Repugnante, ainda assim não surpreendente

“Sabendo que as nações vão sofrer mudanças, de que forma podemos fazer com que elas sejam menos problemáticas? Certamente, não será com gente repugnante ao leme…”

Há já algum tempo que vou refletindo na lógica patriótica e nacionalista dos povos. A visão protetora e possessiva de um espaço geográfico é tão antiga quanto a origem da humanidade. Sendo certo que a necessidade de sentirmos que pertencemos a algo, a uma tribo, é fundamental para a coesão e definição do espírito e cultura de uma sociedade, também é justo afirmar que a História diz-nos que o que hoje é “nosso”, amanhã poderá não o ser. Seja em termos do espaço que ocupamos, dos valores que defendemos, do credo que propagamos, da cultura que preservamos e, claro está, da nacionalidade que detemos.

A Europa, como continente, tem cerca de 50 países, e seja desde o Cabo da Roca, em Portugal, aos Montes Urais, na Rússia, ou desde o cabo Nordkinn, na Noruega, à ilha de Gavdos, na Grécia, todas estas nações, em algum momento da sua história, foram uma outra coisa, com outros povos. Para colocar alguns exemplos, temos a nossa vizinha Espanha, que só se formou, mais ou menos como a conhecemos hoje, depois do século XVI, e a Itália e o Reino Unido apenas no século XIX, tendo este último tido um reajuste com a Irlanda já no século anterior.

O que quero dizer com isto é que a nossa pretensão de deter algo com fronteiras bem definidas de maneira infinita e estanque é, de facto, uma ideia um pouco ilusória. Talvez, na lógica da longevidade média de uma vida humana, as mudanças sejam pouco significativas e, quando ocorrem, aparentam ter algum dramatismo, mas quando colocamos umas centenas e até milhares de anos em cima, percebemos a efemeridade da nossa ideia de nação e de espírito patriótico.

E por que trago esta introdução para este artigo? Bem, isso é mais simples ainda de explicar. O Governo trouxe, como agenda primária após a tomada de posse, o tema da imigração e da obtenção da nacionalidade portuguesa, pondo em segundo (ou terceiro, ou quarto, não sei) plano aqueles que, para mim, são, sem dúvida, os três temas prioritários para a atual legislatura: Saúde, Habitação e Economia. A Aliança Democrática tenta avançar um pacote legislativo e fazer política numa área completamente minada por extremismos.

Não quero que fiquem com a ideia de que desvalorizo a necessidade de falar deste tema. O problema é que, com o ruído existente à volta e com o Chega a comandar a narrativa mediática, fica impossível não ver legitimada por parte das pessoas mais radicais a perspetiva execrável que eles têm sobre este assunto. Esta postura é reforçada pela ausência de debate, por parte do Governo, sobre as políticas de integração e pelo foco constante nas políticas de “limitação”.

E, cavalgando sobre isto, vimos André Ventura, no Parlamento, e Rita Matias, num vídeo na rede social X, a lerem alto e a publicitarem os nomes de vários alunos que constam numa lista de uma escola de Lisboa e que andou a circular em redes de grupos simpatizantes do neonazismo como sendo estrangeiros. O objetivo é simples: passar a ideia de que os imigrantes estão a passar à frente dos portugueses e fortalecer o conceito da Teoria da Substituição.

Não faço ideia se a lista é realmente verdadeira e tampouco acho que, se estes senhores tivessem filhos, a atitude seria diferente. O que me incomoda é a ausência de empatia e respeito por quem já por si chega a um país, a uma realidade diferente, numa posição de fragilidade. É repugnante, ainda assim não surpreendente, que haja no Parlamento quem considere que não existam limites na forma de fazer política. Gente que foi eleita para representar o povo usa a sua posição pública para legitimar o repúdio sobre crianças que não têm como se defender. É execrável ver isto a acontecer e, sobretudo, é nojento ver os comentários associados nas caixas das redes sociais.


As migrações fazem parte da história da Humanidade e sempre trouxeram tensões atrás. Hoje, são aceleradas por um mundo global e capitalista, o que inevitavelmente fará com que haja alterações mais rápidas dentro das nações, territórios, culturas. Olhando para a história, sabemos que isso vai acontecer e que será inevitável assistir a essas mudanças que podem “reprogramar” todo um país. O que me parece absolutamente primitivo, em tudo isto, é que, com o nível de informação, conhecimento e conquistas sociais obtidas pelo Homem nos últimos milénios, se amarrote de forma vil tudo o que está por detrás dos valores e respeito pelos outros que fomos conquistando, porque isso é algo que não devia ser flutuante, deveria – e esteve – sempre em evolução positiva, como forma de construir uma sociedade melhor e mais respeitosa hoje do que ontem.

Sabendo que as nações vão sofrer mudanças, de que forma podemos fazer com que elas sejam menos problemáticas? Certamente, não será com gente repugnante ao leme…

Escrito a 9 de julho de 2025 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Chega citou nomes de alunos menores. Constitucionalistas falam em atropelo à lei

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