Há dias, no podcast 45 graus, José Maria Pimentel entrevistou o humorista, ator e escritor Gregório Duvivier. Numa conversa onde os protagonistas cruzam temas que vão desde o humor à política, houve um momento que captou a minha atenção: a declamação do “Soneto fático”, escrito pelo entrevistado e presente no seu livro “Sonetos de Amor e Sacanagem”.
Repare nas pessoas conversando:
não é um bate-papo, é uma luta.
Todos querem pra si o olhar do bando.
Ninguém se entende nem sequer se escuta.
Pode até parecer civilizado,
mas se olhar com cuidado e lucidez
vai perceber que quem está calado
só espera chegar a sua vez.
Fale merda que alguém no mesmo instante
dirá uma merda mais irrelevante
que não tem nada a ver com a merda acima.
Falar só serve pra fazer barulho.
Esse poema, mesmo, é um entulho.
Não muda nada – mas ao menos rima.
A reflexão que ele traz é sobretudo evidente nos versos “não é um bate-papo, é uma luta” e “vai perceber que quem está calado só espera chegar a sua vez“. Isto é, sobretudo, o que sinto na sociedade de hoje em dia, e no debate político em particular. Aliás, foi este, um dos sentimentos que nos levou, a mim e ao João Tiago Teixeira, a criar este blog, cuja visão está representada no nosso primeiro texto: “Bem-vindos à Mesa de Amigos“
A dificuldade de empatizar com a visão do mundo que o outro tem e de não tentar perceber a razão de ele pensar assim são motivos mais que evidentes para a existência do atual ambiente de crispação e polarização que vemos hoje em dia. As pessoas são rotuladas e diminuídas por duas ou três ideias que defendem. Esquerdistas, Radicais, Comunas, Fachos, Direitolas, Socialistas, Liberais – são maneiras absurdamente simplistas de colocar as pessoas em prateleiras sem dedicar o tempo suficiente em perceber o que elas verdadeiramente pensam. É dos exercícios mais preguiçosos e ignorantes que vemos hoje em dia e que são o espelho de uma sociedade de facto mais literada e qualificada, mas nem por isso mais informada e empática. A perda total da humildade em admitir que a nossa visão do mundo é altamente finita e cingida ao nosso ambiente e estrato social é o que leva a dificuldade existente entre duas pessoas se sentarem, conversarem e aceitarem que é normal ter pontos de vista diferentes sobre um mesmo tema. Ter nervo e garra a defender os seus argumentos é saudável e recomendável, mas fechar-se na sua bolha e não querer ter contraditório é redutor.
A grande questão é: como resolvemos isto? Não tenho a solução, mas acredito que para as pessoas começarem a “se entender e se escutar” temos de responder às duas seguintes perguntas:
Por que razão vemos a política de forma tão diferente?
A sociedade é composta por pessoas com origens, percursos e personalidades diferentes. Esta diversidade que é tanto mais vincada dependendo da multiculturlidade do país em que vive determina a visão que cada um tem sobre os diferentes assuntos que nos preocupam e interessam.
Muitas vezes assumimos, sem pensar, que determinada coisa deve ser assim porque estamos plenamente convictos que o deve ser, quando o exercício a fazer primeiro seria “Porque penso desta forma?”. Se mergulharmos no âmago desta questão, iremos perceber que muitas das nossas posições nos milhares de assuntos discutidos em praça pública advêm mais dos nossos valores, emoções e experiências vividas (e até genes) do que propriamente da racionalidade. E está tudo certo com isso… Devemos é tomar a consciência de tal. Podem estar certos que os políticos jogam com as nossas emoções mais profundas e atacam fundo nos nossos valores individuais, caso contrário, como haveria tanto populismo e demagogia como há hoje em dia? Zero razão, total emoção, é a fórmula de sucesso deles!
A Teoria dos Pilares Morais desenvolvida por Jonathan Haidt, Craig Joseph e Jesse Graham ajuda-nos a perceber como é que uma comunidade constrói as suas concepções morais e culturais. No modelo por eles desenvolvido, dividem seis pilares morais em dois grupos distintos: ética da autonomia, que inclui a proteção, a proporcionalidade, a liberdade e o segundo grupo envolve a ética da comunidade, onde está a lealdade, a autoridade e a sacralidade. Os três primeiros são aqueles que hoje em dia mais facilmente nos ajudam a perceber como a política se divide nas suas principais visões morais: matriz de esquerda, conservadora ou liberal, porque ajudam a perceber a relação de cada individuo com a tribo. Os outros ajudam a compreender como o grupo mantém a sua coesão e lida com conflitos.
Facilmente chegamos à conclusão que a esquerda coloca mais peso no pilar da “proteção”, seguido da “liberdade” e os liberais claramente mais na “liberdade”, deixando os conservadores com um peso mais uniformemente distribuído por cada um dos seis referidos. No entanto, quem se atreve a dizer desde já que é de esquerda, que é liberal ou que é conservador? Deixo dois temas exemplo: aborto e economia de mercado. Quem é quem? Já sabem se são esquerdalhas ou direitolas?
De onde vem a divisão esquerda e direita?
A história diz-nos que este conceito nasceu da discórdia existente sobre a soberania legislativa e da manutenção ou não do poder de veto do Rei da recém criada Assembleia Nacional em 1789, resultante da Revolução Francesa. Foi curioso que durante as discussões, naturalmente aqueles que estavam a favor de manter o direito de veto do Rei se distribuíram à direita do hemiciclo e os que eram contra agruparam-se do lado esquerdo, pois achavam que isso ainda afetaria a soberania do povo e era contra os ideias da revolução. Por isso, ainda hoje se refere que os mais radicais e progressistas estão à esquerda e os mais conservadores à direita. No entanto, convenhamos que volvidos quase 250 anos desde esses tempos, muita coisa mudou, os conceitos evoluíram e sobretudo o mundo complexificou.
Deste modo, embora as três matrizes políticas que referi na resposta à primeira pergunta ainda estejam perfeitamente alinhadas com os valores das pessoas, a perspectiva esquerda-direita parece-me francamente ultrapassada para as incorporar. O modelo alternativo proposto para dividir a política tem então dois eixos: maior versus menor intervenção do Estado na economia, e o liberalismo versus tradicionalismo (ou autoritarismo) em relação à organização da sociedade e do estilo de vida de cada um. Abaixo, deixo uma proposta mais ou menos alinhada com esta visão e onde o autor encaixou os partidos portugueses. O que pensam desta divisão?

O desafio que vos deixo agora passa por vos convidar a pensar nos grandes temas da política discutidos na nossa sociedade hoje em dia e definir o peso que atribuem ao papel do Estado em cada um dessas temas. As sugestões que vos deixo são as seguintes:
- Política económica e taxação: Maior ou menor intervenção do Estado? Mais ou menos impostos?
- Saúde: sistemas universais de acesso? Soluções privadas?
- Alterações climáticas: Regulação ambiental forte ou fraca?
- Imigração: Baixo ou alto controlo?
- Educação: Financiamento do Estado? Livre escolha da Escola?
- Assuntos sociais: Aborto e eutanásia – sim ou não? Direitos LGBTQ+, sim ou não?
Quem sou eu, afinal?
Se a tua resposta a estas perguntas for “Depende” ou até mesmo “Não sei”, está tudo certo e ainda bem que assim é. Somos muito mais do que os rótulos que nos põem e que nós colocamos aos outros. O mundo é demasiado complexo para ser discutido em realidades binárias ou refletidas naquilo que os nomes dos partidos são.
Agora, antes de quereres para ti “o olhar do bando“, começa primeiro por definir quais são os teus valores e que peso dás aos diferentes pilares morais, para que mais facilmente compreendas porque segues mais uma determinada matriz do que outra. Deixa isso bem claro para ti, e depois despe a capa da arrogância e da superioridade moral perante os outros e pergunta-lhes porque pensam eles de maneira diferente. Estou certo de que em muitos temas chegarão exatamente ao mesmo diagnóstico. Se o tratamento que prescrevem é diferente, é bem provável que a razão disso advenha do facto de a defesa das nossas verdades ser altamente incompleta e frágil. Com abertura suficiente para receber uma visão que pode construir sobre a nossa, o exercício do debate político deixa de ser tão ruidoso, bélico e polarizado. E é extremamente provável que aquilo que pensam hoje seja diferente daquilo que pensaram ou que irão pensar um dia, pois o mundo muda e vocês mudam com ele. Esta é até uma das razões que me levam a “fugir” de partidos altamente ideológicos e pouco flexíveis. Sinto sempre que um dia se poderão desatualizar em face da realidade que a sociedade vive no momento.
É esta humildade e curiosidade sobre a perspetiva do outro que eu gostaria de ver mais hoje em dia. Estou certo de que ajudaria na negociação de acordos mais robustos para o longo prazo e que mais facilmente levaria os políticos ao encontro dos interesses da grande maioria das pessoas. Talvez seja utópico demais…
José Ortega y Gasset, filósofo espanhol do século XX escreveu:
“Ser de esquerda é, como ser de direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, em efeito, são formas da hemiplegia moral…”
Esta foi uma frase escolhida pelo autor para criticar aqueles que se consideram ser de direita ou de esquerda, pois considerava que assim não eram capazes de pensar o mundo de uma forma mais ampla, que fosse para além da sua ideologia. É uma analogia usada com as pessoas que tem paralisia motora numa das metades do seu corpo, condição médica conhecida como hemiplegia.
Se depois de lerem este artigo não se sentirem “imbecis” é um excelente sinal. Significa que são mais do que um rótulo!
Escrito a 28 de janeiro de 2024 por Sérgio Brandão
Créditos de imagem:
Como foram definidos os termos direita e esquerda na política?








