Provavelmente, esta é a primeira vez em muitos anos que o leitor está a ler alguém que escreve que querer ser Professor em Portugal é querer fazer parte de uma das classes profissionais com melhor projeção de futuro no nosso país. Dada a crise que vivemos na educação e a falta de apoio demonstrada pelos sucessivos governos e pela sociedade em geral, é compreensível que esta afirmação pareça difícil de acreditar, contudo reitero: ser professor será exercer uma das profissões com melhor projeção de futuro e maior retorno financeiro nas próximas duas décadas.
Os professores têm um papel fundamental e invisível no desenvolvimento social e no crescimento económico do país, são os agentes que fomentam a redistribuição de riqueza e inclusão social ao fornecerem aos alunos as ferramentas essenciais que lhes possibilitam aspirar a uma mobilidade social ascendente e alcançar sucesso na vida.
Os professores são muito importantes e estamos no início de um período de escassez destes profissionais que em muito prejudicam o futuro dos alunos, em especial dos mais desfavorecidos, com implicações negativas no desenvolvimento da economia a longo prazo.
No início do ano letivo de 2023, em setembro, eram mais de 324 mil os alunos em Portugal que não tinham aulas a pelo menos uma disciplina, correspondendo a 18.680 turmas. A situação não melhorou significativamente até ao final do ano letivo, onde em maio de 2024 ainda eram 22.116 os alunos (1126 turmas) sem acesso a pelo menos uma disciplina. Nos casos mais extremos cerca de 1000 alunos distribuídos por 47 turmas não tiveram aulas a uma disciplina durante o ano inteiro. O problema afetou 163 agrupamentos escolares em 51 concelhos, sendo que 119 desses agrupamentos se concentram na Área Metropolitana de Lisboa.
É evidente que numa realidade em que os professores são obrigados a saltar de escola em escola até lhes ser possível fixar num quadro perto da sua residência, a falta destes seja mais grave nas regiões de maior concentração populacional e com um custo de vida elevado, tais como da grande Lisboa.
Um ministro da educação com peso político
A educação parece ter no economista Fernando Alexandre um Ministro com um peso político muito superior ao dos seus antecessores e que parece perceber melhor do que ninguém a importância desta classe profissional para o sucesso do nosso país.
Além do anúncio de acordo sobre a recuperação do tempo de serviço com os sindicatos nos primeiros meses de governação, o seu ministério apresentou no passado mês de junho uma estratégia de intervenção com o objetivo de reduzir os alunos sem aulas em 90%, assente em três eixos de ação:
- Reter e atrair docentes: Valorizar a carreira, reter os professores atuais e incentivar a formação de novos professores, destacando-se a campanha “Ser professor… é mudar vidas” e o anúncio de 2000 bolsas para a docência.
- Apoiar mais: Reduzir a carga burocrática dos docentes e melhorar as condições de trabalho, por exemplo, através do apoio administrativo às direções de turma.
- Gerir melhor: Dar mais autonomia às escolas, flexibilizar a gestão de horários e acelerar o processo de contratação.
Para que seja possível reter e atrair profissionais para a carreira docente é fundamental criar condições que garantam reconhecimento financeiro, através da revisão da carreira e patamares salariais; reconhecimento interno, com um maior respeito a ser prestado pelas estruturas do governo e do estado; e reconhecimento externo, numa sociedade que valorize e admire aqueles que desenvolvem a sua atividade profissional na área da educação.
Quão grave é a falta de professores?
A classe profissional docente é bastante envelhecida, segundo dados da Pordata (fig. 1), o índice de envelhecimento atingiu o seu pico em 2019 e 2020 em todos os níveis de ensino, com destaque para o 3º ciclo e o ensino secundário, onde havia 20 vezes mais professores com mais de 50 anos do que com menos de 35.

Embora a tendência do índice de envelhecimento esteja a diminuir ligeiramente, isso não é necessariamente uma boa notícia, uma vez que reflete mais a aposentação de professores do que a entrada de novos profissionais no mercado de trabalho.
Os anos em que eram 5 ou 6 mil estudantes a entrar na profissão já são passado. Desde 2016 são menos de 2000 os estudantes que se formam para dar aulas, tendo nas disciplinas de Português, Biologia e Geologia, Física e Química e Matemática aquelas que registam as maiores quedas, precisamente as disciplinas específicas que requerem exame para o acesso ao ensino superior.
Figura 2: Número de diplomados nos cursos de formação de professores, total e por disciplina – Pordata


Atendendo à média anual de novos professores ser inferior a 2000 e até 2030 estar estimada uma necessidade de recrutamento anual a rondar os 3000 a 4000 professores ano, conseguimos facilmente perceber que o país enfrenta um problema estrutural e serão cerca de 15.000 os professores em falta até ao final da década.
O acordo entre governo e sindicatos: o necessário reconhecimento financeiro
Um dos principais marcos da governação deste governo foi o acordo firmado com os sindicatos para negociar a recuperação do tempo de carreira que ficou congelado durante a intervenção da Troika, assim como da remoção dos estrangulamentos provocados pelas quotas definidas nos quarto e sexto escalões que limitavam a progressão profissional.
A infografia desenvolvida pelo jornal Público (fig. 3) permite perceber o quão significativo é este acordo para a evolução salarial, que se vai fazer sentir até Julho de 2027. Enquanto à data de hoje estão menos de 30.000 docentes entre o oitavo e o décimo escalão, com um salário entre a 2.920€ e 3.613€, até julho de 2027, vão ser mais de 70.000 os professores a atingir esse patamar.
O impacto não fica apenas por aqui, na realidade a quase totalidade dos docentes (95%) vai chegar a 2027 a ganhar mais de 2.400€, acedendo assim a um salário 65% superior ao salário médio registado em 2023, que ficou pelos 1.443€ mensais, e um terço dos docentes no décimo escalão da carreira, com um salário anual superior a 50.000€.
Mas a carreira docente (ainda) não é para jovens
Enquanto o escalão mais elevado da carreira compara de forma muito favorável com outros países da Europa, onde Portugal é o sexto país com maior salário anual, apenas atrás de países como Luxemburgo, Áustria, Alemanha, Países Baixos e Chipre, o salário após 10 e 15 anos de carreira é comparativamente mais baixo e bastante afastado do patamar final.

Um jovem que inicie agora o seu percurso profissional sabe que aos 35 anos estará apenas entre o 3º e 4º escalão, com um vencimento anual a rondar os 30.000€ brutos ano, que corresponderá a 1350 e os 1450€ líquidos por mês. O valor líquido é especialmente relevante por estarmos a falar dos professores fora do quadro, deslocados e que têm um impacto acrescido de despesas de deslocação.
Na sua participação no programa Grande Entrevista, conduzida pelo jornalista da RTP Vítor Gonçalves, o ministro Fernando Alexandre abriu a porta à revisão da carreira docente e dos seus patamares salariais, sobretudo nos seus patamares iniciais, focando na importância de trazer os jovens para esta profissão, ainda assim, sem a confirmação de mudanças significativas, é incerto que o plano do governo seja suficiente para colmatar a falta dos 15.000 profissionais.
Há que investir em paralelo no Reconhecimento Interno e no Reconhecimento Externo
A carreira docente foi marginalizada por sucessivos governos ao longo das últimas décadas , atingindo o seu ponto mais baixo durante o período da Troika quando foram inadvertidamente convidados a emigrar pelo então primeiro ministro, Passos Coelho. Ironicamente, não foram os 8 anos de governação socialista que resolveram este impasse, mas sim um governo do PSD e CDS que parece estar a tomar as medidas necessárias para remediar o dano causado.
Recentemente o governo investiu numa campanha de marketing “Ser professor… é mudar vidas” com o objetivo de apostar valorização da profissão, no entanto apesar do intuito poder ter sido nobre, a reação dos diferentes agentes do setor foi tão negativa que o governo acabou a apagar o site da iniciativa.
Embora quem critique a campanha possa não ter sido sensível à necessidade de comunicar aos jovens e à sociedade em geral a importância e relevância da sua profissão – Reconhecimento Externo, o feedback geral foi de que em vez de investir em campanhas de marketing (para reter quem está ou aliciar quem pode vir a estar na carreira docente) prefeririam que o governo investisse em medidas que facilitassem a mobilidade nacional e apoiassem os professores deslocados (que já estão ao dispor do ministério) – Reconhecimento Interno.
Que educação há para lá dos professores?
O atual governo parece ter resolvido, pelo menos parcialmente, o problema do congelamento das carreiras e está a criar condições financeiras mais favoráveis para que os professores possam decidir atrasar o período de reforma e apelar a que novos docentes possam pensar em entrar no setor.
Fechado o tema salarial é urgente que os agentes do setor estejam disponíveis e capacitados para se sentar à mesa a discutir o modelo educativo e pedagógico em Portugal. É necessário firmar consensos sobre objetivos e propósitos do ensino e avaliar se o sistema está a cumprir a sua função.
Uma questão que permanece é se a atual classe docente (envelhecida e desgastada) tem a vontade e vitalidade para poderem ser agentes proativos e capazes de construir o futuro do setor. Fica a dúvida sobre se as medidas implementadas serão suficientes para rejuvenescer a classe e se sem sangue novo será possível trazer o futuro à Educação.
Uma sociedade que falha em criar oportunidades para as suas crianças está condenada a estagnar, a perpetuar desigualdades e o ciclo da pobreza. Um governo que não invista na docência, na pedagogia e no desenvolvimento da educação é um governo que desistiu do futuro, do futuro das crianças e do futuro do país. Ser professor é, sem dúvida, fazer parte de uma profissão com futuro, mas é imperativo que estejam todos comprometidos em trazer o futuro à Educação.
Escrito a 22 de agosto de 2024 por João Tiago Teixeira
Créditos de imagem: José Coelho – Lusa
Outras informações de interesse:
Estudo Maio de 2022 – Medidas Educatias no Contexto Atual de Falta de Professores – Nova Business School














