O que é que está em causa nestas eleições? Porque vamos a votos?
Tal como o Presidente da República enunciou no discurso da sua terceira dissolução, esta crise foi provocada por um desentendimento entre o Governo e a oposição quanto à existência de uma confusão entre a política e interesses económicos. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou “Para uns, a confiança ética e moral era óbvia. Para outros, a desconfiança é que era óbvia“.
Portanto, desengane-se quem considera que esta campanha é sobre “políticas”. Aliás, eu atrevo-me a dizer que quase nunca é sobre políticas que há mudança de cor no Executivo Português. Aquilo que tem acontecido é que chega a um momento em que os eleitores se cansam do partido que os governa e optam por outro. Sendo assim, a pergunta que se impõe é: “Estão os portugueses fartos do PSD?”. Eu diria que não, e é a isto que Montenegro se agarra.
Deste modo, seria de concluir que o objetivo do PS durante esta campanha seria conseguir convencer o povo da incapacidade ética e da falta de transparência do atual Primeiro-Ministro. O problema é que os socialistas, como nunca tiveram um verdadeiro momento de reflexão sobre o caso José Sócrates, não têm um álibi suficientemente robusto para entrar por essas águas turbulentas. Por isso, vemos aí Pedro Nuno Santos, num esforço hercúleo a demonstrar que tem um programa para o país diferente dos últimos 10 anos do partido que representa. De facto, tem para ali umas coisas novas, mas parece-me que o eleitorado está nem aí depois de 8 anos de Costa. Estou convencido que, tal como aconteceu na Madeira, a ética e o bom nome vão para o caixote do lixo e “deixa o Luís trabalhar“.
Sejamos práticos, até ver, com as informações que temos ao dia de hoje, há indícios de corrupção? Não, não há. Há tráfico de influências? Nada disso. Há crime? Parece que se tem de vasculhar ainda muito. É chico-espertice? Ui, se é. É para correr com o Primeiro-Ministro? Se não foi com Miguel Albuquerque como arguido, então aqui não será de certeza para a maioria dos portugueses.
Luís Montenegro tem aquilo que os mais velhos chamam de “verdadeira cara de pau” (para os mais jovens, recomendo pesquisarem a definição no Google). Faz-me confusão a sua incapacidade de se justificar, tendo sempre a postura de dizer que é uma cabala contra ele, que é um homem de honra inabalável e impenetrável e depois lança explicações a conta-gotas que são muito pouco claras e demasiado palavrosas, deixando espaço para dúvidas e a sensação de “Estás-me a atirar a areia para os olhos ou é só impressão minha?“.
Depois de andar semanas e semanas a culpar o PS e o Chega pela crise, foi no programa do Goucha, seu claro apoiante nas últimas eleições, que revelou aquilo que todos nós ja desconfiávamos: ele queria estas eleições, era a oportunidade certa. E está tudo bem com isso, mas escusava de omitir (ou mentir) sobre as suas reais intenções.
Montenegro está com aquilo a que no futebol chamamos de “estrelinha de campeão”. Surfando o grande momento económico e financeiro do país e a paz social feita à custa de distribuição de dinheiro pelas clientelas importantes, como idosos e funcionários públicos, o Primeiro Ministro parte para estas eleições confiante e à vontade. Talvez até à vontadinha. Por isso, põe todos os ministros como cabeças de lista e ainda tem a ousadia de colocar Hernâni Dias por Bragança. Relembro que o antigo autarca e ministro do último Governo tinha sido afastado por ter criado duas imobiliárias quando mudava a lei dos solos. Agora volta, novamente, a ter a confiança do líder do seu partido.
Prosseguimos, no leme dos destinos do país, com pessoas que não acreditam em nada que não seja a conquista e a manutenção do poder. Capturados pelas agências de comunicação, os recentes líderes políticos vivem de truques, esquemas e táticas que tentam deixar a sua cara sempre limpa, ainda que tenham o fato já cheio de nódoas. Se todos são assim? Não quero fazer esse salto populista, mas a experiência dos últimos anos assim nos faz pender para essa triste conclusão.
Em 2009 (e com aquilo que se sabia nesse ano, não o que se soube depois), Sócrates, envolto em muitas dúvidas éticas, foi reeleito com as palmas e a euforia total do seu partido e as críticas ferozes da oposição. Agora em papéis invertidos, Montenegro prepara-se e procura o mesmo. Estou convencido de que não teremos um novo Sócrates 2014, isso é certo, mas da minha parte, e com estas dúvidas e inquietações no ar, os eleitores deveriam ser mais críticos no momento que lhes pedem um voto de confiança na integridade e honorabilidade do líder da direita. Não é para isso que servem as eleições. Se começamos a permitir que os políticos usem os processos eleitorais para limpar a sua imagem, começamos a cavar a campa das democracias. Vejam o que se passa do outro lado do Atlântico.
Tudo indica que continuaremos, depois de 18 de maio, num cenário de enorme instabilidade. Agora com a consciência que acordos, e alinhamentos entre o PSD e outros partidos poderão ser ainda mais difíceis devido ao seu líder. Quem arrisca aliar-se a alguém que depois lhe pode manchar o currículo? Que triste e desanimador momento para a política nacional.
Escrito a 17 de abril de 2025 por Sérgio Brandão
Créditos de Imagem:
Luís Montenegro apresenta programa da AD
Um pensamento em “A Estrelinha de Campeão de Montenegro”