Politiquice é movimento, Políticas é ação.

“Estar em movimento acontece quando se está ocupado com alguma coisa, mas por si só nao significa que traga algum resultado concreto. Por outro lado, a açao é o comportamento que traz retornos, produz efeitos.”

As pessoas habitualmente confundem dois conceitos: movimento e ação. Apesar de parecerem semelhantes não são na realidade iguais. E porquê?

Estar em movimento acontece quando se está ocupado com alguma coisa, mas por si só não significa que traga algum resultado concreto. Por outro lado, a ação é o comportamento que traz retornos, produz efeitos.

Se eu pensar em 10 ideias para escrever um artigo para o Mesa de Amigos, isso é movimento. Se eu o escrever e publicar, isso é ação.

O movimento é bom porque ajuda-nos a estar preparados para algo, mas por si só poderá não levar ao resultado que procuramos. Aí necessitamos de ações.


Trago à discussão estes conceitos como consequência da reflexão dos primeiros meses do novo Governo. É verdade que Luís Montenegro tem trazido à mesa vários temas fruto de uma vontade vertiginosa de marcar a agenda política e de deixar a oposição com pouco espaço. Ainda assim, tenho o receio de que a apresentação de alguns desses “pacotes” de medidas sejam mais “movimento” e menos “ação”.

No artigo “Exasperação, Excitação e Culpados após Eleições” que publiquei a 17 de março, ou seja, pouco depois do desfecho das Legislativas, escrevi o seguinte: “É por isso que eu acho que estivemos, estamos e vamos continuar a estar em campanha durante este ano.” Creio que volvidos já mais de 100 dias, não me enganei.

Sobre o receio de ir para eleições mais cedo, o Governo tomou a decisão de “marcar passo”, pois paira a névoa de elas serem antecipadas. Está implícito na “arte de bem governar” que as decisões difíceis se tomam nos primeiros anos do mandato e as populares e apelativas deixam-se para momentos prévios a eleições. Aqui vemos a narrativa inversa.

Assentes sobre uma maioria pequeníssima, com a dificuldade (e talvez desinteresse) em criar pontes para a definiçao de reformas importantes para o país vivemos o tempo da politiquice e não das políticas.

Este xadrez político de constantemente estar a ver quem coliga com quem no Parlamento, quem aprova ou não o Orçamento, quem vai à frente ou atrás nas intenções de voto dá aso ao “movimento” e põe na gaveta a tomada de “ações”. Só isso justifica estarmos já há um mês a discutir se o Orçamento passa ou não quando ainda ninguém sabe totalmente, e parece pouco importar saber-se o que lá vai aparecer.

O debate do Estado da Nação foi uma vergonha. Houve insultos, cinismo e prepotência quando em teoria se devia diagnosticar problemas, procurar soluções e definir ações. Não há um caminho claro do rumo que o país deve levar e isso advém da atual realidade política que se vive. Não quero com isto dizer que haja essa falta de visão por parte do Governo, mas sobre esta maioria escassa e fraca não se poderia antecipar outro desfecho. Todos estão em “modo sobrevivência” e isso é inimigo de boas e consequentes medidas.

Há um conformismo por parte do povo dizendo que isto da política sempre foi assim, mas eu discordo. Há muitas mais decisões tomadas hoje em dia para resoluções de curto prazo e isso vem sobre só uma forma: o despejo de dinheiro. Ainda que concorde que havia temas na gaveta que na realidade necessitavam somente disso, depois vemos que noutros que exigem discussão, planeamento e execução a médio e longo prazo, não ha espaço nem interesse para discutir.

Reparem que na educação não se fala da falha da escola pública como elevador social, da diminuição do peso dos exames nacionais para acesso ao ensino superior, da inflação das notas nos privados, entre outros. Fala-se da remuneração dos professores.

Na saúde até se fala dos atrasos, das dificuldades de acesso a cuidados de saúde, das urgências que abrem e fecham, mas no final do dia o que vemos mais são as queixas por parte dos médicos e enfermeiros das baixas remunerações e a reforma do Sistema Nacional de Saúde fica sempre de fora.

Na justiça todos sabem que é necessária quase uma revolução, que os mega processos são uma estupidez de todo o tamanho, que a corrupção é um problema que necessita de ser atacado, mas o que vemos mais agora são trocas de galhardetes entre políticos e o Ministério Público.

Na segurança falam-se dos subsídios de risco, mas pouco ou nada se refere sobre a atratividade das forças militares e policiais, do seu papel no controlo de fronteiras e de integração de imigrantes, da falta de meios humanos e tecnológicos.

Sobre a fiscalidade está assente o alfa e o omega do crescimento e desenvolvimento económico do país. Criou-se a percepção de que reduzir impostos é o único e mais valioso meio para atingir a prosperidade. Ainda que concorde que o país deva ter uma fiscalidade mais atrativa, seja para as empresas, seja para os jovens, seja para quem for, há uma ausência de espírito crítico e de elevação na discussão sobre como o país se deve desenvolver, captar investimento e reter talento. Vai para além da mera redução do IRS, IVA ou IRC. Isto é um dos passos…

E outros temas se poderiam comentar em que o ônus da discussão está pouco centrado no interesse do país e mais das corporações.

A culpa é dos políticos e é nossa, eleitores. Somos pouco exigentes e surfamos a onda das grandes capas de jornais e do clickbait das redes sociais. Para a direita até parece que a AD está a ser um Governo super reformista e para a oposição parece que Montenegro e os seus ministros não sabem negociar e aceitar as propostas maravilhosas que lhes têm sido apresentadas.

Politiquice é movimento, Politicas é açao. É importante saber distinguir.

Escrito a 1 de agosto de 2024 por Sérgio Brandão

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