2 livros, 2 géneros, 1 post

Hoje trago-vos livros em dose dupla. Não, não é daquelas promoções que precisam de ler as letras pequeninas, foram só mesmo dois livros que li recentemente e dos quais gostei muito.

Comecemos por Taylor Jenkins Reid e o seu “Daisy Jones & The Six“.

Já tinha lido outro livro da autora, também muito badalado nas redes sociais, mas este entrou para a minha lista aconselhado por uma amiga. Queria algo de fácil leitura que me permitisse disfrutar de umas páginas no final de dias mais cansativos de trabalho.
Não tive spoilers, não fui ler nada sobre o livro, expectativas regradas e lá fui eu.

Que surpresa! Contando a história de uma banda, The Six, a sua chegada ao auge e a colaboração com a estrela em ascensão Daisy Jones, este livro totalmente ficcional conta-nos os altos e baixos da carreira da banda, as relações e adições num claro uso da tão mítica frase: Sex, Drugs and Rock & Roll.

Escrito em formato de entrevista e com tantas personagens diferentes, aquilo que para muitos pode parecer confuso para mim tornou-se motivo de me prender ao enredo. O livro é diálogo, é uma conversa entre narrador e todos aqueles que se cruzam na história da banda. É ação em perspetiva já que podemos acompanhar o mesmo momento pela vista de cada um dos intervenientes.
Taylor dá vida à história com tanto pormenor que cheguei a “ouvir” as canções e concertos de Daisy Jones & The Six na minha cabeça.

Foi agora adaptado a série, esperemos que não seja mais uma daquelas desilusões televisivas que muitas vezes acontecem. Pelo sim pelo não, leiam primeiro o livro!

Mudamos de livro, mudamos complemente a temática e o género literário.

Da ficção à realidade, e desta vez para conhecer “De Memórias nos fazemos” de Violante Saramago Matos.
Um título sugestivo, que em muito faz adivinhar o seu propósito. Uma homenagem da única filha de José Saramago que vai evocando memórias da sua relação pai-filha, em crónicas intimistas e de reflexão, daquela que foi a presença de Saramago na sua vida.
Dividido em três partes, a também escritora, bióloga e pintora para além das memórias deixa-nos a sua interpretação de algumas das obras do Nobel português e daquele que foi o “Empurrão” do pai nas suas aventuras literárias

Se é verdade que de memórias nos fazemos, também nos fazemos dos livros que vamos lendo ao passar dos anos, sendo certo que o que lemos num livro tem muito que ver com o que lá somos capazes de ler.

Violante Saramago Matos

Um dar a conhecer daquilo que foi Saramago enquanto pai atento à educação e desenvolvimento crítico da filha. Um pai que soube dialogar (lembro a situação da birra infantil na praia e de como Saramago demonstrou a Violante a futilidade da situação), a um pai que soube dar conselhos mesmo em situação de divergência politica.

Uma homenagem de escrita sentida, porque como lhe escreveu o pai em cartas:

Dá-me notícias que não sejam só as das chamadas telefónicas. Escrevendo diz-se mais e melhor

José Saramago

Para mim como leitora que tem Saramago como um dos seus escritores favoritos, foi bom conhecer um pouco mais, refletir sobre intertextualidade da sua obra e claro está ter ainda mais a certeza que teria sido alguém com quem tanto gostaria de conversar.

Uma uva passa pela Leitura

Dezembro e janeiro são já conhecidos meses de retrospetivas e reflexões, de definição de novos objetivos e desafios, e não poderia deixar de partilhar convosco algumas ideias sobre os meus hábitos de leitura.

Começo por vos dizer que não, não cumpri o meu objetivo no Goodreads. Desafiei-me em 2022, já que defini uma meta bem mais elevada do que em anos anteriores. Vinha bem lançada de 2021 com uns bons livros na conta, mas ainda assim não risquei esta meta a que me propus.

Não partilho isto como uma nota de pesar ou enquanto me castigo por não ter cumprido ou impressionado quem me segue por lá. A verdade é que nem sempre me apetece ler, e está tudo bem com isso! Acontece-me em alturas de maior cansaço mental ou épocas de maior stress no trabalho, ou simplesmente porque, como tantos vocês, me perco nas redes sociais a ver vídeos de gatos fofinhos ou comidas que guardo e que nunca chego a fazer (o primeiro passo para mudar um mau hábito é admiti-lo, certo?).

E 2022 foi muito disto: dias de leitura ávida, a dias sem vontade mental para ler um livro. Foi muito de livros devorados em pouco tempo, a outros com os quais lutei para lhes dar uma oportunidade.

Sobre as leituras de 2022 já vos falei de Agualusa que me encheu o coração com o “Milagrário Pessoal” (podem ler mais aqui) e li também a “A Sociedade de Sonhadores Involuntários”. Comecei a descobrir Leonardo Padura e o seu amigo polícia Mario Conde, numa ida a Cuba de que vos vou falar mais assim que terminar o Quarteto de Havana. Li livros daqueles que se devoram em horas, e em que percebes o porquê de todos o andarem a ler, como foi o caso do “Verity” da Colleen Houver. Mas também li outros que me desiludiram, como o “The Atlas Six”, em que ficas triste por uma história com tanto potencial ser subaproveitada. João Reis aqueceu-me o coração com o seu “A avó e a Neve Russa”, num romance emotivo sobre a inocência e a sua perda. Entre tantos outros mais que folheei este ano.

Para este novo ano voltei a definir um objetivo de leitura ambicioso. Agora com uma mudança de mindset e numa clara tentativa de exponenciar os meus hábitos, e acima de tudo, de aproveitar da melhor forma o meu tempo livre.

Já coloquei alguns livros em espera, e entre outros tantos outros autores, decidi que os próximos tempos serão de redescoberta da obra daquele que é um dos meus escritores favoritos: José Saramago.
Como boa amante de livros também disse em voz alta– talvez para me tentar convencer – que neste novo ano não irei comprar muitos mais livros até terminar a(s) pilha(s) de livros que tenho espalhadas pela casa (sim, a mesinha de cabeceira já não chega). Não vos soa mesmo a promessa vã? Qual objetivo de fitness que fazemos a cada ano e deixamos de cumprir lá para abril?

Quanto a vocês, não sei em que promessas gastaram as vossas uvas passas, mas desafiem-se. Seja a recomeçar a ler ou a ler mais um, dois livros este ano. Não se “obriguem”, e mantenham o hábito de disfrutar de umas páginas uns minutos por dia, seja nas idas para o trabalho seja antes de dormir. E se não estiver a ser do vosso agrado, deixem o livro de lado e encontrem o tipo de livro que vos dá prazer. O importante é isso mesmo, aproveitar!

Um novo ano cheio de grandes histórias e boas leituras, quanto a mim estarei por aqui para partilhar convosco as (re)descobertas de 2023!

O Livro ’tá na Mesa: Milagrário Pessoal

“Milagrário Pessoal” de José Eduardo Agualusa é a segunda sugestão que vos trago para a mesa.

Li-o este ano e foi mais uma forma de admirar a escrita deste autor angolano. Mas atenção, não significa isto que esta leitura tenha sido apenas elevação.

Na verdade, passei por diversas fases enquanto o folheava. De um entusiasmo inicial, passando por uma certa apatia a meio da história, à reviravolta final que me deixou a querer mais.
Podem então vocês questionar-me porque vos sugiro esta leitura.

Simples. Agualusa é dos escritores que mais me desafia, pelo seu vocabulário rico – gosto daqueles livros em que tenho de abrir o dicionário, aprender novos vocábulos e refletir no seu significado – pelo fascínio pela Língua Portuguesa e pelas suas origens, que adiciona a cada uma das suas obras com o seu jeito poético.

Este “Milagrário Pessoal” é um romance não só de amor entre duas pessoas, mas também de amor à Língua Portuguesa. Uma viagem às origens da lusofonia, e assim também uma viagem entre Portugal, Angola e Brasil.

Nele, conhecemos Iara, uma jovem linguista que tem como trabalho recolher novas palavras e catalogá-las. Mas o que poderia ser um trabalho de amor à Língua Portuguesa rapidamente se transforma, com a descoberta de novas palavras, numa ameaça de subversão da beleza do nosso idioma. É aí que com a ajuda do seu antigo professor, Iara parte em busca da origem das palavras que dizem ter sido roubadas à “língua dos passáros”.

Esta história cúmplice, entre Iara e o professor, faz também uma reflexão sobre o poder das palavras.

“Assim como criamos as línguas, também as línguas nos criam a nós. Mesmo que não o façamos de forma deliberada, todos tendemos a selecionar palavras que utilizamos com maior frequência, e esse uso forma-nos ou deforma-nos, no corpo e no espírito.”

Milagrário Pessoal, José Eduardo Agualusa

Nesta reflexão sobre identidade da língua, há também espaço a reflectir sobre hábitos de leitura numa clara crítica aos media e ao interesse que certas obras conhecem apenas quando existe o sentimento de rebeldia ao serem folheadas:

“Em Portugal ainda lêem os Lusíadas?
Sim, confirmei. Os jovens portugueses são forçados a ler Os Lusíadas no liceu. Isso explica porque muitos nunca o leram.
(…)
Deviam proibi-lo, disse. Deviam retirar de circulação todos os exemplares existentes. Talvez mesmo queimá-los. Se os proibissem seria um enorme sucesso. Imagine então se o queimassem em praça pública com as televisões a filmarem. Seria um sucesso internacional.”

Milagrário Pessoal, José Eduardo Agualusa

O menos positivo? Talvez o sentimento de fragmentação a cada capítulo. Dos relatos de sonhos, à narração de fábulas, houve ainda espaço a visitar consagrados autores portugueses, como Sophia e Camilo.

Na verdade, de algo aparentemente disperso ligado por um ténue fio condutor, regressamos nos capítulos finais ao velho Agualusa de sempre

Esta não será certamente a última sugestão que vos trarei deste autor angolano, que é sem dúvida, criador de uma das obras a que me dá mais gosto regressar.

Para despedida, e vos aquecer o dia, partilho convosco a música com o mesmo nome. Fruto da genialidade de Agualusa, surge a letra que dá corpo à música de António Zambujo.
Um ritmo quente que nos embala nesta viagem pelas palavras, e por “Alfama, Leblon Marçal”.

O Livro ’tá na Mesa: A Sombra do Vento

Quem me conhece sabe que sempre que me pedem uma ideia de leitura a boca (e o coração) me fogem para Zafón. E se vos convido pela primeira vez a sentarem-se à mesa para falar de um livro, teria certamente de começar com aquele que há uns anos me roubou o coração: A Sombra do Vento.

Pois bem, remonta a Março de 2010 o dia em que folheei pela primeira vez um livro de Carlos Ruiz Zafón, e é desde aí que este livro ocupa um lugar especial na minha biblioteca.

Lembro-me como se fosse hoje do primeiro capítulo. O momento em que o pai de Daniel Sempere o leva a conhecer o Cemitério dos Livros Esquecidos, um local em Barcelona de mistério e proteção de obras literárias raras.
Durante todo o livro a escrita de Zafón leva-nos a entrar nesta trama, ao ponto de achar que um dia seria eu a entrar nesse santuário, conhecer o guardião Isaac e, segundo mandava a tradição, escolher um livro. O livro que eu adotaria e protegeria para que nunca desaparecesse.

Mas voltando ao início. Foi na sua primeira visita ao Cemitério dos Livros Esquecidos que Daniel Sempere escolheu levar consigo A Sombra do Vento de Julián Carax, livro que dá nome à nossa história e em volta do qual girarão muitas das aventuras. A partir daí o difícil foi querer parar.

Entre livros e aventuras, Zafón dá-nos a conhecer Daniel e Fermin Romero de Torres, aquele que traz uma leveza cómica e que é peça chave na vida do jovem Daniel. Vai-nos também sendo revelada a vida de Julián Carax, autor do livro escolhido pelo jovem Sempere e que se assume uma presença sombria durante todo o enredo, entre outras importantes personagens. Por entre páginas vamos mergulhando numa Barcelona pós-guerra, gótica e sombria, de morte e amor, sempre com um toque de suspense um tanto ao quanto sobrenatural.

A Sombra do Vento é apaixonante, as descrições e intrigas levam-nos a sermos absorvidos por um enredo, em que o destino e os acasos de personagens etéreas se cruzam.

O que é também fascinante nesta obra de Zafón? Ela pode ser o início, meio ou fim da tetralogia a que pertence. Sim, uma série de 4 livros, repletos de personagens e aventuras que se interligam sem uma ordem fixa. Esta é uma tetralogia em que a genialidade do escritor espanhol nos deixa a possibilidade de ler a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos de forma independente sem necessidade de seguir uma ordem pré-estabelecida, guiando-nos apenas pela amplitude da escrita do autor.  

Numa partilha mais pessoal, sinto que de cada vez que falo de Zafón posso levar alguém a apaixonar-se pela leitura, como se a sua escrita fosse a salvação de todos os males no que à falta de entusiasmo pelos livros diz respeito. Como se Zafón tivesse o dom de pôr em palavras aquilo que representa um livro e o seu impacto em quem o lê.

“(…) poucas coisas marcam um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás (…) mais cedo ou mais tarde – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo o quanto aprendemos ou esqueçamos – vamos regressar.”

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

Impacto tão grande que, na verdade, me lembro perfeitamente do dia em que Carloz Ruiz Zafón partiu. Foi a primeira vez em que senti aquele nó na garganta por alguém que não conhecia. Num misto de tristeza e egoísmo por não ter oportunidade de ler mais nada criado pelas suas mãos, até que me veio a mente o que escreveu:

“Existimos enquanto alguém nos recorda.”

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

E vocês, vão voltar a relê-lo em breve como eu, ou abrirão pela primeira vez a porta à obra de Zafón?

Notas finais: A Sombra do Vento é um dos livros que consta do Plano Nacional de Leitura, recomendado para o Ensino Secundário (parece-me uma ótima sugestão para a época natalícia que se avizinha). Poderia sugerir-vos outros livros da sua obra como “Marina”, que merece também outra rúbrica de enaltecimento, ou numa escrita mais juvenil “A Trilogia da Neblina”. Na verdade pouco importa, o que importa é lerem-no.


Sinopse:

“Numa manhã de 1945 um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, “A Sombra do Vento” é sobretudo uma trágica história de amor cujo o eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página.”

Amigos, “O Livro ‘tá na Mesa!”.

Amigos, “O Livro ‘tá na Mesa!”.

Provavelmente já todos ouvimos uma frase semelhante a ecoar alto e bom som pelos corredores da nossa casa, quando o jantar estava pronto, servido e já a arrefecer na mesa. Sim, isto é uma rúbrica em que o nome se lê alto, com sotaque do Norte e cheio de pressão para que vocês desçam rápido as escadas e se sentem à mesa, entre amigos, que a comida, desculpem, o Livro está na mesa.

A verdade é que poderia, dentro da mesma temática de “comidas” entrar agora em metáforas ou reflexões profundas sobre isto da leitura. De como ler é combustível para a alma e imaginação ou, num parafrasear Bíblico, dizer-vos que nem só de pão vive o Homem, mas também de bons livros e boas palavras. Mas não, venho só apresentar-me, e deixar o resto das reflexões para depois.

O meu nome é Rita, sou do Norte, e à mesa e entre amigos venho falar-vos de livros e leituras.

E então, o que dizer sobre mim?

Sou o tipo de pessoa que concorda que na mesa cabe sempre mais um amigo para jantar, assim como nas estantes mais um livro. A que arranja sempre espaço e orçamento para um livro mais ou uma requisição extra na biblioteca municipal. A que deu também uma oportunidade ao formato digital para poupar o ambiente, o peso nas costas, também a carteira, e o espaço livre ainda existente em casa.

Gosto genuinamente de ler, e do poder e enriquecimento que um livro me traz. Gosto de trocar impressões sobre as páginas que vou lendo, e partilhar com os amigos o que vou descobrindo.

Mas não se enganem, como qualquer amor este também já passou, passa e passará por diversas fases. Da paixão intensa em que devoro páginas ou vencia o concurso da biblioteca de requisitante do mês. À perda de fulgor e distanciamento de não ler nem uma página por semana e aos livros durarem meses na beira do sofá. Do amor eclético de ler grandes clássicos, a paixões velozes de ler livros em dois dias.

Já aprendi muito com os livros. Desde palavras novas, a factos que desconhecia. Já viajei sem sair do sofá, absorta e perdida nas suas páginas. Já recriei na minha imaginação personagens inventadas, e fiquei a conhecer biografias de Humanos inspiradores. Já parei livros a meio, desde que decidi que não iria ler algo que não me estava a dar prazer, quando há tantos livros para ler e tão pouco tempo! Assim como já passei noites em branco porque parar a história não era opção.

Já aprendi também, que existem livros para cada uma das nossas fases. E que o melhor da leitura, é que tal como na comida, existem livros para todos os gostos, prontos a serem folheados e descobertos. 

Nesta rúbrica falar-vos-ei dos livros que me marcaram, das coisas boas que vou lendo, e das menos boas também. Trarei amigos para a mesa para partilharmos diferentes gostos literários e descobertas.

Venham, puxem uma cadeira e sentem-se, que “O Livro ‘tá na Mesa!”.