25 de Novembro: Guerras Culturais e coisas que tais

Certos movimentos e inquietações que aparecem na sociedade portuguesa são oportunidades de aprendizagem, de re-leitura da história e de consolidação com construção de ideias já tidas previamente.

A celebração dos 49 anos do 25 de Novembro na Assembleia da República foi tudo isso para mim. Embora tenham já passado praticamente duas semanas desde o evento, a dimensão da data, a sua complexidade, o seu impacto e envolvência exigiu-me ouvir, ler e aprender para agora poder escrever qualquer coisa que fique para a prosperidade e que me orgulhe de ler no futuro.

Desengane-se quem pensa que vou cobrir toda a sucessão de eventos. Vou antes dar o meu ponto de vista e reflexão sobre a sua aparição na nossa agenda mediática.

Guerras Culturais: visões diferentes sobre os mesmos factos

Uma guerra tradicionalmente assume que haja dois lados em confronto. Quando adjetivamos a mesma com a palavra “cultural” assumimos uma dimensão de discórdia sobre a leitura e impacto de factos históricos, valores, visões ou mundividência.

Ora, numa sociedade crescentemente polarizada em que duas bandas se debatem de maneira constante, é normal a propagação e crescimento das mencionadas. Por si só isto não é mau, diria até que é normal, pois tal explica o mundo onde estamos e o mundo que queremos. É um reflexo da importância e vivacidade da sociedade civil nas democracias maduras.

Mas então de onde vem tanta preocupação sobre o aumento destes episódios?

Não há bela sem senão… A democracia assenta sobre o primado do consenso e quando visões tão díspares se confrontam de forma regular por tudo e por nada há quebra de pontes, ausência de acordos e perde-se o chão comum essencial para a progressão serena da sociedade. Não vivemos “duas Américas” como acontece nos Estados Unidos, mas há cada vez mais temas que envolvem confronto no nosso país e o problema está sobretudo assente na proliferação de factos falsos, reescrita errónea da história e omissão da verdade. E é aqui que entra a discussão sobre o 25 de Novembro, que disto que refiro tem de tudo um pouco.

O que foi o 25 de Novembro de 1975?

O 25 de Abril tendo começado como um movimento militar contra a ditadura de 48 anos, rapidamente se converteu numa revolução. A partir desse dia houve uma forte mobilização de forças civis, até então na clandestinidade, que tiveram influência nas clivagens do Movimento das Forças Armadas e que levaram a uma sucessão de acontecimentos que criaram uma tensão enorme na sociedade portuguesa, principalmente quando chegamos a esse fatídico Verão Quente de ’75.

Justamente durante esse período, Portugal tinha 3 setores distintos em tensão: o lado militar de extrema-esquerda liderado por Otelo Saraiva de Carvalho, o segundo lado que envolvia o partido comunista e tinha como símbolo maior o Primeiro Ministro Vasco Gonçalves e depois a frente encabeçada por Mário Soares e o Partido Socialista com apoio, ainda que tímido e céptico em alguns momentos, do PPD e o CDS.

Portugal vivia um clima de conflitualidade onde o caos reinava e tínhamos um cenário de Guerra Civil à espreita. Houve assaltos a sedes de partidos tanto de esquerda, como de direita, com recurso à violência física e intimidação por parte de movimentos clandestinos de ambos os espetros politicos.

Não querendo entrar em grandes detalhes, como prometi no início deste artigo, o que o Grupo dos Nove, Costa Gomes, Mário Soares e Ramalho Eanes fizeram foi frenar uma deriva radical, impedindo o país de ser tomado de assalto por grupos radicais de extrema esquerda e que tinha à espreita outros de extrema direita preparados para uma contra-revolução. Foi a partir desse dia que se deu mais um passo importante na consolidação de Portugal como democracia pluralista de estilo ocidental. Consequência clara de um processo iniciado a partir do dia 25 de abril de 1974.

Não tendo eu todos os pergaminhos para descrever em detalhe toda a sucessão de eventos passados, qualquer curioso que tenha investigado um pouco sobre o assunto conclui que no 25 de Novembro não se assiste à vitoria da direita sobre a esquerda. Bastando ler estes poucos parágrafos que deixo acima, no 25 de Novembro, quanto muito, pelos protagonistas que enuncio, houve uma vitória da esquerda sobre a esquerda. Uma vitória dos moderados.

Então por que é que quer a direita puxar para si esta data?

A Direita quer protagonismo

Aqueles que me leem mais regularmente sabem que considero o binómio esquerda direita francamente limitado. Ainda assim, creio que para esta reflexão ele ajuda-nos perfeitamente a perceber o que quero explicar.

Com descrevi acima, o 25 de Abril tornou-se numa revolução. Ora, como a própria palavra indica, o que se passou foi uma repentina mudança na sociedade portuguesa. Foi o fim de um ciclo imperial de cinco séculos e o fim de uma ditadura conservadora, nacionalista, repressora e de direita que durou quase cinco décadas.

É difícil contrariar que nos anos após o 25 de abril de 1974 dizer-se que se era de direita criaria algum prurido e era visto como negativo. Repare-se nos nomes dos principais partidos construtores da nossa democracia: Partido Comunista, Socialista, Social Democrata e até o CDS tem “Centro” no seu nome. Se for pela nomenclatura partidária, qualquer país europeu acharia que em Portugal só haveria representação de esquerda.

Reparemos que aqui ao lado em Espanha, talvez até graças à aprendizagem obtida com o nosso caso, a criação da democracia foi um processo muito mais negociado e menos intenso. Creio que o carácter “revolucionário” da nossa transição democrata, e por factualmente as grandes forças motrizes da mesma estarem sobretudo à esquerda do antigo regime, fez com que durante anos houvesse uma assumida vergonha das pessoas dizerem: “Eu sou de direita”.

Para além disso, houve sempre do lado da esquerda um reclamar e um espírito possessivo na celebração do 25 de abril. Muitas pessoas sentiram-se órfãs de protagonismo na conquista da liberdade e da democracia no nosso país. Foram constantemente renegados de fazer parte dessa celebração e já sabemos: para cada ação, uma reação (ainda que tardia).

Ora volvidos 50 anos do 25 de abril, estamos a assistir ao fim da vergonha. Há vontade de ter um papel na história. Quando assistimos, parece, à mudança sociológica do país no que à ideologia diz respeito, a extrema direita e também a própria Iniciativa Liberal encontraram a oportunidade certa para tentar reescrever o que se passou na transição para o novo regime. Para além disso, a cada vez mais fraca implantação e protagonismo do Partido Comunista foi a cereja no topo do bolo para esse aproveitamento.

Por isso, a minha leitura é que agora a direita quer também reclamar para si algumas personalidades, datas e eventos de proa, para enaltecer o seu papel na sociedade e na história moderna do país. A política vive muito de momentos, símbolos e até da existência de figuras quase messiânicas que ajudam a criar identidade própria. É aqui que nasce a necessidade de quase “recriar” o 25 de Novembro, ainda que com omissões e mentiras e sem grande adesão da grande maioria da sociedade civil.


É curioso perceber como a História nunca é somente uma recitação de factos. Pode ter várias interpretações consoante o momento e as pessoas que a evocam. Há que ter o espírito crítico suficientemente apurado para não engolir tudo aquilo que nos vem aos olhos e saber investigar para que de forma mais informada percebamos quem tem ou não razão nestas guerras culturais e saber distinguir o que é propaganda e o que são factos. Estou convencido que vão ser mais comuns do que se poderia pensar.

Escrito a 8 de dezembro de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
25 de Novembro de 1975: Os protagonistas, os factos e a polémica de uma data que escalda

Deixe um comentário