in the voters. What I believe has changed post-Trump presidency is that the polarisation is no longer being fueled by the President, which tempers emotions.
I also believe that Trump is still very influential within the Republican Party. This could be seen especially in the primaries, where internal candidates were fighting to get Trump’s endorsement, which could effectively seal their nomination. A curious anecdote: in the Missouri primary, Trump endorsed “Eric”, but did not specify which Eric he was endorsing, so the two candidates named Eric scrambled to claim him.
Now the midterm elections will help us measure how influential Trumpism is outside the Republican Party.
So, after your analysis, what do you think will happen to the composition of the Senate? And in the House of Representatives? What implications for the US do you foresee with your expected results?
I believe that Republicans are poised to retake the House. Regarding the Senate, I think it is impossible to predict. The latest polls show Democratic candidates winning by razor-thin margins in key Senate races (Arizona, Georgia, Nevada and Pennsylvania). However, Republicans only need to win one seat to gain control of the Senate. It is going to be a toss-up. In any case, I believe that the Biden administration will be forced to govern by executive orders as they will not be able to pass their bills through Congress. Both Trump and Obama have done this in the past, but this results in short-live programs that are reverted the minute that a new President arrives in office. How effective will the Biden administration be in doing this? We will see…
Written on October 31, 2022 by Sérgio Brandão and Rodrigo Alvarado
Quem me conhece sabe que sempre que me pedem uma ideia de leitura a boca (e o coração) me fogem para Zafón. E se vos convido pela primeira vez a sentarem-se à mesa para falar de um livro, teria certamente de começar com aquele que há uns anos me roubou o coração: A Sombra do Vento.
Pois bem, remonta a Março de 2010 o dia em que folheei pela primeira vez um livro de Carlos Ruiz Zafón, e é desde aí que este livro ocupa um lugar especial na minha biblioteca.
Lembro-me como se fosse hoje do primeiro capítulo. O momento em que o pai de Daniel Sempere o leva a conhecer o Cemitério dos Livros Esquecidos, um local em Barcelona de mistério e proteção de obras literárias raras. Durante todo o livro a escrita de Zafón leva-nos a entrar nesta trama, ao ponto de achar que um dia seria eu a entrar nesse santuário, conhecer o guardião Isaac e, segundo mandava a tradição, escolher um livro. O livro que eu adotaria e protegeria para que nunca desaparecesse.
Mas voltando ao início. Foi na sua primeira visita ao Cemitério dos Livros Esquecidos que Daniel Sempere escolheu levar consigo A Sombra do Vento de Julián Carax, livro que dá nome à nossa história e em volta do qual girarão muitas das aventuras. A partir daí o difícil foi querer parar.
Entre livros e aventuras, Zafón dá-nos a conhecer Daniel e Fermin Romero de Torres, aquele que traz uma leveza cómica e que é peça chave na vida do jovem Daniel. Vai-nos também sendo revelada a vida de Julián Carax, autor do livro escolhido pelo jovem Sempere e que se assume uma presença sombria durante todo o enredo, entre outras importantes personagens. Por entre páginas vamos mergulhando numa Barcelona pós-guerra, gótica e sombria, de morte e amor, sempre com um toque de suspense um tanto ao quanto sobrenatural.
A Sombra do Vento é apaixonante, as descrições e intrigas levam-nos a sermos absorvidos por um enredo, em que o destino e os acasos de personagens etéreas se cruzam.
O que é também fascinante nesta obra de Zafón? Ela pode ser o início, meio ou fim da tetralogia a que pertence. Sim, uma série de 4 livros, repletos de personagens e aventuras que se interligam sem uma ordem fixa. Esta é uma tetralogia em que a genialidade do escritor espanhol nos deixa a possibilidade de ler a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos de forma independente sem necessidade de seguir uma ordem pré-estabelecida, guiando-nos apenas pela amplitude da escrita do autor.
Numa partilha mais pessoal, sinto que de cada vez que falo de Zafón posso levar alguém a apaixonar-se pela leitura, como se a sua escrita fosse a salvação de todos os males no que à falta de entusiasmo pelos livros diz respeito. Como se Zafón tivesse o dom de pôr em palavras aquilo que representa um livro e o seu impacto em quem o lê.
“(…) poucas coisas marcam um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás (…) mais cedo ou mais tarde – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo o quanto aprendemos ou esqueçamos – vamos regressar.”
A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón
Impacto tão grande que, na verdade, me lembro perfeitamente do dia em que Carloz Ruiz Zafón partiu. Foi a primeira vez em que senti aquele nó na garganta por alguém que não conhecia. Num misto de tristeza e egoísmo por não ter oportunidade de ler mais nada criado pelas suas mãos, até que me veio a mente o que escreveu:
“Existimos enquanto alguém nos recorda.”
A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón
E vocês, vão voltar a relê-lo em breve como eu, ou abrirão pela primeira vez a porta à obra de Zafón?
Notas finais: A Sombra do Vento é um dos livros que consta do Plano Nacional de Leitura, recomendado para o Ensino Secundário (parece-me uma ótima sugestão para a época natalícia que se avizinha). Poderia sugerir-vos outros livros da sua obra como “Marina”, que merece também outra rúbrica de enaltecimento, ou numa escrita mais juvenil “A Trilogia da Neblina”. Na verdade pouco importa, o que importa é lerem-no.
Sinopse:
“Numa manhã de 1945 um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, “A Sombra do Vento” é sobretudo uma trágica história de amor cujo o eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página.”