Os Imbecis da Esquerda e da Direita

“Repare nas pessoas conversando:
nao é um bate-papo, é uma luta.
Todos querem pra si o olhar do bando.
Ninguém se entende nem sequer se escuta”

Há dias, no podcast 45 graus, José Maria Pimentel entrevistou o humorista, ator e escritor Gregório Duvivier. Numa conversa onde os protagonistas cruzam temas que vão desde o humor à política, houve um momento que captou a minha atenção: a declamação do “Soneto fático”, escrito pelo entrevistado e presente no seu livro “Sonetos de Amor e Sacanagem”.

Repare nas pessoas conversando:
não é um bate-papo, é uma luta.
Todos querem pra si o olhar do bando.
Ninguém se entende nem sequer se escuta.

Pode até parecer civilizado,
mas se olhar com cuidado e lucidez
vai perceber que quem está calado
só espera chegar a sua vez.


Fale merda que alguém no mesmo instante
dirá uma merda mais irrelevante
que não tem nada a ver com a merda acima.


Falar só serve pra fazer barulho.
Esse poema, mesmo, é um entulho.
Não muda nada – mas ao menos rima.

A reflexão que ele traz é sobretudo evidente nos versos “não é um bate-papo, é uma luta” e “vai perceber que quem está calado só espera chegar a sua vez“. Isto é, sobretudo, o que sinto na sociedade de hoje em dia, e no debate político em particular. Aliás, foi este, um dos sentimentos que nos levou, a mim e ao João Tiago Teixeira, a criar este blog, cuja visão está representada no nosso primeiro texto: “Bem-vindos à Mesa de Amigos

A dificuldade de empatizar com a visão do mundo que o outro tem e de não tentar perceber a razão de ele pensar assim são motivos mais que evidentes para a existência do atual ambiente de crispação e polarização que vemos hoje em dia. As pessoas são rotuladas e diminuídas por duas ou três ideias que defendem. Esquerdistas, Radicais, Comunas, Fachos, Direitolas, Socialistas, Liberais – são maneiras absurdamente simplistas de colocar as pessoas em prateleiras sem dedicar o tempo suficiente em perceber o que elas verdadeiramente pensam. É dos exercícios mais preguiçosos e ignorantes que vemos hoje em dia e que são o espelho de uma sociedade de facto mais literada e qualificada, mas nem por isso mais informada e empática. A perda total da humildade em admitir que a nossa visão do mundo é altamente finita e cingida ao nosso ambiente e estrato social é o que leva a dificuldade existente entre duas pessoas se sentarem, conversarem e aceitarem que é normal ter pontos de vista diferentes sobre um mesmo tema. Ter nervo e garra a defender os seus argumentos é saudável e recomendável, mas fechar-se na sua bolha e não querer ter contraditório é redutor.

A grande questão é: como resolvemos isto? Não tenho a solução, mas acredito que para as pessoas começarem a “se entender e se escutar” temos de responder às duas seguintes perguntas:

Por que razão vemos a política de forma tão diferente?

A sociedade é composta por pessoas com origens, percursos e personalidades diferentes. Esta diversidade que é tanto mais vincada dependendo da multiculturlidade do país em que vive determina a visão que cada um tem sobre os diferentes assuntos que nos preocupam e interessam.

Muitas vezes assumimos, sem pensar, que determinada coisa deve ser assim porque estamos plenamente convictos que o deve ser, quando o exercício a fazer primeiro seria “Porque penso desta forma?”. Se mergulharmos no âmago desta questão, iremos perceber que muitas das nossas posições nos milhares de assuntos discutidos em praça pública advêm mais dos nossos valores, emoções e experiências vividas (e até genes) do que propriamente da racionalidade. E está tudo certo com isso… Devemos é tomar a consciência de tal. Podem estar certos que os políticos jogam com as nossas emoções mais profundas e atacam fundo nos nossos valores individuais, caso contrário, como haveria tanto populismo e demagogia como há hoje em dia? Zero razão, total emoção, é a fórmula de sucesso deles!

A Teoria dos Pilares Morais desenvolvida por Jonathan Haidt, Craig Joseph e Jesse Graham ajuda-nos a perceber como é que uma comunidade constrói as suas concepções morais e culturais. No modelo por eles desenvolvido, dividem seis pilares morais em dois grupos distintos: ética da autonomia, que inclui a proteção, a proporcionalidade, a liberdade e o segundo grupo envolve a ética da comunidade, onde está a lealdade, a autoridade e a sacralidade. Os três primeiros são aqueles que hoje em dia mais facilmente nos ajudam a perceber como a política se divide nas suas principais visões morais: matriz de esquerda, conservadora ou liberal, porque ajudam a perceber a relação de cada individuo com a tribo. Os outros ajudam a compreender como o grupo mantém a sua coesão e lida com conflitos.

Facilmente chegamos à conclusão que a esquerda coloca mais peso no pilar da “proteção”, seguido da “liberdade” e os liberais claramente mais na “liberdade”, deixando os conservadores com um peso mais uniformemente distribuído por cada um dos seis referidos. No entanto, quem se atreve a dizer desde já que é de esquerda, que é liberal ou que é conservador? Deixo dois temas exemplo: aborto e economia de mercado. Quem é quem? Já sabem se são esquerdalhas ou direitolas?

De onde vem a divisão esquerda e direita?

A história diz-nos que este conceito nasceu da discórdia existente sobre a soberania legislativa e da manutenção ou não do poder de veto do Rei da recém criada Assembleia Nacional em 1789, resultante da Revolução Francesa. Foi curioso que durante as discussões, naturalmente aqueles que estavam a favor de manter o direito de veto do Rei se distribuíram à direita do hemiciclo e os que eram contra agruparam-se do lado esquerdo, pois achavam que isso ainda afetaria a soberania do povo e era contra os ideias da revolução. Por isso, ainda hoje se refere que os mais radicais e progressistas estão à esquerda e os mais conservadores à direita. No entanto, convenhamos que volvidos quase 250 anos desde esses tempos, muita coisa mudou, os conceitos evoluíram e sobretudo o mundo complexificou.

Deste modo, embora as três matrizes políticas que referi na resposta à primeira pergunta ainda estejam perfeitamente alinhadas com os valores das pessoas, a perspectiva esquerda-direita parece-me francamente ultrapassada para as incorporar. O modelo alternativo proposto para dividir a política tem então dois eixos: maior versus menor intervenção do Estado na economia, e o liberalismo versus tradicionalismo (ou autoritarismo) em relação à organização da sociedade e do estilo de vida de cada um. Abaixo, deixo uma proposta mais ou menos alinhada com esta visão e onde o autor encaixou os partidos portugueses. O que pensam desta divisão?

Compasso Político Português

O desafio que vos deixo agora passa por vos convidar a pensar nos grandes temas da política discutidos na nossa sociedade hoje em dia e definir o peso que atribuem ao papel do Estado em cada um dessas temas. As sugestões que vos deixo são as seguintes:

  • Política económica e taxação: Maior ou menor intervenção do Estado? Mais ou menos impostos?
  • Saúde: sistemas universais de acesso? Soluções privadas?
  • Alterações climáticas: Regulação ambiental forte ou fraca?
  • Imigração: Baixo ou alto controlo?
  • Educação: Financiamento do Estado? Livre escolha da Escola?
  • Assuntos sociais: Aborto e eutanásia – sim ou não? Direitos LGBTQ+, sim ou não?

Quem sou eu, afinal?

Se a tua resposta a estas perguntas for “Depende” ou até mesmo “Não sei”, está tudo certo e ainda bem que assim é. Somos muito mais do que os rótulos que nos põem e que nós colocamos aos outros. O mundo é demasiado complexo para ser discutido em realidades binárias ou refletidas naquilo que os nomes dos partidos são.

Agora, antes de quereres para ti “o olhar do bando“, começa primeiro por definir quais são os teus valores e que peso dás aos diferentes pilares morais, para que mais facilmente compreendas porque segues mais uma determinada matriz do que outra. Deixa isso bem claro para ti, e depois despe a capa da arrogância e da superioridade moral perante os outros e pergunta-lhes porque pensam eles de maneira diferente. Estou certo de que em muitos temas chegarão exatamente ao mesmo diagnóstico. Se o tratamento que prescrevem é diferente, é bem provável que a razão disso advenha do facto de a defesa das nossas verdades ser altamente incompleta e frágil. Com abertura suficiente para receber uma visão que pode construir sobre a nossa, o exercício do debate político deixa de ser tão ruidoso, bélico e polarizado. E é extremamente provável que aquilo que pensam hoje seja diferente daquilo que pensaram ou que irão pensar um dia, pois o mundo muda e vocês mudam com ele. Esta é até uma das razões que me levam a “fugir” de partidos altamente ideológicos e pouco flexíveis. Sinto sempre que um dia se poderão desatualizar em face da realidade que a sociedade vive no momento.

É esta humildade e curiosidade sobre a perspetiva do outro que eu gostaria de ver mais hoje em dia. Estou certo de que ajudaria na negociação de acordos mais robustos para o longo prazo e que mais facilmente levaria os políticos ao encontro dos interesses da grande maioria das pessoas. Talvez seja utópico demais…


José Ortega y Gasset, filósofo espanhol do século XX escreveu:

“Ser de esquerda é, como ser de direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, em efeito, são formas da hemiplegia moral…”

Esta foi uma frase escolhida pelo autor para criticar aqueles que se consideram ser de direita ou de esquerda, pois considerava que assim não eram capazes de pensar o mundo de uma forma mais ampla, que fosse para além da sua ideologia. É uma analogia usada com as pessoas que tem paralisia motora numa das metades do seu corpo, condição médica conhecida como hemiplegia.

Se depois de lerem este artigo não se sentirem “imbecis” é um excelente sinal. Significa que são mais do que um rótulo!

Escrito a 28 de janeiro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
Como foram definidos os termos direita e esquerda na política?

Chega, de Demagogia

Num momento em que o Chega cresce nas sondagens e se prepara para ser um dos muitos vencedores das eleições do próximo dia 10 de março, celebrou a sua existência numa convenção durante o último fim de semana, propagandeando ideias de “ambição” para o país e (re)elegendo o líder com mais de 99% dos votos.

Ninguém conseguiu ficar imune ao que se passou por ali, por isso não pude deixar de partilhar uma reflexão com todos os amigos que passam por cá.

A política, é aquilo é, não aquilo que devia ser.

A história da humanidade tem-se vindo a fazer de ciclos, ora os de luz, inteligência e esclarecimento, ora os de trevas, ignorância e ressentimento.

Em 2024 é possível discursar num congresso partidário, afirmar-se como fascista e depois dizer que “era tudo a brincar”, uma figura de estilo e que todos aqueles que acreditam e propagam numa versão literal das palavras são uns verdadeiros “maus da fita”.

É provável que este subliminar raciocínio tenha aplicabilidade a toda e qualquer medida das que tenha sido vendida apresentada num evento que fez corar qualquer profissional das televendas.

Fazer isto hoje é possível porque palavras como “fascismo” têm vindo a ser alvo de um ajuste, de um resignificado que coloca um tom novo sobre um timbre antigo. Se há algo que falha na comunicação dos políticos (e jornalistas) de hoje, é a incapacidade de distinguir os significados implícito e explicito das palavras e das ideias.

As palavras não existem de forma etérea num qualquer dicionário, existem antes de forma efémera no discurso das pessoas e o seu significado depende de onde, quando e como as usam, dependem daquilo em que as pessoas acreditam.

Ninguém que tenha assistido ao discurso do avô “fascista” acredita que aquele é um senhor ultranacionalista e autoritário cujo sonho é o de viver sob a tutela de um ditador e que quer para si, para a sua família e para Portugal um poder ditatorial que rejeite a democracia eleitoral e a (sua) liberdade política e económica.

Da mesma forma, ninguém acredita que se o líder Ventura tivesse a oportunidade de governar o país iria mesmo avançar com medidas que custariam ao orçamento de estado mais de 14 mil milhões de euros por ano.

Elevar todas as pensões aos valores do salário mínimo, eliminar impostos como o IUC e o IMI, aplicar IVA zero aos produtos essenciais e a todos os produtos portugueses e descer o IVA da restauração para 6%, parecem mais uma lista de desejos ao pai natal do que um programa político.

A pergunta que se impõe é: Vender isto tudo dá votos? Dá sim, não porque as pessoas acreditem que estas medidas vão mesmo acontecer, provavelmente nem acreditam que tal coisa seja possível, mas porque lhes permite manifestar o sentido em que pretendem ir: valorizar a sua reforma, reduzir os impostos das suas propriedades (esqueceram-se de vender os impostos de quem trabalha?), baixar o preço de bens essenciais e valorizar o que é nosso, o que é português.

A sociedade, é aquilo é, não aquilo que devia ser.

Estamos a viver um contexto distópico e nem nos apercebemos disso, os eleitores expressam uma espécie de síndrome de Estocolmo, uns querem devolver o governo àqueles que ao longo última década nos levaram a sitio nenhum, outros querem dar o governo a um partido “desonesto”, que já não se diz de protesto, que vende tudo e o seu contrário na busca de um voto e quer pôr o regime em estado de sítio.

Na verdade escrever este texto não serve de nada, pelo menos hoje. Talvez tenha alguma utilidade no futuro. Talvez chegue um dia em que faça sentido ler isto e recordar aquilo que esta sociedade viveu. Hoje, quem chegou até aqui, já sabia em quem votar, já tinha uma opinião formada sobre a sociedade, os partidos e os políticos, pelo que não seria um textinho que os iria fazer querer mudar.

Todos nós procuramos aquilo que valide o nosso pensamento e ignoramos tudo aquilo que o contradiga. Talvez escreva este texto apenas por mim, talvez para validar o meu pensamento, reforço para mim mesmo que tenho razão, faço-o por outros que pensem como eu, mas não sei quantos são, quantos chegam até aqui e quantos continuam a ignorar o que pode vir a seguir.

O problema do Chega não é o fascismo ou o totalitarismo, o problema é ser mais do mesmo, é vazio, é falsidade, é demagogia, vende tudo por uma mão cheia de nada, sem ter qualquer solução ou vontade de preparar o país para o futuro que há-de vir.

Aos eleitores, à sociedade e aos políticos, podemos suspirar o quanto quisermos pela nostalgia de um futuro alternativo, onde as coisas são o que são e são aquilo que devem ser, mas o futuro, tal como o presente, será sempre aquilo que é e sempre foi: incerto, brutal e imprevisível, sempre distante daquilo que devia ter sido.

Somos um país velho, envelhecido, que suspira por um passado que teima em não ser esquecido, um país sem jovens, sem mães e sem filhos, um pais condenado a ficar adormecido.

Escrito a 17 de janeiro de 2024 por João Tiago Teixeira

Créditos fotografia: CNN

Já sei o resultado das Legislativas de 2024!

“Se acertar nao se esqueçam: foi no Mesa de Amigos que leram primeiro!”

Estamos a mais de três meses das eleições e eu vou usufruir da ousadia que este blog permite para fazer uma análise à luz do dia de hoje. Se eu, porventura, acertar nas minhas estimativas, poderei dizer no dia 11 de março “Eu bem vos disse” e se falhar também não haverá nenhum problema, uma vez que nas últimas eleições não houve ninguém (ou quase ninguém) que antecipasse o resultado de maioria absoluta do PS. Deste modo, permitam-me ser o oráculo das próximas legislativas, aguardando pacientemente pelo contraditório vindo do vosso lado.

Taxa de Rejeição e Sondagens

Tenho dito e redito que a melhor coisa que poderia ter acontecido a Luís Montenegro (LM) foi a eleição de Pedro Nuno Santos (PNS). Na minha perspetiva, estas eleições vão jogar-se com os dois partidos do centro democrático e acho que com o aproximar do dia da ida às urnas se vai avolumar o foco dos votos no PS e PSD. A razão para defender esta minha posição está relacionada com a taxa de rejeição: um dos barómetros que tem ganhado mais relevância com a polarização política dos últimos anos.

Entenda por que a taxa de rejeição pode decidir a eleição” by Jornal O Globo

A taxa de rejeição é o reflexo da resposta do eleitor à pergunta: “Em quem nunca votaria?”. Neste campo, LM acaba por ter um potencial de voto mais elevado comparativamente aos restantes adversários: primeiro porque as sondagens ainda são tímidas relativamente a ele e segundo porque tem uma taxa de rejeição mais baixa vs PNS e outros líderes da esquerda (e da direita).

Embora os dados que partilho acima já possam estar desatualizados, pois já temos Secretário-Geral do PS, já aconteceu o Congresso do PSD, e já há uma coligação pré-eleitoral fechada entre PSD e CDS, eu acredito que ainda assim podemos tirar mais algumas conclusões com estes dados:

  • Sondagens que atribuam uma maioria de esquerda liderada pelo PS ou até um empate técnico com a Aliança Democrática podem ajudar à migração de votos do Chega (CH) e da Iniciativa Liberal (IL) para o maior partido da oposição, por haver muitos eleitores neste campo que são fortemente anti-socialistas. Estes eleitores poderão ter uma maior preocupação em garantir que o PS não é novamente Governo do que colocar uma cruz seguindo uma lógica de pureza ideológica. Vejam o que aconteceu em 2022 com a esquerda… O mesmo pode acontecer com a direita desta vez.
  • PNS vai secar a esquerda, porque, claramente, com a taxa de rejeição que André Ventura, Rui Rocha e Nuno Melo têm, o eleitorado de partidos como PCP, BE e Livre não terá pudor em aliar-se ao líder socialista posicionado (alegadamente) mais à esquerda de que há memória e garantir mais votos neste campo.
  • O CH está e vai continuar no centro político da discussão. O PSD sabe que perdeu as eleições (também) por causa deste partido em 2022 e o PS sabe que teve uma maioria absoluta à custa da narrativa do fantasma do CH. Deste modo, vamos continuar a ver jornalistas a pedir esclarecimentos a LM sobre possíveis alianças com a extrema-direita no pós 11 de março e vamos ver PS sempre a escarafunchar neste tópico para que ele seja usado como maior arma de fixação de eleitorado. Ao dia de hoje, o líder do PSD garantiu (e bem, na minha opinião) não negociar com André Ventura e também garantiu que se ficar em segundo não governa. Se depois dá mortal encarpado com flip-flap à retaguarda no dia 11 de março, então aí será julgado por essa decisão. Mas o PS não está contente com esta clareza de posição do PSD… não lhes dá mesmo jeito nenhum! (Nem a eles, nem à comunicação social que perde os seus deliciosos sound bites)
  • Os indecisos vão ter um papel determinante: Em 2022, a três meses das eleições representavam 14% do eleitorado, agora são 17%. É aqui que LM e PNS vão apostar muitas fichas e seguindo a lógica do meu argumento, vamos ver uma campanha feia e de ataques regulares com o intuito de ver a taxa de rejeição de ambos aumentar para captar eleitorado nas franjas. Será a campanha em que os dois líderes do centro chamam “radical” um ao outro… Fraco, fraquinho!

O argumento da Estabilidade e promessas eleitorais (ou eleitoralistas)

Temos assistido a ambos os partidos a defenderem-se como sendo a opção do garante da estabilidade do país. Parece-me que é o cavalo de batalha mais importante para os portugueses.

PNS usa o exemplo da gerigonça como bandeira, pois ainda recentemente se percebeu que foi o Governo mais bem avaliado pelos portugueses nos últimos 20 anos e que permitiu António Costa governar sem “grandes problemas”. Por isso é que o novo Secretário-Geral nem fala sobre a possibilidade de nova maioria absoluta… sabe que é um cartão de visita péssimo para as próximas eleições. Já os sociais democratas usam e abusam desta recente governação socialista para dizer que o PS não consegue garantir estabilidade nenhuma ao país. LM gosta deste argumento não só porque lhe dá jeito para ir buscar eleitores ao centro, como vai buscar à direita ainda que de forma mais subtil. O exemplo dos Açores e o cenário de eleições antecipadas que assistimos nesta região autónoma são o reflexo da falta de confiança que o PSD quer passar também sobre eventuais coligações com o CH e a IL, pois ambos roeram a corda aqui. É obvio que IL é muito diferente dos extremistas de direita e a sua influência no PSD é muito importante para reduzir o papel e peso do Estado na sociedade, mas o que se está aqui a jogar é o saque aos votos e aí já sabemos que vale tudo!

À parte deste argumento, saltam promessas eleitoralistas tanto dos encarnados como dos laranjas para os pensionistas, funcionários públicos e as classes mais baixas da sociedade portuguesa. Não tenho dúvida nenhuma que são medidas que vão sofrer operações de cosmética muito significativas no cenário de pós eleições. Portugal não tem espaço para aumentar a dívida pública e tem uma forte pressão da Europa para baixar custos. Ainda na semana passada, os ministros das Finanças da União Europeia chegaram a um acordo sobre a revisão das regras orçamentais, fixando tetos de dívida e défice muito claros. Não há espaço para delírios.

Sendo pragmáticos: é óbvio que ambos os líderes têm de apelar aos pensionistas, sao 3,5 milhoes de eleitores; é óbvio que têm de apelar aos mais pobres, pois 42% de famílias portuguesas não auferem rendimentos suficientes para pagar IRS, dependendo assim, largamente dos serviços do Estado; e é óbvio que têm de apelar aos funcionários públicos, são 750 mil eleitores à espera de aumentos de rendimentos, principalmente médicos e professores. Agora se o vão cumprir? Claro que não… Podem não ser os políticos mais bem preparados, mas não são estúpidos. Joga-se aqui uma vitória nas eleições, não o orçamento para os próximos 4 anos. Até lá muita coisa muda…

Personagens e enredos secundários

Acho que estas vão ser as eleições com mais intervenção de figuras e instituições externas que podem em larga medida influenciar e trazer fatores de incerteza para a conclusão que tiro a seguir:

  • António Costa, o optimista irritante que disse mais de uma dezena de vezes “confiança” no discurso de Natal, é dos políticos mais narcisos que temos. Por isso, uma perda das eleições por parte do PS é uma perda do antigo Primeiro-Ministro. Se as ganhar, pode dizer que é fruto do trabalho dele, se as perder vai dizer que foi uma cabala bem montada contra si. Vejo-o claramente a querer marcar presença regular na campanha.
  • Ministério Público, o jogador mais influente na política nos últimos anos, está aqui sob pressão para clarificar algumas acusações e insinuações feitas no caso Influencer o mais rapidamente possível. Isso poderá beneficiar ou prejudicar ambos os lados do espetro político.
  • Pedro Passos Coelho, o D. Sebastião da direita, que não dá a entender se está a espreita ou não para derrubar Montenegro num possível cenário de derrota política ou se está só a querer fazer jus à figura messiânica que aparenta ter sempre que fala. Ainda recentemente falou para atrapalhar o seu próprio partido com o tema “Chega”. A sua ambiguidade foi desnecessária… Era bom que estivesse ao lado de LM nestas eleições, para ajudar a captar eleitorado a Ventura, o seu maior fã. Acredito que se acontecer será mais para o fim da campanha.
  • Marcelo Rebelo de Sousa, o político mais popular das últimas décadas, tem lançado, recentemente, rasgados elogios ao antigo Primeiro-Ministro, esperando, certamente, que não surja mais uma sombra na política portuguesa. A sua transmissão de força e motivação para com António Costa e sua eventual ida para cargos europeus são o reflexo do jogador hábil que o Presidente da República é ao querer derrubar o político com menor taxa de rejeição do cenário português. Até porque sabe que um António Costa ressabiado e desocupado terá uma influência na política em Portugal pouco valiosa no seu ponto de vista. Um vaidoso reconhece sempre outro vaidoso…
  • Plano de Recuperação e Resiliência, o balão de oxigénio da economia portuguesa, será dos melhores aliados do Governo seguinte. É muito dinheiro e se for conseguida uma solução estável nos próximos 2 anos é quase certo que a economia (salvo algum percalço imprevisível ao dia de hoje) irá crescer e poderá garantir uma futura reeleição. Vai certamente ser uma valiosa arma de combate político.

Uma espécie de conclusão…

Acho que a Aliança Democrática vai ganhar as eleições, mas depende da cambalhota dos eleitores do Chega e da IL para tal. Segundo a sondagem de opinião realizada pela Aximage para DN/JN/TSF, 78% dos eleitores com mais de 65 anos rejeita o partido de Ventura, dando a LM a possibilidade de garantir estes eleitores. Para além disso, Rui Rocha e o líder do Chega têm 44% de potencial de voto nos mais jovens (18-34 anos), o que me leva a crer que numa visão anti-socialista, estes eleitores podem cair para o PSD por considerarem que o seu voto terá maior peso devido ao método D’Hondt. Este último ponto não é de somenos importância: a direita quer o poder ou quer fazer um voto ideologicamente puro (IL) ou contra o sistema (Chega)?

Se estou certo? Talvez sim, talvez não… Estamos a um tempo suficientemente distante das eleições para isto mudar tudo, mas estou seguro desta minha análise ao dia de hoje. O PS já leva muitos anos de governação, seria útil haver a mudança de cor. Se há aqui algum grau de análise emocional, se calhar sim, mas solidifiquei a minha posição com argumentos que me parecem bastante plausíveis. Se acertar não se esqueçam: foi no Mesa de Amigos que leram primeiro!

Escrito a 27 de dezembro de 2023 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
Pedro Nuno e Montenegro: dois sociais-democratas unidos por tudo o que os separa

Fui para o outro lado da Península…

“Precisamos muitas vezes de sair de perto dos nossos, sentir saudade, lutar e ambicionar mais porque a imprevisibilidade do futuro é tenebrosa.”

A última vez que escrevi no Blog já vai longe e estes quase seis meses desde a última crónica trouxeram algumas mudanças na minha vida.

Não querendo maçar os leitores com ela, realço apenas que há pouco mais de um mês deixei de trabalhar em Portugal e comecei a fazê-lo na vizinha Espanha. Os motivos que me levaram a esta decisão são vários e, não querendo aqui explorar tanto a questão do desenvolvimento de carreira profissional, vou antes debruçar a minha atenção sobre outro ponto: o aspeto social e financeiro.

Portugal é um país periférico, com uma economia pouco sofisticada, desenvolvida e globalizada, que representa um mercado interno que ronda os dez milhões de habitantes e onde as oportunidades de crescimento e desenvolvimento profissional e consequente subida salarial gradual são cada vez mais escassas. Ainda que me encontre a trabalhar num setor que é claramente um oásis neste país, a verdade é que a ambição e a projeção daquilo que pretendo para mim e para minha família fica claramente aquém do que creio que seja o melhor para um futuro confortável e folgado. Por essa razão, procurei oportunidades fora e integro agora, oficialmente, estes dados estatísticos que traduzem um aumento progressivo do número de emigrantes desde 2019, depois de baixas significativas que se deram de 2013 até perto do início da pandemia.

A teimosia em fazer cenários na minha vida e jogar com os dados existentes sobre a realidade social e financeira do país tiveram um enorme peso nesta decisão. E porquê? Porque os filhos de hoje (e de amanhã) vão ganhar menos e ter uma qualidade de vida inferior aos seus pais ainda que apresentem um grau de formação e conhecimento superior. Ora, isto é uma quebra total da expectativa do desenvolvimento de prosperidade familiar entre gerações mantida ao longo das últimas décadas no país, especialmente no pós 25 de abril. Quem não se lembra dos pais e dos avós dizerem que quanto mais estudássemos melhor seria a nossa vida? Pois, hoje em dia as coisas já não são bem assim…

“Young Generations Are Now Poorer Than Their Parents And It’s Changing Our Economies” by Economics Explained

As constantes crises económicas (umas mais duras do que outras) levaram a que as gerações mais jovens se tornassem significativamente mais pobres e que seja mais difícil às classes mais baixas ajudarem os seus filhos a serem beneficiados pelo chamado elevador social. Amordaçados pela enorme carga fiscal e com os custos de vida cada vez mais altos, sobretudo no que diz respeito a pagamento de rendas e empréstimos para a casa, o cenário idílico de ir para uma grande cidade para fazer dinheiro e ter “uma boa vida”, ou então investir na educação dos filhos que saem do interior para as boas e grandes universidades do litoral, já parece algo que se encaixa, para alguns, mais no campo da fantasia do que no da realidade. Ainda há bons exemplos disso, mas eles estão a diminuir e com isso vêm as frustrações e indignações sociais que levam à radicalização da minha e das gerações seguintes, por sentirem que não têm as oportunidades que merecem.

“Why it’s harder to earn more than your parents” by The Economist

No estudo “Portugal e o elevador social: nascer pobre é uma fatalidade?“, da autoria dos economistas Bruno Carvalho, Miguel Fonseca e Susana Peralta, publicado em outubro de 2023, percebe-se a importância que o contexto familiar tem no futuro das gerações seguintes. O dado mais relevante que destaco é o de que mais de 20% das pessoas que eram pobres aos 14 anos assim permaneciam na vida adulta, quer tivessem nascido nas décadas de 60, 70 ou 80. Rendimentos que os pais têm hoje, impactam nos rendimentos dos filhos amanhã.

Foi por me encontrar nessas condições mais extremas que emigrei? Felizmente não, estou bem longe disso e sei que sou um privilegiado, mas sei onde comecei e a sorte que tive de me ter cruzado com excelentes professores na escola pública, de os meus pais até há bem pouco tempo nunca terem precisado de ter seguro de saúde, porque o SNS dava resposta, e de ter tido uma casa oferecida pelos avós. Sabendo que o mundo é diferente, hoje em dia quero proporcionar aos meus filhos a possibilidade de estar num patamar que os impeça de ter uma vida mais difícil do que a minha e por isso procurei esta oportunidade fora para me ajudar nesse objetivo. Tenho um mestrado, uma pós-graduação e um MBA e penso nisto. Não dou o privilégio que tive e tenho como adquirido para a minha descendência, imaginem outros em muito piores condições que eu… Como mandam os seus filhos da “aldeia” para a cidade e os ajudam a pagar a renda do quarto para estudar na Universidade? Como podem as próximas gerações serem financeiramente independentes e ter a sua própria casa? Quando começam a construir família?

Precisamos muitas vezes de sair de perto dos nossos, sentir saudade, lutar e ambicionar mais porque a imprevisibilidade do futuro é tenebrosa. Que crises poderão estar por vir? Que custos vamos ter de acartar? Preocupações que decidi reduzir ao apostar nesta decisão. Irá compensar? Sim… já está e não só nesta perspectiva que aqui escrevi, claro!

Escrito a 2 de dezembro de 2023 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
Taxing the super-rich a good start to ending wealth inequality

“A JMJ vai ser um sucesso”, verdade ou consequência?

Para um país que depende tanto do turismo, o sucesso da JMJ pode representar uma boa oportunidade para desenvolver o nosso país, mas o seu insucesso representa um risco enorme para a nossa imagem internacional, que pode ser facilmente manchada por um “percalço viral”, num momento em que toda a imprensa mundial está aqui de visita.

Estamos cada vez mais próximos do início de um dos maiores eventos internacionais organizados por Portugal nas últimas décadas, já estão inscritos mais de 300 mil participantes na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e Lisboa prepara-se para a presença de mais de um milhão de peregrinos entre os dias 1 e 6 de Agosto.

Para melhor entender a dimensão desta peregrinação, é interessante pensar que durante o Euro 2004 recebemos o “mesmo” milhão de peregrinos, mas aí espaçados por um período de 23 dias e espalhados por todo o país.

Apesar da organização da JMJ ter recebido alguma atenção mediática, sobretudo quando surgem dificuldades ou problemas, não me recordo de alguma vez ter ouvido se interessava a Portugal querer organizar e se sim, porquê.

Acredito que a candidatura portuguesa tenha sido tomada de forma racional e suportada em argumentos fortes que justificaram de forma clara o nosso envolvimento, ainda assim como não os conheço sou obrigado a arriscar tentar deduzir alguns, como:

  • Reforçar o relevo diplomático do nosso país no seio da comunidade internacional.
  • Alavancar o futuro do setor do turismo, dando a conhecer o país a um milhão de turistas jovens de todo o mundo.
  • Capitalizar uma potencial oportunidade económica, que hoje se estima poder ser superior a 500 milhões de euros.
  • Agradar à população católica portuguesa, que é a maioria religiosa do nosso país laico.

Se tudo correr bem, acredito que estes objetivos possam ser facilmente alcançados e a JMJ seja recordada pela forma positiva como contribuiu para a boa imagem de Portugal, para a boa performance económica em 2023 e pelo seu impacto no turismo.

O problema é que num evento desta envergadura uma das poucas certezas que que tem a organização é a de que algo vai correr mal, e o verdadeiro desafio está em garantir que aquilo que corra mal não impacte significativamente o sucesso do evento e a imagem do país.

Se ao longo dos últimos meses assistimos a algumas discussões (des)interessantes, relacionadas com a legitimidade do financiamento público ou sobre quanto deve custar um altar, mais recentemente têm surgido notícias importantes que auguram (muitas) dificuldades.

Nos últimos dias têm surgido na comunicação social posições fraturantes e contraditórias entre a comissão organizadora da JMJ e governo e as demais instituições, tais como as câmaras municipais e associações que representam os profissionais e voluntários envolvidos no suporte ao evento.

Para complicar, são já vários os sindicatos a enviar pré-avisos de greve, que sendo oriundos de setores críticos ao sucesso da JMJ procuram alavancar a sua posição negocial:

  • Sindicatos da Portway, empresa de handling nos AEROPORTOS, que afetará a capacidade de transporte das malas na saída do país.
  • Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul, no contexto da requisição feita ao ACOLHIMENTO DE PEREGRINOS ESCOLAS da região para dar apoio ao recebimento dos visitantes.
  • Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante, que representa os revisores e trabalhadores das bilheteiras da empresa COMBOIOS DE PORTUGAL, que poderá afetar os comboios especiais disponibilizados para o evento.
  • FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS, que mantém ainda a ameaça de greve para os dias 1 e 2 de Agosto.
  • Sindicato Nacional dos Motoristas e Outros Trabalhadores da Câmara Municipal de Lisboa, que contemplam os motoristas e cantoneiros, trabalhadores afetos à REMOÇÃO DE RESÍDUOS NA CIDADE DE LISBOA.

Se já é difícil organizar a JMJ num cenário onde podem faltar médicos, transportes públicos ou locais para pernoitar, há que adicionar a incerteza que a vaga de calor anunciada pelo IPMA possa causar ou a dimensão e complexidade do dispositivo de segurança que está a preparar um evento onde não se pode excluir a possibilidade de um atentado que possa colocar em causa a segurança dos locais ou dos peregrinos.

Num contexto em que importa a todos que tudo corra bem, a demonstração pública de falta de solidariedade institucional, evidencia bem as brechas que existem na nossa sociedade, denunciadas pela incapacidade organizativa de quem lidera o planeamento.

Para um país que depende tanto do turismo, o sucesso da JMJ pode representar uma boa oportunidade para desenvolver o nosso país, mas o seu insucesso representa um risco enorme para a nossa imagem internacional, que pode ser facilmente manchada por um “percalço viral”, num momento em que toda a imprensa mundial está aqui de visita.

Estou ao lado de todos aqueles que desejam que nenhum dos riscos que ameaçam o sucesso da JMJ se concretize e que as instituições envolvidas encontrem um equilíbrio que garanta ao exterior a invisibilidade das nossas diferenças, contribuindo para que fiquem apenas memórias felizes entre aqueles que no início de Agosto, vão visitar Lisboa e o nosso País.

Esperemos que quando alguém disser “A JMJ foi um sucesso” esteja mesmo a dizer verdade, de outra forma é certo que mesmo que não sendo o próprio, haverá sempre alguém a enfrentar a consequência, talvez um secretário de estado, talvez um ministro, talvez o governo, ou à imagem de outros “relatórios”, talvez sejamos apenas nós e o País.

Escrito a 13 de julho de 2023 por João Tiago Teixeira

Créditos imagem: Logo JMJ

Campeonato Europeu de Futebol de 2004 – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

JMJ 2022: Presidente da República fala em vitória da Lusofonia – YouTube

Greves durante a Jornada Mundial da Juventude: um guia para se orientar | Jornada Mundial da Juventude | PÚBLICO (publico.pt)

Aeroportos nacionais enfrentam greve de quatro dias em Julho e Agosto | Jornada Mundial da Juventude | PÚBLICO (publico.pt)

JMJ Lisboa 2023

JMJ com impacto previsto entre 411 e 564 milhões – Renascença (sapo.pt)

JMJ. Prevista onda de calor para os dias do evento em Lisboa (rtp.pt)

Será o PS Imortal?

“Resumidamente, passamos metade do ano a ver a comunicação social e a bolha mediática a tratar o caso TAP como aquele que ia deitar o Governo abaixo, mas chega no final e estamos praticamente na mesma.”

Três meses, 46 audições e 170 horas depois, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à TAP já tem relatório preliminar. Relembrar que ela foi proposta pelo Bloco de Esquerda e foi constituída no seguimento da polémica indeminização de meio milhão de euros paga à ex-secretária de Estado do Tesouro Alexandra Reis para a saída da empresa em discussão. E o que conclui?

  • O despedimento de Alexandra Reis foi da “exclusiva vontade e iniciativa” de Christine Ourmières-Widener;
  • Pedro Nuno Santos e Hugo Mendes não “conheciam o clausulado do acordo” de saída de Alexandra Reis;
  • Não existe ligação entre a saída de Alexandra Reis e a sua nomeação para presidente da NAV, nem de pressão ou intervenção política por parte das tutelas;
  • E ainda deixou de fora (e bem, a meu ver) os acontecimentos nas instalações do Ministério das Infraestruturas que envolveram Frederico Pinheiro e a chefe de gabinete de João Galamba, e também a atuação das secretas na recuperação do computador do adjunto. Apesar disso, a relatora do PS, Ana Paula Bernardo, destaca que a não inclusão do caso neste relatório “não desvaloriza a sua pertinência”.

Posto isto, dá vontade de dizer que a grande conclusão é que esta CPI pouco ou nada belisca o Governo. Até podemos arriscar questionar se fez ou não sentido Pedro Nuno Santos demitir-se no seguimento dos acontecimentos. Todavia, todo este afastamento e recente regresso, do ponto de vista da aura política, fez com que o ex-ministro fosse bafejado por uma euforia única e digna de um verdadeiro herói (ou mártir, sei lá eu). Poucos são aqueles que no Partido Socialista (PS) não foram ao beija-mão no seu regresso ao Parlamento.

Depois de todo o reboliço, seja pelo lado da CPI e dos episódios mais intensos a ela associados, seja por este silêncio e regresso do alegado futuro secretário geral (e primeiro-ministro) do PS, é óbvio que houve uma cambalhota brutal nas intenções de voto e na popularidade de António Costa, não é verdade? Pois… não foi!

A última Sondagem Expresso-SIC, publicada há pouco mais de duas semanas, indica que a crise política recente em Portugal não beneficiou o Partido Social Democrata (PSD) e o seu líder Luís Montenegro. Mesmo com 71% dos inquiridos a avaliar o Governo como “mau” ou “muito mau”, o PSD manteve-se (firme) na mesma intenção de voto (30%). A popularidade do líder do grande partido da oposição até caiu, comparativamente à última sondagem (março 2023), situando-se agora em 3,9 numa escala de 0 a 10. Já o PS viu uma ligeira subida nas intenções de voto (31%) assim como seu líder, António Costa (4,8), mantendo-o como o político mais popular a seguir ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Os entrevistados manifestaram frustação com a situação atual do país, mas têm muito poucas expectativas relativamente à mudança de cor política no Governo e sem grande inclinação para premiar a oposição. Em tempos que se fala quase diariamente de um cenário de eleições anticipadas, o PSD continuaria dependente do Chega se quisesse ter uma maioria à direita em aliança com a IL e o CDS.

Parece-me que esse cenário é cada vez mais improvável. Creio que mantendo-se as coisas como estão, Luís Montenegro até pode ganhar as eleições Europeias, mas será por “poucochinho” e porque a desvalorização das mesmas por parte do eleitorado serve apenas como forma de mostar um cartão amarelo ao Governo.

Arrisco dizer que o PSD não vai “cheirar e provar” o poder nas próximas eleições. Primeiro porque o Povo continua a não vê-los como alternativa e segundo porque o PS tem retirado todos os históricos trunfos que o PSD usava para combater os socialistas: a despesa está controlada com redução constante da dívida; a economia cresce (ainda que pouco) comparativamente aos países ocidentais da Europa; e os pensionistas continuam na mão deles até porque foram os únicos que não perderam poder de compra durante a inflação graças às ajudas do Estado. Que pode Luís Montenegro fazer? Tem duas pérolas onde pode atacar e uma outra que pode explorar. A primeira é a saúde, a segunda são os professores e a terceira a habitação. Tudo áreas cujas reformas são de um grau de complexididade tão grande que são difíceis explicar ao Povo e cuja visão do PSD me parece pouco diferente da do PS. Para além disso, com o tempo que o PS tem até ao final da legislatura e com os cofres a encher à custa da inflação e do crescimento da economia, vai haver mais do que espaço para despejar dinheiro como penso rápido quando for altura de ir às urnas. Por isso, os eleitores vão continuar a não olhar para os sociais democratas como solução. Acresce ainda que muitos moderados ainda não perceberam bem se Montenegro quer ou não dançar com Ventura… O erro que Rui Rio cometeu subsiste.

Resumidamente, passamos metade do ano a ver a comunicação social e a bolha mediática a tratar o caso TAP como aquele que ia deitar o Governo abaixo, mas chega no final e estamos praticamente na mesma. Não adiantou nada a Marcelo pôr-se “contra” o Governo, porque no final do dia, Montenegro foi uma personagem completamente secundária em toda a novela.

Sabemos que a política tem muito de timing e cinismo, por isso pode ser que os trunfos (vulgo as políticas diferenciadoras) estejam a ser guardados para quando chegar a hora. Com um Governo tão pouco ideológico, Montenegro pode pensar que ao expor as suas ideias já, elas possam ser aproveitadas por Costa. Espero genuinamente que seja isso, mas tenho sérias dúvidas… Caso contrário a pergunta que se impõe é: “Será o PS imortal?”

Escrito a 6 de julho de 2023 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
Pedro Nuno Santos, o regresso ao Parlamento sem “nada de bombástico”
Pedro Nuno Santos regressa à vida política ao assumir lugar de deputado
Sondagem Expresso-SIC: PSD e Montenegro não ganharam nada com a crise política
Sondagem Expresso/SIC: Costa aguenta. PS mantém-se, PSD não descola

Para ser alternativa é só fazer oposição?

Luís Montenegro e Mariana Mortágua parecem ter estado bastante focados em fazer oposição, falta saber é se têm um plano robusto que os faça ser alternativa pois é isso que pode permitir que ser governo faça parte do futuro de algum dos dois.

Na semana em que Mariana Mortágua foi eleita nova coordenadora do Bloco de Esquerda e Luís Montenegro celebrou um ano de liderança no PSD, foram divulgadas sondagens que indíciam futuros muito diferentes para estes líderes políticos.

Se Mariana Mortágua parece ter razões para sorrir, vendo o seu partido a superar a barreira dos 10% e aproximar-se do terceiro lugar, apesar de poder dizer que está acima do PS, Montenegro vê o PSD afundar para valores ainda piores do que os atingidos em 2022 (figura 1).

Analisando os resultados podemos arriscar tirar algumas conclusões:

  • O bloco central PS + PSD está a esvaziar-se, caindo de 70,5% para 50,8%;
  • O bloco de direita PSD + CDS + IL cresce pouco, de 35,6% para 37,5%, mas a adição do Chega garante um peso superior a 50%;
  • A tríade da geringonça PS + BE + CDU perde força, caindo de 50,1% para 38,8%, mas o PAN e Livre ganham votos e mantém as intenções do voto à esquerda acima dos 45%.

Neste cenário o PS é o maior perdedor (-16,9%), a sucessão de casos está a desgastar o governo e a decisão de manter o ministro Galamba por aparente teimosia política está a eclipsar por completo os resultados económicos positivos.

O PS pode estar ferido, mas não está morto. Num contexto eleitoral conseguiria facilmente melhorar esta catástrofe, ora disputando votos à esquerda pelo apelo ao voto útil, ora disputando votos ao PSD via resultados económicos e “contas certas”, ora pelo aproveitamento do medo que uma coligação Chega – PSD causa na maioria do eleitorado moderado.

Inspirado pelo virtuosismo de Mariana Mortágua o BE parece estar renascido, desenvolvendo uma estratégia política menos dependente dos eixos cultural e social mais fraturantes e de teor eminentemente cosmopolita e de defesa de minorias, para uma mais focada na defesa dos direitos do trabalho e outros interesses mais corporativos.

Do lado do PSD não parece haver razões para sorrir, o partido não é capaz de capitalizar de forma nenhuma o desgaste do Governo Socialista, a política tem-se feito de casos e casinhos, uns relevantes, outros menos, e é nesse mar negro que o Montenegro tem procurado navegar à vista, aparentemente sem sucesso e muitas vezes ultrapassado por partidos muito mais confortáveis no contexto.

O PSD parece estar perdido, não conseguindo explicar a ninguém porque é que formaria uma melhor solução de governo, que decisões significativamente diferentes do PS é que está disposto a tomar e que estratégias alternativas tem em mente para melhorar a vida das pessoas.

Discutir a progressão de partidos como o Chega, IL, BE, PAN ou Livre julgando os eleitores pelo suporte que possam estar a dar a medidas ou posições extremas (racismo, ideologia libertária ou nacionalização da economia) é julgar os eleitores à luz de uma supra moralidade em detrimento de empatizar com as suas dores e incómodos, que esperam legitimamente ver supridos quando afirmam as suas intenções nas urnas.

O problema não está nos eleitores, se eles agem de uma forma mais emocional que racional isso é porque embora o processo eleitoral represente a oportunidade de escolha entre diferentes programas de governo (muito densos e complexos), o voto resume-se à generalização de uma perceção que o eleitor tenha sobre a posição que o líder ou partido possam ter num determinado assunto de elevada relevância ou interesse pessoal.

Aos partidos do arco da governação cabe a responsabilidade de entender o core das preocupações dos eleitores, e à luz da sua “ponderação” individual, definir estratégias que que respondam de forma eficaz aos problemas e necessidades.

Para ser governo não basta estar na oposição, para fazer oposição não é preciso ser alternativa, mas para ser alternativa é preciso mostrar capacidade para ser governo, e para isso há que conciliar um programa político que responda de forma consistente às necessidades imediatas dos eleitores (muitas vezes mais superficiais) com um robusto plano estratégico que tenha o potencial de transformar o futuro do país (cuidando de necessidades estruturais).

Luís Montenegro e Mariana Mortágua parecem ter estado bastante focados em fazer oposição, falta saber é se têm um plano robusto que os faça ser alternativa pois é isso que pode permitir que ser governo faça parte do futuro de algum dos dois.

Escrito a 08 de junho de 2023 por João Tiago Teixeira

Créditos fotografia: Nuno Botelho in Expresso e José Coelho Lusa

Montenegro, um ano após ser eleito: ″Não vamos dar descanso ao Governo″ (dn.pt)

Mariana Mortágua quer colocar o Bloco de Esquerda como terceira força política – SIC Notícias (sicnoticias.pt)

Lula no 25 de Abril, sim ou não? | A liberdade permite-nos discordar…

“Dizer (ou neste caso escrever) o que pensamos de forma não polarizada, construtiva, ainda que contraditória é um hino ao 25 de Abril. Orgulhamo-nos disso!”

No dia 25 de Abril vamos celebrar o quadragésimo nono aniversário da democracia. Há 49 anos que vivemos em liberdade, uma liberdade conquistada pelos nossos pais e avós e que a nossa geração, por vezes, parece desvalorizar.

O convite feito ao Presidente do Brasil, Lula da Silva, para vir a Portugal na altura das celebrações do 25 de Abril e a sua (alegada) inclusão no discurso da cerimónia oficial das comemorações gerou discórdia nos partidos da Assembleia da República e na opinião pública. Pior ficou depois das declarações feitas na visita oficial à China, quando referiu que os EUA e a União Europeia devem parar de encorajar a guerra e começar a falar de paz.

No Mesa de Amigos não ficamos indiferentes ao tema e até temos opiniões diferentes sobre o assunto, por isso escolhemos celebrar o 25 de Abril esgrimindo argumentos sobre os nossos pontos de vista.


Presidente Lula no 25 de Abril? Não, obrigado!

O Brasil é um dos maiores países do mundo, faz parte dos BRICS (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e é um dos parceiros estratégicos mais importantes de Portugal, seja pela história que nos une, seja pelo que o futuro nos reserva, pois será seguramente através dele que a língua portuguesa viverá.

Compreendo aqueles que realçam o privilégio que é poder contar com a presença do Presidente de um país como este na Assembleia da República, ainda assim não vejo de que forma é que a nossa relação diplomática justifica um convite de Estado para discursar na celebração do dia da Liberdade de Portugal e compreendo ainda menos quando este é um convite que depende do nome da pessoa que ocupa esse lugar.

Este não é um convite endereçado ao Presidente do Brasil, Lula da Silva, mas antes ao Lula da Silva, Presidente do Brasil. Todos sabemos (e concordamos) que este convite nunca teria sido endereçado ao Presidente Bolsonaro, pois nenhum dos partidos democráticos com assento parlamentar aceitaria a sua presença.

Assim sendo, de que forma é que o contributo de Lula da Silva pode enriquecer as celebrações do 25 de Abril?

Não podemos ser reféns do nosso passado e Lula já pagou pelos seus crimes, ainda assim falamos de um político que foi condenado por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e viu a condenação ser confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça do Brasil. Temos paralelismos suficientes na nossa democracia que justificam uma maior prudência na formalização deste tipo de convites.

Falando do presente, a recente visita de Lula à China mostrou que este é um político alinhado com a narrativa do bloco dos países revisionistas (China, Rússia, Irão, Coreia do Norte), seja pela defesa do surgimento de uma reserva de valor alternativa ao dólar (como o Renminbi), o enfraquecimento do poder das sanções económicas da Europa e Estados Unidos aos países autoritários, seja pela forma como  responsabilizou a Europa e Estados Unidos pela guerra que grassa na Ucrânia.

Se é compreensível que o Presidente do Brasil defina a política externa da nação que dirige da forma que melhor possa proteger os interesses dos seus eleitores e é aceitável que países aliados que fomentam relações diplomáticas fortes e estáveis possam existir pontos significativamente divergentes, não se compreende como é que no dia em que celebramos a nossa liberdade possamos convidar para discursar em nossa casa alguém que não reconheça ao povo ucraniano, nosso aliado, o direito de serem igualmente livres.

Por isso, considerando o que a celebração desta data significa para a memória coletiva do nosso país e para o nosso regime político, à pergunta “Presidente Lula no 25 de Abril?” respondo: Não, obrigado!


Presidente Lula no 25 de Abril? Sim, mas…

No final do século XIX, Otto von Bismarck, “O Chanceler de Ferro”, liderou a Alemanha com o intuito de garantir a sua unificação após uma série de batalhas conhecidas como as Guerras de Unificação Alemã, que garantiram a preservação da paz na Europa durante quase duas décadas. Conseguiu alcançar de uma forma extremamente hábil a reunificação do seu país em 1871, seguindo uma política de alianças e guerra, que foi posteriormente apelidada de Realpolitik. Esta palavra de origem germânica signfica “Política internacional ou de relações diplomáticas baseada essencialmente em questões práticas e pragmáticas, em detrimento de questões ideológicas ou éticas” (“realpolitik“, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Antes que me acusem de falta de escrúpulos ou ausência de consciência, eu acho que há limites que devem ser considerados aquando do exercício de funções políticas, não vale tudo para os interesses da Nação. Contudo, o ingrato ato de governar ou tomar decisões com base numa perspetiva de bem geral futuro envolve cinismo, pragmatismo e claro está, em determinados momentos a realpolitik. Foi a isto que assistimos neste episódio, tanto do lado português, como do lado brasileiro. Analisemos a situação em três pontos-chave:

Primeiro Ponto: A NATO representa 31 estados que têm um população combinada de mais de 950 milhões de pessoas (~16,5% da população mundial). Os BRICS em 2021 tinham uma população estimada de 3.200 milhões (>40% da população mundial). Deste modo, assumir uma visão do mundo meramente Eurocêntrica (ou “NATOcêntrica”) é uma atitude de enorme presunção e arrogância perante quase metade do mundo. Para o Brasil, a guerra na Ucrânia está tão distante como para nós estão as guerras e conflitos no Sudão, Myanmar, Iémen, Afeganistão ou até Cabo Delgado em Moçambique. Nem preciso explorar a relação e os interesses portugueses neste último país, pois não? É que assim vão-me obrigar a falar dos negócios (obscuros) que temos com os PALOPs…

Segundo Ponto: Os BRICS, como grupo de países de economias emergentes adotam, sem surpresa para ninguém e há muito tempo, posições anti-NATO e sobretudo anti-EUA. Há divergências ideológicas, pois são países com sistemas e valores políticos distintos. Há competição pela influência na ordem mundial e por defesa da multipolaridade em vez do domínio único americano. E há a questão da soberania nacional e não intervenção por parte da NATO em matéria de assuntos internos dos países. Campo onde há muito há a dizer sobre o papel dos EUA, com virtudes e contradições, claro…

Terceiro Ponto: A referida Realpolitik
Portugal viu durante o período Bolsonarista a criação de um fosso gigante entre os dois países irmãos. Por todas as razões históricas, políticas, económicas, sociais e culturais existentes, o nosso país (de 10 milhões de habitantes) pretende manter estreitas as relações com esta potência (de mais de 200 milhões de habitantes). Poderei ser criticado, mas acredito que Portugal neste momento poderá depender mais do Brasil, do que o Brasil de nós. Daí perceber a ousadia do Estado em convidar o Presidente do Brasil a estar presente, com algum destaque, numa, senão a mais importante, data da história contemporânea portuguesa.
Agora, claro está, Lula da Silva, o “tal” Presidente do Brasil, também sabe qual é o jogo político. Por um lado tem consciência que a principal porta de entrada na Europa do maior país da América Latina é Portugal, por outro sabe que a sua economia e poder no panorama mundial dependem de estar nas boas graças dos seus aliados não-europeus.

Se o que o Lula defendeu é contra o que eu defendo? Claro que é! Mas sejamos francos… Surpreendeu assim tanto? Não estavam à espera disso dele? Achavam que ia ter outra posição? Se sim foram ingénuos. E mais serão se acharem que devemos ter uma atitude pedagógica perante o sucedido com discursos paternalistas e armados em paladinos da ordem mundial.

Há necessidade de ter um governante externo ao nosso país presente nas celebrações do 25 de Abril? Sinceramente, acho que não, mas compreendo a presença deste em particular pelas razões acima descritas.

Por isso, à pergunta “Presidente Lula no 25 de Abril?” respondo: Sim, mas que seja de facto a excepção e não a regra. O jogo político e os interesses têm limites. Por isso não manchemos o quadragésimo nono aniversário da nossa democracia com isto. Talvez o Presidente da República, na sua astúcia e subtileza deixe umas mensagens interessantes no discurso. Todos queremos a paz, mas nem todos vemos que a culpa é do invasor e não do invadido. Vejamos o que se passará…


O espaço democrático não se faz de verdades absolutas ou posições indiscutíveis, o progresso faz-se de cedências e compromissos. Este é, por isso, o nosso contributo para que esta data continue a ser celebrada de uma forma aberta, construtiva e inclusiva. Valores que a liberdade nos trouxe e que aqui celebramos. Dizer (ou neste caso escrever) o que pensamos de forma não polarizada, construtiva, ainda que contraditória é um hino ao 25 de Abril. Orgulhamo-nos disso!

Escrito a 24 de abril de 2023 por João Tiago Teixeira e Sérgio Brandão

Queremos mesmo todos a verdade? Doa a quem doer?

Arquivada a discussão sobre o programa de habitação, 2023 continua mergulhado numa crise criada pelo governo, desta vez relacionada com a péssima gestão política da TAP.

Na semana passada a TAP publicou os resultados de 2022 onde foram atingidos lucros superiores a 65 milhões de euros, algo verdadeiramente histórico se considerarmos os objetivos traçados no plano de reestruturação.

Apesar desta poder ser uma informação muito relevante para o investidor português, está a ser tratada como meramente acessória. Foi relegada para segundo plano quando enquadrada numa gestão política desenvolvida à base da whatsapps, que nos deixou a discutir emails sobre pedidos de mudança da data de um avião para agradar a “um importante aliado político”.

Após a audição na comissão de inquérito à ex-CEO Christine Widener, fica no ar a sensação de que a demissão de uma gestora sénior com ótimos resultados, seja apenas mais um sintoma de um problema estrutural nacional: a deterioração da qualidade da classe política do nosso país.

Foi sob o desígnio estratégico da TAP ser uma das maiores empresas públicas portuguesas, responsável por cerca de 2% do PIB nacional e por milhares de empregos diretos e indiretos, que o governo liderado por António Costa decidiu não só renacionalizar a companhia aérea, assim como a de a subsidiar com mais de três mil milhões de euros dos cofres públicos.

Infelizmente, chegado o momento de tentar ilibar ministros e o governo, nem o cumprimento desse desígnio, nem três mil milhões de outras razões foram suficientes para prevenir a sequência de más decisões que fragilizam a posição do governo num momento em que se discute a possibilidade de uma nova privatização.

O governo pode agradecer a si próprio o flow do noticiário atual, pois foram os ministros das finanças e das infraestruturas que iniciaram este processo. Organizaram uma conferência de imprensa para se tentar ilibar, demitiram em direto uma CEO, proibiram-na de apresentar publicamente os resultados da TAP, e apesar disso mantiveram-na temporariamente, estando ainda hoje em funções.

Depois disto quantos serão os gestores competentes com vontade de se meter numa TAP, disponíveis para arriscar a sua carreira e a sua credibilidade, para trabalhar num ambiente em que as decisões de gestão se fazem por apetites ou pelo estado de humor dos políticos em funções?

A novela da TAP iniciou ainda em dezembro de 2022, vale a pena recordar os seus principais episódios :

  • A demissão de Alexandra Reis da TAP;
  • O pagamento de uma indemnização de 500.000€;
  • A sua contratação por outras instituições públicas – NAV & Ministério das Finanças;
  • A emissão de um despacho conjunto dos ministros das finanças e das infraestruturas pedindo um esclarecimento cabal sobre o acordo jurídico do despedimento da TAP;
  • A participação do secretário de estado Hugo Santos Mendes na elaboração da resposta da TAP ao pedido feito pelos ministros do seu governo;
  • Demissão do Ministro das Infraestruturas Pedro Nuno Santos;
  • A organização de uma reunião secreta para preparar a audição parlamentar de 19 de janeiro entre a CEO, membros do governo e do grupo parlamentar socialista;
  • Passado mais de um mês de ter sido comunicada a nulidade da indemnização, Alexandra Reis aguarda informação da TAP sobre o valor da devolução;
  • A displicência do secretário de estado sobre a possibilidade de alterar a data de voo de 200 passageiros para não arreliar um importante aliado político (o Presidente da República).

O Partido Socialista e o Governo não parecem perceber que o que está em jogo neste rol de escândalos não é apenas a ética e a transparência do governo, dos ministros ou dos secretários de estado, mas também a credibilidade e a legitimidade das instituições democráticas que representam.

O escândalo da TAP é um sintoma de uma doença mais profunda que afeta a democracia portuguesa: a corrosão da confiança. A confiança é um valor essencial para o funcionamento de qualquer sistema político baseado na representação e na participação dos cidadãos. Sem confiança nos governantes, nos representantes, nas instituições e nos meios de comunicação, a democracia arisca perder a sua vitalidade e legitimidade.

O Presidente da República vê-se cada vez mais sozinho. De um lado tem um governo maioritário desgastado que se sabota a si mesmo, do outro tem um PSD sem iniciativa política, incapaz de apresentar um projeto alternativo para o país e que vê fugir o eleitorado de direita para o Chega, ficando cada vez mais condicionado pelo crescimento do movimento anti regime.

O pedido do primeiro-ministro António Costa para que se apure a verdade sobre o caso da TAP, “doa a quem doer”, soa a vazio quando confrontado com todas as evidências de interferência política na gestão da empresa. A verdade parece ser para apurar, mas apenas se não for para ameaçar o poder socialista. O PS parece ser capaz de fazer tudo para se proteger, para proteger o seu poder e proteger a sua verdade, mesmo que isso possa fazer doer ao futuro da própria democracia.

Escrito a 12 de abril de 2023 por João Tiago Teixeira

Créditos fotografia: LUSA/Mário Cruz, in Rádio Renascença

TAP. Primeiro-ministro quer a verdade “doa a quem doer” (rtp.pt)

Presidente do PS sugere que Costa peça “desculpas” a Marcelo e aos portugueses | TAP | PÚBLICO (publico.pt)

Marcelo alerta Governo para risco de “desgaste” e desafia oposição a ser alternativa | TAP | PÚBLICO (publico.pt)

O novo Index Librorum Prohibitorum: a censura maquilhada

“Temos de deixar de ter a prepotência de achar que os nossos antepassados eram retrógados e arcaicos. Olhar para o passado e condená-lo com os olhos de hoje é um exercício de pura estupidez intelectual. Os livros devem ser lidos de forma crítica e à luz da realidade social do tempo em que foram escritos. Por isso nos ajudam a “viajar” no tempo e no espaço e são tão importantes para percebermos o que éramos e o que hoje somos.”

O Index Librorum Prohibitorum, é um símbolo representativo da duradoura censura eclesiástica que ilustra a longa e histórica luta entre o pensamento livre e os limites impostos por instituições religiosas. Com o objetivo de salvaguardar o risco moral e espiritual, este representou a forte tentativa da Igreja Católica em controlar e suprimir a disseminação de ideias que, na sua perspetiva, eram uma ameaça à ortodoxia religiosa e à estabilidade social. Foi instituído em 1559 e vigorou até 1966, sobre o papado de Paulo VI. Foi este último que pôs fim a este índice de livros proíbidos.

Auto de Fe en la plaza Mayor de Madrid” por Francisco Rizi

Trago esta nota histórica e uso-a como introdução nesta crónica por me ter cruzado com notícias recentes que referem a alteração de obras conceituadas com o intuito de as tornar mais inclusivas e “adaptadas aos novos tempos”. Daqui destaco a obra de Ian Fleming à volta do espião mais conhecido do mundo, 007, bem como as obras de Agatha Christie e de Roald Dahl.

Nos livros de James Bond, substituíram, por exemplo, a palavra nigga (calão para “preto”) por “pessoa negra” ou “homem negro” e deixaram a seguinte nota para os leitores “Este livro foi escrito numa época em que termos e atitudes que poderão ser considerados ofensivos pelos leitores modernos eram comuns. Uma série de atualizações foram feitas nesta edição, mantendo o texto o mais próximo possível do original e do período”. No livro de Agatha Christie, “O Mistério das Caraíbas”, retiraram toda uma passagem. Essa parte do livro descrevia que uma personagem não conseguiu ver uma mulher negra nuns arbustos à noite. Para além disso, nesse mesmo livro a descrição “dentes brancos adoráveis” foi substituída por “dentes bonitos”. No caso de Roald Dahl, a sua editora decidiu desenvolver uma segunda versão, mantendo à venda a original. Aqui temos exemplos de alterações que se prendem sobretudo com descrições físicas: em vez de “gordo”, “enorme” e em vez de “feia e burra”, apenas “burra”.

Agatha Christie

A tendência não é recente, mas tem-se vindo a intensificar nos últimos anos e a ganhar mais expressão. Da conhecida política de cancelamento que muitos famosos já têm sido vítimas, saltamos para um controlo da linguagem que usa os argumentos típicos do politicamente correto.

Sou a favor de um maior cuidado na nossa linguagem e comportamentos de modo a ter em conta uma redução de atitudes ofensivas, discriminatórias ou marginilizadores de grupos sociais específicos. Todavia, e fruto do ambiente social e político polarizado que hoje em dia vivemos nos diferentes campos da nossa sociedade, isto tem vindo a ser uma forma encapsulada de autocensura e de limitação da liberdade de expressão que tem atingido níveis inopináveis. O constrangimento vivido pelas pessoas para a partilha das suas opiniões e ideias com medo de ofender ou de serem rapidamente rotuladas de insensíveis ou preoconceituosas é absolutamente descabido, primitivo e anacrónico.

Quando muitas vezes em grupo ouvimos em tom de desabafo, ou de exasperação, “Isto hoje em dia já não se pode dizer nada…” percebemos que caminhamos para algo totalmente desmensurável.

É típico ouvirmos a associação deste tipo de movimentos a grupos de esquerda mais radical. De facto, quando olhamos para os Estados Unidos da América, existem algumas organizações como o We need Diverse Books ou o Disrupt Texts cuja objetivo é impedir que livros, que na óptica dos referidos, usam linguagem pouco inclusiva, racista ou misógina sejam acedidos por crianças. No entanto, e como resposta (polarizada) há também um crescente número de grupos de extrema-direita, ultraconservadores com a mesma postura de censura, mas pelas motivos opostos: proibir o ensino de “temas divisivos” sobre o racismo, sexismo ou de género. Mais uma vez, nos EUA, o Moms for Liberty ou o No Left Turn on Education são duas organizações que envolvem as famílias e que querem impedir que certos temas mais progressistas sejam abordados nas escolas, estando dispostos a impedir o acesso a determinados conteúdos. Conclusão: quando uma corrente se dispõe a extremar e a reprimir com o intuito de entrar no campo do politicamente correto “progressista”, outra acompanha para contrapor no campo do conservadorismo. Ambas levam ao mesmo: à censura maquilhada.

Eu confesso que tenho imensa dificuldade em compreender estes movimentos. Quero viver num mundo mais inclusivo e respeitador das diferenças? Claro que sim! Estou disposto a condicionar e a forçar os outros para que pensem como eu? É evidente que não. Tenho sérias dúvidas que este tipo de iniciativas tenham de facto impacto e que ajudem a reduzir atitudes menos inclusivas. Acredito no poder da educação como forma de ajudar crianças, adolescentes e adultos a compreender e a interpretar o que lêem e ouvem à luz da realidade em que foram escritos ou ditos. Sejam coisas do passado ou do presente.


Henry David Thoreau é autor da inteligente expressão “Books are the treasured wealth of the world and the fit inheritance of generations and nations” (“Os livros são a riqueza do mundo e a herança adequada de gerações e nações”). Temos de deixar de ter a prepotência de achar que os nossos antepassados eram retrógados e arcaicos. Olhar para o passado e condená-lo com os olhos de hoje é um exercício de pura estupidez intelectual. Os livros devem ser lidos de forma crítica e à luz da realidade social do tempo em que foram escritos. Por isso nos ajudam a “viajar” no tempo e no espaço e são tão importantes para percebermos o que éramos e o que hoje somos. Este “Neo”-Index Librorum Prohibitorum é absurdo e não nos ajuda a ser melhores.

Escrito a 2 de abril de 2023 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
“Auto de Fe en la plaza Mayor de Madrid” por Francisco Rizi
Agatha Christie’s classic detective novels edited to remove potentially offensive language
James Bond books edited to remove racist references

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‘Offensive’ books that have been rewritten