Entre a Decadência e a Psicopatia: o retrato de um país

“Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo?”

No passado dia 27 de junho ocorreu um debate entre Biden e Trump. Foi um primeiro teste em que se esperaria que o Partido Democrata, cavalgando a onda de deterioração da imagem do antigo presidente Republicano devido aos recentes casos judiciais, pudesse catapultar Biden para uma posição de vantagem a menos de 6 meses da eleição da democracia mais influente do Mundo.

Debate Completo: Primeiro frente-a-frente de Biden e Trump para a Casa Branca | WSJ

Sou fascinado por eleições. Adoro todo o processo da escolha dos candidatos por parte dos partidos, a apresentação de propostas, o jogo político, os debates, as campanhas, as análises feitas, a cobertura mediática. E felizmente 2024 tem sido meu amigo. Para além de todas aquelas que estão diretamente ligadas ao nosso país, tivemos já Taiwan, Índia, União Europeia, Reino Unido (terminou há dias), França a decorrer neste momento, e claro está, as eleições nos Estados Unidos da América. Tivesse eu mais tempo para ler, ouvir e estudar mais sobre cada uma delas…

Há um misto de emoções que decorrem em todos os processos eleitorais, mas aquela que me dá maior alento e motivação para acompanhar tudo isto é sem dúvida a esperança. Ainda que, em teoria, as eleições que mais me interessariam fossem as do meu país, ao vivermos num mundo globalizado e cada vez mais interligado, as eleições (quando feitas em países que vivem em democracias plenas) trazem-me sempre a esperança no reforço da democracia e de um mundo melhor e mais próspero para todos.

No entanto, é impossível ver o que se passa nos Estados Unidos e ficar entusiasmado. Os Americanos têm de ir às urnas escolher entre alguém com um claro declínio cognitivo e um psicopata descontrolado.

É lamentável que se tenha escondido dos americanos (e do Mundo) a clara deterioração das capacidades do Presidente dos Estados Unidos e, chegados aqui, o Partido Democrata vê-se em claras dificuldades para enfrentar e ganhar a um lunático que nunca escondeu ao que ia. Trump não apareceu de surpresa nestas eleições, toda a gente sabia e ninguém se acautelou. Culpa da Casa Branca, dos Democratas e também de Biden e da sua equipa, claro.

Ainda assim, eu não coloco os dois no mesmo patamar, como é obvio. Aflige-me até ver a quantidade de tinta que correu na descrição e deprecriação do atual estado de um homem como Joe Biden, que tem um currículo invejável na política interna e externa do seu país. Como é possível a sociedade global, como um todo, assumir que o Presidente perdeu o debate? Do outro lado tínhamos alguém que mais uma vez mentiu, mentiu e mentiu como já seria de esperar.

O New York Times identificou 20 declarações falsas de Trump, com outras 21 que considerou serem ou enganosas ou carecendo de contexto ou evidências. Este jornal não apontou declarações falsas proferidas por Biden, mas revelou que 11 se enquadravam no campo do “enganoso” ou “fora de contexto”.

Why Biden must withdraw?” – Artigo do The Economist

Num debate paupérrimo, moderado por jornalistas que fizeram perguntas básicas e que tiveram tudo menos o papel de moderar e desafiar os debatentes a elevar a discussão, permitiu-se a infantilização de temas como economia, imigração, saúde, segurança, entre outros, que tanto interessam aos eleitores e até ao Mundo. A CNN, representada por aqueles dois indivíduos, carregou no “play” e deixou correr um filme de terror visto por mais de 50 milhões de pessoas.

Biden vs Trump: Momentos chave do Debate Presidencial

Que sociedade é esta que permite que o país mais poderoso do Mundo leve a votos dois indivíduos assim? Que sociedade é esta que ataca mais um velho debilitado do que um mentiroso conspirativo? Que sociedade é esta que permite que dois jornalistas amorfos e acríticos liderem um debate desta importância?

É angustiante assistir a tudo isto no tantas vezes chamado “Farol das Democracias Liberais”. Será mesmo a esperança a última a morrer?

Escrito a 6 de julho de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem:
Biden-Trump election rematch?

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