Para Simon Sinek, a resposta está na capacidade de criar um legado que transcenda o seu momento. Escolhi o livro Leaders Eat Last para escrever a minha primeira crónica de 2025 porque este moldou o meu crescimento pessoal e profissional, oferecendo os alicerces para aquilo que acredito ser a essência da liderança em contexto organizacional: criar um ambiente de segurança e confiança que permita a uma equipa prosperar.
Embora Sinek seja mais conhecido pelo best-seller Start With Why e pela sua emblemática TED Talk de 2011, vista por milhões de pessoas, considero Leaders Eat Last a sua obra mais transformadora. Entre os muitos materiais que explorei sobre liderança, este livro destaca-se por apresentar o líder que o futuro das organizações necessita: alguém que coloca o coletivo acima de si mesmo e projeta o impacto da sua liderança para lá do seu mandato presente.
O Círculo de Segurança
“Trust is like lubricant. It reduces friction and creates conditions much more conducive to performance.”
Um dos conceitos mais marcantes do livro é o “Círculo de Segurança”. Sinek defende que a verdadeira liderança vai para além do indivíduo, centrando-se em criar um ambiente onde a confiança floresça, haja espaço para errar e as equipas se sintam seguras para colaborar.
O impacto de um ambiente de confiança é evidente e quando os líderes falham em construir este contexto, as equipas tendem a fragmentar-se em subgrupos, reduzir a comunicação e fomentar uma competição interna prejudicial. Embora alguns possam argumentar que esta competitividade pode estimular o crescimento e a procura por melhores resultados, Sinek lembra-nos que essas vitórias são geralmente individuais e alcançadas à custa do coletivo – um contexto de win-lose que não beneficia o todo da organização.
Por outro lado, as equipas que operam dentro de um Círculo de Segurança “viram as costas para dentro”, protegendo-se mutuamente enquanto enfrentam desafios externos. Este modelo promove uma comunicação aberta, capacidade para experimentar e inovar, partilha de informações e a construção de um ambiente onde o todo é sempre mais forte do que a soma das partes. A competição está lá fora e esse é foco que garante às empresas ficar mais perto de vencer os concorrentes no mercado.
Liderança e Responsabilidade
Para Sinek, assumir uma posição de liderança não significa usufruir de privilégios, mas aceitar o bem mais precioso que lhe é confiado: a responsabilidade pelos outros, especialmente por aqueles que dependem de si.
O líder é responsável pelo sucesso daqueles que o seguem e, por extensão, de toda a organização. Sinek defende que os melhores líderes são aqueles que assumem totalmente esta responsabilidade e são capazes de a conjugar com o ato de delegar autoridade às pessoas mais próximas da informação, da ação ou do cliente, permitindo que se tomem decisões mais rápidas e alinhadas com visão organizacional.
Isto só é possível em organizações que praticam o que ele advoga no seu Start With Why. Só onde o “porquê” é claro para todos é que é possível implementar este tipo de abordagem, pois este “porquê” fornece a bússola necessária para orientar as pessoas a decidir bem em cenários desconhecidos e incertos. O sucesso neste ponto é particularmente relevante para todos os líderes que enfrentam um desafio “impossível”: responder rápida e eficazmente às urgências do dia a dia, numa realidade em que são todos obrigados a fazer mais com menos e ao mesmo tempo desenvolver equipas de elevada performance, autónomas e competentes.
O Legado da Liderança
“A leader’s legacy is only as strong as the foundation they leave behind that allows others to continue to advance the organization in their name.”
Esta frase encapsula a essência do que Sinek considera ser o verdadeiro impacto de um líder. O legado de um líder não deve ser apenas a nostalgia por um tempo passado, mas sim uma base sólida que permite à organização prosperar depois da sua ausência.
A qualidade da liderança exercida é um fator crítico de sucesso para a competitividade das empresas, seja na retenção de talento, seja no equilíbrio entre a flexibilidade e agilidade exigidas pelos clientes e a escalabilidade necessária ao crescimento e criação de valor para os acionistas. Líderes que criam ambientes de confiança e promovem autonomia não estão apenas a preparar as suas equipas para lidar com o desconhecido, estão sobretudo a garantir que se desenvolvem os líderes na organização, e que o impacto do seu trabalho ecoe no futuro.
Para quem procura explorar uma visão humana e transformadora da liderança, Leaders Eat Last é uma leitura indispensável. Recomendo a versão original, escrita num inglês simples e envolvente, mas existe também uma excelente tradução para português intitulada Os Líderes Comem por Último.
E tu, como líder, conseguiste criar um Círculo de Segurança para a tua equipa? O legado que estás a construir hoje será recordado como nostalgia ou como um marco de transformação?
Escrito a 14 de janeiro de 2024 por João Tiago Teixeira
A saga do Orçamento de Estado para 2025, com estreia marcada para 10 de outubro, parece inspirada numa série da Netflix. Desde que a Aliança Democrática (AD) assumiu o governo em abril de 2024, o enredo tem sido alimentado por incertezas sobre as medidas que podem definir o próximo ano. A grande questão é: a AD insistirá nas propostas rejeitadas pelo PS? E o que fará André Ventura e o Chega? Com a ameaça de eleições antecipadas caso o orçamento seja chumbado, este episódio político promete deixar-nos pregados aos ecrãs…
A saga do Orçamento de Estado para 2025, com estreia marcada para o dia 10 de outubro, promete um espetáculo político que vai culminar num episódio decisivo para o futuro de Portugal. Ao estilo de uma série de sucesso, como aquelas da Netflix, este enredo tem sido alimentado por meses de expectativas e suspense, desde que a Aliança Democrática (AD) assumiu o governo em abril de 2024. Agora, aguardamos todos para ver como é que os diferentes actores políticos vão decidir desempenhar os seus papéis.
A “estreia” do orçamento trará novas medidas que podem definir o próximo ano. Será que a AD vai manter as propostas que o Partido Socialista (PS) rejeita? E André Ventura, líder do Chega, como é que vai votar este documento? Se o orçamento for chumbado, o Presidente da Republica dissolve ou não a assembleia? São questões como estas que alimentam discussões e o comentariado por longas horas e que mantêm os portugueses em suspenso, à espera do próximo episódio.
À semelhança de qualquer boa série, a tensão vai aumentando. O presidente da República já deixou claro que, se o orçamento não for aprovado, haverá eleições antecipadas. O PS, que (por agora) lidera a oposição, afirmou que não aprovará o orçamento se este incluir medidas como o IRS Jovem ou a redução do IRC, que considera contrárias ao seu modelo de sociedade. Por outro lado, o Chega recusa negociar com a AD enquanto esta mantiver conversas com o PS. O governo, por sua vez, diz estar disposto a negociar, mas considera que o PS tem “responsabilidades acrescidas”. Entretanto Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro marcaram um duelo para a próxima sexta-feira…
Com todos estes ingredientes, o suspense aumenta, e a questão que fica é: como será o final desta temporada? As respostas a muitas dessas perguntas não vão surgir antes do final de novembro, cerca de 50 dias após a apresentação do orçamento, na data da sua votação.
Entre as medidas mais controversas está o IRS Jovem, uma proposta da AD que visa aliviar a carga fiscal dos jovens até aos 35 anos e retê-los no mercado de trabalho nacional. Embora tenha objetivos nobres, esta é uma medida que levanta (muitas) dúvidas aos mais variados setores da sociedade sobre a sua justiça e até possível inconstitucionalidade, reforçadas pelo relatório do Conselho de Finanças Públicas, que alerta para um impacto negativo de 0,3p.p. do PIB no saldo orçamental, antecipando o rumo ao défice para o ano de 2026.
Não seria mais útil redirecionar este incentivo à retenção dos jovens, alterando o foco da sua receita (salário) e focar antes numa potencial redução de custos de contexto? Os 1.000m€ desta medida poderiam ser direcionados para forçar o aumento da oferta de habitação, reforçando ainda mais o programa construir Portugal, dobrando a atual proposta das 50 para 100.000 casas até 2030.
Por outro lado, a proposta de redução do IRC, central na estratégia económica da AD, também não agrada ao PS. Os socialistas defendem que a redução de impostos deve manter-se como está, focada em incentivos específicos, como reinvestimento de lucros ou investigação e desenvolvimento. Fora desses contextos, consideram a proposta uma perda de recursos que poderiam ser melhor usados para promover a transformação económica necessária para o país.
A questão que se impõe é se deve ser o partido da oposição a definir a estratégia de transformação económica do país, afinal de contas os oito anos de governação que levavam foram ultrapassados nas urnas pela alternativa proposta pela AD, e há inclusive vozes dentro do próprio PS que defendem um plano de descida deste imposto. Estatização ou liberalização, fica a questão?
Enquanto isso, André Ventura e o Chega mantêm-se num papel secundário, com uma postura de oposição firme, recusando qualquer apoio ao orçamento se houver colaboração entre AD e PS. É um contraste curioso com o seu histórico recente de viabilizar propostas socialistas em situações pontuais (rever episódio das SCUTs).
O desfecho desta saga tem dois possíveis finais: a aprovação do orçamento, com uma “aliança de conveniência” entre os principais partidos, ou o colapso das negociações, o que levará a novas eleições. Se o orçamento não for aprovado, Portugal pode vir a enfrentar uma crise política num cenário global já bastante incerto, com as eleições americanas em novembro, a manutenção da guerra na Ucrânia, a regionalização da guerra no Médio Oriente e uma inflação que pode voltar a desafiar a estabilidade económica.
Além disso, a não aprovação do orçamento obrigará o governo a operar em duodécimos um orçamento que é ainda de Fernando Medina, limitando a execução de políticas e projetos, especialmente no âmbito do PRR, que pode prejudicar (em muito) o crescimento económico e as reformas essenciais para o desenvolvimento do país em 2025.
Por fim, o que está em jogo é muito mais do que um simples orçamento: trata-se de (re)definir o rumo do país para os próximos anos. Dada a conjuntura não podemos esperar quaisquer reformas de fundo que alterem o cenário de forma significativa, no entanto a aprovação do orçamento pode garantir ao governo 18 meses de estabilidade, enquanto a sua rejeição pode mergulhar Portugal numa nova crise de incerteza política e económica, com consequências imprevisíveis tanto para o governo quanto para a oposição.
Seja qual for o resultado, 2025 será certamente (mais) uma temporada que os portugueses vão lembrar para explicar o triste fado Português.
Escrito a 24 de setembro de 2024 por João Tiago Teixeira
Provavelmente, esta é a primeira vez em muitos anos que o leitor está a ouvir alguém dizer que ser professor em Portugal é fazer parte de uma das classes profissionais com melhor projeção de futuro. Contudo, é exatamente isso que projeto para as próximas duas décadas.
Provavelmente, esta é a primeira vez em muitos anos que o leitor está a ler alguém que escreve que querer ser Professor em Portugal é querer fazer parte de uma das classes profissionais com melhor projeção de futuro no nosso país. Dada a crise que vivemos na educação e a falta de apoio demonstrada pelos sucessivos governos e pela sociedade em geral, é compreensível que esta afirmação pareça difícil de acreditar, contudo reitero: ser professor será exercer uma das profissões com melhor projeção de futuro e maior retorno financeiro nas próximas duas décadas.
Os professores têm um papel fundamental e invisível no desenvolvimento social e no crescimento económico do país, são os agentes que fomentam a redistribuição de riqueza e inclusão social ao fornecerem aos alunos as ferramentas essenciais que lhes possibilitam aspirar a uma mobilidade social ascendente e alcançar sucesso na vida.
Os professores são muito importantes e estamos no início de um período de escassez destes profissionais que em muito prejudicam o futuro dos alunos, em especial dos mais desfavorecidos, com implicações negativas no desenvolvimento da economia a longo prazo.
No início do ano letivo de 2023, em setembro, eram mais de 324 mil os alunos em Portugal que não tinham aulas a pelo menos uma disciplina, correspondendo a 18.680 turmas. A situação não melhorou significativamente até ao final do ano letivo, onde em maio de 2024 ainda eram 22.116 os alunos (1126 turmas) sem acesso a pelo menos uma disciplina. Nos casos mais extremos cerca de 1000 alunos distribuídos por 47 turmas não tiveram aulas a uma disciplina durante o ano inteiro. O problema afetou 163 agrupamentos escolares em 51 concelhos, sendo que 119 desses agrupamentos se concentram na Área Metropolitana de Lisboa.
É evidente que numa realidade em que os professores são obrigados a saltar de escola em escola até lhes ser possível fixar num quadro perto da sua residência, a falta destes seja mais grave nas regiões de maior concentração populacional e com um custo de vida elevado, tais como da grande Lisboa.
Um ministro da educação com peso político
A educação parece ter no economista Fernando Alexandre um Ministro com um peso político muito superior ao dos seus antecessores e que parece perceber melhor do que ninguém a importância desta classe profissional para o sucesso do nosso país.
Além do anúncio de acordo sobre a recuperação do tempo de serviço com os sindicatos nos primeiros meses de governação, o seu ministério apresentou no passado mês de junho uma estratégia de intervenção com o objetivo de reduzir os alunos sem aulas em 90%, assente em três eixos de ação:
Reter e atrair docentes: Valorizar a carreira, reter os professores atuais e incentivar a formação de novos professores, destacando-se a campanha “Ser professor… é mudar vidas” e o anúncio de 2000 bolsas para a docência.
Apoiar mais: Reduzir a carga burocrática dos docentes e melhorar as condições de trabalho, por exemplo, através do apoio administrativo às direções de turma.
Gerir melhor: Dar mais autonomia às escolas, flexibilizar a gestão de horários e acelerar o processo de contratação.
Para que seja possível reter e atrair profissionais para a carreira docente é fundamental criar condições que garantam reconhecimento financeiro, através da revisão da carreira e patamares salariais; reconhecimento interno, com um maior respeito a ser prestado pelas estruturas do governo e do estado; e reconhecimento externo, numa sociedade que valorize e admire aqueles que desenvolvem a sua atividade profissional na área da educação.
Quão grave é a falta de professores?
A classe profissional docente é bastante envelhecida, segundo dados da Pordata (fig. 1), o índice de envelhecimento atingiu o seu pico em 2019 e 2020 em todos os níveis de ensino, com destaque para o 3º ciclo e o ensino secundário, onde havia 20 vezes mais professores com mais de 50 anos do que com menos de 35.
Figura 1: Índice de Envelhecimento dos docentes em exercício – Continente – Pordata
Embora a tendência do índice de envelhecimento esteja a diminuir ligeiramente, isso não é necessariamente uma boa notícia, uma vez que reflete mais a aposentação de professores do que a entrada de novos profissionais no mercado de trabalho.
Os anos em que eram 5 ou 6 mil estudantes a entrar na profissão já são passado. Desde 2016 são menos de 2000 os estudantes que se formam para dar aulas, tendo nas disciplinas de Português, Biologia e Geologia, Física e Química e Matemática aquelas que registam as maiores quedas, precisamente as disciplinas específicas que requerem exame para o acesso ao ensino superior.
Figura 2: Número de diplomados nos cursos de formação de professores, total e por disciplina – Pordata
Atendendo à média anual de novos professores ser inferior a 2000 e até 2030 estar estimada uma necessidade de recrutamento anual a rondar os 3000 a 4000 professores ano, conseguimos facilmente perceber que o país enfrenta um problema estrutural e serão cerca de 15.000 os professores em falta até ao final da década.
O acordo entre governo e sindicatos: o necessário reconhecimento financeiro
Um dos principais marcos da governação deste governo foi o acordo firmado com os sindicatos para negociar a recuperação do tempo de carreira que ficou congelado durante a intervenção da Troika, assim como da remoção dos estrangulamentos provocados pelas quotas definidas nos quarto e sexto escalões que limitavam a progressão profissional.
A infografia desenvolvida pelo jornal Público (fig. 3) permite perceber o quão significativo é este acordo para a evolução salarial, que se vai fazer sentir até Julho de 2027. Enquanto à data de hoje estão menos de 30.000 docentes entre o oitavo e o décimo escalão, com um salário entre a 2.920€ e 3.613€, até julho de 2027, vão ser mais de 70.000 os professores a atingir esse patamar.
Figura 3. Infografia Jornal Público
O impacto não fica apenas por aqui, na realidade a quase totalidade dos docentes (95%) vai chegar a 2027 a ganhar mais de 2.400€, acedendo assim a um salário 65% superior ao salário médio registado em 2023, que ficou pelos 1.443€ mensais, e um terço dos docentes no décimo escalão da carreira, com um salário anual superior a 50.000€.
Mas a carreira docente (ainda) não é para jovens
Enquanto o escalão mais elevado da carreira compara de forma muito favorável com outros países da Europa, onde Portugal é o sexto país com maior salário anual, apenas atrás de países como Luxemburgo, Áustria, Alemanha, Países Baixos e Chipre, o salário após 10 e 15 anos de carreira é comparativamente mais baixo e bastante afastado do patamar final.
Figura 4 – Salário estatutário anual dos professores do ensino público em diferentes pontos da carreira, 2020/2021 – Relatório Estado da Nação 2023, pág. 63, Fundação José Neves
Um jovem que inicie agora o seu percurso profissional sabe que aos 35 anos estará apenas entre o 3º e 4º escalão, com um vencimento anual a rondar os 30.000€ brutos ano, que corresponderá a 1350 e os 1450€ líquidos por mês. O valor líquido é especialmente relevante por estarmos a falar dos professores fora do quadro, deslocados e que têm um impacto acrescido de despesas de deslocação.
Na sua participação no programa Grande Entrevista, conduzida pelo jornalista da RTP Vítor Gonçalves, o ministro Fernando Alexandre abriu a porta à revisão da carreira docente e dos seus patamares salariais, sobretudo nos seus patamares iniciais, focando na importância de trazer os jovens para esta profissão, ainda assim, sem a confirmação de mudanças significativas, é incerto que o plano do governo seja suficiente para colmatar a falta dos 15.000 profissionais.
Há que investir em paralelo no Reconhecimento Interno e no Reconhecimento Externo
A carreira docente foi marginalizada por sucessivos governos ao longo das últimas décadas , atingindo o seu ponto mais baixo durante o período da Troika quando foram inadvertidamente convidados a emigrar pelo então primeiro ministro, Passos Coelho. Ironicamente, não foram os 8 anos de governação socialista que resolveram este impasse, mas sim um governo do PSD e CDS que parece estar a tomar as medidas necessárias para remediar o dano causado.
Recentemente o governo investiu numa campanha de marketing “Ser professor… é mudar vidas” com o objetivo de apostar valorização da profissão, no entanto apesar do intuito poder ter sido nobre, a reação dos diferentes agentes do setor foi tão negativa que o governo acabou a apagar o site da iniciativa.
Embora quem critique a campanha possa não ter sido sensível à necessidade de comunicar aos jovens e à sociedade em geral a importância e relevância da sua profissão – Reconhecimento Externo, o feedback geral foi de que em vez de investir em campanhas de marketing (para reter quem está ou aliciar quem pode vir a estar na carreira docente) prefeririam que o governo investisse em medidas que facilitassem a mobilidade nacional e apoiassem os professores deslocados (que já estão ao dispor do ministério) – Reconhecimento Interno.
Que educação há para lá dos professores?
O atual governo parece ter resolvido, pelo menos parcialmente, o problema do congelamento das carreiras e está a criar condições financeiras mais favoráveis para que os professores possam decidir atrasar o período de reforma e apelar a que novos docentes possam pensar em entrar no setor.
Fechado o tema salarial é urgente que os agentes do setor estejam disponíveis e capacitados para se sentar à mesa a discutir o modelo educativo e pedagógico em Portugal. É necessário firmar consensos sobre objetivos e propósitos do ensino e avaliar se o sistema está a cumprir a sua função.
Uma questão que permanece é se a atual classe docente (envelhecida e desgastada) tem a vontade e vitalidade para poderem ser agentes proativos e capazes de construir o futuro do setor. Fica a dúvida sobre se as medidas implementadas serão suficientes para rejuvenescer a classe e se sem sangue novo será possível trazer o futuro à Educação.
Uma sociedade que falha em criar oportunidades para as suas crianças está condenada a estagnar, a perpetuar desigualdades e o ciclo da pobreza. Um governo que não invista na docência, na pedagogia e no desenvolvimento da educação é um governo que desistiu do futuro, do futuro das crianças e do futuro do país. Ser professor é, sem dúvida, fazer parte de uma profissão com futuro, mas é imperativo que estejam todos comprometidos em trazer o futuro à Educação.
Escrito a 22 de agosto de 2024 por João Tiago Teixeira
No próximo sábado dia 27 decide-se o futuro da presidência do FCPorto, de um lado temos o carisma e história de quem fez de um pequeno, um grande gigante e do outro um vencedor, um sonhador que se apresenta agora às urnas, prometendo projetar o clube para um futuro de modernidade, rumo a novo sucesso.
Sei que precisamos de mudança mas não estou iludido, quaisquer que sejam os resultados das eleições do próximo sábado, esperam-nos períodos de grandes desafios e instabilidade, partilho com vocês a minha visão para o futuro do clube e que pode ser lida por qualquer uma das listas a candidatar-se.
Um clube é uma empresa
Um clube de futebol é uma empresa, como tal para atingir os objetivos a que se propõe tem de garantir de que dispõe das pessoas certas, imbuída da cultura certa (vencedora), com processos eficazes e eficientes, que em conjunto consolidem vantagens competitivas que o aproximem de maiores chances de sucesso e vitória.
Negar esta realidade não é negar o futuro, é negar o presente. São vários os exemplos de como os clubes que se gerem como empresas têm os maiores sucessos desportivos: Bayern de Munique e o seu record de campeonatos consecutivos, RB Leipzig e RB Salzburg que competem por títulos e vencem campeonatos nas respetivas ligas ou ainda mais relevante o histórico FCPorto das primeiras duas décadas deste século, que mantinha uma estrutura tão forte que um qualquer treinador arriscava ser campeão só por passar pelo Dragão.
Uma empresa tem de ser bem gerida
O Porto apresenta neste momento um passivo que ronda os 500 milhões de euros, dos quais à data da apresentação do Relatório de Contas do primeiro semestre da época 23/24, 265 milhões são passivo corrente (por isso executáveis num período de um ano) e embora apresentem cerca de 90 milhões de ativos correntes, iniciamos o dia 1 de janeiro apenas com 8.5 milhões de euros mobilizáveis em caixa, manifestamente pouco para o custo de Gastos com pessoal, acima dos 100 milhões de euros/época.
Este descalabro financeiro só pode ser explicado pelo acumular de más praticas de gestão, intencionais ou não, que só contribuem para distanciar o Porto do sucesso que todos ambicionamos, voltar a ganhar e ganhar repetidamente.
Um clube é uma empresa especial
Se pensarmos de forma abstrata um clube de futebol é uma sociedade cujo sucesso económico depende da valorização de ativos (jogadores), que está intimamente ligada aos processos de geração de valor (scouting, prospeção e desenvolvimento dos jogadores pela equipa técnica), cujo valor facial é altamente volátil e dependente de critérios de sucesso (vencer jogos, fazer boas exibições e vencer competições).
Os clubes que consolidarem os melhores processos de gestão e valorização de ativos e definirem o modelo de negócio com rentabilidade mais elevada que a dos concorrentes (absoluta e/ou percentual) serão aqueles que estarão em melhor posição para alimentar o funil de prospeção futuro e por isso mais perto da vitória seguinte.
Os desafios da empresa FCPorto
É verdade que hoje o FCPorto é uma marca internacional fruto do legado de um homem, mas Jorge Nuno Pinto da Costa não fez história sozinho, o seu sucesso define-se grandemente por ao longo do tempo ter sabido reunir as pessoas certas para o ajudar a conduzir os destinos do clube, seja na direção, na equipa técnica, nos capitães e restantes jogadores.
Infelizmente, ao longo dos últimos anos esse parece não ter sido o caso, a última década foi a menos reluzente para o nosso museu, e a trajetória financeira mostra que não encontraram a melhor forma de gerir a empresa FCPorto, e sem querer, com isso, esqueceram a importância de pensar no presente sem hipotecar o futuro da organização.
Pinto da Costa é e será sempre recordado pelo futebol mundial como o Presidente dos Presidentes! Que se façam estatuas, que se dê nomes a ruas, que se escrevam livros, cantos e odes, celebremos todos a felicidade de podermos ter vivido o seu sucesso.
Não haverá melhor forma de honrar a sua história do que permitir que se faça aqui a passagem de testemunho para um sucessor legítimo, um verdadeiro herdeiro, democraticamente eleito, que impeça a abertura de guerras futuras pela sucessão de autodenominados sucessores que ambicionem para proveito próprio a liderança do clube.
O meu apelo ao voto
Se o meu avô estivesse aqui hoje iria continuar a defender o Pinto de Costa, para ele o presidente foi sempre o homem certo no lugar certo e por isso defenderia a sua permanência à frente do nosso clube, eternamente grato por tudo aquilo que teve a oportunidade de viver.
Aprendi com ele que ao longo da vida podíamos mudar de tudo, de cidade, de país, de nacionalidade, de profissão, de partido, de amor, mudar até de religião, mas de clube nunca, esse seria sempre um amor eterno, seria sempre o nosso clube até morrer.
Sou nascido e criado no Porto, portista desde bébé, saltei os torniquetes das Antas quando era menino, vivi tardes incríveis no estádio antigo, celebrei inúmeros golos no Dragão, chorei pelo Kelvin a ser campeão, vivi os meus longos anos da adolescência num museu, o museu privado do FCPorto que o meu avô criou, fruto do seu amor e dedicação, que tanto o enchia de orgulho, por isso o meu destino era inevitável, penso sinto e respiro azul e branco.
Fotos do museu do meu Avô Alexandrino Azevedo
O meu avô fez parte da comissão que apoiou a candidatura do nosso presidente desde o primeiro momento, e desde muito novo me levou para a missão de recolher assinaturas para firmar a recondução da sua liderança, mandato após mandato. Comecei a fazê-lo muito jovem e recordo com carinho a forma como todos os portistas assinavam de bom grado, desejando que o nosso presidente continuasse a alimentar a chama da vitória.
Recordo-me de um dia em que fui para a loja do associado do estádio do dragão recolher assinaturas e um sócio me disse “não”. Não queria assinar por ter tido uma interação com o presidente que o tinha deixado triste, teria tentado cumprimentá-lo sem sucesso e esperava maior simpatia para outro sócio dragão.
Recordo-me com orgulho desse dia, pois foi o primeiro dia da minha vida em que tive a oportunidade de transformar um não em sim, recordo-me de lhe ter dito que lhe pedia a assinatura não pelas qualidades pessoais do homem Jorge Nuno Pinto da Costa, mas antes pelas competências profissionais do nosso presidente, o melhor presidente de todos os tempos.
Guardo com carinho esse dia, talvez por ter sido a primeira “venda” que fiz, uma venda fácil diga-se, ainda assim o dia em que mobilizei um sócio para apoiar o presidente em que eu acreditava que nos poderia continuar a fazer feliz.
Hoje faço-o novamente, volto a tentar mobilizar o apoio no candidato que acredito estar em melhores condições para nos fazer feliz, apelo por isso ao voto na candidatura de André Vilas Boas e escrevo este texto quiçá para convencer um indeciso, ou fazer duvidar um decidido que possa preferir votar em branco e assim em vez de ceder ao sabor da gratidão, possa permitir ao clube abraçar o melhor futuro.
Ao escrever este texto sei que honro a memória do meu avô, honro as convicções que ele me ensinou, devemos lutar pelo que achamos estar certo, e tal como ele disse desde a barriga da sua mãe até ao seu ultimo dia, não há nada mais certo que defender o clube que nos unia, partilho por isso o meu apelo a defender o clube que me inspirou a amar, no próximo 27 é dia de ir ao Dragão, é dia de mudar.
Escrito a 23 de abril de 2024 por João Tiago Teixeira
Embora o país tenha mergulhado ao longo dos últimos meses num transe coletivo em que a nossa atenção foi completamente capturada pelas dinâmicas dos debates, partidos e resultados eleitorais, a realidade está muito para lá das notícias de rodapé a que tem sido remetida.
Na passada sexta-feira a Rússia foi alvo de ataques terroristas em Moscovo, que em resposta a esta fatalidade acusa a Ucrânia de participar no seu planeamento anunciando estar em estado de guerra. Do outro lado aumenta a urgência de financiar o esforço de defesa na Ucrânia para que possa continuar a resistir ao assédio russo, ao qual não ajuda em nada o impasse no financiamento norte-americano.
Na Europa temos visto posições de força distintas, por um lado Emmanuel Macron (re)afirmou não poder excluir a possibilidade do envio de tropas europeias para a Ucrânia, por outro Olaf Scholz mantém uma posição ponderada, cimentando a Alemanha como uma das nações mais prudentes na gestão do conflito, sendo ainda assim das mais generosas no suporte financeiro e militar que está a prestar à primeira linha de defesa da Europa.
No passado dia 15 de Março os lideres francês e alemão fizeram-se acompanhar do seu congénere polaco com o objetivo de afirmar uma posição de unidade, perspetivando entre si um reforço no apoio dado à resistência Ucraniana, declarando ainda a vontade de compatibilizar visões contrastantes.
Além disto, apesar dos (não) desenvolvimentos no conflito, tem existido uma pressão crescente da NATO para que os estados membros da Aliança reforcem o investimento em defesa para pelo menos 2% do PIB, meta atingida por menos de metade dos aliados e onde Portugal surge ainda com um investimento inferior a 1,5%.
Embora Portugal esteja ainda longe de um objetivo que se estima concretizável em 2030, tem mostrado uma evolução positiva, fazendo crescer a rúbrica de investimento em material militar, onde se destaca a compra de 4 aviões de transporte militar KC-390 que encaixam na estratégia de aquisição de material cujo uso possa ser civil e militar.
Embora o agora indigitado primeiro ministro Luís Montenegro tenha declarado no período eleitoral estar comprometido com a meta da NATO dos 2% do PIB, não chegou a concretizar a forma como pretende que tal investimento se faça.
Durante o período eleitoral o Grupo de Reflexão Estratégica Independente fez chegar a todos os partidos a sua posição sobre a situação de emergência que se vive nas Forças Armadas, depauperadas de quadros, com falta de recursos de base e em perda crescente motivada pelas sucessivas reduções de privilégios.
Pela sensibilidade que os temas de defesa nacional acarretam é compreensível que não se discutam em praça publica as opções estratégicas no escopo militar, ainda assim é fundamental que se estabeleçam metas sobre o que significa investir 2% do PIB em defesa, seja na valorização do pessoal militar seja no investimento em infraestruturas ou de equipamento, ainda mais num futuro em que as armas convencionais perdem tração e vemos na Ucrânia drones de poucos milhares de euros a rivalizar com misseis de milhões na proporção de danos e retrocessos que conseguem causar no seu opositor.
E se é verdade que os portugueses estão no topo dos defensores da permanência na NATO (88%), e há uma larga maioria que dizem que o investimento do país em matéria de defesa deve manter-se (34%) ou aumentar (43%), também é verdade que estes índices de resposta só são compatíveis com a ausência do dilema de enviar tropas portuguesas para cenários de guerra ou de ver diminuídos alguns benefícios sociais para acomodar um maior investimento na área militar.
Estar numa economia de guerra significa empobrecer, reduzir apoios sociais e ampliar sentimentos de injustiça, algo que só pode beneficiar partidos como os que de forma consistente rejeitam estas opções. Se esse momento chegar o PCP não estará sozinho, serão seguramente mais aqueles que por oportunismo ou por convicção concordarão com a posição comunista.
Hoje não temos verdadeiramente que fazer escolhas, mas é possível que esse dia chegue, e se chegar, será mais do que nunca importante ter lideres capazes de aspirar a algo mais para o nosso futuro coletivo:
“My fellow Americans, the issue facing our nation isn’t how old we are; it’s how old are our ideas.
Hate, anger, revenge, retribution are the oldest of ideas. But you can’t lead America with ancient ideas that only take us back. To lead America, the land of possibilities, you need a vision for the future and what can and should be done.
Tonight, you’ve heard mine.
I see a future where [we’re] defending democracy, you don’t diminish it.
I see a future where we restore the right to choose and protect our freedoms, not take them away. “
Biden, Discurso do Estado da União, Março 2024
Se esse momento chegar espero que possamos contar com líderes que se afirmem como guardiões da democracia, líderes que acreditem num futuro em que valha a pena defender uma democracia, uma sociedade em que impera o direito de escolha e se protege a liberdade, onde se protege a liberdade de todos, mesmo daqueles que a queiram boicotar.
Escrito a 26 de março de 2024 por João Tiago Teixeira
Quantas pessoas em Portugal se dão ao trabalho de ler o programa eleitoral do(s) partido(s) com que mais se identifica? Muito poucas, afinal estamos a falar de documentos extensos com longas listas de medidas para agradar a tudo e todos na busca do voto popular.
O sumo dos programas não se mede pelo número de páginas, às vezes inflacionado pelo uso de imagens ou por um enorme tamanho de letra, mas antes pela qualidade de diagnóstico, síntese e articulação dos seus projetos, assim como da respetiva capacidade execucional.
Durante as eleições os políticos parecem viver num mundo idilico onde não têm de fazer escolhas, tudo é importante e tudo pode ser feito. Infelizmente todos os programas em escrutinio no próximo domingo prometem medidas irrealistas, inconcretizaveis e que concorrem entre si, o que muitas vezes impossibilita a aplicação de um programa político como um todo.
Talvez o maior problema da democracia seja este, o contraste entre o período eleitoral que agora vivemos, digno de um país de maravilhas e o período de governo que vem a seguir, onde a realidade obriga a que se definam prioridades e a gradualidade de qualquer mudança estrutural se esconde no tempo, gorando as expectativas de qualquer eleitor, que a longo prazo se vai afastando do processo eleitoral.
Entre os que pretendem limpar Portugal, mudar Portugal, fazer Portugal crescer, um Portugal inteiro ou implementar uma política patriótica de esquerda, parece reinar o principio de que não existem desígnios comuns, que as diferentes ideologias além de conflituantes são por vezes até imorais, e não raras vezes vemos os interlocutores políticos a fugir de firmar compromissos com o atingimento de objetivos que sejam especificos, realistas, atingiveis, mensuráveis e definidos no tempo.
Nestas eleições perdeu-se mais tempo a falar do passado do que a olhar o futuro, não vi nenhum partido a tentar definir Portugal de forma transformadora ou a tentar comunicar à população de forma clara uma nova visão aspiracional.
Acredito que a transformação do nosso país só pode ser verdadeiramente iniciada se forem consensualizados na sociedade os desígnios nacionais, e que para cada um deles sejam definidas métricas e objetivos claros que independentemente de quem governa, possam guiar a ação num rumo coerente numa perspetiva de longo prazo.
A última vez que aconteceu uma transformação com uma visão aspiracional terá sido no 25 de Abril, no início da nossa democracia, ou talvez mais tarde quando o país decidiu integrar a CEE. Há já demasiados anos que ninguém discute Portugal com um principio, meio e fim.
Esta não é uma ideia que vise limitar as escolhas dos eleitos, mas antes a de garantir que a qualidade das escolhas políticas façam apenas variar a velocidade a que nos aproximamos do atingimento desses designios, em detrimento de continuarmos a vaguear sem rumo, sempre em atraso versus todos os outros parceiros europeus.
Tentando ser um pouco mais concreto, entendo que o desenvolvimento de um país deve gravitar rumo à concretização de quatro grandes desígnios: crescimento económico, redução da desigualdade, desenvolvimento social e coesão territorial.
Geralmente os políticos falam das diferentes áreas de atuação, tradicionalmente organizadas em ministérios, sem que se perceba que os problemas que procuram resolver não existem de forma isolada em si mesmos, e que apesar de à primeira vista não parecer, todas as medidas, programas e ideias gravitam à volta destes desígnios. Para não vos maçar exploro esta perspetiva em apenas duas grandes àreas de atuação: Saúde e Educação.
1- Saúde: Quando discutimos a área da saúde falamos da redução da desigualdade, onde devemos dar a todos, ricos e pobres, a possibilidade de aceder aos melhores cuidados de saúde, com baixos tempos de espera, garantindo os melhores resultados possíveis.
Ao longo dos debates e campanha não ouvi falar sobre a transformação do modelo de gestão de saúde para acomodar um aumento de procura de uma população pobre cada vez mais envelhecida, ouvi falar sobre salvar o SNS, obrigar (ou não) os médicos a ficar no SNS ou sobre o risco ou forma de privatizar processos de saúde existentes. Discutiram-se alguns meios, omitiram-se os objetivos e os fins.
2- Educação: Quando falamos de educação, falamos de crescimento económico, desenvolvimento social e coesão territorial. Uma economia com mão de obra mais qualificada é mais produtiva, uma economia mais produtiva paga melhores salários, salários competitivos diminuem a emigração, estimulam a imigração, contribuem para a correção da pirâmide demográfica e equilibram e reforçam o balanço das contas publicas. Só isto pode libertar recursos que façam subir o salário da função pública e garantir a prestação destes serviços em territórios mais pobres, insulares ou com menor densidade populacional.
Ao longo dos debates e da campanha não ouvi falar do papel da educação na preparação do futuro do nosso país ou sobre reformar o atual modelo de educação, que se manteve igual nos últimos cem anos e teima em não se adaptar às gerações do presente. Ouvi antes falar sobre a recuperação do tempo de serviço das carreiras dos professores, sobre os cheques escola ou sobre onde andam a estudar os filhos dos políticos, tudo coisas que importam pouco se quisermos verdadeiramente discutir como desenvolver o nosso país.
Portugal ficaria a ganhar se comungássemos todos do mesmo desígnio nacional e fossem acordadas metas de desenvolvimento comum, talvez aí os interlocutores políticos pudessem limitar as suas divergências à forma e conteúdo dos planos de ação que professam, em detrimento de atacar a ética ou a moral de quem propõe ou critica com outros pontos de vista.
O dia seguinte às eleições…
Não pretendo entrar em futurologias e cenarizações do pós eleições, afinal de contas foi nesta mesa de amigos que leram primeiro o prognóstico do Sérgio Brandão, e confiando na tendência registada nas sondagens deverá ser mesmo a Aliança Democrática a esboçar o maior sorriso no próximo domingo.
Independentemente de quem as vença e das condições de governabilidade que os esperem, receio que o resultado do próximo ato eleitoral seja o mesmo da famosa frase de Lampedusa, “É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”. No seu livro “Leopardo”, de facto, o tempo passou, até o regime mudou e pouco ou nada se alterou. Ficou tudo na mesma.
No próximo domingo é dia de ir às urnas, cabe-nos a todos exercer o direito de ir votar, mesmo que isso signifique que pouco ou nada vai mudar.
Escrito a 08 de março de 2024 por João Tiago Teixeira
Num momento em que o Chega cresce nas sondagens e se prepara para ser um dos muitos vencedores das eleições do próximo dia 10 de março, celebrou a sua existência numa convenção durante o último fim de semana, propagandeando ideias de “ambição” para o país e (re)elegendo o líder com mais de 99% dos votos.
Ninguém conseguiu ficar imune ao que se passou por ali, por isso não pude deixar de partilhar uma reflexão com todos os amigos que passam por cá.
A política, é aquilo é, não aquilo que devia ser.
A história da humanidade tem-se vindo a fazer de ciclos, ora os de luz, inteligência e esclarecimento, ora os de trevas, ignorância e ressentimento.
Em 2024 é possível discursar num congresso partidário, afirmar-se como fascista e depois dizer que “era tudo a brincar”, uma figura de estilo e que todos aqueles que acreditam e propagam numa versão literal das palavras são uns verdadeiros “maus da fita”.
É provável que este subliminar raciocínio tenha aplicabilidade a toda e qualquer medida das que tenha sido vendida apresentada num evento que fez corar qualquer profissional das televendas.
Fazer isto hoje é possível porque palavras como “fascismo” têm vindo a ser alvo de um ajuste, de um resignificado que coloca um tom novo sobre um timbre antigo. Se há algo que falha na comunicação dos políticos (e jornalistas) de hoje, é a incapacidade de distinguir os significados implícito e explicito das palavras e das ideias.
As palavras não existem de forma etérea num qualquer dicionário, existem antes de forma efémera no discurso das pessoas e o seu significado depende de onde, quando e como as usam, dependem daquilo em que as pessoas acreditam.
Ninguém que tenha assistido ao discurso do avô “fascista” acredita que aquele é um senhor ultranacionalista e autoritário cujo sonho é o de viver sob a tutela de um ditador e que quer para si, para a sua família e para Portugal um poder ditatorial que rejeite a democracia eleitoral e a (sua) liberdade política e económica.
Da mesma forma, ninguém acredita que se o líder Ventura tivesse a oportunidade de governar o país iria mesmo avançar com medidas que custariam ao orçamento de estado mais de 14 mil milhões de euros por ano.
Elevar todas as pensões aos valores do salário mínimo, eliminar impostos como o IUC e o IMI, aplicar IVA zero aos produtos essenciais e a todos os produtos portugueses e descer o IVA da restauração para 6%, parecem mais uma lista de desejos ao pai natal do que um programa político.
A pergunta que se impõe é: Vender isto tudo dá votos? Dá sim, não porque as pessoas acreditem que estas medidas vão mesmo acontecer, provavelmente nem acreditam que tal coisa seja possível, mas porque lhes permite manifestar o sentido em que pretendem ir: valorizar a sua reforma, reduzir os impostos das suas propriedades (esqueceram-se de vender os impostos de quem trabalha?), baixar o preço de bens essenciais e valorizar o que é nosso, o que é português.
A sociedade, é aquilo é, não aquilo que devia ser.
Estamos a viver um contexto distópico e nem nos apercebemos disso, os eleitores expressam uma espécie de síndrome de Estocolmo, uns querem devolver o governo àqueles que ao longo última década nos levaram a sitio nenhum, outros querem dar o governo a um partido “desonesto”, que já não se diz de protesto, que vende tudo e o seu contrário na busca de um voto e quer pôr o regime em estado de sítio.
Na verdade escrever este texto não serve de nada, pelo menos hoje. Talvez tenha alguma utilidade no futuro. Talvez chegue um dia em que faça sentido ler isto e recordar aquilo que esta sociedade viveu. Hoje, quem chegou até aqui, já sabia em quem votar, já tinha uma opinião formada sobre a sociedade, os partidos e os políticos, pelo que não seria um textinho que os iria fazer querer mudar.
Todos nós procuramos aquilo que valide o nosso pensamento e ignoramos tudo aquilo que o contradiga. Talvez escreva este texto apenas por mim, talvez para validar o meu pensamento, reforço para mim mesmo que tenho razão, faço-o por outros que pensem como eu, mas não sei quantos são, quantos chegam até aqui e quantos continuam a ignorar o que pode vir a seguir.
O problema do Chega não é o fascismo ou o totalitarismo, o problema é ser mais do mesmo, é vazio, é falsidade, é demagogia, vende tudo por uma mão cheia de nada, sem ter qualquer solução ou vontade de preparar o país para o futuro que há-de vir.
Aos eleitores, à sociedade e aos políticos, podemos suspirar o quanto quisermos pela nostalgia de um futuro alternativo, onde as coisas são o que são e são aquilo que devem ser, mas o futuro, tal como o presente, será sempre aquilo que é e sempre foi: incerto, brutal e imprevisível, sempre distante daquilo que devia ter sido.
Somos um país velho, envelhecido, que suspira por um passado que teima em não ser esquecido, um país sem jovens, sem mães e sem filhos, um pais condenado a ficar adormecido.
Escrito a 17 de janeiro de 2024 por João Tiago Teixeira
Para um país que depende tanto do turismo, o sucesso da JMJ pode representar uma boa oportunidade para desenvolver o nosso país, mas o seu insucesso representa um risco enorme para a nossa imagem internacional, que pode ser facilmente manchada por um “percalço viral”, num momento em que toda a imprensa mundial está aqui de visita.
Estamos cada vez mais próximos do início de um dos maiores eventos internacionais organizados por Portugal nas últimas décadas, já estão inscritos mais de 300 mil participantes na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e Lisboa prepara-se para a presença de mais de um milhão de peregrinos entre os dias 1 e 6 de Agosto.
Para melhor entender a dimensão desta peregrinação, é interessante pensar que durante o Euro 2004 recebemos o “mesmo” milhão de peregrinos, mas aí espaçados por um período de 23 dias e espalhados por todo o país.
Apesar da organização da JMJ ter recebido alguma atenção mediática, sobretudo quando surgem dificuldades ou problemas, não me recordo de alguma vez ter ouvido se interessava a Portugal querer organizar e se sim, porquê.
Acredito que a candidatura portuguesa tenha sido tomada de forma racional e suportada em argumentos fortes que justificaram de forma clara o nosso envolvimento, ainda assim como não os conheço sou obrigado a arriscar tentar deduzir alguns, como:
Reforçar o relevo diplomático do nosso país no seio da comunidade internacional.
Alavancar o futuro do setor do turismo, dando a conhecer o país a um milhão de turistas jovens de todo o mundo.
Capitalizar uma potencial oportunidade económica, que hoje se estima poder ser superior a 500 milhões de euros.
Agradar à população católica portuguesa, que é a maioria religiosa do nosso país laico.
Se tudo correr bem, acredito que estes objetivos possam ser facilmente alcançados e a JMJ seja recordada pela forma positiva como contribuiu para a boa imagem de Portugal, para a boa performance económica em 2023 e pelo seu impacto no turismo.
O problema é que num evento desta envergadura uma das poucas certezas que que tem a organização é a de que algo vai correr mal, e o verdadeiro desafio está em garantir que aquilo que corra mal não impacte significativamente o sucesso do evento e a imagem do país.
Se ao longo dos últimos meses assistimos a algumas discussões (des)interessantes, relacionadas com a legitimidade do financiamento público ou sobre quanto deve custar um altar, mais recentemente têm surgido notícias importantes que auguram (muitas) dificuldades.
Nos últimos dias têm surgido na comunicação social posições fraturantes e contraditórias entre a comissão organizadora da JMJ e governo e as demais instituições, tais como as câmaras municipais e associações que representam os profissionais e voluntários envolvidos no suporte ao evento.
Para complicar, são já vários os sindicatos a enviar pré-avisos de greve, que sendo oriundos de setores críticos ao sucesso da JMJ procuram alavancar a sua posição negocial:
Sindicatos da Portway, empresa de handling nos AEROPORTOS, que afetará a capacidade de transporte das malas na saída do país.
Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul, no contexto da requisição feita ao ACOLHIMENTO DE PEREGRINOSESCOLAS da região para dar apoio ao recebimento dos visitantes.
Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante, que representa os revisores e trabalhadores das bilheteiras da empresa COMBOIOS DE PORTUGAL, que poderá afetar os comboios especiais disponibilizados para o evento.
FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS, que mantém ainda a ameaça de greve para os dias 1 e 2 de Agosto.
Sindicato Nacional dos Motoristas e Outros Trabalhadores da Câmara Municipal de Lisboa, que contemplam os motoristas e cantoneiros, trabalhadores afetos à REMOÇÃO DE RESÍDUOS NA CIDADE DE LISBOA.
Se já é difícil organizar a JMJ num cenário onde podem faltar médicos, transportes públicos ou locais para pernoitar, há que adicionar a incerteza que a vaga de calor anunciada pelo IPMA possa causar ou a dimensão e complexidade do dispositivo de segurança que está a preparar um evento onde não se pode excluir a possibilidade de um atentado que possa colocar em causa a segurança dos locais ou dos peregrinos.
Num contexto em que importa a todos que tudo corra bem, a demonstração pública de falta de solidariedade institucional, evidencia bem as brechas que existem na nossa sociedade, denunciadas pela incapacidade organizativa de quem lidera o planeamento.
Para um país que depende tanto do turismo, o sucesso da JMJ pode representar uma boa oportunidade para desenvolver o nosso país, mas o seu insucesso representa um risco enorme para a nossa imagem internacional, que pode ser facilmente manchada por um “percalço viral”, num momento em que toda a imprensa mundial está aqui de visita.
Estou ao lado de todos aqueles que desejam que nenhum dos riscos que ameaçam o sucesso da JMJ se concretize e que as instituições envolvidas encontrem um equilíbrio que garanta ao exterior a invisibilidade das nossas diferenças, contribuindo para que fiquem apenas memórias felizes entre aqueles que no início de Agosto, vão visitar Lisboa e o nosso País.
Esperemos que quando alguém disser “A JMJ foi um sucesso” esteja mesmo a dizer verdade, de outra forma é certo que mesmo que não sendo o próprio, haverá sempre alguém a enfrentar a consequência, talvez um secretário de estado, talvez um ministro, talvez o governo, ou à imagem de outros “relatórios”, talvez sejamos apenas nós e o País.
Escrito a 13 de julho de 2023 por João Tiago Teixeira
Luís Montenegro e Mariana Mortágua parecem ter estado bastante focados em fazer oposição, falta saber é se têm um plano robusto que os faça ser alternativa pois é isso que pode permitir que ser governo faça parte do futuro de algum dos dois.
Na semana em que Mariana Mortágua foi eleita nova coordenadora do Bloco de Esquerda e Luís Montenegro celebrou um ano de liderança no PSD, foram divulgadas sondagens que indíciam futuros muito diferentes para estes líderes políticos.
Se Mariana Mortágua parece ter razões para sorrir, vendo o seu partido a superar a barreira dos 10% e aproximar-se do terceiro lugar, apesar de poder dizer que está acima do PS, Montenegro vê o PSD afundar para valores ainda piores do que os atingidos em 2022 (figura 1).
Analisando os resultados podemos arriscar tirar algumas conclusões:
O bloco central PS + PSD está a esvaziar-se, caindo de 70,5% para 50,8%;
O bloco de direita PSD + CDS + IL cresce pouco, de 35,6% para 37,5%, mas a adição do Chega garante um peso superior a 50%;
A tríade da geringonça PS + BE + CDU perde força, caindo de 50,1% para 38,8%, mas o PAN e Livre ganham votos e mantém as intenções do voto à esquerda acima dos 45%.
Neste cenário o PS é o maior perdedor (-16,9%), a sucessão de casos está a desgastar o governo e a decisão de manter o ministro Galamba por aparente teimosia política está a eclipsar por completo os resultados económicos positivos.
O PS pode estar ferido, mas não está morto. Num contexto eleitoral conseguiria facilmente melhorar esta catástrofe, ora disputando votos à esquerda pelo apelo ao voto útil, ora disputando votos ao PSD via resultados económicos e “contas certas”, ora pelo aproveitamento do medo que uma coligação Chega – PSD causa na maioria do eleitorado moderado.
Inspirado pelo virtuosismo de Mariana Mortágua o BE parece estar renascido, desenvolvendo uma estratégia política menos dependente dos eixos cultural e social mais fraturantes e de teor eminentemente cosmopolita e de defesa de minorias, para uma mais focada na defesa dos direitos do trabalho e outros interesses mais corporativos.
Do lado do PSD não parece haver razões para sorrir, o partido não é capaz de capitalizar de forma nenhuma o desgaste do Governo Socialista, a política tem-se feito de casos e casinhos, uns relevantes, outros menos, e é nesse mar negro que o Montenegro tem procurado navegar à vista, aparentemente sem sucesso e muitas vezes ultrapassado por partidos muito mais confortáveis no contexto.
O PSD parece estar perdido, não conseguindo explicar a ninguém porque é que formaria uma melhor solução de governo, que decisões significativamente diferentes do PS é que está disposto a tomar e que estratégias alternativas tem em mente para melhorar a vida das pessoas.
Discutir a progressão de partidos como o Chega, IL, BE, PAN ou Livre julgando os eleitores pelo suporte que possam estar a dar a medidas ou posições extremas (racismo, ideologia libertária ou nacionalização da economia) é julgar os eleitores à luz de uma supra moralidade em detrimento de empatizar com as suas dores e incómodos, que esperam legitimamente ver supridos quando afirmam as suas intenções nas urnas.
O problema não está nos eleitores, se eles agem de uma forma mais emocional que racional isso é porque embora o processo eleitoral represente a oportunidade de escolha entre diferentes programas de governo (muito densos e complexos), o voto resume-se à generalização de uma perceção que o eleitor tenha sobre a posição que o líder ou partido possam ter num determinado assunto de elevada relevância ou interesse pessoal.
Aos partidos do arco da governação cabe a responsabilidade de entender o core das preocupações dos eleitores, e à luz da sua “ponderação” individual, definir estratégias que que respondam de forma eficaz aos problemas e necessidades.
Para ser governo não basta estar na oposição, para fazer oposição não é preciso ser alternativa, mas para ser alternativa é preciso mostrar capacidade para ser governo, e para isso há que conciliar um programa político que responda de forma consistente às necessidades imediatas dos eleitores (muitas vezes mais superficiais) com um robusto plano estratégico que tenha o potencial de transformar o futuro do país (cuidando de necessidades estruturais).
Luís Montenegro e Mariana Mortágua parecem ter estado bastante focados em fazer oposição, falta saber é se têm um plano robusto que os faça ser alternativa pois é isso que pode permitir que ser governo faça parte do futuro de algum dos dois.
Escrito a 08 de junho de 2023 por João Tiago Teixeira
Créditos fotografia: Nuno Botelho in Expresso e José Coelho Lusa
Arquivada a discussão sobre o programa de habitação, 2023 continua mergulhado numa crise criada pelo governo, desta vez relacionada com a péssima gestão política da TAP.
Na semana passada a TAP publicou os resultados de 2022 onde foram atingidos lucros superiores a 65 milhões de euros, algo verdadeiramente histórico se considerarmos os objetivos traçados no plano de reestruturação.
Apesar desta poder ser uma informação muito relevante para o investidor português, está a ser tratada como meramente acessória. Foi relegada para segundo plano quando enquadrada numa gestão política desenvolvida à base da whatsapps, que nos deixou a discutir emails sobre pedidos de mudança da data de um avião para agradar a “um importante aliado político”.
Após a audição na comissão de inquérito à ex-CEO Christine Widener, fica no ar a sensação de que a demissão de uma gestora sénior com ótimos resultados, seja apenas mais um sintoma de um problema estrutural nacional: a deterioração da qualidade da classe política do nosso país.
Foi sob o desígnio estratégico da TAP ser uma das maiores empresas públicas portuguesas, responsável por cerca de 2% do PIB nacional e por milhares de empregos diretos e indiretos, que o governo liderado por António Costa decidiu não só renacionalizar a companhia aérea, assim como a de a subsidiar com mais de três mil milhões de euros dos cofres públicos.
Infelizmente, chegado o momento de tentar ilibar ministros e o governo, nem o cumprimento desse desígnio, nem três mil milhões de outras razões foram suficientes para prevenir a sequência de más decisões que fragilizam a posição do governo num momento em que se discute a possibilidade de uma nova privatização.
O governo pode agradecer a si próprio o flow do noticiário atual, pois foram os ministros das finanças e das infraestruturas que iniciaram este processo. Organizaram uma conferência de imprensa para se tentar ilibar, demitiram em direto uma CEO, proibiram-na de apresentar publicamente os resultados da TAP, e apesar disso mantiveram-na temporariamente, estando ainda hoje em funções.
Depois disto quantos serão os gestores competentes com vontade de se meter numaTAP, disponíveis para arriscar a sua carreira e a sua credibilidade, para trabalhar num ambiente em que as decisões de gestão se fazem por apetites ou pelo estado de humor dos políticos em funções?
A novela da TAP iniciou ainda em dezembro de 2022, vale a pena recordar os seus principais episódios :
A demissão de Alexandra Reis da TAP;
O pagamento de uma indemnização de 500.000€;
A sua contratação por outras instituições públicas – NAV & Ministério das Finanças;
A emissão de um despacho conjunto dos ministros das finanças e das infraestruturas pedindo um esclarecimento cabal sobre o acordo jurídico do despedimento da TAP;
A participação do secretário de estado Hugo Santos Mendes na elaboração da resposta da TAP ao pedido feito pelos ministros do seu governo;
A organização de uma reunião secreta para preparar a audição parlamentar de 19 de janeiro entre a CEO, membros do governo e do grupo parlamentar socialista;
Passado mais de um mês de ter sido comunicada a nulidade da indemnização, Alexandra Reis aguarda informação da TAP sobre o valor da devolução;
A displicência do secretário de estado sobre a possibilidade de alterar a data de voo de 200 passageiros para não arreliar um importante aliado político (o Presidente da República).
O Partido Socialista e o Governo não parecem perceber que o que está em jogo neste rol de escândalos não é apenas a ética e a transparência do governo, dos ministros ou dos secretários de estado, mas também a credibilidade e a legitimidade das instituições democráticas que representam.
O escândalo da TAP é um sintoma de uma doença mais profunda que afeta a democracia portuguesa: a corrosão da confiança. A confiança é um valor essencial para o funcionamento de qualquer sistema político baseado na representação e na participação dos cidadãos. Sem confiança nos governantes, nos representantes, nas instituições e nos meios de comunicação, a democracia arisca perder a sua vitalidade e legitimidade.
O Presidente da República vê-se cada vez mais sozinho. De um lado tem um governo maioritário desgastado que se sabota a si mesmo, do outro tem um PSD sem iniciativa política, incapaz de apresentar um projeto alternativo para o país e que vê fugir o eleitorado de direita para o Chega, ficando cada vez mais condicionado pelo crescimento do movimento anti regime.
O pedido do primeiro-ministro António Costa para que se apure a verdade sobre o caso da TAP, “doa a quem doer”, soa a vazio quando confrontado com todas as evidências de interferência política na gestão da empresa. A verdade parece ser para apurar, mas apenas se não for para ameaçar o poder socialista. O PS parece ser capaz de fazer tudo para se proteger, para proteger o seu poder e proteger a sua verdade, mesmo que isso possa fazer doer ao futuro da própria democracia.
Escrito a 12 de abril de 2023 por João Tiago Teixeira