Exasperação, Excitação e Culpados após Eleições

“Não podes adorar o teu país apenas quando ganhas”

Já passou uma semana desde que soubemos os resultados das eleições legislativas de Portugal e temos de tudo: excitação à direita, exasperação à esquerda e claro, o exercício fatal e previsível da política: a lista de culpados.

Importante dizer que, à data em que escrevo este artigo, ainda não temos os resultados finais, pois faltam ainda atribuir quatro mandatos pelo círculo da Europa e fora da Europa. É pouco provável que haja grandes mudanças nos resultados finais, mas até por respeito a mim próprio e ao meu voto, vou-me abster de perspectivar cenários definitivos.

Considerando-me eu um aborrecido e entediante moderado, já tive tempo para maturar e fazer uma reflexão mais profunda, ajudando-me a analisar tudo isto de forma mais ponderada.

Vamos a números: um milhão e cem pessoas votaram no Chega. São mais 700 mil votos do que nas Legislativas de 2022, demonstrando assim um brutal crescimento deste jovem partido. E, praticamente, cinco milhões votaram noutros partidos, sendo que 3,5 milhões de votos foram feitos ao centro (Partido Socialista e AD), ou seja, menos cerca de 500 mil votos versus 2022. É verdade que é uma descida bastante significativa, mas não ignoremos que seguimos com 60% de pessoas “moderadas”. Deste modo, parece-me inadequado colocar um peso descabido no futuro do país dependente de “somente” 20% de Portugueses.

Mas devemos ignorar o facto de haver este crescimento de votação num partido populista e demagogo? Claro que não! Analisemos então…

A Exasperação

É evidente que Portugal votou massivamente por uma mudança liderada pela direita. Mais de 50% dos votos foram atribuídos à AD, Iniciativa Liberal e Chega. A última vez que aconteceu algo semelhante foi nos idos tempos de Cavaco Silva, num tempo e realidade completamente distintos.

Mesmo ainda sendo necessários alguns estudos sobre estas eleições, a verdade é que este crescimento aconteceu sobretudo graças aos jovens e por aqueles que tipicamente se abstinham de votar. Para além desta enorme sede de mudança de cor política, que até fez levantar os abstencionistas do sofá, parece que há uma mudança sociológica no país, havendo uma maior procura de soluções mais associadas a este quadrante político. Algo que vai completamente contra o recente histórico português dos últimos trinta anos.

Claro que isto faz soar os alarmes à esquerda, representada nas urnas por um eleitorado tendencialmente mais velho e de qualificações mais baixas. Será isto surpreendente? Para mim não… São anos a fio com o PS ao leme do país e como é obvio isso leva ao desgaste tanto dos políticos como do povo, principalmente quando os mais jovens sentem que o seu futuro está hipotecado.

A esquerda assumir que a culpa do crescimento do Chega é só da direita é de uma enorme falta de consciência. O partido de Ventura foi a cola que manteve a esquerda unida nestes últimos anos e depois de milhentas trapalhadas, o mais baixo investimento nos serviços públicos e sua consequente degradação, e da enorme dificuldade em apresentar um projeto económico de futuro que fizesse “aumentar o bolo” para a seguir o redistribuir, assumir que não têm um mínimo de culpa nisto é ridículo. Nestes últimos anos, tentaram ao máximo associar o PSD ao Chega, acusando-o do mesmo radicalismo e demagogia porque sabiam que o medo garantia votos nas eleições. O povo deixou de ter medo e num grito de revolta, perdeu a suposta vergonha e respondeu desta forma nas urnas.

A exasperação demonstrada por esta nova realidade chega a ser cómica. O país acordou e descobriu que não tem só progressistas, defensores de direitos LGBT, pessoas anti-aborto, pró-imigrantes e anti-capitalistas. O país tem conservadores, anti-socialistas, racistas e xenófobos, indignados e revoltados, e pessoas anti-sistema que só precisavam de ter a pessoa e o partido certo a expressar aquilo que eles tantas vezes disseram no café e vomitaram nas caixas de comentário das redes sociais.

A Excitação

Alguma direita, mas sobretudo a extrema direita, saiu demasiada entusiasmada destas eleições. Vemos muitos a referir que é impossível ignorar o Chega e mais de um milhão de votantes. Pois, eu digo que tanto não se deve ignorar os eleitores do Chega, como os outros cinco milhões, dos quais quase dois votaram AD, sabendo que “não é não”. Quem votou em Luís Montenegro, votou com a clara consciência de que não haveria uma coligação nem acordo parlamentar com Ventura. Isto não significa que não hajam negociações com ele, nem com os outros partidos, claro. É isto que um Governo minoritário faz. Comparar esta realidade com a de 2015 é desadequado.

Primeiro, porque o que o PS fez com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista Português (PCP) foi só um acordo parlamentar e não uma coligação de Governo como por vezes Ventura quer deixar passar. E segundo, porque eu não ponho no mesmo saco o Chega e os dois partidos que estão à esquerda do PS, aos dias de hoje. Se defendem políticas extremistas? Sim, na minha opinião defendem, mas não “jogam sujo” como o Chega. André Ventura tanto está uma semana a chamar “prostituta” ao PSD, como na seguir quer ser Governo com eles. O Bloco e o PCP são muitíssimo mais previsíveis e claramente “aburguesaram-se” com o tempo. Talvez um dia aconteça o mesmo com o Chega, mas não agora. Deste modo, compreende-se que a AD, e os seus eleitores, não tolerem e respeitem da mesma forma a extrema direita como o PS e os seus eleitores toleram e respeitam a extrema esquerda.

A excitação tem de se conter, porque este milhão de pessoas não são propriedade do Chega e não têm que ser apaparicados só por serem do Chega. Os eleitores não são de ninguém e se hoje votaram neste partido, amanhã, com uma realidade diferente, com políticas diferentes, com uma perspetiva de futuro diferente, poderão a vir a votar noutros. Se vale a pena a direita tentar cativá-los? Vale e deve! Se vale a pena a esquerda tentar convencê-los? Vale e deve.

É por isso que eu acho que estivemos, estamos e vamos continuar a estar em campanha durante este ano. Montenegro pode ter uma oportunidade de ouro se controlar a excitação da direita e mostrar frieza. Acredito que durante 2024 não o vamos ver a governar. Vamos vê-lo a fazer política dura e crua para se preparar para umas próximas eleições (isto se sempre for indigitado Primeiro-ministro, claro).

Os Culpados

A esquerda (e até alguma direita) ficou indignada e revoltada com os portugueses após a noite de 10 de março. Aqueles que louvaram os eleitores em 2022 quando deram uma maioria ao PS, não podem agora acusá-los de ignorância e fascismo em 2024. Este resultado advém de anos de desesperança, de casos e casinhos e de incompetência. Prosseguir com a postura de superioridade moral só irá continuar a afastar estes eleitores e não permite fazer um verdadeiro mea culpa de tudo o que se passou nestes últimos anos. Para além disso, acusar o Presidente da República de ter levado o país a este estado é verdadeiramente absurdo. Depois de mais de 10 demissões por incompetência, insurgência, casos judiciais e depois de aparecerem 75 mil euros no gabinete do braço direito do Primeiro-Ministro, estavam à espera do quê? A esquerda tem culpas no cartório…

E a direita moderada não pode achar que agora que tem a possibilidade de ser Governo que deve virar as costas a todos, inclusive à esquerda. A reforma da Justiça, do sistema eleitoral, devolução do tempo dos professores, aeroporto, ferrovia, energia e acção climática, entre tantos outros temas, podem pôr o PS e o PSD em acordo aquando do momento de negociações para o Orçamento. Não vale a pena fazer com os socialistas aquilo que eles fizeram com os sociais democratas durante estes anos. Relembro a frase de António Costa em entrevista ao Expresso em 2020: ““No dia em que a subsistência deste Governo depender de um acordo com o PSD, nesse dia este Governo acabou”.

Ainda assim, o PSD, num cenário de enorme desgaste do PS, não conseguiu crescer o que se esperava comparativamente a 2022. Talvez porque não foi visto como um verdadeiro líder da oposição. Foi muitas vezes, nestes últimos anos, frouxo, hesitante, vazio, pouco cativante. E se por acaso entrar em jogos de enorme calculismo político e continuar a não dar respostas ao povo arrisca-se a ser engolido pelo Chega. O PSD tem também culpas no cartório…

Termino a minha análise dizendo que também, todos nós, como sociedade temos culpas no cartório. Há dias vi esta story no Instagram do Carlos Guimarães Pinto:

Seguidores de Cabeças de Lista nas Redes Sociais

Reparem como André Ventura tem praticamente mais 800 mil seguidores do que a Marisa Matias que ocupa o segundo lugar. Tem mais 900 mil seguidores que Pedro Nuno Santos e mais 950 mil que Luís Montenegro. Se formos ao detalhe vemos que é incomparável a audiência a que ele chega no TikTok comparativamente com os demais líderes políticos. Era por isso que o Chega não fazia grandes arruadas, nem grandes comícios. Não precisava! E quando a bolha dizia que eles estavam a fazer uma péssima campanha, que Ventura perdeu todos os debates, eles demonstraram o contrário, porque claramente a mensagem continuava a passar como queriam e da maneira que queriam, ou seja, sem qualquer contraditório. Assim chegaram aos mais jovens e aos revoltados com o sistema.

Eu dei-me ao trabalho de ver alguns dos posts e percebe-se claramente que ele vai direto às emoções das pessoas e ao encontro daquilo que elas querem ouvir e que nenhum político tradicional consegue dizer. Somos culpados como sociedade por acreditarmos nisso e não termos formado pessoas com suficiente espírito crítico para perceber que não há soluções fáceis para problemas complexos. No entanto, eu sei que é difícil fazer política com protagonistas assim, por isso eu consigo empatizar que para os partidos tradicionais a adaptação e a mudança na forma de fazer passar a sua mensagem não é fácil quando se tem de concorrer com estes partidos.


“You can’t love your country only when you win”

Joe Biden, discurso do Estado da União, 7 de março de 2024

Escolhi esta frase do Presidente dos Estados Unidos, “não podes adorar o teu país somente quando ganhas”, para demonstrar que a democracia é isto mesmo. O povo é soberano e se por acaso o resultado não for o que queremos, isso não nos faz melhor que os outros, deve é fazer-nos refletir e analisar sem palas nem ideias pré feitas o que aconteceu.

Já escrevi aqui que as eleições são feitas para ganhar e nisso a extrema direita populista está disposta a tudo: mentir, enganar, exagerar, prometer, insultar, tudo. Por muito que custe, isso vale e funciona.

Representar 20% dos eleitores não é determinante, mas já traz algum peso. São 50 deputados que agora entram e que vão ter os holofotes apontados. Ventura é claramente mais brilhante que todos os outros (e se calhar o menos extremista) e se até aqui ele levava o partido controlado, agora vai ser mais complicado. Ele não quer arriscar perder a importância que a sua bancada parlamentar tem hoje. Ele só irá deitar um Governo abaixo se souber que ganha com isso. A política é trabalhar para a causa pública, mas também é um projeto de poder. Que poder vai continuar Ventura a ter? Estará preparado para esta responsabilidade e exigência? Será que a sua possível normalização o vai fazer perder gás?

Sejam bem-vindos ao jogo político. Vai ser um embate interessante nos próximos meses… Os portugueses estão a ver e à espera da mudança, seja à esquerda, seja à direita.

Escrito a 16 de março de 2024 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
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