Serão os eleitores do CHEGA eleitores de segunda?

Miguel Sousa Tavares, entre outras figuras e até mesmo uma parte da opinião pública, defendem que os eleitores do CHEGA não devem ser ouvidos e devem sim “ser combatidos e derrotados”, citando o próprio Miguel Sousa Tavares. Mas, será que deve ser assim?

A maioria maior e a maré de crise

As eleições legislativas de 2025 deram uma vitória “à vontadinha” à AD – Coligação PSD-CDS, que, contas feitas, acumula um total de 91 deputados com assento parlamentar, demonstrando que, a maioria do povo português quer deixar o Luís trabalhar.

Contudo, também o CHEGA viu o seu número de deputados ser reforçado, passando dos 50 – digo, 49 deputados, sem contar com o assistente da TAP, Miguel Arruda – para 60 deputados, “roubando” uma parte dos eleitores ao PS, que foi, digamos, o parente pobre da noite eleitoral, levando Pedro Nuno Santos a abdicar do cargo de secretário-Geral do Partido Socialista, arrecadando o pior resultado eleitoral dos últimos 40 anos, sentando apenas 58 deputados no parlamento, abaixo do número conseguido pelo CHEGA.

Há cerca de um ano, escrevia no artigo Espelho meu, espelho meu, que democracia sou eu?, neste mesmo blog, que “de São Bento ao Palácio Bourbon, os movimentos populistas têm tomado as conversas e até mesmo as urnas, especialmente na Europa, criando um efeito ao qual eu costumo chamar “maré de crise”. Maré de crise pois, historicamente, os partidos ou movimentos populistas tomam proporções de representação avassaladoras aquando de um período de descontentamento popular generalizado, como o que atravessa grande parte da Europa e até mesmo o mundo.”.

Pois bem, a verdade não constitui uma fórmula absoluta, mas, a realidade é que é justo afirmar que o povo vive o momento de maior descontentamento com as instituições democráticas, desde o pré 25 de abril.

Será justo afirmar que os eleitores do CHEGA não devem ser ouvidos?

Prontamente digo que não! Miguel Sousa Tavares, citado no início deste artigo, afirma que também ele está “zangado com a governação do país e com a falta de categoria da classe política atual”, mas, defende que isso não o leva a “estar zangado com a democracia”.

Pois bem, vamos por partes. Uma boa parte da população portuguesa vive, atualmente, descontente com a prestação das instituições democráticas, seja pela demora dos serviços, seja pela corrupção quase sistémica que se vive, ou até pela marca de Costa deixada ao país, a da imigração descontrolada e extinção do SEF. Vive descontente com os baixos rendimentos, com a precariedade do SNS, e com a crescente dor de cabeça que se tornou o acesso à habitação.

Além do mais, o interior de Portugal não tem conseguido, após sucessivos governos ao longo de 51 anos, combater o grave fenómeno do despovoamento, ajudando à “festa” o facto de terem sido desativados quase 500 quilómetros de linha ferroviária ao longo dos últimos 30 anos, e de haver capitais de distrito do interior ainda sem acesso direto a uma autoestrada.

Repito, além do mais, assiste-se a uma constante degradação do debate político, sendo os programas eleitorais cada vez mais um conjunto bacoco de frases líricas que soam bem ditas da boca para fora, mas não têm em consideração as contas pública do país onde se vive.

Neste cenário, alguém que – também por responsabilidade de todos, por não se prezar por isso em casa e nas escolas – tenha uma literacia política menos vasta, vê-se claramente representado no discurso de cavaleiro que vai aparecer na manhã de nevoeiro, após as eleições que dizem que irão ganhar, para “salvar Portugal”.

Não, os eleitores do CHEGA, principalmente aqueles que deixaram o PS, o PSD, o CDS, o PCP, entre outros, não são contra a democracia, até porque muitos sabem o que é viver sem ela.

Votar num partido que quer acabar com as portagens, com a “mama” dos subsídios, com os “monhés”, e com a “ciganada que não quer trabalhar”, pode ser tentador a muitos, principalmente àqueles que sentem na pele as vicissitudes negativas que citei, mas, tenham sempre consciência que a conservação da democracia é uma responsabilidade enorme, e cabe-nos a todos nós sermos conscientes e olhar para a nossa história.

Portanto, sim, não devemos ignorar os eleitores do CHEGA, mas devemos não deixar que o seu descontentamento passe para o desrespeito pela democracia, e, para isso, é necessário resolver as pendências do país dos velhos sonhos adiados.

Serão eles os salvadores da pátria?

O Partido CHEGA afirma querer acabar com a imigração ilegal, que sim, deve acabar, mas, muitas vezes, afirma nos discursos dos seus representantes ser contra a imigração no geral; defende acabar com a subsidiodependência, mas esquece, largas vezes, que ao “fechar a torneira”, pode colocar pessoas efetivamente carenciadas em situação de pobreza agravada; defende que quer acabar com as portagens, que seria excelente, não fossem os custos avassaladores da reparação de uma rede de autoestradas tão elevados para o orçamento do estado.

Acima de tudo, votem naqueles que mais vos dizem algo, mas tenham sempre consciência que nada se faz num estalar de dedos; que o problema da natalidade não se resolve em 4 anos e sem imigrantes, e que Portugal não precisa de ser salvo, porque não está a ser invadido, precisa sim que os democratas, que devemos ser todos nós, se preocupem em governar também em consciência, e que façam valer os 51 anos já passados.

Terminando, digo que a melhor forma de combater os eleitores do CHEGA, é mostrar trabalho, respeito, espírito democrático e, acima de tudo, um enorme amor à liberdade.

Que os ventos do passado não se façam soar por cá nunca mais e que a melhor arma que tenhamos contra o populismo seja a consciência!

Escrito a 2 de junho de 2025 por Francisco de Melo Ambrósio.

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Autor: Francisco Ambrósio

Chamo-me Francisco de Melo Ambrósio. Tenho 18 anos e estudo Línguas e Humanidades, mas isso é só o que está no papel. O que não vem nos horários da escola é a vontade que sempre tive de perceber o mundo, e, às vezes, de o contrariar. Escrevo com o que penso, mas também com o que sinto. Falo de política, de sociedade, de juventude e de tudo o que mexe connosco nos dias de agora. Faço-o desde os 15 anos, em lugares como o jornal "Mais Ribatejo", o blogue "Mesa de Amigos" e, mais recentemente, na minha própria casa de escrita: o Crónicas dum Moço, um espaço onde se escreve devagar, sem ruído, e com verdade. Tenho o hábito de participar onde há discussão com sentido: representei Santarém no Parlamento dos Jovens, a nível nacional; passei pelo projeto Cidadãos em Ação, pela Escola de Verão da Fundação Francisco Manuel dos Santos (em torno da Geopolítica), estive no Encontro Nacional de Juventude a defender a liberdade das associações juvenis – que é só outra forma de defender a democracia – e sou membro do Projecto Academia, onde procuramos dar cobertura a todos os eventos da vida académica. Sou crítico de verdades absolutas e curioso com o que não tem resposta fácil. Se há algo que me move, é esta vontade teimosa de não aceitar o mundo só porque ele “sempre foi assim”.

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