Recentemente dois amigos meus do México visitaram Lisboa. Como sempre, faço algumas sugestões do que fazer, que sítios visitar e onde comer. Nesse roteiro não pode faltar a recomendação de ir a Sintra, que foi por eles bem acolhida e fizeram com muito gosto. Apanharam um comboio e lá foram a esse local exuberante e único. Todavia, houve uma pergunta interessante que eles me fizeram após essa viagem: “Portugal é um país muito desigual?”. Eu sorri com a pergunta e questionei a razão dela, ao que eles me responderam: “Sentimos isso durante a viagem que fizemos, pelas pessoas que frequentavam o comboio e a aparência das zonas por onde passamos. Não parecia a Lisboa que tínhamos visto”. Não me espantei, mas achei curiosa a observação.
Seremos um país desigual? Irá essa desigualdade aumentar?
Numa notícia do Expresso publicada no início do ano, percebemos que Portugal é o quinto país mais desigual da União Europeia, onde 5% dos mais ricos do país concentram 42% de toda a riqueza. Se olharmos para o cenário atual em que vemos a inflação e as taxas de juro a aumentar, bem como a previsível recessão em 2023, prevemos que este fosso possa ainda aumentar mais. A instabilidade e descontentamento social da população irá dilatar-se e não haverá apoios do Estado que possam controlar esta escalada.
Um dos sinais mais claros da apreensão dos portugueses com a atual situação vivida espelhou-se na última sondagem do ICS/ISCTE (publicada há pouco mais de duas semanas), que visava medir o sentimento das famílias face à evolução do conflito Ucrânia-Rússia na Europa. Portugal, que foi desde início um dos países que mostrou maior solidariedade pelo que se passava no leste da Europa, vê-se agora tendencialmente mais cauteloso relativamente à guerra. Ainda que 54% do total dos inquiridos afirme que “seria melhor que a Ucrânia continuasse a resistir à Rússia, mesmo que isso implique prolongar a guerra e as suas consequências”, há agora 32% que diz que “seria melhor que a guerra terminasse o mais depressa possível, mesmo que isso implique ceder às exigências da Rússia e as suas consequências”. No segmento que assume ser “muito difícil viver com o seu rendimento atual” (15% dos inquiridos), há uma maioria, representada por 48%, que gostaria de ver a guerra a terminar rapidamente contra 36% que defendem a resistência do país invadido. Para acrescentar à análise, 37% dos maiores de 65 anos dizem ser melhor terminar a guerra com cedências a Putin. São estes dois segmentos que habitualmente sofrem mais com as crises económicas.
Esta é uma das evidências que demonstra que a população se vai tornando cada vez mais impaciente e ansiosa com a realidade que está a enfrentar. Há uma clara consciência das dificuldades que se anteveem e que poderão colocar em risco a sua própria dignidade. Quem viveu os últimos 40 anos e percebeu que teve nos primeiros 30 uma melhoria das suas condições de vida e da sua “liberdade”, percebe que esta crise poderá ser o tiro final na possibilidade de usufruir do elevador social após o choque tido há 10 anos. São estes “esquecidos” do progresso e da globalização que são vítimas de uma perda significativa da sua dignidade enquanto cidadãos. Ainda que sendo um conceito bastante subjetivo e abstrato, reflecte-se em coisas tão simples como poder ir de férias ao Algarve com a família, ir arranjar as unhas, jantar fora com os amigos, etc. Parece anedótico, mas a verdade é que num mundo onde cada vez mais se universaliza um ideal de vida perfeita através das redes sociais, as pessoas questionam quem as impede de atingir aquilo que tanto gostam de ver quando vão ao Instagram. Não interessa se são licenciados ou não, a precariedade e a falta de esperança afeta todas as dimensões da sociedade.
Por isso, concluo que Portugal é um país desigual e que tende a piorar. Sabendo que países com enormes índices de desigualdade como os EUA e o Brasil têm procurado soluções noutro tipo de interlocutores, receio bem que o mesmo se possa passar aqui. O povo cansa-se de procurar soluções nos tradicionais partidos políticos moderados e consideram que o atual modelo democrático deixa de lhes servir. Figuras mais populistas e demagógicos ganham espaço porque conseguem cativar a atenção destes “esquecidos da sociedade”, falando diretamente para eles. Tal agiganta-se quando percebem que sucessivos Governos têm de se desculpar de todos os casos e casinhos que mancham a reputação dos governantes e que os impostos que pagam não servem se quer para os ajudar em situações de maior aperto.
O que nos espera é difícil de antecipar. Qualquer cenário desenhado num espaço temporal superior a dois meses parece-me pura futurologia nos dias que correm. Mas temos de estar atentos a todos os sinais claros que vamos vendo e eles têm sido dados pelas recentes sondagens que penalizam o PS e valorizam a direita e pela própria posição da oposição. Espero que os meus receios estejam errados… Espero!
Escrito a 4 de outubro de 2022 por Sérgio Brandão
Créditos de imagem:
Legislativas. Jerónimo considera necessário “resolver problemas das pessoas” da Cova da Moura




