A campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2024 já vai avançada e esta análise, tendo em conta o ritmo vertiginoso como hoje em dia as coisas correm, já “vai tarde”. Contudo, quero na mesma fazê-la…
Pedro Passos Coelho (PPC) esteve presente na campanha da Aliança Democrática (AD) no dia 26 de fevereiro, em Faro, e fez um discurso de cerca de 20 minutos que, pasme-se, deu em polémica… E eu tentei perceber porquê, pois podia haver o risco de ser algo retirado de um contexto pouco claro. Por isso, para os mais curiosos, deixo abaixo o discurso na íntegra que começa por volta do minuto 14:
Houve duas frases que encheram títulos de jornais:
“Precisamos de ter um país aberto à imigração, mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro. (…) hoje as pessoas sentem uma insegurança que é resultado da falta de investimento e de prioridade que se deu a essas matérias.”
Vamos, então, esmiuçar o tema em três pontos: envelhecimento e imigração, segurança e sensações.
1 – Envelhecimento e Imigração
Um dos temas menos abordados na campanha é o inverno demográfico pelo qual Portugal passa e irá passar nos próximos anos. Lideramos o ranking dos países da UE com maior proporção de pessoas com 65 ou mais anos (24% da população). O nosso país envelheceu 4,4 anos, em média, na última década.

Quanto ao rácio de dependência de idosos, o número de pessoas idosas (com 65 ou mais anos) em comparação com o número de pessoas em idade ativa (15-64 anos) atingiu os 38% em 2023 em Portugal. Uma vez mais, o rácio mais alto na Europa.
Com o êxodo de jovens qualificados de Portugal para outros países, a situação económica e de sustentabilidade da segurança social é verdadeiramente assustadora. Por um lado, necessitamos de crescimento, e por outro, de garantir qualidade de vida e cuidados aos mais velhos.
Deste modo, não espanta que todos os partidos, de uma maneira ou de outra, defendam a atração de imigrantes para o nosso país, de preferência com o intuito de ficarem largos anos e constituir família, para reverter esta pirâmide demográfica preocupante.
O grande problema está no discurso utilitário que se faz sobre os imigrantes, havendo uma enorme dificuldade em abordar o tema de uma forma profunda e construtiva. Se a esquerda puxa do tema, a extrema direita diz que é uma bandalheira o que propõem e que vai por em risco a nossa sociedade. Se a direita puxa do tema, a extrema esquerda apelida-os de racistas e xenófobos.
Estamos num ponto em que os moderados não podem abordar o que precisa urgentemente de ser discutido. Primeiro, porque de facto necessitamos de atrair e cativar imigrantes, e segundo porque o temos de o fazer de uma forma organizada e humanista.
Do meu ponto de vista, as portas devem estar abertas, sem dúvida, mas isso deve ser feito de forma organizada e estruturada por duas ordens de grandeza: primeiro porque é preciso proporcionar condições favoráveis e dignas aos imigrantes, acolhendo com humanidade e respeito, e segundo porque também devemos ser nós a definir a nossa agenda e o nosso ritmo para que a integração seja feita, respondendo às necessidades do país e dos interessados em para cá vir.
Deste modo, evitamos a “bandalheira” e o “racismo”…
2 – Falta de segurança devido a imigrantes
Ainda não temos indícios que a imigração tenha levado a um aumento de insegurança em Portugal. Aliás, os dados mais recentes dizem exatamente o contrário:
- Portugal é o sétimo país mais seguro do mundo, segundo Global Peace Index de 2023 .
- O número de crimes em Portugal foi mais baixo em 2022 do que em 2014 e 2015, anos de governação de PPC, segundo o último Relatório Anual de Segurança Interna publicado.
- 84,7% dos reclusos em Portugal são portugueses. O número de reclusos estrangeiros em proporção ao número total também diminuiu 3,8% na última década.
Isto tudo com um aumento de 98% de estrangeiros entre 2014 e 2022.
Concluindo, aparentemente não há nenhuma correlação entre o aumento de imigrantes e o número de crimes em Portugal. Deixo apenas em aberto a possibilidade de muitas vezes as pessoas não reportarem pequenos delitos, pois estes dados são alimentados com as queixas apresentadas pelos visados. Se as queixas não forem feitas, o que temos registado pode não espelhar a realidade. Contudo, ainda assim acho improvável poder correlacionar ambos os pontos.
3 – A Sociedade Portuguesa de Sensações
Passos foi ao Algarve com um objetivo: roubar eleitorado ao Chega nessa região (e noutras, certamente) e apelar ao voto útil na AD. Tudo o que escrevi acima ele sabe melhor que eu, melhor que a maioria.
Num discurso galvanizador, identificativo da matriz ideológica liberal que PPC nos habituou, só faltou mesmo dizer “não perguntes o que Portugal pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer por Portugal”, em linha com a mítica frase de John F. Kennedy: “Ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”. Todavia, esse discurso foi manchado por esta frase muito infeliz relativa à imigração: “as pessoas sentem uma insegurança”.
Sensações não são factos. Sensações podem não ter evidência por detrás. Sensações alimentam discursos da extrema direita e da extrema esquerda, tais como alguns bem conhecidos: a sensação de que os políticos são todos corruptos, a sensação de que os patrões exploram os empregados, a sensação de que o país está cheio de subsídio-dependentes, a sensação de que o problema da habitação é dos Vistos Gold, entre outros.
As sensações são as coisas que se ouvem no café, nos bancos de jardim, nas redes sociais, nos media sensacionalistas. Sensações só ajudam à polarização e não à análise e apresentação de soluções dos problemas reais da sociedade.
Este comentário, vindo de quem vem, alimenta e une a esquerda de uma forma simples: criando a sensação de que a direita democrática é igual à populista e que os problemas do país são “culpa do Passos”…
E assim vamos, de sensação em sensação, sem discutir verdadeiramente o que devíamos e sem sermos capazes de ter “adultos na sala” a apresentar propostas para aquilo que nos interessa: combater o envelhecimento do nosso país e atrair imigração de forma humanista e integradora.
1 milhão de imigrantes já cá estão e quase meio espera ser legalizado e integrado em Portugal. Destes, 31% encontra-se em situação de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Eurostat.
Permitindo-me então ao atrevimento de dizer que me dá a sensação do seguinte: se a frase de PPC tivesse sido “os imigrantes se não forem bem integrados e acolhidos, se não tiverem boas condições de trabalho e habitação, poderemos vir a ter um problema de segurança”, acho que aí poderia ser mais certeiro. A guetização, o abandono e a exclusão destas pessoas pode antecipar este risco. Por isso é que temos de discutir as coisas com seriedade e sem histerismos. Os problemas estão identificados, a necessidade real de os resolver também, por isso porque não arranjar soluções em conjunto?
Escrito a 3 de março de 2024 por Sérgio Brandão
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Existe relação entre imigração e segurança, como sugeriu Passos Coelho? Não