Quantas pessoas em Portugal se dão ao trabalho de ler o programa eleitoral do(s) partido(s) com que mais se identifica? Muito poucas, afinal estamos a falar de documentos extensos com longas listas de medidas para agradar a tudo e todos na busca do voto popular.
O sumo dos programas não se mede pelo número de páginas, às vezes inflacionado pelo uso de imagens ou por um enorme tamanho de letra, mas antes pela qualidade de diagnóstico, síntese e articulação dos seus projetos, assim como da respetiva capacidade execucional.
Durante as eleições os políticos parecem viver num mundo idilico onde não têm de fazer escolhas, tudo é importante e tudo pode ser feito. Infelizmente todos os programas em escrutinio no próximo domingo prometem medidas irrealistas, inconcretizaveis e que concorrem entre si, o que muitas vezes impossibilita a aplicação de um programa político como um todo.
Talvez o maior problema da democracia seja este, o contraste entre o período eleitoral que agora vivemos, digno de um país de maravilhas e o período de governo que vem a seguir, onde a realidade obriga a que se definam prioridades e a gradualidade de qualquer mudança estrutural se esconde no tempo, gorando as expectativas de qualquer eleitor, que a longo prazo se vai afastando do processo eleitoral.
Entre os que pretendem limpar Portugal, mudar Portugal, fazer Portugal crescer, um Portugal inteiro ou implementar uma política patriótica de esquerda, parece reinar o principio de que não existem desígnios comuns, que as diferentes ideologias além de conflituantes são por vezes até imorais, e não raras vezes vemos os interlocutores políticos a fugir de firmar compromissos com o atingimento de objetivos que sejam especificos, realistas, atingiveis, mensuráveis e definidos no tempo.
Nestas eleições perdeu-se mais tempo a falar do passado do que a olhar o futuro, não vi nenhum partido a tentar definir Portugal de forma transformadora ou a tentar comunicar à população de forma clara uma nova visão aspiracional.
Acredito que a transformação do nosso país só pode ser verdadeiramente iniciada se forem consensualizados na sociedade os desígnios nacionais, e que para cada um deles sejam definidas métricas e objetivos claros que independentemente de quem governa, possam guiar a ação num rumo coerente numa perspetiva de longo prazo.
A última vez que aconteceu uma transformação com uma visão aspiracional terá sido no 25 de Abril, no início da nossa democracia, ou talvez mais tarde quando o país decidiu integrar a CEE. Há já demasiados anos que ninguém discute Portugal com um principio, meio e fim.
Esta não é uma ideia que vise limitar as escolhas dos eleitos, mas antes a de garantir que a qualidade das escolhas políticas façam apenas variar a velocidade a que nos aproximamos do atingimento desses designios, em detrimento de continuarmos a vaguear sem rumo, sempre em atraso versus todos os outros parceiros europeus.
Tentando ser um pouco mais concreto, entendo que o desenvolvimento de um país deve gravitar rumo à concretização de quatro grandes desígnios: crescimento económico, redução da desigualdade, desenvolvimento social e coesão territorial.
Geralmente os políticos falam das diferentes áreas de atuação, tradicionalmente organizadas em ministérios, sem que se perceba que os problemas que procuram resolver não existem de forma isolada em si mesmos, e que apesar de à primeira vista não parecer, todas as medidas, programas e ideias gravitam à volta destes desígnios. Para não vos maçar exploro esta perspetiva em apenas duas grandes àreas de atuação: Saúde e Educação.
1- Saúde: Quando discutimos a área da saúde falamos da redução da desigualdade, onde devemos dar a todos, ricos e pobres, a possibilidade de aceder aos melhores cuidados de saúde, com baixos tempos de espera, garantindo os melhores resultados possíveis.
Ao longo dos debates e campanha não ouvi falar sobre a transformação do modelo de gestão de saúde para acomodar um aumento de procura de uma população pobre cada vez mais envelhecida, ouvi falar sobre salvar o SNS, obrigar (ou não) os médicos a ficar no SNS ou sobre o risco ou forma de privatizar processos de saúde existentes. Discutiram-se alguns meios, omitiram-se os objetivos e os fins.
2- Educação: Quando falamos de educação, falamos de crescimento económico, desenvolvimento social e coesão territorial. Uma economia com mão de obra mais qualificada é mais produtiva, uma economia mais produtiva paga melhores salários, salários competitivos diminuem a emigração, estimulam a imigração, contribuem para a correção da pirâmide demográfica e equilibram e reforçam o balanço das contas publicas. Só isto pode libertar recursos que façam subir o salário da função pública e garantir a prestação destes serviços em territórios mais pobres, insulares ou com menor densidade populacional.
Ao longo dos debates e da campanha não ouvi falar do papel da educação na preparação do futuro do nosso país ou sobre reformar o atual modelo de educação, que se manteve igual nos últimos cem anos e teima em não se adaptar às gerações do presente. Ouvi antes falar sobre a recuperação do tempo de serviço das carreiras dos professores, sobre os cheques escola ou sobre onde andam a estudar os filhos dos políticos, tudo coisas que importam pouco se quisermos verdadeiramente discutir como desenvolver o nosso país.
Portugal ficaria a ganhar se comungássemos todos do mesmo desígnio nacional e fossem acordadas metas de desenvolvimento comum, talvez aí os interlocutores políticos pudessem limitar as suas divergências à forma e conteúdo dos planos de ação que professam, em detrimento de atacar a ética ou a moral de quem propõe ou critica com outros pontos de vista.
O dia seguinte às eleições…
Não pretendo entrar em futurologias e cenarizações do pós eleições, afinal de contas foi nesta mesa de amigos que leram primeiro o prognóstico do Sérgio Brandão, e confiando na tendência registada nas sondagens deverá ser mesmo a Aliança Democrática a esboçar o maior sorriso no próximo domingo.
Independentemente de quem as vença e das condições de governabilidade que os esperem, receio que o resultado do próximo ato eleitoral seja o mesmo da famosa frase de Lampedusa, “É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”. No seu livro “Leopardo”, de facto, o tempo passou, até o regime mudou e pouco ou nada se alterou. Ficou tudo na mesma.
No próximo domingo é dia de ir às urnas, cabe-nos a todos exercer o direito de ir votar, mesmo que isso signifique que pouco ou nada vai mudar.
Escrito a 08 de março de 2024 por João Tiago Teixeira