Aborto, um direito para a clandestinidade…

“Se uma mulher tiver de fazer um aborto, vai fazê-lo de qualquer maneira… Irá fazê-lo num lugar sem segurança para a sua saúde, se estiver desesperada, e não conseguir que um médico o faça. É assim que tem acontecido desde o início dos tempos. Portanto, se 25 homens no Alabama a considerarem uma criminosa, isso só aumentará o seu sofrimento”, Paula Rego

A decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América em revogar a jurisprudência da decisão do caso Roe v. Wade, deve ser lembrada hoje e no futuro como uma prova clara de que os direitos não podem ser dados como adquiridos ou independentes das nossas escolhas políticas.

A partir de agora o aborto passará a ser legislado estado a estado, o que significa que os EUA serão um país a duas velocidades, com mais uma razão para reforçar a sua divisão crescente.

Apesar de tomada por um tribunal, esta é uma decisão política, não judicial.

A estrutura judicial do Supremo Tribunal existe para equilibrar os poderes Executivo e Legislativo do Estado Federal, tem um quórum de juízes nomeados pelo Presidente, referendados pelo Senado, que ocorre apenas quando algum dos juízes decide sair voluntariamente ou por reforma.

O Tribunal é uma estrutura que garante estabilidade ao sistema e que ao longo do tempo tem funcionado como um contra peso do poder político do governo norte americano.

Só é possível justificar que um retrocesso desta magnitude ocorra  no período de vigília do Presidente Democrata Joe Biden, pela alteração significativa do quórum de juízes ao longo do mandato de Donald Trump. Apesar de Trump ter abandonado a casa branca em 2020 as consequências das suas decisões continuam a fazer-se refletir no país.

Que impacto é que esta decisão pode ter nos EUA?

Apesar do direito ao aborto ter sido revogado da esfera constitucional para a realidade de cada estado, esta deverá ser uma decisão com um impacto limitado no redução do número total de abortos ou na restrição do acesso, devido a:

1. Os estados que se preparam para banir o aborto já têm atualmente em vigor um conjunto de medidas que restringiram significativamente o acesso a prestadores médicos abortivos, pelo que estes já estão fechados ou deslocalizados em outros estados;

2. Dos estados que vão legislar para ilegalizar o aborto, três (Texas, Idaho e Oklahoma) já tomaram medidas ao longo do último ano que já impediam a maioria dos diferentes tipos de aborto, e nos restantes estados os prestadores médicos abortivos que existem representam menos de 5% de todos os abortos praticados nos EUA;

3. A compra de comprimidos abortivos pela internet será muito difícil de controlar;

4. É provável que os Estados Democratas ou Organizações dedicadas criem fundos e estruturas que possam apoiar mulheres a dirigir-se a locais que lhes permitam usufruir desta liberdade em segurança.

Apesar do número total de abortos poder não diminuir de forma significativa no país e os objetivos dos movimentos pró vida dos EUA não serem atingidos, continuará a existir um problema grave de segurança e acesso ao aborto que se vai fazer sentir principalmente nas franjas mais vulneráveis e pobres da sociedade americana.

” se uma mulher tiver de fazer um aborto, vai fazê-lo de qualquer maneira… Irá fazê-lo num lugar sem segurança para a sua saúde, se estiver desesperada, e não conseguir que um médico o faça. É assim que tem acontecido desde o início dos tempos. Portanto, se 25 homens no Alabama a considerarem uma criminosa, isso só aumentará o seu sofrimento”

Paula Rego, Lusa, 31 de maio de 2019

Nada será como dantes.

Parece estar a ser criado um contexto lose-lose onde os estados liberais veem ferido um dos direitos constitucionais das mulheres e os estados conservadores vão sentir-se traídos pelos estados liberais adjacentes por não verem cumprir os resultados desejados.

A decisão do Supremo Tribunal dos EUA pode contribuir decisivamente para a divisão de uma federação de 50 estados que vê crescer 2 países radicalmente diferentes: um democrata, cosmopolita e liberal que se concentra no Norte e nas grandes cidades/estados das costas Leste e Oeste e outro Republicano, tradicional e conservador que se concentra nos grandes estados do centro e sul do país.

Só há uma forma das mulheres vencerem. Os democratas têm de aceitar a decisão, reconhecer a mudança e construir o futuro a partir dela, construir o futuro com os republicanos, aproximando posições e compromissos que unam as partes. Sem diálogo, compromissos e união, não haverá futuro, ninguém vencerá.

Hoje é o aborto nos EUA, amanhã pode ser um direito nosso em Portugal.
Lembrar-me-ei disso, sempre que votar.

Escrito a 27 de junho de 2022 por João Tiago Teixeira

Créditos de imagem: O aborto clandestino visto por Paula Rego.

Links de interesse:

It’s now up to the states’: Republicans move to ban abortion after Roe falls

17 Ways the Supreme Court Just Changed America

Portugal em 2021, o menor número desde a legalização da IVG

Aumentos de 20%, no salário ou inflação?

A  taxa de inflação em maio ficou acima dos 8%, o valor mais alto desde 1993. O BCE vai aumentar as taxas de juro em julho. Há uma crise económica no horizonte, o que é que isto pode significar para o nosso futuro?

No início deste mês de Junho o primeiro-ministro António Costa convocou as empresas a participar num esforço nacional para fazer crescer o salário médio dos trabalhadores em 20% durante os próximos quatro anos da legislatura.

Com um golpe de magia política digno de Houdini, o Primeiro Ministro fugiu ao contexto inflacionista que vivemos e relegou para segundo plano todas as propostas dos partidos de oposição para subir rendimentos, surpreendendo os portugueses com um novo tema para discutir, conseguindo “relegar para” terceiros a responsabilidade de ajudar os portugueses a fazer face à emergente crise económica.

A  taxa de inflação em maio ficou acima dos 8%, o valor mais alto desde 1993

Segundo o INE a  taxa de inflação em maio ficou acima dos 8%, o valor mais alto desde 1993, com os produtos energéticos a liderar a subida com uma inflação superior a 27%, valor record desde 1985. Estamos num ciclo inflacionista que parece ter tido início no período COVID, impulsionado pelos milhares de milhões de euros despejados na economia para fazer face à crise sanitária.

in jornal Eco

Este ciclo terá sido sustentado pelas dificuldades logísticas nas cadeias globais de abastecimento que incrementaram muito custos de transporte e reforçado pelos picos de procura pós desconfinamento que baixaram níveis de stock e não refletiram sensibilidade às subidas de preço registadas. Este surto inflacionista não parece ter um fim para breve dado o impacto brutal que o esforço de guerra está a ter nos custos energéticos na Europa e que inevitavelmente se propaga no custo de tudo o que consumimos: produtos e serviços.

A responsabilidade institucional dos Bancos Centrais para com o sistema financeiro e o tradicional papel que desempenham, tornava inevitável que tarde ou cedo tomassem medidas para conter uma economia “sobre aquecida”.

Não discutindo a eficácia real que o aumento das taxas de juro pode ter na redução da procura dos combustíveis, a realidade é que a eventual falta de clareza e aparente timidez da ação do Banco Central Europeu (BCE) quando comparada à ação da Reserva Federal Americana, parece estar a levar ao enfraquecimento do Euro versus Dólar, o que per si alimenta um efeito cambial negativo que encarece o preço de compra dos combustíveis.

O BCE vai aumentar as taxas de juro em 0,25% em julho

O BCE já informou sobre a sua reação e a partir de julho vai terminar com as compras líquidas de dívida e aumentar as taxas de juro em 0,25%, tendo aberto a possibilidade de subir e chegar até aos 0,75% em setembro.

O objetivo da subida das taxas de juro passa por arrefecer a economia, reduzir a taxa de inflação para níveis compatíveis com os 2%  anuais através da redução da procura, que pode ser atingido pela redução do volume de dinheiro disponível entre quem compra produtos e serviços – particulares ou empresas, pressionando quem vende a manter ou baixar preços para conseguir escoar stocks.

Na prática a redução do volume de dinheiro disponível na economia é atingido pelo aumento dos custos de empréstimos, novos ou existentes, reservando parte do dinheiro que podia ser usado no consumo.

O que é que isto significa na prática?

Pensando nos empréstimos existentes e na sua relação com os particulares, o aumento das prestações de crédito pessoal ou habitação indexados à taxa Euribor vão subir e ocupar uma maior proporção de rendimento mensal, reduzindo o volume de dinheiro disponível para as restantes despesas o que se traduz na redução do consumo privado e respetivo poder de compra.

Para quem tiver interesse em simular o possível impacto da Euribor na mensalidade do crédito à habitação, recomendo esta plataforma, sendo que para efeitos de simulação dos valores da Euribor podem utilizar máximos de crises anteriores ou previsões recentes (mais negativas, a rondar os 5/5,5%).

Do lado das empresas o aumento do custo de crédito pode refletir-se na redução ou adiamento de novos investimentos, o que aliado à redução do consumo privado pode levar a desemprego. A interpretação da situação pode tornar-se complexa, no entanto o vídeo do The Economist explica de forma clara e simples todas estas relações.

Com tamanha hecatombe à porta, como fica o Estado Português? Sendo um dos países da Zona euro com maior percentagem de divida do PIB, superior a 130%, e estando os mercados a pedir garantias que não ocorrerá uma fragmentação da zona Euro, o governo português vai ser um dos que vão sentir maior pressão para manter uma trajetória orçamental “responsável”, que pode vir a ser severamente condicionada por um aumento dos custos do serviço de dívida.

Neste contexto o Estado poderá ver-se obrigado a reforçar os apoios sociais, o que seguramente reduzirá a capacidade financeira para outros investimentos públicos. Ora, não admira que o Primeiro Ministro desafie as empresas a subir salários pois não parece poder ser o Estado a poder patrocinar tal objetivo.

Ao longo dos últimos anos perderam-se muitas oportunidades e discutiram-se muitas (más) opções que apenas agora vão mostrar as verdadeiras implicações. A crise está mesmo aí e vai-nos afetar a todos. Não afetando todos de forma igual vai afetar principalmente aqueles que têm menos recursos e serão eles a passar (novamente) por mais sacrifícios. Aumentos de 20%, no salário? Tudo indica que a meta do aumento de 20% vai ser atingida, mas no aumento do custo de vida. Temos de estar preparados para isso!

Escrito a 13 de junho de 2022 por João Tiago Teixeira

Image Credit: Imagem do euro em frente à sede do Banco Central Europeu em Frankfurt na Alemanha © REUTERS/Alex Domanski

Links de interesse:

In Observador: É possível um aumento do salário de 20% em 4 anos? Entrevista com Luís Aguiar-Conraria

Video do The Economist: How does raising interest rates control inflation?

Doutor Finanças: Simulador da variação da Euribor no Crédito Habitação

Previsões Pessimistas das taxas de Juro: Central Banks Are Still Far Behind the Inflation Curve

Sobre o efeito cambial: Dollar gains with inflation data on tap, euro falls after ECB

Fragmentation risk in the euro area: no easy way out for the European Central Bank

Juros da dívida portuguesa em máximo de cinco anos após anúncios do BCE. 

Prosperidade ou liberdade? O que escolhias?

Quanto ao dilema, Prosperidade ou Liberdade? Hoje em Portugal e na Europa isto é ainda uma falsa questão. Esperemos no futuro poder continuar a responder assim, pois noutros países optar pelos dois não é resposta.

Perante um dilema onde sejam obrigados a escolher entre prosperidade ou liberdade o que é que responderiam? Na China as pessoas respondem todos os dias prosperidade e tenho dúvidas que na sua essência, algum de nós entre ter de escolher dizer o que pensa ou alimentar um filho seja capaz de decidir de forma diferente.  

A desigualdade e a falta de perspetivas de futuro, sobretudo para os mais jovens, está a levar ao descrédito na democracia. O sistema político atual não se está a mostrar capaz de defender os interesses dos mais vulneráveis e infelizmente a vulnerabilidade parece estar a atingir uma população crescente.

Porque é que num sistema democrático onde todos votam, os votos valem todos o mesmo e o grupo dos vulneráveis aparentemente cresce, o processo eleitoral não leva à escolha de uma alternativa que os proteja e defenda?

Entre outras possibilidades podem surgir explicações como:

  • Nem todos podem votar
  • O voto não é válido
  • Os eleitos não os defendem por falsas promessas
  • Os eleitos não os defendem por verdadeira incapacidade
  • O sistema estando viciado impede os eleitos de os defender

Independentemente da opinião de cada um e de qual seja a resposta certa, está a desenvolver-se um contexto que legitima dúvidas sobre o futuro do pluralismo e das democracias liberais e que suporta a ascensão de um populismo totalitário travestido de conversa de café que rejeita o sistema por opção, independentemente da veracidade de qualquer uma das opções anteriores.

Este é um contexto que alimenta o crescimento do populismo em Portugal e na Europa, um fenómeno que se alimenta de diferentes origens que se suportam entre si tal e qual um ciclo vicioso:

Se aquilo que procuramos é proteger os vulneráveis, estar neste rumo não seria um problema, não fosse este um caminho que levasse a um futuro ainda mais negro e austero do que aquele em que já estamos.

Os sistemas totalitários não são conhecidos pela sua apetência redistributiva de recursos. Ao longo da história repetem-se os exemplos dos sistemas autoritários que se servem de um sistema feudal, de classes ou castas onde as elites se aproveitam dos estratos societais inferiores.

Daron Acemoglu e James Robinson exploram esta matéria de forma brilhante no livro “Porque Falham as Nações”, onde explicam como ao longo da história da humanidade os sistemas liderados por elites totalitárias têm tendência para tomar todas as ações que lhes sejam permitidas, de foro económico e institucional, para persistir no poder, manter o status quo e amplificar a relação extrativa de recursos.

A democracia liberal e o capitalismo afiguraram-se ao longo do tempo como os melhores mecanismos disponíveis para substituir elites e permitir redistribuição de poder.

Este é um sistema que permite aos interesses emergentes lutar com os instalados, o que é um garante da existência de um contexto mais livre e aberto ao sucesso económico e social, o que aumenta a flutuação de indivíduos entre os diferentes estratos societais, que de outro modo estariam condenados ao seu fado de nascença.

Ao longo dos últimos anos fomos assistindo ao entrincheiramento dos partidos políticos, mergulhados num transe dialético entre eixos político-imaginários, em tacticismos e jogadas políticas que em nada contribuem para resolver os problemas que afetam as pessoas, arriscando a destruição do sistema que juram defender e servir. Não há inocentes, da esquerda à direita todos os partidos devem assumir a sua quota de responsabilidade e abraçar ações que protejam o futuro do sistema.

Não podemos discutir alternativas ao capitalismo sem discutir alternativas ao pluralismo e à democracia liberal (pelo menos como a conhecemos). É por isso interesse do sistema vigente, do interesse de todos os partidos em especial dos que estão na oposição, refletir sobre o futuro da sociedade, sobre o futuro que querem para as gerações seguintes e sobre como é que no atual contexto bélico, de crise climática, pandémica e inflacionista podem a curto prazo reduzir a pobreza e a desigualdade sem comprometer uma estratégia de longo prazo que devolva à sociedade a esperança de uma prosperidade devida.

Quanto ao dilema, Prosperidade ou Liberdade? Hoje em Portugal e na Europa isto é ainda uma falsa questão. Esperemos no futuro poder continuar a responder assim, pois noutros países optar pelos dois não é resposta.

Image Credit: Orlando Almeida/Global Imagens in Diario de Notícias

O futuro de Portugal precisa dos jovens. O presente dos jovens precisa de Portugal.

Vivemos num país onde 20% da população está em situação de pobreza ou exclusão social. Um país onde a desigualdade persiste, um país pobre e que vê a sua classe média a esfumar-se.

O desemprego apresenta-se entre os diferentes catalisadores de um contexto de vida adverso como uma das principais razões de pobreza. Segundo o relatório sobre as Desigualdades, a incidência de pobreza nos desempregados ascende a quase 50% e mesmo entre os que trabalham, vemos mais de meio milhão pessoas que não consegue garantir um nível digno de vida.  

Se pensarmos que a taxa de desemprego do país atingiu uma marca histórica no último mês de Fevereiro, reduzindo para 6% e que está em mínimos dos últimos 20 anos, então diríamos que temos razões para ser otimistas, razões para acreditar no futuro. Do lado do governo é notório o orgulho na marca conseguida, não fosse esse o título da sua comunicação.

Apesar da celebração da empregabilidade estar em alta, não podemos dizer que esta seja uma festa para onde os jovens tenham sido convidados. Uma leitura atenta da mesma comunicação fica a saber que a taxa de desemprego jovem reduziu -2,7% face a janeiro de 2021 mas fica sem saber onde chegou, onde está ou de onde partiu.

Tendo de complementar a leitura com uma consulta rápida dos dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, conseguimos descobrir que a taxa de desemprego jovem é de 23,4% e continua a estar num patamar superior aos níveis observados no período pré troika.

Num contexto onde o desemprego é um dos principais fatores de pobreza, quase 50% da incidência de pobreza está no grupo dos desempregados e um quarto dos jovens está nesta situação, é compreensível que segundo a sondagem à boca das urnas, um governo eleito por maioria absoluta, tenha tido tão poucos jovens a votar nele.

Uma estrutura demográfica envelhecida faz dos jovens uma geração esquecida pelos políticos, como não é com eles que se ganham eleições, são um grupo de voto sem interesse, que menos importa defender ou agradar, pelo que não vale a pena fazer vãs promessas ou apelar sequer ao voto. Estamos perante um executivo que pode governar de forma absoluta e que governa absolutamente pouco a favor dos mais jovens.

Perante esta realidade é difícil convencer um jovem do quão auspicioso é o seu futuro.

Um jovem que não tem emprego não sabe se vai poder comprar uma casa algum dia. Um jovem que não tem emprego não sabe sequer o dia em que vai conseguir sair do quarto de sempre, que fica ali ao lado do quarto dos seus pais.

Um jovem que não tem emprego não sabe quanto tempo falta para se sentir capaz de constituir família. Um jovem que não tem emprego não sabe o que vai fazer no dia de amanhã se no amanhã a família lhe faltar.

Um jovem sem emprego não teve oportunidade de entrar no mercado de trabalho e influencia-lo com as suas ideias e produtividade, não pode constituir família e contribuir para a natalidade, não pode receber um salário e pagar impostos que permitam sustentar a segurança social.

Pior que um jovem não ter emprego, é ter emprego, mas dada a precariedade continuar a não saber responder a nenhuma destas questões.

Não há maior barreira à prosperidade, desenvolvimento e crescimento de um país, que a falta de esperança e perspetivas para um futuro favorável e melhor para aqueles que vão fazer dele o seu futuro.

A desigualdade e a falta de perspetivas de futuro para os mais jovens pode levar à erosão do sistema democrático.

Discutir o futuro da nossa sociedade, o futuro que as diferentes gerações desempenham nela e a transformação que pretendemos para o país é urgente e fulcral, ou de outra forma arriscamos não conseguir manter vivo o sistema plural em que vivemos.

Se o sistema em que vivemos não se mostra capaz de os defender é compreensível que mais tarde ou cedo, sejam eles a querer defender-se do sistema. O futuro de Portugal precisa dos jovens, mas o presente dos jovens precisa de Portugal. A bem de todos está na altura de dizermos: Presente!

Image Credit: Dal Marcondes

Outros sites de interesse:

https://portugaldesigual.ffms.pt/evolucaodasdesigualdades

https://www.dinheirovivo.pt/economia/desemprego-continua-a-subir-para-os-mais-novos-e-apanha-jovens-da-ultima-crise-14582325.html

https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+desemprego+total+e+por+grupo+et%C3%A1rio+(percentagem)-553

https://rr.sapo.pt/noticia/politica/2022/02/18/legislativas-2022-mais-velhos-votam-ps-jovens-e-mais-instruidos-preferem-a-direita/272968/

Máscaras, para que te quero?

Torna-se cada vez mais premente discutir a validade da medida, as suas implicações (negativas) o contexto em que é aplicada e o enquadramento que possa justificar a sua suspensão.

A pressão mediática que sugere a suspensão da utilização obrigatória de máscaras é crescente e torna-se cada vez mais premente discutir a validade da medida, as suas implicações (negativas), o contexto em que é aplicada e o enquadramento que possa justificar a sua suspensão.

Seria impossível desenvolver uma reflexão sobre este assunto sem antes reconhecer a importância que o uso de máscara teve ao longo da evolução da pandemia, assim como da sua utilidade no controlo da propagação de doenças como as dos vírus COVID e Influenza, que se propagam pelo aparelho respiratório

A moção de censura simbólica que foi apresenta pelo Deputado Sérgio Sousa Pinto ao seu partido (AQUI) levantou uma onde de fundo que questiona de forma cada vez mais veemente o governo e a Direção Geral de Saúde sobre o timing (in)definido para que se deixe cair esta medida, dando um ênfase cada vez superior ao sacrifício que se pede à comunidade educativa e em especial às crianças desde meados de 2020.

Impõe-se por isso refletir sobre o enquadramento atual da pandemia em Portugal, como é que Portugal se compara com outros países da União Europeia e se a relação de risco, custo e benefício continua positiva.

Segundo os dados divulgados a 18 de Abril Portugal é o sétimo país da União europeia que regista mais casos COVID por 100 habitantes. Este contexto pode sugerir que a gestão pandémica está a sofrer um revês e que é por isso impossível rever e sequer pensar em reduzir as atuais medidas.

Dada a velocidade com que se tomam (precipitadas) conclusões, dira que dar esta conclusão como certa é o mesmo que concluir que conduzir a 75km/h é estar a conduzir demasiado depressa e por isso é melhor abrandar.

Da mesma forma que conduzir a 75 km/h na rua dos Clérigos é muito diferente de conduzir à mesma velocidade na A1, precisamos de enquadrar o número de casos COVID no devido contexto e só aí decidir se é o momento de abrandar ou acelerar rumo à suspensão das medidas restritivas.

Qual é o risco pandémico de Portugal relativamente aos dos nossos congéneres europeus?

Através de uma análise detalhada de informações disponíveis no site ourworldindata.org e complementando com noticias de diferentes órgãos de comunicação social que referem as medidas COVID implementadas pelos diferentes países europeus foi possível resumir numa análise simples como é que a nossa realidade compara com a de outros países europeus:

Analisando a informação é possível chegar a 5 conclusões chave:

1. temos (de longe) a maior taxa de vacinação completa;
2. somos dos que tem menor número de mortes COVID;
3. estamos com valores elevados de casos COVID;
4. temos um valor de hospitalizações e doentes em UCI médio;
5. somos a par da Itália um dos únicos países que mantém maiores restrições na utilização de máscara em espaços fechados.

Não é surpreendente perceber que o rácio de hospitalizações e de óbitos versus o número de casos COVID seja inversamente proporcional à taxa de vacinação dos países em estudo, o que reforça o feito extraordinário que foi atingido pelo país nos níveis de vacinação.

O cruzamento destes indicadores permite deduzir que Portugal é um dos países que menos riscos corre quando decidir reduzir a utilização de máscaras. Tal como discutido no passado, as medidas restritivas não devem servir o propósito de impedir a propagação do vírus, mas sim garantir que o vírus se propaga de forma controlada procurando prevenir que o SNS sofra qualquer tipo de rutura pela gestão das hospitalizações e tratamento de casos graves.

Portugal é o país que apresenta o conjunto de indicadores mais favoráveis da análise

É compreensível e justificado dizer que a utilização de máscara apresenta à priori um custo relativamente reduzido para quem a utiliza, quando comparado com o revés de sofrer uma infeção COVID com grandes complicações.

Se é verdade que o seu uso continuo pode criar algum desconforto, ora para os utilizadores de óculos, ora porque cria marcas e lesões na pele pela pressão permanente que fazem, estes custos nada representam quando comparados às complicações de uma infeção grave COVID.

O problema que a Direção Geral de Saúde tem de reconhecer e sobre o qual o governo tem de agir é a avaliação de risco que a população está a fazer relativo à possibilidade de contrair uma infeção grave COVID. Ora porque a possibilidade de infeção grave é bastante reduzida dada os níveis de vacinação, ora porque já contraiu o vírus e por isso já passou pela infeção.

Torna-se por isso evidente que a bem da credibilidade das autoridades de saúde e do governo está no momento de suspender o mais rapidamente possível esta medida, confiar na responsabilidade dos cidadãos e mesmo que com algumas restrições (tais como espaços de saúde ou residências de idosos) passar a discussão das máscaras para a reflexão sobre o confinamento obrigatório pós infeção e sobre a preparação da época de inverno 22/23.

Máscaras, para que te quero?

Este governo é pródigo em gerir a agenda e os assuntos debatidos na comunicação social, pelo que me questiono sobre a utilidade que a discussão das máscaras, possa ter. A realidade é que enquanto estamos nesta discussão é menos o tempo dedicado a discutir a inflação, a perda do poder de compra, o orçamento de estado a guerra ou o estado da saúde no nosso país. Gostava de poder deixar a máscara em casa, e começar a debater assuntos importantes para o nosso país.

Image Credit: Partilhado pelos hospitais CUF

Outras notícias de interesse:

https://www.nationalgeographic.com/science/article/do-masks-really-harm-kids-heres-what-the-science-says

A pior face da humanidade

Dia 4 de Abril acordamos para um novo Holocausto. Bucha é uma memória de Auschwitz, um fantasma que se levanta e lembra à humanidade qual a sua pior face.

Acreditámos num mito de que uma educação superior levaria à elevação da sociedade. Convenceram-nos de que uma democracia assente numa população formada, seria informada, esclarecida e coerente.

Vivemos à sombra de um iluminismo que, apesar de lógico, perde terreno para a obscuridade da crença, do desejo e da emoção. Torna-se cada vez mais difícil convencer terceiros, pessoalmente ou pelas redes sociais, da falta de razoabilidade de algumas das suas opiniões. Hoje é frequente cruzar com facilidade os domínios científicos, éticos, políticos, morais e até de fé, misturar tudo e definir posições abjetas sobre coisas que deviam ser simples, quase unânimes.

A história é uma interpretação aceite da memória coletiva da humanidade

A história não é uma coleção de factos, mas antes uma interpretação aceite da memória coletiva da humanidade. Por muito que os historiadores queiram ser objetivos, não é possível compreender os factos da história sem vê-los à luz do seu contexto e sem teorizar sobre a forma como as dinâmicas externas condicionaram as decisões tomadas pelos protagonistas da altura.

Embora seja importante assegurar um registo factual dos acontecimentos passados, é fundamental ir além dos factos observáveis e compreender os porquês, pois só através desta reflexão é que a humanidade pode evoluir de uma forma incremental. São os factos invisíveis, inobserváveis e muitas vezes não confirmáveis que nos podem munir de armas que previnam a criação de contextos similares, que nos façam precipitar para abismos passados.

Os anos 20 do século XXI serão provavelmente dos mais importantes da nossa história e à medida que passam os dias sobre o início da invasão Russa na Ucrânia, fica cada vez mais evidente que esta não é uma batalha que se trave apenas para lá do Dniepre.

A opinião pública é chave para pressionar os lideres políticos a tomar ações

A envolvente não convencional da guerra está a ganhar escala e torna-se cada vez mais clara o quão acertadas foram algumas das ações tomadas pelos líderes europeus. A opinião pública é chave para pressionar os lideres políticos a tomar ações e a guerra comunicacional inerente às duas fações em disputa, pretende influenciá-la de forma a paralisar a Europa e impedir a defesa e apoio ao território ucraniano.

Muitas opiniões rejeitaram a decisão de censurar os canais propagandísticos dos interesses russos e de forma bastante fundamentada alertaram que a Europa não devia utilizar as mesmas armas de um ditador, alertaram para a imprudência que seria abrir precedentes que pudessem criar fissuras para com os princípios democráticos europeus e até para com a própria liberdade de expressão. Algumas dessas opiniões defenderam até que a manutenção dos canais propagandísticos podia permitir acompanhar a visão russófona do conflito e que pela sua falta de coerência da comunicação, a falta de razoabilidade seria óbvia e por isso ineficaz a confundir a opinião europeia.

O Massacre de Bucha é provavelmente o primeiro grande acontecimento que prova o quão certa foi esta tomada de decisão. Este infeliz evento, equiparável aos fantasmas de Auschwitz, mostra como os mesmos factos podem ser interpretados de forma tão diferente pelos diferentes interesses políticos, e como a vivência do pós verdade pode justificar que apesar de investigações jornalísticas inatacáveis (os trabalhos do NY Times e do Guardian) possam ser caracterizadas por alguns como falsas e propagandísticas.

Bucha: os factos são os mesmos, no entanto existem diferentes histórias à volta destes acontecimentos

Os factos são os mesmos em todas as versões: “foram mortos dezenas de civis em Bucha”, no entanto existem diferentes histórias à volta destes acontecimentos. Infelizmente não precisamos de sair do nosso país para ver isto, temos tido diferentes comentadores que perante estes factos, têm tentado contaminar a opinião publica através dos jornais e talvez com isso abrandar o apoio que Portugal pode dar a este conflito.

Se para alguns a comunicação é racional, intencional e cumpre uma agenda deliberada, para aqueles que a ouvem é a emoção as suas crenças e a sua fé que os faz decidir sobre quem tem razão e o que será ou não verdade.

Embora todos pareçam desejar a prevalência da racionalidade, não podemos ignorar a forma como a emoção assiste o pensamento. Talvez seja a forma como a emoção e a razão se confundem que faz a humanidade única, talvez seja essa a característica chave que nos faz tomar sentido do mundo e ser diferentes de todas as outras espécies, e talvez por isso seja esta a pior face da humanidade.

Image Credit: Partilhado por @Carlosgpinto

Outras notícias de interesse:

https://www.theguardian.com/world/2022/apr/05/satellite-images-of-corpses-in-bucha-prove-russian-claims-wrong

https://rr.sapo.pt/noticia/mundo/2022/04/03/ucrania-denuncia-execucao-de-civis-em-bucha-e-fala-em-nova-srebrenica/278858/

Guerra da Ucrânia, perderemos todos ou não?

Guerra na Ucrânia: alguém que não tenha nada a perder, pode simplesmente querer que todos os outros percam também.

Olhando ao presente, a Rússia já perdeu. Putin está condenado a perder. A Ucrânia chora as suas perdas e resiste. A questão que o futuro se encarregará de dar resposta é se perderemos todos ou não.

Dia 24 de Fevereiro de 2022 ficará registado como o dia em que a Europa acordou para o início da primeira guerra nas suas fronteiras no Século XXI. Foi um dia igual àqueles que recordo de estudar na infância, onde aprendi sobre as atrocidades longínquas, outrora cometidas nas velhas Guerras Mundiais, cujo gradiente cinza das imagens engana o ingénuo espírito das crianças, que crescem num tempo de paz e prosperidade, pensando que aquela história teria sido vivida por outros que nada tinham a ver consigo ou com os seus.

O exército Russo apresentou-se nas fronteiras ucranianas como um dos maiores do mundo, mais de 700.000 soldados, o maior arsenal nuclear do Mundo e um orçamento anual militar apenas superado pelos da China e Estados Unidos.

Dado o contexto económico e social da Rússia se traduzir num estado híper centralizado nos corredores do Kremlin, ineficiente, pensado para favorecer a persistência das forças de poder existentes, alicerçado num esquema de incentivos que anula a competitividade interna, levam a que o exército de Putin seja acompanhado por um PIB de 1.478 Milhões de Euros, valor equiparado ao espanhol, assente na extração de recursos naturais e alicerçado por uma cadeia de valor altamente dependente da importação de tecnologia ocidental.

GDP (current US$) – Spain, Russian Federation, France, Germany, United Kingdom, World Bank national accounts data, and OECD National Accounts data files.

O exército russo combate com o objetivo de defender e reforçar as posições de poder existente

Tal como o contexto económico, as ações militares são desenvolvidas dentro do mesmo contexto, o exército que combate em território ucraniano luta pelos objetivos definidos pelo seu líder, que para todos os efeitos tem como objetivo o de defender e reforçar as posições de poder existente na Rússia.

Na aceção da sua população a Rússia já perdeu, pois as sanções económicas que se fazem sentir no país estão a empobrecer e a prejudicar uma população já de si pobre, que vive numa sociedade muitíssimo desigual e que caminha para um trilho de faltas e privação.

Putin está condenado a perder, ora porque perdeu um dos seus principais trunfos, o mythos da invencibilidade do seu exército, ora porque se deixou trair a si próprio, ofuscado pelo brilho da sua liderança, chegou a um isolamento tal que se apresenta receoso daqueles que o rodeiam, parecendo recear o vazio da sua própria sombra.

A Ucrânia chora as suas perdas, as muitas vidas perdidas em combate, os muitos civis inocentes que foram abatidos na escalada militar e todas as infraestruturas que estão a ser destruídas pelos intensos bombardeamentos. A Ucrânia chora as suas perdas, mas faz delas a uma força e resiste, insiste e cresce sob um novo mythos de uma resistência que se parece querer perpetuar.

Alguém que não tenha nada a perder, pode simplesmente querer que todos os outros percam também

Imaginando as tentações que podem passar pela mente de um condenado, não é descabido pensar que alguém que não tenha nada a perder possa simplesmente querer que todos os outros percam também. Por isso, só o futuro conseguirá responder à questão: No fim perderemos todos, ou não?  

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Understanding Putin’s war of resentment and how to stop it – European Politics and Policy or the London School of Economics

Russia Is Too Small to Win – Project Syndicate

The world’s 20 strongest militaries – Business Insider

Featured image credit: Revista Time Março 2022