Politiquice é movimento, Políticas é ação.

“Estar em movimento acontece quando se está ocupado com alguma coisa, mas por si só nao significa que traga algum resultado concreto. Por outro lado, a açao é o comportamento que traz retornos, produz efeitos.”

As pessoas habitualmente confundem dois conceitos: movimento e ação. Apesar de parecerem semelhantes não são na realidade iguais. E porquê?

Estar em movimento acontece quando se está ocupado com alguma coisa, mas por si só não significa que traga algum resultado concreto. Por outro lado, a ação é o comportamento que traz retornos, produz efeitos.

Se eu pensar em 10 ideias para escrever um artigo para o Mesa de Amigos, isso é movimento. Se eu o escrever e publicar, isso é ação.

O movimento é bom porque ajuda-nos a estar preparados para algo, mas por si só poderá não levar ao resultado que procuramos. Aí necessitamos de ações.


Trago à discussão estes conceitos como consequência da reflexão dos primeiros meses do novo Governo. É verdade que Luís Montenegro tem trazido à mesa vários temas fruto de uma vontade vertiginosa de marcar a agenda política e de deixar a oposição com pouco espaço. Ainda assim, tenho o receio de que a apresentação de alguns desses “pacotes” de medidas sejam mais “movimento” e menos “ação”.

No artigo “Exasperação, Excitação e Culpados após Eleições” que publiquei a 17 de março, ou seja, pouco depois do desfecho das Legislativas, escrevi o seguinte: “É por isso que eu acho que estivemos, estamos e vamos continuar a estar em campanha durante este ano.” Creio que volvidos já mais de 100 dias, não me enganei.

Sobre o receio de ir para eleições mais cedo, o Governo tomou a decisão de “marcar passo”, pois paira a névoa de elas serem antecipadas. Está implícito na “arte de bem governar” que as decisões difíceis se tomam nos primeiros anos do mandato e as populares e apelativas deixam-se para momentos prévios a eleições. Aqui vemos a narrativa inversa.

Assentes sobre uma maioria pequeníssima, com a dificuldade (e talvez desinteresse) em criar pontes para a definiçao de reformas importantes para o país vivemos o tempo da politiquice e não das políticas.

Este xadrez político de constantemente estar a ver quem coliga com quem no Parlamento, quem aprova ou não o Orçamento, quem vai à frente ou atrás nas intenções de voto dá aso ao “movimento” e põe na gaveta a tomada de “ações”. Só isso justifica estarmos já há um mês a discutir se o Orçamento passa ou não quando ainda ninguém sabe totalmente, e parece pouco importar saber-se o que lá vai aparecer.

O debate do Estado da Nação foi uma vergonha. Houve insultos, cinismo e prepotência quando em teoria se devia diagnosticar problemas, procurar soluções e definir ações. Não há um caminho claro do rumo que o país deve levar e isso advém da atual realidade política que se vive. Não quero com isto dizer que haja essa falta de visão por parte do Governo, mas sobre esta maioria escassa e fraca não se poderia antecipar outro desfecho. Todos estão em “modo sobrevivência” e isso é inimigo de boas e consequentes medidas.

Há um conformismo por parte do povo dizendo que isto da política sempre foi assim, mas eu discordo. Há muitas mais decisões tomadas hoje em dia para resoluções de curto prazo e isso vem sobre só uma forma: o despejo de dinheiro. Ainda que concorde que havia temas na gaveta que na realidade necessitavam somente disso, depois vemos que noutros que exigem discussão, planeamento e execução a médio e longo prazo, não ha espaço nem interesse para discutir.

Reparem que na educação não se fala da falha da escola pública como elevador social, da diminuição do peso dos exames nacionais para acesso ao ensino superior, da inflação das notas nos privados, entre outros. Fala-se da remuneração dos professores.

Na saúde até se fala dos atrasos, das dificuldades de acesso a cuidados de saúde, das urgências que abrem e fecham, mas no final do dia o que vemos mais são as queixas por parte dos médicos e enfermeiros das baixas remunerações e a reforma do Sistema Nacional de Saúde fica sempre de fora.

Na justiça todos sabem que é necessária quase uma revolução, que os mega processos são uma estupidez de todo o tamanho, que a corrupção é um problema que necessita de ser atacado, mas o que vemos mais agora são trocas de galhardetes entre políticos e o Ministério Público.

Na segurança falam-se dos subsídios de risco, mas pouco ou nada se refere sobre a atratividade das forças militares e policiais, do seu papel no controlo de fronteiras e de integração de imigrantes, da falta de meios humanos e tecnológicos.

Sobre a fiscalidade está assente o alfa e o omega do crescimento e desenvolvimento económico do país. Criou-se a percepção de que reduzir impostos é o único e mais valioso meio para atingir a prosperidade. Ainda que concorde que o país deva ter uma fiscalidade mais atrativa, seja para as empresas, seja para os jovens, seja para quem for, há uma ausência de espírito crítico e de elevação na discussão sobre como o país se deve desenvolver, captar investimento e reter talento. Vai para além da mera redução do IRS, IVA ou IRC. Isto é um dos passos…

E outros temas se poderiam comentar em que o ônus da discussão está pouco centrado no interesse do país e mais das corporações.

A culpa é dos políticos e é nossa, eleitores. Somos pouco exigentes e surfamos a onda das grandes capas de jornais e do clickbait das redes sociais. Para a direita até parece que a AD está a ser um Governo super reformista e para a oposição parece que Montenegro e os seus ministros não sabem negociar e aceitar as propostas maravilhosas que lhes têm sido apresentadas.

Politiquice é movimento, Politicas é açao. É importante saber distinguir.

Escrito a 1 de agosto de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
PS e PSD chegam a acordo para presidência rotativa na AR: “PSD vai dar a mão ao PS”, diz André Ventura

Entre a Decadência e a Psicopatia: o retrato de um país

“Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo?”

No passado dia 27 de junho ocorreu um debate entre Biden e Trump. Foi um primeiro teste em que se esperaria que o Partido Democrata, cavalgando a onda de deterioração da imagem do antigo presidente Republicano devido aos recentes casos judiciais, pudesse catapultar Biden para uma posição de vantagem a menos de 6 meses da eleição da democracia mais influente do Mundo.

Debate Completo: Primeiro frente-a-frente de Biden e Trump para a Casa Branca | WSJ

Sou fascinado por eleições. Adoro todo o processo da escolha dos candidatos por parte dos partidos, a apresentação de propostas, o jogo político, os debates, as campanhas, as análises feitas, a cobertura mediática. E felizmente 2024 tem sido meu amigo. Para além de todas aquelas que estão diretamente ligadas ao nosso país, tivemos já Taiwan, Índia, União Europeia, Reino Unido (terminou há dias), França a decorrer neste momento, e claro está, as eleições nos Estados Unidos da América. Tivesse eu mais tempo para ler, ouvir e estudar mais sobre cada uma delas…

Há um misto de emoções que decorrem em todos os processos eleitorais, mas aquela que me dá maior alento e motivação para acompanhar tudo isto é sem dúvida a esperança. Ainda que, em teoria, as eleições que mais me interessariam fossem as do meu país, ao vivermos num mundo globalizado e cada vez mais interligado, as eleições (quando feitas em países que vivem em democracias plenas) trazem-me sempre a esperança no reforço da democracia e de um mundo melhor e mais próspero para todos.

No entanto, é impossível ver o que se passa nos Estados Unidos e ficar entusiasmado. Os Americanos têm de ir às urnas escolher entre alguém com um claro declínio cognitivo e um psicopata descontrolado.

É lamentável que se tenha escondido dos americanos (e do Mundo) a clara deterioração das capacidades do Presidente dos Estados Unidos e, chegados aqui, o Partido Democrata vê-se em claras dificuldades para enfrentar e ganhar a um lunático que nunca escondeu ao que ia. Trump não apareceu de surpresa nestas eleições, toda a gente sabia e ninguém se acautelou. Culpa da Casa Branca, dos Democratas e também de Biden e da sua equipa, claro.

Ainda assim, eu não coloco os dois no mesmo patamar, como é obvio. Aflige-me até ver a quantidade de tinta que correu na descrição e deprecriação do atual estado de um homem como Joe Biden, que tem um currículo invejável na política interna e externa do seu país. Como é possível a sociedade global, como um todo, assumir que o Presidente perdeu o debate? Do outro lado tínhamos alguém que mais uma vez mentiu, mentiu e mentiu como já seria de esperar.

O New York Times identificou 20 declarações falsas de Trump, com outras 21 que considerou serem ou enganosas ou carecendo de contexto ou evidências. Este jornal não apontou declarações falsas proferidas por Biden, mas revelou que 11 se enquadravam no campo do “enganoso” ou “fora de contexto”.

Why Biden must withdraw?” – Artigo do The Economist

Num debate paupérrimo, moderado por jornalistas que fizeram perguntas básicas e que tiveram tudo menos o papel de moderar e desafiar os debatentes a elevar a discussão, permitiu-se a infantilização de temas como economia, imigração, saúde, segurança, entre outros, que tanto interessam aos eleitores e até ao Mundo. A CNN, representada por aqueles dois indivíduos, carregou no “play” e deixou correr um filme de terror visto por mais de 50 milhões de pessoas.

Biden vs Trump: Momentos chave do Debate Presidencial

Que sociedade é esta que permite que o país mais poderoso do Mundo leve a votos dois indivíduos assim? Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo? Que sociedade é esta que permite que dois jornalistas amorfos e acríticos liderem um debate desta importância?

É angustiante assistir a tudo isto no tantas vezes chamado “Farol das Democracias Liberais”. Será mesmo a esperança a última a morrer?

Escrito a 6 de julho de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Biden-Trump election rematch?

FCPorto, um voto na cadeira de sonho

No próximo sábado dia 27 decide-se o futuro da presidência do FCPorto, de um lado temos o carisma e história de quem fez de um pequeno, um grande gigante e do outro um vencedor, um sonhador que se apresenta agora às urnas, prometendo projetar o clube para um futuro de modernidade, rumo a novo sucesso.

Sei que precisamos de mudança mas não estou iludido, quaisquer que sejam os resultados das eleições do próximo sábado, esperam-nos períodos de grandes desafios e instabilidade, partilho com vocês a minha visão para o futuro do clube e que pode ser lida por qualquer uma das listas a candidatar-se.

Um clube é uma empresa

Um clube de futebol é uma empresa, como tal para atingir os objetivos a que se propõe tem de garantir de que dispõe das pessoas certas, imbuída da cultura certa (vencedora), com processos eficazes e eficientes, que em conjunto consolidem vantagens competitivas que o aproximem de maiores chances de sucesso e vitória.

Negar esta realidade não é negar o futuro, é negar o presente. São vários os exemplos de como os clubes que se gerem como empresas têm os maiores sucessos desportivos: Bayern de Munique e o seu record de campeonatos consecutivos, RB Leipzig e RB Salzburg que competem por títulos e vencem campeonatos nas respetivas ligas ou ainda mais relevante o histórico FCPorto das primeiras duas décadas deste século, que mantinha uma estrutura tão forte que um qualquer treinador arriscava ser campeão só por passar pelo Dragão.

Uma empresa tem de ser bem gerida

O Porto apresenta neste momento um passivo que ronda os 500 milhões de euros, dos quais à data da apresentação do Relatório de Contas do primeiro semestre da época 23/24, 265 milhões são passivo corrente (por isso executáveis num período de um ano) e embora apresentem cerca de 90 milhões de ativos correntes, iniciamos o dia 1 de janeiro apenas com 8.5 milhões de euros mobilizáveis em caixa, manifestamente pouco para o custo de Gastos com pessoal, acima dos 100 milhões de euros/época.

Este descalabro financeiro só pode ser explicado pelo acumular de más praticas de gestão, intencionais ou não, que só contribuem para distanciar o Porto do sucesso que todos ambicionamos, voltar a ganhar e ganhar repetidamente.

Um clube é uma empresa especial

Se pensarmos de forma abstrata um clube de futebol é uma sociedade cujo sucesso económico depende da valorização de ativos (jogadores), que está intimamente ligada aos processos de geração de valor (scouting, prospeção e desenvolvimento dos jogadores pela equipa técnica), cujo valor facial é altamente volátil e dependente de critérios de sucesso (vencer jogos, fazer boas exibições e vencer competições).

Os clubes que consolidarem os melhores processos de gestão e valorização de ativos e definirem o modelo de negócio com rentabilidade mais elevada que a dos concorrentes (absoluta e/ou percentual) serão aqueles que estarão em melhor posição para alimentar o funil de prospeção futuro e por isso mais perto da vitória seguinte.

Os desafios da empresa FCPorto

É verdade que hoje o FCPorto é uma marca internacional fruto do legado de um homem, mas Jorge Nuno Pinto da Costa não fez história sozinho, o seu sucesso define-se grandemente por ao longo do tempo ter sabido reunir as pessoas certas para o ajudar a conduzir os destinos do clube, seja na direção, na equipa técnica, nos capitães e restantes jogadores.

Infelizmente, ao longo dos últimos anos esse parece não ter sido o caso, a última década foi a menos reluzente para o nosso museu, e a trajetória financeira mostra que não encontraram a melhor forma de gerir a empresa FCPorto, e sem querer, com isso, esqueceram a importância de pensar no presente sem hipotecar o futuro da organização.

Pinto da Costa é e será sempre recordado pelo futebol mundial como o Presidente dos Presidentes! Que se façam estatuas, que se dê nomes a ruas, que se escrevam livros, cantos e odes, celebremos todos a felicidade de podermos ter vivido o seu sucesso.

Não haverá melhor forma de honrar a sua história do que permitir que se faça aqui a passagem de testemunho para um sucessor legítimo, um verdadeiro herdeiro, democraticamente eleito, que impeça a abertura de guerras futuras pela sucessão de autodenominados sucessores que ambicionem para proveito próprio a liderança do clube.

O meu apelo ao voto

Se o meu avô estivesse aqui hoje iria continuar a defender o Pinto de Costa, para ele o presidente foi sempre o homem certo no lugar certo e por isso defenderia a sua permanência à frente do nosso clube, eternamente grato por tudo aquilo que teve a oportunidade de viver.

Aprendi com ele que ao longo da vida podíamos mudar de tudo, de cidade, de país, de nacionalidade, de profissão, de partido, de amor, mudar até de religião, mas de clube nunca, esse seria sempre um amor eterno, seria sempre o nosso clube até morrer.

Sou nascido e criado no Porto, portista desde bébé, saltei os torniquetes das Antas quando era menino, vivi tardes incríveis no estádio antigo, celebrei inúmeros golos no Dragão, chorei pelo Kelvin a ser campeão, vivi os meus longos anos da adolescência num museu, o museu privado do FCPorto que o meu avô criou, fruto do seu amor e dedicação, que tanto o enchia de orgulho, por isso o meu destino era inevitável, penso sinto e respiro azul e branco.

Fotos do museu do meu Avô Alexandrino Azevedo

O meu avô fez parte da comissão que apoiou a candidatura do nosso presidente desde o primeiro momento, e desde muito novo me levou para a missão de recolher assinaturas para firmar a recondução da sua liderança, mandato após mandato. Comecei a fazê-lo muito jovem e recordo com carinho a forma como todos os portistas assinavam de bom grado, desejando que o nosso presidente continuasse a alimentar a chama da vitória.

Recordo-me de um dia em que fui para a loja do associado do estádio do dragão recolher assinaturas e um sócio me disse “não”. Não queria assinar por ter tido uma interação com o presidente que o tinha deixado triste, teria tentado cumprimentá-lo sem sucesso e esperava maior simpatia para outro sócio dragão.

Recordo-me com orgulho desse dia, pois foi o primeiro dia da minha vida em que tive a oportunidade de transformar um não em sim, recordo-me de lhe ter dito que lhe pedia a assinatura não pelas qualidades pessoais do homem Jorge Nuno Pinto da Costa, mas antes pelas competências profissionais do nosso presidente, o melhor presidente de todos os tempos.

Guardo com carinho esse dia, talvez por ter sido a primeira “venda” que fiz, uma venda fácil diga-se, ainda assim o dia em que mobilizei um sócio para apoiar o presidente em que eu acreditava que nos poderia continuar a fazer feliz.

Hoje faço-o novamente, volto a tentar mobilizar o apoio no candidato que acredito estar em melhores condições para nos fazer feliz, apelo por isso ao voto na candidatura de André Vilas Boas e escrevo este texto quiçá para convencer um indeciso, ou fazer duvidar um decidido que possa preferir votar em branco e assim em vez de ceder ao sabor da gratidão, possa permitir ao clube abraçar o melhor futuro.

Ao escrever este texto sei que honro a memória do meu avô, honro as convicções que ele me ensinou, devemos lutar pelo que achamos estar certo, e tal como ele disse desde a barriga da sua mãe até ao seu ultimo dia, não há nada mais certo que defender o clube que nos unia, partilho por isso o meu apelo a defender o clube que me inspirou a amar, no próximo 27 é dia de ir ao Dragão, é dia de mudar.

Escrito a 23 de abril de 2024 por João Tiago Teixeira

Desmontando la Meritocracia: Diálogo con Guiu Xuclà Serés

“Solo puedo compartir en este punto que para mi lo más importante es tener consciencia de clase, autoconocimiento y humildad.

Creo que, con una visión más honesta de uno mismo, seremos más generosos, más humildes y ayudaremos más a aquellos que tenemos a nuestro lado…”

Versión en español

Esta semana vamos a abordar un tema de gran relevancia en el mundo contemporáneo: La meritocracia. La meritocracia es un sistema que premia a las personas en función de sus méritos individuales, en lugar de su origen, raza, género o cualquier otra característica. Este concepto a menudo se asocia con la justicia y la equidad, ya que premia a las personas que trabajan duro y muestran talento. Sin embargo, también puede llevar a la desigualdad y la exclusión, ya que no todos tienen las mismas oportunidades para demostrar su mérito.

La meritocracia ha experimentado una serie de transformaciones a lo largo de la historia, adaptándose a los cambios en la sociedad y en los sistemas de valores. Actualmente, vemos cómo la meritocracia puede tener un impacto significativo en varios aspectos de la vida social, incluyendo la educación y el trabajo.
Hace unos meses, Guiu Xuclà Serés, mi compañero de trabajo que tuve el placer de conocer cuando me mudé a Barcelona, escribió lo siguiente en una publicación en su perfil de LinkedIn:

“Fue complicado enfrentarme al pensamiento (ni que fuera por momentos) de que mi éxito (y mis derrotas) poco dependían de mí y creo que solo por eso ya valió la pena preguntarme: ¿existe la meritocracia? ¿me he ganado esto que tengo? ¿me voy a ganar mi futuro? ¿cómo me sitúa esto respecto mis compañeros?”

Disfruté mucho de esta reflexión suya, porque a pesar de que no es un tema en el que me haya profundizado mucho, la verdad es que ya había pensado en él y en el impacto que tiene en la sociedad. Por eso, le invité a ayudarme a desglosar este tema y a responder algunas preguntas que tenía sobre el asunto y que creo que también puede ayudar al lector.

Guiu, es graduado en Biotecnología, con especialización en gestión y marketing en el sector farmacéutico. Es una persona curiosa, con un excelente espíritu crítico y abierta al desafío intelectual que una buena discusión puede traer. Me pareció la persona ideal para invitar a una entrevista en “Mesa de Amigos”. ¡Disfruten!

¿Como defines el “merito” y como crees que el concepto ha evolucionado a lo largo de la historia? ¿Estás de acuerdo con el concepto en toda su amplitud?

Es una pregunta extremadamente compleja que creo que nos podría llevar a discutir sobre ella durante mucho tiempo y me gustaría decir que no soy un experto en ello. Soy solamente un gran interesado después de haber leído a Sandel opinar y hablar sobre esta cuestión.

Para mí el mérito es creer que te has ganado aquello que tienes y te lo has ganado en base a tu trabajo y a tu esfuerzo. Creo que todos nos hemos criado en este contexto: tu estudias, tú te esfuerzas, tu trabajas con tesón y, finalmente, llega una recompensa. Esa recompensa no es fruto de la casualidad ni de la suerte, es el premio y el reconocimiento a todo ese esfuerzo depositado durante mucho tiempo. Hasta ahí, parece que todo normal… que todo nos suena bien. Hacemos una relación causa-efecto: si tú te esfuerzas mucho y lo haces muy bien, triunfarás. Subirás al ascensor social.

Eso sería cierto al cien por cien si fuéramos capaces de asegurar la igualdad de oportunidades, pero ¿podemos decir que vivimos en una sociedad que no solo lo intenta, sino que lo consigue? ¿vivimos en una sociedad que reparte a todo el mundo las mismas cartas al inicio del juego? Creo que es utópico pensar que eso es así.

¿Cuánto de lo que hacemos es suerte de clase? Creo que siendo conscientes y justos en el juicio de qué elementos te han llevado o no al éxito (lo que queramos que sea el éxito), seremos más empáticos. Al final, siempre es cuestión de self-awareness, a mi entender, y está claro, que no solamente es aquello que tú has hecho si no, como digo, tener consciencia de clase.

¿De qué manera crees que la actual visión sobre la meritocracia ha influenciado y impactado la sociedad y su cohesión?

Recuerdo que una de las cosas más duras que leí de Sandel fue la reflexión que comparte y es que, en algún punto, si creemos que con esfuerzo y tesón llegaremos a conseguir el éxito, aquellos que no lo consiguen les estamos diciendo: tú has perdido, pero no porque no hayamos sido capaces como sociedad de ayudarte a ganar, sino porque no te has esforzado suficiente. Tu derrota es solo culpa tuya y mis éxitos son solo mérito mío.

Esta reflexión que de un modo más o menos consciente tengamos o hayamos podido tener, culpabiliza a las personas que no han conseguido aquello que se proponen y pone el foco en el individuo, algo que creo que es común en nuestra sociedad.

Creo que cada vez pensamos menos en un contexto de comunidad y lo hacemos más como personas individuales cosa que enriquece a su vez esta sensación de que lo tuyo te lo ganas tú y lo que no eres capaz de conseguir, tus fracasos, son también siempre responsabilidad tuya.

Creo que la clave está en entender qué es el privilegio y cómo la educación, el entorno o algo tan sencillo como tener unos padres que han podido ayudarte a hacer los deberes o una habitación con silencio para poder estudiar, te ha ayudado a estar donde estás y, por lo tanto, ser empático con aquel que no tuvo lo mismo y no ha podido conseguir lo mismo.

Una vez somos conscientes de eso, creo que la mirada al prójimo se transforma. Tus éxitos pierden relevancia, la humildad crece en ti de un modo más claro porque te quitas importancia (cosa compleja en una sociedad como en la que vivimos) y estoy convencido de que el liderazgo que puedes ejercer desde esa perspectiva, con una mayor conciencia de clase también, se vuelve mucho más realista y empático.

¿Qué rol juega el sistema educativo en todo esto?

Creo que la educación es uno de los elementos claves de nuestra sociedad y son el eje vertebrador de esa igualdad de oportunidades que deberíamos perseguir. Puedo decir, que me siento afortunado de vivir en un país donde tenemos escuelas y universidades públicas de alto nivel. La Universidad de Barcelona, por ejemplo, ha aparecido bien posicionada en rankings de forma recurrente.

Podríamos discutir acerca de si las universidades o escuelas públicas, sobre todo lo primero, son públicas de verdad y si todo el mundo puede acceder a ellas, pero compartiremos que no nos encontramos delante de un sistema tan tremendamente agresivo como es el americano y su tan codiciada Ivy League, por poner su ejemplo más extremo.

En este sentido, subir al ascensor social podría parecer más sencillo en España que no en Estados Unidos, por ejemplo, pero auguro que esto no es suficiente ya que incluso en España seguimos sufriendo desigualdad y esa desigualdad estoy convencido de que impacta en las oportunidades que tenemos en el futuro. Está claro que un sistema educativo muy sólido y bien estructurado es un elemento fundamental para luchar contra esa desigualdad.

Dicho esto, también en España tenemos escuelas de negocios muy importantes con unos precios muy elevados y claramente con sistemas de becas insuficientes y que teóricamente preparan a los líderes del futuro. ¿Qué líderes pueden acceder a ese nivel educativo y, por lo tanto, qué visión del liderazgo vamos a tener? Eso lo dejo en tu mesa.

¿La tecnología y la globalización ha afectado también?

La tecnología y la globalización afecta en el sentido de que los mercados se vuelven globales y las oportunidades profesionales también, pero, probablemente, no diría que es el punto que impacta de una forma más radical en todo esto.

Antes teníamos eminentemente personas que emigraban por falta de oportunidades y eso se sigue manteniendo y aquí está el core de la desigualdad y la potencial falta de oportunidades para prosperar digamos, lo que pasa es que hemos incorporado la emigración y la deslocalización también en perfiles profesionales de mayor especialización. De algún modo, veo que son capas distintas de un pastel entero, por lo tanto, no creo que se mezclen entre ellas.

Con todo esto, lo que acabo diciendo es: ¿qué probabilidad hay de que una persona de un barrio muy humilde pueda llegar a ser un alto directivo? ¿Es posible? Coincidiremos en que, si la respuesta es que es muy complejo, no será porqué venga una persona de otro país y ocupe esa posición (que puede suceder) sino porque, probablemente, en realidad, por todo su recorrido vital, será altamente complejo que pueda conseguirlo. Y es ahí donde debemos poner el foco.

¿Desde tu perspectiva qué políticas podrían promover un equilibrio más justo entre el mérito individual y el bienestar colectivo?

Honestamente no me siento preparado para responder esta pregunta. Solo puedo compartir en este punto que para mi lo más importante es tener consciencia de clase, autoconocimiento y humildad.

Creo que, con una visión más honesta de uno mismo, seremos más generosos, más humildes y ayudaremos más a aquellos que tenemos a nuestro lado porque seremos, en el fondo, más conscientes de lo afortunados que somos.


Versão em português

Esta semana vamos abordar um assunto de grande relevância no mundo contemporâneo: a meritocracia. A meritocracia é um sistema que recompensa pessoas com base nos seus méritos individuais e não na origem, raça, gênero ou outra qualquer característica. Este conceito é geralmente associado à justiça e igualdade, pois recompensa as pessoas que trabalham mais e demonstram talento. No entanto, também pode levar à exclusão e desigualdade, uma vez que nem todos têm as mesmas oportunidades para provar o seu mérito.

A meritocracia tem experimentado uma série de transformações ao longo da história, adaptando-se às mudanças na sociedade e nos sistemas de valores. Atualmente, conseguimos ver como a meritocracia pode ter um impacto significativo nos vários aspectos da vida social, incluindo a educação e o trabalho.

Há uns meses atrás, Guiu Xuclà Serés, colega de trabalho que tive o prazer de conhecer quando me mudei para Barcelona, escreveu o seguinte numa publicação no seu perfil do LinkedIn:

“Foi complicado enfrentar o pensamento (mesmo que em momentos) de que o meu sucesso (e as minhas derrotas) pouco dependiam de mim e acho que só por isso já valeu a pena perguntar: a meritocracia existe? Consegui tudo o que tenho? Vou conseguir o meu futuro? Como é que isso me posiciona face aos meus colegas?”

Eu apreciei bastante a reflexão que ele fez, porque, apesar de não ser um assunto que tenha ainda aprofundado muito, a verdade é que eu já tinha pensado sobre ele e sobre o impacto que tem na sociedade. Por isso, convidei-o a ajudar-me a desvendar este tema e responder a algumas perguntas que tinha sobre o assunto e que acredito também possa esclarecer o leitor.

Guiu é formado em Biotecnologia, com especialização em gestão e marketing no setor farmacêutico. É uma pessoa curiosa, com excelente sentido crítico e aberta ao desafio intelectual que uma boa discussão pode trazer. Pareceu-me por isso a pessoa ideal para convidar para uma entrevista no “Mesa de Amigos”. Espero que gostem!

Como defines o “mérito” e como achas que o conceito evoluiu ao longo da história? Concordas com o conceito em toda a sua amplitude?

É uma pergunta extremamente complexa que acredito poderia levar-nos a discutir sobre isso por muito tempo. Eu gostaria de começar por dizer que não sou um especialista no assunto, sou apenas um grande interessado após ter lido e ouvido Sandel a partilhar as suas ideias sobre esta questão.

Para mim, o mérito é acreditar que ganhaste aquilo que possuis com base no teu trabalho e esforço. Acho que todos fomos criados neste contexto: estudamos, esforçamo-nos, trabalhamos com afinco e, finalmente, chega uma recompensa. Essa recompensa não é fruto do acaso nem da sorte, é o prémio e o reconhecimento de todo o esforço investido durante muito tempo. Até aqui, parece tudo normal…tudo soa bem. Fazemos uma relação causa-efeito: se te esforçares muito e fizeres tudo muito bem, irás triunfar. Irás subir no elevador social.

Isso seria cem por cento verdadeiro se conseguíssemos garantir igualdade de oportunidades. Será que podemos dizer que vivemos numa sociedade que não só tenta, mas consegue? Vivemos numa sociedade que dá ao mundo as mesmas cartas no início do jogo? Acho que é utópico pensar que seja mesmo assim.

Quanto do que fazemos é apenas sorte da classe social onde nos inserimos? Acredito que se formos justos e conscientes na análise dos elementos que nos levaram ou não ao sucesso (o que queremos que seja o sucesso), conseguiremos ser mais empáticos. No final, é sempre uma questão de autoconhecimento, na minha opinião, e está claro, que não é só o que tu fazes, mas como digo, é ter consciência da classe social em que nos inserimos.

De que maneira acreditas que a atual visão sobre a meritocracia influenciou e impactou a sociedade e a sua coesão?

Lembro-me de uma das passagens mais duras que li de Sandel, onde ele partilha uma reflexão em que, se em algum ponto acreditamos que com esforço e resilência alcançaremos o sucesso, então significa que para aqueles que não o conseguem, lhes estamos a dizer: tu perdeste, mas não porque nós, como sociedade, não fomos capazes de te ajudar a ganhar, mas porque tu não te esforçaste o suficiente. A tua derrota é somente culpa tua e os meus êxitos são somente mérito meu.

Esta reflexão de uma forma mais ou menos consciente sobre o sucesso que temos ou poderíamos ter tido, culpa as pessoas que não conseguiram aquilo a que se propunham e coloca sempre o foco no indivíduo, algo que eu acredito que seja comum na nossa sociedade.

Acredito que neste contexto cada vez pensamos menos numa perspectiva comunitária e cada vez mais como individuos, o que realça ainda mais  sensação de que o que é teu, é teu porque tu conseguiste e o que não foste capaz de conseguir, todos os teus fracassos, são sempre responsabilidade tua.

Acredito que a chave é entender o que pode ou não ser um privilegio e como é que a educação, o contexto ou algo tão simples como ter pais que puderam ajudar-te a fazer os trabalhos de casa ou teres um quarto silencioso onde podias estudar, te ajudaram a estar onde estás e, portanto, ser empático com aqueles que não tiveram o mesmo e não conseguiram o mesmo que tu.

Uma vez conscientes disso, acredito que a forma como vemos o próximo se transforma. Os teus êxitos perdem relevância, a humildade cresce em ti de uma forma mais clara, porque tiras a tua própria importância (algo complexo numa sociedade como a que vivemos) e estou convencido de que a liderança que poderás exercer a partir desta perspectiva, com uma maior consciência da tua classe social, se torna muito mais realista e empática.

Qual o papel do sistema educacional em tudo isto?

Acredito que a educação é um dos elementos chave da nossa sociedade e são o eixo estrutural da igualdade de oportunidades que deveríamos ter. Posso dizer, que sou um priviligiado por viver num país onde temos escolas e universidades públicas de elevada qualidade. A Universidade de Barcelona, por exemplo, tem aparecido sempre bem posicionada em rankings de forma recorrente.

Poderíamos discutir se as universidades ou escolas públicas, principalmente as primeiras, são realmente públicas e se todos podem aceder a elas, mas estamos conscientes que não nos encontramos perante um sistema agressivo como é o americano e a sua tão cobiçada Ivy League, citando o exemplo mais extremo.

Neste sentido, pode parecer mais simples ascender no elevador social em Espanha do que nos Estados Unidos, ainda assim prevejo que isso possa não vir a ser suficiente no futuro, já que mesmo em Espanha continuamos a sofrer de desigualdade e essa impacta as oportunidades que podemos vir a ter no futuro. Está claro que um sistema educativo sólido e bem estruturado é um elemento fundamental para lutar contra essa desigualdade.

Dito isto, também em Espanha temos escolas de negócios importantes, que teoricamente preparam os líderes do futuro, mas que têm preços muito elevados e claramente com sistemas de bolsa insuficientes. Que líderes podem aceder a esse nível educativo e, portanto, que visão de liderança podemos vir a ter? Isso deixo no teu lado, para discutir e refletir.

A tecnologia e a globalização também afetaram?

A tecnologia e a globalização afetam no sentido em que os mercados se tornam globais e as oportunidades profissionais também, mas, provavelmente, eu não diria que é o ponto que impacta isto de forma mais radical.

Antes tínhamos predominantemente pessoas que emigravam por falta de oportunidades, isso continua e é aqui que está o cerne da desigualdade e da potencial falta de oportunidades para prosperar. O que acontece é que incorporamos a emigração e a deslocalização também em perfis profissionais de maior especialização e de alguma forma, vejo que são camadas diferentes de um bolo inteiro, por isso, não acredito que se misturem entre si.

Com tudo isto, o que acabo a dizer é: qual é a probabilidade que uma pessoa de um bairro muito humilde tem em se vir a tornar em alguém que exerce um alto cargo executivo? É possível? Concordaremos que, se a resposta for que é muito complexo, não será porque uma pessoa de outro país veio e ocupou essa posição (que pode acontecer) mas porque, provavelmente, na realidade, por todo o seu percurso de vida, será altamente improvável que consiga fazê-lo. E é aí que devemos colocar o foco.

Na tua perspectiva, que políticas poderiam promover um equilíbrio mais justo entre o mérito individual e o bem-estar coletivo?

Honestamente, não me sinto preparado para responder a esta pergunta. Só posso partilhar que para mim o mais importante é ter consciência da nossa classe social, autoconhecimento e humildade.

Acredito que, com uma visão mais honesta de nós mesmo, seremos mais generosos, mais humildes e ajudaremos mais aqueles que temos ao nosso lado porque seremos, no fundo, mais conscientes do quão afortunados somos.

Escrito a 15 de abril de 2024 por Sérgio Brandão

Para os mais curiosos:
A Tirania do Mérito: O que aconteceu ao bem comum? de Michael J. Sandel

Estados de Guerra, Promessas de Paz

Embora o país tenha mergulhado ao longo dos últimos meses num transe coletivo em que a nossa atenção foi completamente capturada pelas dinâmicas dos debates, partidos e resultados eleitorais, a realidade está muito para lá das notícias de rodapé a que tem sido remetida.

Na passada sexta-feira a Rússia foi alvo de ataques terroristas em Moscovo, que em resposta a esta fatalidade acusa a Ucrânia de participar no seu planeamento anunciando estar em estado de guerra. Do outro lado aumenta a urgência de financiar o esforço de defesa na Ucrânia para que possa continuar a resistir ao assédio russo, ao qual não ajuda em nada o impasse no financiamento norte-americano.

Na Europa temos visto posições de força distintas, por um lado Emmanuel Macron (re)afirmou não poder excluir a possibilidade do envio de tropas europeias para a Ucrânia, por outro Olaf Scholz mantém uma posição ponderada, cimentando a Alemanha como uma das nações mais prudentes na gestão do conflito, sendo ainda assim das mais generosas no suporte financeiro e militar que está a prestar à primeira linha de defesa da Europa.

No passado dia 15 de Março os lideres francês e alemão fizeram-se acompanhar do seu congénere polaco com o objetivo de afirmar uma posição de unidade, perspetivando entre si um reforço no apoio dado à resistência Ucraniana, declarando ainda a vontade de compatibilizar visões contrastantes.

Além disto, apesar dos (não) desenvolvimentos no conflito, tem existido uma pressão crescente da NATO para que os estados membros da Aliança reforcem o investimento em defesa para pelo menos 2% do PIB, meta atingida por menos de metade dos aliados e onde Portugal surge ainda com um investimento inferior a 1,5%.

Embora Portugal esteja ainda longe de um objetivo que se estima concretizável em 2030, tem mostrado uma evolução positiva, fazendo crescer a rúbrica de investimento em material militar, onde se destaca a compra de 4 aviões de transporte militar KC-390 que encaixam na estratégia de aquisição de material cujo uso possa ser civil e militar.

Embora o agora indigitado primeiro ministro Luís Montenegro tenha declarado no período eleitoral estar comprometido com a meta da NATO dos 2% do PIB, não chegou a concretizar a forma como pretende que tal investimento se faça.

Durante o período eleitoral o Grupo de Reflexão Estratégica Independente fez chegar a todos os partidos a sua posição sobre a situação de emergência que se vive nas Forças Armadas, depauperadas de quadros, com falta de recursos de base e em perda crescente motivada pelas sucessivas reduções de privilégios.

Pela sensibilidade que os temas de defesa nacional acarretam é compreensível que não se discutam em praça publica as opções estratégicas no escopo militar, ainda assim é fundamental que se estabeleçam metas sobre o que significa investir 2% do PIB em defesa, seja na valorização do pessoal militar seja no investimento em infraestruturas ou de equipamento, ainda mais num futuro em que as armas convencionais perdem tração e vemos na Ucrânia drones de poucos milhares de euros a rivalizar com misseis de milhões na proporção de danos e retrocessos que conseguem causar no seu opositor.

E se é verdade que os portugueses estão no topo dos defensores da permanência na NATO (88%), e há uma larga maioria que dizem que o investimento do país em matéria de defesa deve manter-se (34%) ou aumentar (43%), também é verdade que estes índices de resposta só são compatíveis com a ausência do dilema de enviar tropas portuguesas para cenários de guerra ou de ver diminuídos alguns benefícios sociais para acomodar um maior investimento na área militar.

Estar numa economia de guerra significa empobrecer, reduzir apoios sociais e ampliar sentimentos de injustiça, algo que só pode beneficiar partidos como os que de forma consistente rejeitam estas opções. Se esse momento chegar o PCP não estará sozinho, serão seguramente mais aqueles que por oportunismo ou por convicção concordarão com a posição comunista.

Hoje não temos verdadeiramente que fazer escolhas, mas é possível que esse dia chegue, e se chegar, será mais do que nunca importante ter lideres capazes de aspirar a algo mais para o nosso futuro coletivo:

“My fellow Americans, the issue facing our nation isn’t how old we are; it’s how old are our ideas. 

Hate, anger, revenge, retribution are the oldest of ideas.  But you can’t lead America with ancient ideas that only take us back.  To lead America, the land of possibilities, you need a vision for the future and what can and should be done. 

Tonight, you’ve heard mine. 

I see a future where [we’re] defending democracy, you don’t diminish it.

I see a future where we restore the right to choose and protect our freedoms, not take them away. “

Biden, Discurso do Estado da União, Março 2024

Se esse momento chegar espero que possamos contar com líderes que se afirmem como guardiões da democracia, líderes que acreditem num futuro em que valha a pena defender uma democracia, uma sociedade em que impera o direito de escolha e se protege a liberdade, onde se protege a liberdade de todos, mesmo daqueles que a queiram boicotar.

Escrito a 26 de março de 2024 por João Tiago Teixeira

Créditos de imagem: © Tobias SCHWARZ / AFP

Notícias de interesse:

Já há 11 aliados da NATO a gastar mais de 2% do PIB na defesa | Guerra na Ucrânia | PÚBLICO (publico.pt)

Infografia: 11 países da NATO já gastam pelo menos 2% do PIB em defesa (sapo.pt)

Futuro Governo tem apoio popular para reforçar investimento na Defesa (dn.pt)

‘Unity is strength,’ insist Macron, Scholz and Tusk as trio tries to bury the hatchet over Ukraine strategy – POLITICO

Exasperação, Excitação e Culpados após Eleições

“Não podes adorar o teu país apenas quando ganhas”

Já passou uma semana desde que soubemos os resultados das eleições legislativas de Portugal e temos de tudo: excitação à direita, exasperação à esquerda e claro, o exercício fatal e previsível da política: a lista de culpados.

Importante dizer que, à data em que escrevo este artigo, ainda não temos os resultados finais, pois faltam ainda atribuir quatro mandatos pelo círculo da Europa e fora da Europa. É pouco provável que haja grandes mudanças nos resultados finais, mas até por respeito a mim próprio e ao meu voto, vou-me abster de perspectivar cenários definitivos.

Considerando-me eu um aborrecido e entediante moderado, já tive tempo para maturar e fazer uma reflexão mais profunda, ajudando-me a analisar tudo isto de forma mais ponderada.

Vamos a números: um milhão e cem pessoas votaram no Chega. São mais 700 mil votos do que nas Legislativas de 2022, demonstrando assim um brutal crescimento deste jovem partido. E, praticamente, cinco milhões votaram noutros partidos, sendo que 3,5 milhões de votos foram feitos ao centro (Partido Socialista e AD), ou seja, menos cerca de 500 mil votos versus 2022. É verdade que é uma descida bastante significativa, mas não ignoremos que seguimos com 60% de pessoas “moderadas”. Deste modo, parece-me inadequado colocar um peso descabido no futuro do país dependente de “somente” 20% de Portugueses.

Mas devemos ignorar o facto de haver este crescimento de votação num partido populista e demagogo? Claro que não! Analisemos então…

A Exasperação

É evidente que Portugal votou massivamente por uma mudança liderada pela direita. Mais de 50% dos votos foram atribuídos à AD, Iniciativa Liberal e Chega. A última vez que aconteceu algo semelhante foi nos idos tempos de Cavaco Silva, num tempo e realidade completamente distintos.

Mesmo ainda sendo necessários alguns estudos sobre estas eleições, a verdade é que este crescimento aconteceu sobretudo graças aos jovens e por aqueles que tipicamente se abstinham de votar. Para além desta enorme sede de mudança de cor política, que até fez levantar os abstencionistas do sofá, parece que há uma mudança sociológica no país, havendo uma maior procura de soluções mais associadas a este quadrante político. Algo que vai completamente contra o recente histórico português dos últimos trinta anos.

Claro que isto faz soar os alarmes à esquerda, representada nas urnas por um eleitorado tendencialmente mais velho e de qualificações mais baixas. Será isto surpreendente? Para mim não… São anos a fio com o PS ao leme do país e como é obvio isso leva ao desgaste tanto dos políticos como do povo, principalmente quando os mais jovens sentem que o seu futuro está hipotecado.

A esquerda assumir que a culpa do crescimento do Chega é só da direita é de uma enorme falta de consciência. O partido de Ventura foi a cola que manteve a esquerda unida nestes últimos anos e depois de milhentas trapalhadas, o mais baixo investimento nos serviços públicos e sua consequente degradação, e da enorme dificuldade em apresentar um projeto económico de futuro que fizesse “aumentar o bolo” para a seguir o redistribuir, assumir que não têm um mínimo de culpa nisto é ridículo. Nestes últimos anos, tentaram ao máximo associar o PSD ao Chega, acusando-o do mesmo radicalismo e demagogia porque sabiam que o medo garantia votos nas eleições. O povo deixou de ter medo e num grito de revolta, perdeu a suposta vergonha e respondeu desta forma nas urnas.

A exasperação demonstrada por esta nova realidade chega a ser cómica. O país acordou e descobriu que não tem só progressistas, defensores de direitos LGBT, pessoas anti-aborto, pró-imigrantes e anti-capitalistas. O país tem conservadores, anti-socialistas, racistas e xenófobos, indignados e revoltados, e pessoas anti-sistema que só precisavam de ter a pessoa e o partido certo a expressar aquilo que eles tantas vezes disseram no café e vomitaram nas caixas de comentário das redes sociais.

A Excitação

Alguma direita, mas sobretudo a extrema direita, saiu demasiada entusiasmada destas eleições. Vemos muitos a referir que é impossível ignorar o Chega e mais de um milhão de votantes. Pois, eu digo que tanto não se deve ignorar os eleitores do Chega, como os outros cinco milhões, dos quais quase dois votaram AD, sabendo que “não é não”. Quem votou em Luís Montenegro, votou com a clara consciência de que não haveria uma coligação nem acordo parlamentar com Ventura. Isto não significa que não hajam negociações com ele, nem com os outros partidos, claro. É isto que um Governo minoritário faz. Comparar esta realidade com a de 2015 é desadequado.

Primeiro, porque o que o PS fez com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista Português (PCP) foi só um acordo parlamentar e não uma coligação de Governo como por vezes Ventura quer deixar passar. E segundo, porque eu não ponho no mesmo saco o Chega e os dois partidos que estão à esquerda do PS, aos dias de hoje. Se defendem políticas extremistas? Sim, na minha opinião defendem, mas não “jogam sujo” como o Chega. André Ventura tanto está uma semana a chamar “prostituta” ao PSD, como na seguir quer ser Governo com eles. O Bloco e o PCP são muitíssimo mais previsíveis e claramente “aburguesaram-se” com o tempo. Talvez um dia aconteça o mesmo com o Chega, mas não agora. Deste modo, compreende-se que a AD, e os seus eleitores, não tolerem e respeitem da mesma forma a extrema direita como o PS e os seus eleitores toleram e respeitam a extrema esquerda.

A excitação tem de se conter, porque este milhão de pessoas não são propriedade do Chega e não têm que ser apaparicados só por serem do Chega. Os eleitores não são de ninguém e se hoje votaram neste partido, amanhã, com uma realidade diferente, com políticas diferentes, com uma perspetiva de futuro diferente, poderão a vir a votar noutros. Se vale a pena a direita tentar cativá-los? Vale e deve! Se vale a pena a esquerda tentar convencê-los? Vale e deve.

É por isso que eu acho que estivemos, estamos e vamos continuar a estar em campanha durante este ano. Montenegro pode ter uma oportunidade de ouro se controlar a excitação da direita e mostrar frieza. Acredito que durante 2024 não o vamos ver a governar. Vamos vê-lo a fazer política dura e crua para se preparar para umas próximas eleições (isto se sempre for indigitado Primeiro-ministro, claro).

Os Culpados

A esquerda (e até alguma direita) ficou indignada e revoltada com os portugueses após a noite de 10 de março. Aqueles que louvaram os eleitores em 2022 quando deram uma maioria ao PS, não podem agora acusá-los de ignorância e fascismo em 2024. Este resultado advém de anos de desesperança, de casos e casinhos e de incompetência. Prosseguir com a postura de superioridade moral só irá continuar a afastar estes eleitores e não permite fazer um verdadeiro mea culpa de tudo o que se passou nestes últimos anos. Para além disso, acusar o Presidente da República de ter levado o país a este estado é verdadeiramente absurdo. Depois de mais de 10 demissões por incompetência, insurgência, casos judiciais e depois de aparecerem 75 mil euros no gabinete do braço direito do Primeiro-Ministro, estavam à espera do quê? A esquerda tem culpas no cartório…

E a direita moderada não pode achar que agora que tem a possibilidade de ser Governo que deve virar as costas a todos, inclusive à esquerda. A reforma da Justiça, do sistema eleitoral, devolução do tempo dos professores, aeroporto, ferrovia, energia e acção climática, entre tantos outros temas, podem pôr o PS e o PSD em acordo aquando do momento de negociações para o Orçamento. Não vale a pena fazer com os socialistas aquilo que eles fizeram com os sociais democratas durante estes anos. Relembro a frase de António Costa em entrevista ao Expresso em 2020: ““No dia em que a subsistência deste Governo depender de um acordo com o PSD, nesse dia este Governo acabou”.

Ainda assim, o PSD, num cenário de enorme desgaste do PS, não conseguiu crescer o que se esperava comparativamente a 2022. Talvez porque não foi visto como um verdadeiro líder da oposição. Foi muitas vezes, nestes últimos anos, frouxo, hesitante, vazio, pouco cativante. E se por acaso entrar em jogos de enorme calculismo político e continuar a não dar respostas ao povo arrisca-se a ser engolido pelo Chega. O PSD tem também culpas no cartório…

Termino a minha análise dizendo que também, todos nós, como sociedade temos culpas no cartório. Há dias vi esta story no Instagram do Carlos Guimarães Pinto:

Seguidores de Cabeças de Lista nas Redes Sociais

Reparem como André Ventura tem praticamente mais 800 mil seguidores do que a Marisa Matias que ocupa o segundo lugar. Tem mais 900 mil seguidores que Pedro Nuno Santos e mais 950 mil que Luís Montenegro. Se formos ao detalhe vemos que é incomparável a audiência a que ele chega no TikTok comparativamente com os demais líderes políticos. Era por isso que o Chega não fazia grandes arruadas, nem grandes comícios. Não precisava! E quando a bolha dizia que eles estavam a fazer uma péssima campanha, que Ventura perdeu todos os debates, eles demonstraram o contrário, porque claramente a mensagem continuava a passar como queriam e da maneira que queriam, ou seja, sem qualquer contraditório. Assim chegaram aos mais jovens e aos revoltados com o sistema.

Eu dei-me ao trabalho de ver alguns dos posts e percebe-se claramente que ele vai direto às emoções das pessoas e ao encontro daquilo que elas querem ouvir e que nenhum político tradicional consegue dizer. Somos culpados como sociedade por acreditarmos nisso e não termos formado pessoas com suficiente espírito crítico para perceber que não há soluções fáceis para problemas complexos. No entanto, eu sei que é difícil fazer política com protagonistas assim, por isso eu consigo empatizar que para os partidos tradicionais a adaptação e a mudança na forma de fazer passar a sua mensagem não é fácil quando se tem de concorrer com estes partidos.


“You can’t love your country only when you win”

Joe Biden, discurso do Estado da União, 7 de março de 2024

Escolhi esta frase do Presidente dos Estados Unidos, “não podes adorar o teu país somente quando ganhas”, para demonstrar que a democracia é isto mesmo. O povo é soberano e se por acaso o resultado não for o que queremos, isso não nos faz melhor que os outros, deve é fazer-nos refletir e analisar sem palas nem ideias pré feitas o que aconteceu.

Já escrevi aqui que as eleições são feitas para ganhar e nisso a extrema direita populista está disposta a tudo: mentir, enganar, exagerar, prometer, insultar, tudo. Por muito que custe, isso vale e funciona.

Representar 20% dos eleitores não é determinante, mas já traz algum peso. São 50 deputados que agora entram e que vão ter os holofotes apontados. Ventura é claramente mais brilhante que todos os outros (e se calhar o menos extremista) e se até aqui ele levava o partido controlado, agora vai ser mais complicado. Ele não quer arriscar perder a importância que a sua bancada parlamentar tem hoje. Ele só irá deitar um Governo abaixo se souber que ganha com isso. A política é trabalhar para a causa pública, mas também é um projeto de poder. Que poder vai continuar Ventura a ter? Estará preparado para esta responsabilidade e exigência? Será que a sua possível normalização o vai fazer perder gás?

Sejam bem-vindos ao jogo político. Vai ser um embate interessante nos próximos meses… Os portugueses estão a ver e à espera da mudança, seja à esquerda, seja à direita.

Escrito a 16 de março de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
O candidato a secretário-geral do PS Pedro Nuno Santos assinalou este sábado, em Penafiel, no distrito do Porto, que o seu partido se apresenta a eleições para vencer e não “para ser muleta do PSD”.
Tudo ou nada: Ventura ameaça com eleições “no menor tempo possível”
Montenegro à procura da governabilidade após vitória por margem mínima
Mais de 673 mil votos foram “desperdiçados” nas eleições legislativas de 2024: foi um em cada nove

Eleições, para que vos quero?

Quantas pessoas em Portugal se dão ao trabalho de ler o programa eleitoral do(s) partido(s) com que mais se identifica? Muito poucas, afinal estamos a falar de documentos extensos com longas listas de medidas para agradar a tudo e todos na busca do voto popular.

O sumo dos programas não se mede pelo número de páginas, às vezes inflacionado pelo uso de imagens ou por um enorme tamanho de letra, mas antes pela qualidade de diagnóstico, síntese e articulação dos seus projetos, assim como da respetiva capacidade execucional.

Durante as eleições os políticos parecem viver num mundo idilico onde não têm de fazer escolhas, tudo é importante e tudo pode ser feito. Infelizmente todos os programas em escrutinio no próximo domingo prometem medidas irrealistas, inconcretizaveis e que concorrem entre si, o que muitas vezes impossibilita a aplicação de um programa político como um todo.

Talvez o maior problema da democracia seja este, o contraste entre o período eleitoral que agora vivemos, digno de um país de maravilhas e o período de governo que vem a seguir, onde a realidade obriga a que se definam prioridades e a gradualidade de qualquer mudança estrutural se esconde no tempo, gorando as expectativas de qualquer eleitor, que a longo prazo se vai afastando do processo eleitoral.

Entre os que pretendem limpar Portugal, mudar Portugal, fazer Portugal crescer, um Portugal inteiro ou implementar uma política patriótica de esquerda, parece reinar o principio de que não existem desígnios comuns, que as diferentes ideologias além de conflituantes são por vezes até imorais, e não raras vezes vemos os interlocutores políticos a fugir de firmar compromissos com o atingimento de objetivos que sejam especificos, realistas, atingiveis, mensuráveis e definidos no tempo.

Nestas eleições perdeu-se mais tempo a falar do passado do que a olhar o futuro, não vi nenhum partido a tentar definir Portugal de forma transformadora ou a tentar comunicar à população de forma clara uma nova visão aspiracional.

Acredito que a transformação do nosso país só pode ser verdadeiramente iniciada se forem consensualizados na sociedade os desígnios nacionais, e que para cada um deles sejam definidas métricas e objetivos claros que independentemente de quem governa, possam guiar a ação num rumo coerente numa perspetiva de longo prazo.

A última vez que aconteceu uma transformação com uma visão aspiracional terá sido no 25 de Abril, no início da nossa democracia, ou talvez mais tarde quando o país decidiu integrar a CEE. Há já demasiados anos que ninguém discute Portugal com um principio, meio e fim.

Esta não é uma ideia que vise limitar as escolhas dos eleitos, mas antes a de garantir que a qualidade das escolhas políticas façam apenas variar a velocidade a que nos aproximamos do atingimento desses designios, em detrimento de continuarmos a vaguear sem rumo, sempre em atraso versus todos os outros parceiros europeus.

Tentando ser um pouco mais concreto, entendo que o desenvolvimento de um país deve gravitar rumo à concretização de quatro grandes desígnios: crescimento económico, redução da desigualdade, desenvolvimento social e coesão territorial.

Geralmente os políticos falam das diferentes áreas de atuação, tradicionalmente organizadas em ministérios, sem que se perceba que os problemas que procuram resolver não existem de forma isolada em si mesmos, e que apesar de à primeira vista não parecer, todas as medidas, programas e ideias gravitam à volta destes desígnios. Para não vos maçar exploro esta perspetiva em apenas duas grandes àreas de atuação: Saúde e Educação.

1- Saúde: Quando discutimos a área da saúde falamos da redução da desigualdade, onde devemos dar a todos, ricos e pobres, a possibilidade de aceder aos melhores cuidados de saúde, com baixos tempos de espera, garantindo os melhores resultados possíveis.

Ao longo dos debates e campanha não ouvi falar sobre a transformação do modelo de gestão de saúde para acomodar um aumento de procura de uma população pobre cada vez mais envelhecida, ouvi falar sobre salvar o SNS, obrigar (ou não) os médicos a ficar no SNS ou sobre o risco ou forma de privatizar processos de saúde existentes. Discutiram-se alguns meios, omitiram-se os objetivos e os fins.

2- Educação: Quando falamos de educação, falamos de crescimento económico, desenvolvimento social e coesão territorial. Uma economia com mão de obra mais qualificada é mais produtiva, uma economia mais produtiva paga melhores salários, salários competitivos diminuem a emigração, estimulam a imigração, contribuem para a correção da pirâmide demográfica e equilibram e reforçam o balanço das contas publicas. Só isto pode libertar recursos que façam subir o salário da função pública e garantir a prestação destes serviços em territórios mais pobres, insulares ou com menor densidade populacional.

Ao longo dos debates e da campanha não ouvi falar do papel da educação na preparação do futuro do nosso país ou sobre reformar o atual modelo de educação, que se manteve igual nos últimos cem anos e teima em não se adaptar às gerações do presente. Ouvi antes falar sobre a recuperação do tempo de serviço das carreiras dos professores, sobre os cheques escola ou sobre onde andam a estudar os filhos dos políticos, tudo coisas que importam pouco se quisermos verdadeiramente discutir como desenvolver o nosso país.

Portugal ficaria a ganhar se comungássemos todos do mesmo desígnio nacional e fossem acordadas metas de desenvolvimento comum, talvez aí os interlocutores políticos pudessem limitar as suas divergências à forma e conteúdo dos planos de ação que professam, em detrimento de atacar a ética ou a moral de quem propõe ou critica com outros pontos de vista.

O dia seguinte às eleições…

Não pretendo entrar em futurologias e cenarizações do pós eleições, afinal de contas foi nesta mesa de amigos que leram primeiro o prognóstico do Sérgio Brandão, e confiando na tendência registada nas sondagens deverá ser mesmo a Aliança Democrática a esboçar o maior sorriso no próximo domingo.

Independentemente de quem as vença e das condições de governabilidade que os esperem, receio que o resultado do próximo ato eleitoral seja o mesmo da famosa frase de Lampedusa, “É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”. No seu livro “Leopardo”, de facto, o tempo passou, até o regime mudou e pouco ou nada se alterou. Ficou tudo na mesma.

No próximo domingo é dia de ir às urnas, cabe-nos a todos exercer o direito de ir votar, mesmo que isso signifique que pouco ou nada vai mudar.

Escrito a 08 de março de 2024 por João Tiago Teixeira

A Sociedade Portuguesa de Sensações

E assim vamos, de sensação em sensação, sem discutir verdadeiramente o que devíamos e sem sermos capazes de ter “adultos na sala” a apresentar propostas para aquilo que nos interessa: combater o envelhecimento do nosso país e atrair imigração de forma humanista e integradora.

A campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2024 já vai avançada e esta análise, tendo em conta o ritmo vertiginoso como hoje em dia as coisas correm, já “vai tarde”. Contudo, quero na mesma fazê-la…

Pedro Passos Coelho (PPC) esteve presente na campanha da Aliança Democrática (AD) no dia 26 de fevereiro, em Faro, e fez um discurso de cerca de 20 minutos que, pasme-se, deu em polémica… E eu tentei perceber porquê, pois podia haver o risco de ser algo retirado de um contexto pouco claro. Por isso, para os mais curiosos, deixo abaixo o discurso na íntegra que começa por volta do minuto 14:

Houve duas frases que encheram títulos de jornais:

“Precisamos de ter um país aberto à imigração, mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro. (…) hoje as pessoas sentem uma insegurança que é resultado da falta de investimento e de prioridade que se deu a essas matérias.”

Vamos, então, esmiuçar o tema em três pontos: envelhecimento e imigração, segurança e sensações.

1 – Envelhecimento e Imigração

Um dos temas menos abordados na campanha é o inverno demográfico pelo qual Portugal passa e irá passar nos próximos anos. Lideramos o ranking dos países da UE com maior proporção de pessoas com 65 ou mais anos (24% da população). O nosso país envelheceu 4,4 anos, em média, na última década.

EU median age increased by 2.3 years since 2013

Quanto ao rácio de dependência de idosos, o número de pessoas idosas (com 65 ou mais anos) em comparação com o número de pessoas em idade ativa (15-64 anos) atingiu os 38% em 2023 em Portugal. Uma vez mais, o rácio mais alto na Europa.

Com o êxodo de jovens qualificados de Portugal para outros países, a situação económica e de sustentabilidade da segurança social é verdadeiramente assustadora. Por um lado, necessitamos de crescimento, e por outro, de garantir qualidade de vida e cuidados aos mais velhos.

Deste modo, não espanta que todos os partidos, de uma maneira ou de outra, defendam a atração de imigrantes para o nosso país, de preferência com o intuito de ficarem largos anos e constituir família, para reverter esta pirâmide demográfica preocupante.

O grande problema está no discurso utilitário que se faz sobre os imigrantes, havendo uma enorme dificuldade em abordar o tema de uma forma profunda e construtiva. Se a esquerda puxa do tema, a extrema direita diz que é uma bandalheira o que propõem e que vai por em risco a nossa sociedade. Se a direita puxa do tema, a extrema esquerda apelida-os de racistas e xenófobos.

Estamos num ponto em que os moderados não podem abordar o que precisa urgentemente de ser discutido. Primeiro, porque de facto necessitamos de atrair e cativar imigrantes, e segundo porque o temos de o fazer de uma forma organizada e humanista.

Do meu ponto de vista, as portas devem estar abertas, sem dúvida, mas isso deve ser feito de forma organizada e estruturada por duas ordens de grandeza: primeiro porque é preciso proporcionar condições favoráveis e dignas aos imigrantes, acolhendo com humanidade e respeito, e segundo porque também devemos ser nós a definir a nossa agenda e o nosso ritmo para que a integração seja feita, respondendo às necessidades do país e dos interessados em para cá vir.

Deste modo, evitamos a “bandalheira” e o “racismo”…

2 – Falta de segurança devido a imigrantes

Ainda não temos indícios que a imigração tenha levado a um aumento de insegurança em Portugal. Aliás, os dados mais recentes dizem exatamente o contrário:

  • Portugal é o sétimo país mais seguro do mundo, segundo Global Peace Index de 2023 .
  • O número de crimes em Portugal foi mais baixo em 2022 do que em 2014 e 2015, anos de governação de PPC, segundo o último Relatório Anual de Segurança Interna publicado.
  • 84,7% dos reclusos em Portugal são portugueses. O número de reclusos estrangeiros em proporção ao número total também diminuiu 3,8% na última década.

Isto tudo com um aumento de 98% de estrangeiros entre 2014 e 2022.

Concluindo, aparentemente não há nenhuma correlação entre o aumento de imigrantes e o número de crimes em Portugal. Deixo apenas em aberto a possibilidade de muitas vezes as pessoas não reportarem pequenos delitos, pois estes dados são alimentados com as queixas apresentadas pelos visados. Se as queixas não forem feitas, o que temos registado pode não espelhar a realidade. Contudo, ainda assim acho improvável poder correlacionar ambos os pontos.

3 – A Sociedade Portuguesa de Sensações

Passos foi ao Algarve com um objetivo: roubar eleitorado ao Chega nessa região (e noutras, certamente) e apelar ao voto útil na AD. Tudo o que escrevi acima ele sabe melhor que eu, melhor que a maioria.

Num discurso galvanizador, identificativo da matriz ideológica liberal que PPC nos habituou, só faltou mesmo dizer “não perguntes o que Portugal pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer por Portugal”, em linha com a mítica frase de John F. Kennedy: “Ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”. Todavia, esse discurso foi manchado por esta frase muito infeliz relativa à imigração: “as pessoas sentem uma insegurança”.

Sensações não são factos. Sensações podem não ter evidência por detrás. Sensações alimentam discursos da extrema direita e da extrema esquerda, tais como alguns bem conhecidos: a sensação de que os políticos são todos corruptos, a sensação de que os patrões exploram os empregados, a sensação de que o país está cheio de subsídio-dependentes, a sensação de que o problema da habitação é dos Vistos Gold, entre outros.

As sensações são as coisas que se ouvem no café, nos bancos de jardim, nas redes sociais, nos media sensacionalistas. Sensações só ajudam à polarização e não à análise e apresentação de soluções dos problemas reais da sociedade.

Este comentário, vindo de quem vem, alimenta e une a esquerda de uma forma simples: criando a sensação de que a direita democrática é igual à populista e que os problemas do país são “culpa do Passos”…

E assim vamos, de sensação em sensação, sem discutir verdadeiramente o que devíamos e sem sermos capazes de ter “adultos na sala” a apresentar propostas para aquilo que nos interessa: combater o envelhecimento do nosso país e atrair imigração de forma humanista e integradora.


1 milhão de imigrantes já cá estão e quase meio espera ser legalizado e integrado em Portugal. Destes, 31% encontra-se em situação de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Eurostat.

Permitindo-me então ao atrevimento de dizer que me dá a sensação do seguinte: se a frase de PPC tivesse sido “os imigrantes se não forem bem integrados e acolhidos, se não tiverem boas condições de trabalho e habitação, poderemos vir a ter um problema de segurança”, acho que aí poderia ser mais certeiro. A guetização, o abandono e a exclusão destas pessoas pode antecipar este risco. Por isso é que temos de discutir as coisas com seriedade e sem histerismos. Os problemas estão identificados, a necessidade real de os resolver também, por isso porque não arranjar soluções em conjunto?

Escrito a 3 de março de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
Existe relação entre imigração e segurança, como sugeriu Passos Coelho? Não

O Homem é um animal político… e, emocional.

“…ainda que sejamos uma população mais bem formada e que tenhamos a possibilidade de um acesso à informação mais democrático, parece que somos mais vítimas das emoções, menos racionais.”

As marcas, todas elas – mas principalmente aquelas de grande sucesso – usam as emoções como forma de comunicar com o consumidor de forma a que seja criada uma afinidade suficientemente forte para que fidelize o comprador. E aqui não precisamos de falar somente da Apple, da Nike ou da Coca-Cola. Podemos também falar de políticos…

O Marketing Político já não é novidade nenhuma no Mundo, mas numa pesquisa que fiz sem grande profundidade, nota-se que não é um tema ainda muito explorado e divulgado em Portugal, embora já haja trabalhos, alguns artigos e livros no nosso país sobre o tema. Não difere muito do Marketing tradicional, só que aqui o objetivo passa por promover partidos, candidatos e movimentos junto do eleitorado. À semelhança de outras marcas, os políticos tentam destacar-se da sua concorrência e, sobretudo, explorar as emoções com o intuito de criar uma afinidade suficientemente forte para que se crie a “fidelização do cliente”.

Campanha “Hope” de Barack Obama retirado de “Why Obama ‘Hope’ artist hates Trump…but won’t draw Hillary”

Se puxarmos um bocadinho pela cabeça facilmente nos lembramos de campanhas como a “Hope and Change” (“Esperança e Mudança”) de Obama em 2008, com o mítico slogan “Yes, we can” (“Sim, nós conseguimos”), ou mais recentemente campanhas como aquela a favor do Brexit em 2016: “Take Back Control” (“Retomar o controlo”), a de Donald Trump, também em 2016: “Make America Great Again” (“Tornar a América grande outra vez”), ou a de Jair Bolsonaro em 2018: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Campanha de Jair Bolsonaro no Brasil, retirado de “Brasil acima de tudo”: conheça a origem do slogan de Bolsonaro

Portanto, os políticos já sabem muito bem que os sentimentos e as emoções não podem ser deixados de lado durante uma campanha política. Há vários que se destacam, tais como o medo, o ressentimento, a indignação, a esperança, a segurança, a compaixão, o orgulho e o patriotismo. Muitas vezes, mais do que discursos políticos e grandes programas eleitorais, o importante é apelar a uma mobilização afetiva e emocional para obter sucesso. Vamos a alguns exemplos usados nesta campanha legislativa (e até já noutras), para as eleições de 10 de março:

O conhecido “Fantasma da Troika”:

O período de 2011 a 2014, em que Portugal foi submetido a um programa de austeridade e reformas estruturais impostas pela Troika para evitar a bancarrota, não traz boas memórias os portugueses. O desemprego, os cortes nos salários e pensões e o aumento dos impostos resultaram numa deterioração significativa das condições de vida de todos. Portanto, esses tempos são regularmente lembrados pela esquerda para descrever o impacto duradouro e as memórias negativas associadas a essas medidas que tiveram de ser levadas a cabo pelo Governo de coligação entre o PSD e o CDS. Mesmo que o memorando tenha sido negociado pelo PS…

Por isso, parabéns aos socialistas, pois conseguiram proteger melhor a sua marca ao longo dos anos – embora a direita muitas vezes tente assustar os portugueses com a possibilidade de bancarrota e de políticas económicas imprudentes propostas por partidos de esquerda, não tem tido muito sucesso. Todavia, essa é a forma que tem de trazer esse “fantasma”.

As Contas Certas:

Bandeira típica do marketing da direita ao longo dos anos, roubada pela esquerda nestes últimos oito. Ainda em linha com o ponto anterior, o PS conseguiu de forma brilhante retirar-se dessa imagem negativa que os eleitores tinham deles, fazendo um verdadeiro rebranding que traz confiança e segurança aos consumidores.

A União Soviética, Cuba e Venezuela representados pela Extrema Esquerda:

Os sinais muitas vezes contraditórios de simpatia (ou até de abstenção de posição contrária) que partidos como o PCP e o Bloco de Esquerda têm por modelos socialistas e anticapitalistas é usado como bandeira de ataque da direita para gerar medo e indignação. Como muitos dessas países eram geridos de forma autoritária, nada democrática e onde a miséria e a pobreza são sinais claros, a colagem a essa realidade é uma maneira de ajudar os consumidores a perceber que este tipo de “produtos” não fazem nada bem e são de fraca qualidade.

A Teoria da Substituição:

A narrativa usada pela extrema direita ocidental com o intuito de fomentar a retórica anti-imigração incita ódio, desconfiança e sentimento de insegurança nos eleitores. Alega que há um esforço deliberado para substituir as populações nativas por outras de origem diferente. Em Portugal, vemos o Chega a cavalgar essa onda com o crescente número de imigrantes muçulmanos que têm chegado ao nosso país.


Grande parte do que aqui deixei são slogans, campanhas e movimentos com mensagens pela negativa. Creio que se deve ao facto de que, muitas vezes, são estes os que mais chamam a atenção dos media, e que consequentemente dão títulos nos jornais ou abrem que os noticiários – por se centrarem no pânico moral e na polarização da sociedade. Ainda assim, eu acredito que é a campanha pela positiva que dá alento à maioria das pessoas e que forma os grandes líderes políticos. A esperança continua a ser a grande força de mudança.

Contudo, as pessoas preocupam-se pouco em, de forma crítica, avaliar cada um destes pontos mais polarizadores, através da procura de dados, do contraditório e de visões neutras sobre os assuntos. Estar bem informado dá trabalho e dá muito mais gosto e prazer procurar e ver alguma notícia, “tweet” ou “reels” que comprove a nossa visão do mundo, mesmo que esteja errada. Somos vítimas dos algoritmos e do viés de confirmação, o que faz com que as marcas – ou políticos, neste caso – escarafunchem as nossas emoções mais profundas.

Sendo assim, ainda que sejamos uma população mais bem formada e que tenhamos a possibilidade de um acesso à informação mais democrático, parece que somos mais vítimas das emoções, menos racionais. Deixo-vos um último exemplo e chamada de atenção…

As lágrimas de Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro

Todos sabemos que o Daniel Oliveira do “Alta Definição” põe qualquer um a chorar. Também sabemos que os programas da manhã e da tarde da televisão generalista são um verdadeiro corrossel de emoções… No entanto, não acham que estes dois líderes políticos estão a chorar vezes a mais, comparado com os seus antecessores? Não tenho dúvidas que as lágrimas são genuínas, mas são sinais dos tempos e têm um propósito claro: criar compaixão entre os eleitores e humanizar a figura do político.

Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos no “Alta Definição, retirado de “Daniel Oliveira à conversa com Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos

Imaginar o Eanes, o Soares, o Cunhal ou até mesmo o Cavaco a serem entrevistados pelo Júlio Isidro, Carlos Cruz ou até Artur Agostinho a falarem da sua vida com as suas mulheres e filhos e chorarem parece quase uma anedota.

Como a maioria das coisas sobre as quais escrevo, não acredito que haja certo ou errado. Não defendo que “antigamente é que era” e que isto hoje não faz sentido nenhum ser assim. Convido apenas à reflexão…


As marcas são criadas ou adaptadas porque o mercado nos dá indicadores de que há oportunidades de negócio de sucesso, seguindo e apresentando determinadas características. Oferecer aquilo que o público procura através do despoletar das emoções mais fortes é o que nos torna leais aos produtos. No entanto, as consequências da aplicação dos conceitos de Marketing na política podem ser em muitos casos perigosas e divisivas.

Se queremos trazer à política “produtos” de consumo, ao menos que tenhamos alguma ética e responsabilidade cívica. Não vale tudo!

Quantos de nós já não compramos alguma coisa porque a publicidade era maravilhosa, a concorrência parecia super fraca e acabamos desiludidos? O mesmo se pode passar aqui. Tenhamos algum pensamento crítico na hora do voto.

Escrito a 25 de fevereiro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
De Boabdil a Pedro Sánchez, pasando por Putin y Obama: los políticos también lloran

Os Imbecis da Esquerda e da Direita

“Repare nas pessoas conversando:
nao é um bate-papo, é uma luta.
Todos querem pra si o olhar do bando.
Ninguém se entende nem sequer se escuta”

Há dias, no podcast 45 graus, José Maria Pimentel entrevistou o humorista, ator e escritor Gregório Duvivier. Numa conversa onde os protagonistas cruzam temas que vão desde o humor à política, houve um momento que captou a minha atenção: a declamação do “Soneto fático”, escrito pelo entrevistado e presente no seu livro “Sonetos de Amor e Sacanagem”.

Repare nas pessoas conversando:
não é um bate-papo, é uma luta.
Todos querem pra si o olhar do bando.
Ninguém se entende nem sequer se escuta.

Pode até parecer civilizado,
mas se olhar com cuidado e lucidez
vai perceber que quem está calado
só espera chegar a sua vez.


Fale merda que alguém no mesmo instante
dirá uma merda mais irrelevante
que não tem nada a ver com a merda acima.


Falar só serve pra fazer barulho.
Esse poema, mesmo, é um entulho.
Não muda nada – mas ao menos rima.

A reflexão que ele traz é sobretudo evidente nos versos “não é um bate-papo, é uma luta” e “vai perceber que quem está calado só espera chegar a sua vez“. Isto é, sobretudo, o que sinto na sociedade de hoje em dia, e no debate político em particular. Aliás, foi este, um dos sentimentos que nos levou, a mim e ao João Tiago Teixeira, a criar este blog, cuja visão está representada no nosso primeiro texto: “Bem-vindos à Mesa de Amigos

A dificuldade de empatizar com a visão do mundo que o outro tem e de não tentar perceber a razão de ele pensar assim são motivos mais que evidentes para a existência do atual ambiente de crispação e polarização que vemos hoje em dia. As pessoas são rotuladas e diminuídas por duas ou três ideias que defendem. Esquerdistas, Radicais, Comunas, Fachos, Direitolas, Socialistas, Liberais – são maneiras absurdamente simplistas de colocar as pessoas em prateleiras sem dedicar o tempo suficiente em perceber o que elas verdadeiramente pensam. É dos exercícios mais preguiçosos e ignorantes que vemos hoje em dia e que são o espelho de uma sociedade de facto mais literada e qualificada, mas nem por isso mais informada e empática. A perda total da humildade em admitir que a nossa visão do mundo é altamente finita e cingida ao nosso ambiente e estrato social é o que leva a dificuldade existente entre duas pessoas se sentarem, conversarem e aceitarem que é normal ter pontos de vista diferentes sobre um mesmo tema. Ter nervo e garra a defender os seus argumentos é saudável e recomendável, mas fechar-se na sua bolha e não querer ter contraditório é redutor.

A grande questão é: como resolvemos isto? Não tenho a solução, mas acredito que para as pessoas começarem a “se entender e se escutar” temos de responder às duas seguintes perguntas:

Por que razão vemos a política de forma tão diferente?

A sociedade é composta por pessoas com origens, percursos e personalidades diferentes. Esta diversidade que é tanto mais vincada dependendo da multiculturlidade do país em que vive determina a visão que cada um tem sobre os diferentes assuntos que nos preocupam e interessam.

Muitas vezes assumimos, sem pensar, que determinada coisa deve ser assim porque estamos plenamente convictos que o deve ser, quando o exercício a fazer primeiro seria “Porque penso desta forma?”. Se mergulharmos no âmago desta questão, iremos perceber que muitas das nossas posições nos milhares de assuntos discutidos em praça pública advêm mais dos nossos valores, emoções e experiências vividas (e até genes) do que propriamente da racionalidade. E está tudo certo com isso… Devemos é tomar a consciência de tal. Podem estar certos que os políticos jogam com as nossas emoções mais profundas e atacam fundo nos nossos valores individuais, caso contrário, como haveria tanto populismo e demagogia como há hoje em dia? Zero razão, total emoção, é a fórmula de sucesso deles!

A Teoria dos Pilares Morais desenvolvida por Jonathan Haidt, Craig Joseph e Jesse Graham ajuda-nos a perceber como é que uma comunidade constrói as suas concepções morais e culturais. No modelo por eles desenvolvido, dividem seis pilares morais em dois grupos distintos: ética da autonomia, que inclui a proteção, a proporcionalidade, a liberdade e o segundo grupo envolve a ética da comunidade, onde está a lealdade, a autoridade e a sacralidade. Os três primeiros são aqueles que hoje em dia mais facilmente nos ajudam a perceber como a política se divide nas suas principais visões morais: matriz de esquerda, conservadora ou liberal, porque ajudam a perceber a relação de cada individuo com a tribo. Os outros ajudam a compreender como o grupo mantém a sua coesão e lida com conflitos.

Facilmente chegamos à conclusão que a esquerda coloca mais peso no pilar da “proteção”, seguido da “liberdade” e os liberais claramente mais na “liberdade”, deixando os conservadores com um peso mais uniformemente distribuído por cada um dos seis referidos. No entanto, quem se atreve a dizer desde já que é de esquerda, que é liberal ou que é conservador? Deixo dois temas exemplo: aborto e economia de mercado. Quem é quem? Já sabem se são esquerdalhas ou direitolas?

De onde vem a divisão esquerda e direita?

A história diz-nos que este conceito nasceu da discórdia existente sobre a soberania legislativa e da manutenção ou não do poder de veto do Rei da recém criada Assembleia Nacional em 1789, resultante da Revolução Francesa. Foi curioso que durante as discussões, naturalmente aqueles que estavam a favor de manter o direito de veto do Rei se distribuíram à direita do hemiciclo e os que eram contra agruparam-se do lado esquerdo, pois achavam que isso ainda afetaria a soberania do povo e era contra os ideias da revolução. Por isso, ainda hoje se refere que os mais radicais e progressistas estão à esquerda e os mais conservadores à direita. No entanto, convenhamos que volvidos quase 250 anos desde esses tempos, muita coisa mudou, os conceitos evoluíram e sobretudo o mundo complexificou.

Deste modo, embora as três matrizes políticas que referi na resposta à primeira pergunta ainda estejam perfeitamente alinhadas com os valores das pessoas, a perspectiva esquerda-direita parece-me francamente ultrapassada para as incorporar. O modelo alternativo proposto para dividir a política tem então dois eixos: maior versus menor intervenção do Estado na economia, e o liberalismo versus tradicionalismo (ou autoritarismo) em relação à organização da sociedade e do estilo de vida de cada um. Abaixo, deixo uma proposta mais ou menos alinhada com esta visão e onde o autor encaixou os partidos portugueses. O que pensam desta divisão?

Compasso Político Português

O desafio que vos deixo agora passa por vos convidar a pensar nos grandes temas da política discutidos na nossa sociedade hoje em dia e definir o peso que atribuem ao papel do Estado em cada um dessas temas. As sugestões que vos deixo são as seguintes:

  • Política económica e taxação: Maior ou menor intervenção do Estado? Mais ou menos impostos?
  • Saúde: sistemas universais de acesso? Soluções privadas?
  • Alterações climáticas: Regulação ambiental forte ou fraca?
  • Imigração: Baixo ou alto controlo?
  • Educação: Financiamento do Estado? Livre escolha da Escola?
  • Assuntos sociais: Aborto e eutanásia – sim ou não? Direitos LGBTQ+, sim ou não?

Quem sou eu, afinal?

Se a tua resposta a estas perguntas for “Depende” ou até mesmo “Não sei”, está tudo certo e ainda bem que assim é. Somos muito mais do que os rótulos que nos põem e que nós colocamos aos outros. O mundo é demasiado complexo para ser discutido em realidades binárias ou refletidas naquilo que os nomes dos partidos são.

Agora, antes de quereres para ti “o olhar do bando“, começa primeiro por definir quais são os teus valores e que peso dás aos diferentes pilares morais, para que mais facilmente compreendas porque segues mais uma determinada matriz do que outra. Deixa isso bem claro para ti, e depois despe a capa da arrogância e da superioridade moral perante os outros e pergunta-lhes porque pensam eles de maneira diferente. Estou certo de que em muitos temas chegarão exatamente ao mesmo diagnóstico. Se o tratamento que prescrevem é diferente, é bem provável que a razão disso advenha do facto de a defesa das nossas verdades ser altamente incompleta e frágil. Com abertura suficiente para receber uma visão que pode construir sobre a nossa, o exercício do debate político deixa de ser tão ruidoso, bélico e polarizado. E é extremamente provável que aquilo que pensam hoje seja diferente daquilo que pensaram ou que irão pensar um dia, pois o mundo muda e vocês mudam com ele. Esta é até uma das razões que me levam a “fugir” de partidos altamente ideológicos e pouco flexíveis. Sinto sempre que um dia se poderão desatualizar em face da realidade que a sociedade vive no momento.

É esta humildade e curiosidade sobre a perspetiva do outro que eu gostaria de ver mais hoje em dia. Estou certo de que ajudaria na negociação de acordos mais robustos para o longo prazo e que mais facilmente levaria os políticos ao encontro dos interesses da grande maioria das pessoas. Talvez seja utópico demais…


José Ortega y Gasset, filósofo espanhol do século XX escreveu:

“Ser de esquerda é, como ser de direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, em efeito, são formas da hemiplegia moral…”

Esta foi uma frase escolhida pelo autor para criticar aqueles que se consideram ser de direita ou de esquerda, pois considerava que assim não eram capazes de pensar o mundo de uma forma mais ampla, que fosse para além da sua ideologia. É uma analogia usada com as pessoas que tem paralisia motora numa das metades do seu corpo, condição médica conhecida como hemiplegia.

Se depois de lerem este artigo não se sentirem “imbecis” é um excelente sinal. Significa que são mais do que um rótulo!

Escrito a 28 de janeiro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
Como foram definidos os termos direita e esquerda na política?