Num momento em que o Chega cresce nas sondagens e se prepara para ser um dos muitos vencedores das eleições do próximo dia 10 de março, celebrou a sua existência numa convenção durante o último fim de semana, propagandeando ideias de “ambição” para o país e (re)elegendo o líder com mais de 99% dos votos.
Ninguém conseguiu ficar imune ao que se passou por ali, por isso não pude deixar de partilhar uma reflexão com todos os amigos que passam por cá.
A política, é aquilo é, não aquilo que devia ser.
A história da humanidade tem-se vindo a fazer de ciclos, ora os de luz, inteligência e esclarecimento, ora os de trevas, ignorância e ressentimento.
Em 2024 é possível discursar num congresso partidário, afirmar-se como fascista e depois dizer que “era tudo a brincar”, uma figura de estilo e que todos aqueles que acreditam e propagam numa versão literal das palavras são uns verdadeiros “maus da fita”.
É provável que este subliminar raciocínio tenha aplicabilidade a toda e qualquer medida das que tenha sido vendida apresentada num evento que fez corar qualquer profissional das televendas.
Fazer isto hoje é possível porque palavras como “fascismo” têm vindo a ser alvo de um ajuste, de um resignificado que coloca um tom novo sobre um timbre antigo. Se há algo que falha na comunicação dos políticos (e jornalistas) de hoje, é a incapacidade de distinguir os significados implícito e explicito das palavras e das ideias.
As palavras não existem de forma etérea num qualquer dicionário, existem antes de forma efémera no discurso das pessoas e o seu significado depende de onde, quando e como as usam, dependem daquilo em que as pessoas acreditam.
Ninguém que tenha assistido ao discurso do avô “fascista” acredita que aquele é um senhor ultranacionalista e autoritário cujo sonho é o de viver sob a tutela de um ditador e que quer para si, para a sua família e para Portugal um poder ditatorial que rejeite a democracia eleitoral e a (sua) liberdade política e económica.
Da mesma forma, ninguém acredita que se o líder Ventura tivesse a oportunidade de governar o país iria mesmo avançar com medidas que custariam ao orçamento de estado mais de 14 mil milhões de euros por ano.
Elevar todas as pensões aos valores do salário mínimo, eliminar impostos como o IUC e o IMI, aplicar IVA zero aos produtos essenciais e a todos os produtos portugueses e descer o IVA da restauração para 6%, parecem mais uma lista de desejos ao pai natal do que um programa político.
A pergunta que se impõe é: Vender isto tudo dá votos? Dá sim, não porque as pessoas acreditem que estas medidas vão mesmo acontecer, provavelmente nem acreditam que tal coisa seja possível, mas porque lhes permite manifestar o sentido em que pretendem ir: valorizar a sua reforma, reduzir os impostos das suas propriedades (esqueceram-se de vender os impostos de quem trabalha?), baixar o preço de bens essenciais e valorizar o que é nosso, o que é português.
A sociedade, é aquilo é, não aquilo que devia ser.
Estamos a viver um contexto distópico e nem nos apercebemos disso, os eleitores expressam uma espécie de síndrome de Estocolmo, uns querem devolver o governo àqueles que ao longo última década nos levaram a sitio nenhum, outros querem dar o governo a um partido “desonesto”, que já não se diz de protesto, que vende tudo e o seu contrário na busca de um voto e quer pôr o regime em estado de sítio.
Na verdade escrever este texto não serve de nada, pelo menos hoje. Talvez tenha alguma utilidade no futuro. Talvez chegue um dia em que faça sentido ler isto e recordar aquilo que esta sociedade viveu. Hoje, quem chegou até aqui, já sabia em quem votar, já tinha uma opinião formada sobre a sociedade, os partidos e os políticos, pelo que não seria um textinho que os iria fazer querer mudar.
Todos nós procuramos aquilo que valide o nosso pensamento e ignoramos tudo aquilo que o contradiga. Talvez escreva este texto apenas por mim, talvez para validar o meu pensamento, reforço para mim mesmo que tenho razão, faço-o por outros que pensem como eu, mas não sei quantos são, quantos chegam até aqui e quantos continuam a ignorar o que pode vir a seguir.
O problema do Chega não é o fascismo ou o totalitarismo, o problema é ser mais do mesmo, é vazio, é falsidade, é demagogia, vende tudo por uma mão cheia de nada, sem ter qualquer solução ou vontade de preparar o país para o futuro que há-de vir.
Aos eleitores, à sociedade e aos políticos, podemos suspirar o quanto quisermos pela nostalgia de um futuro alternativo, onde as coisas são o que são e são aquilo que devem ser, mas o futuro, tal como o presente, será sempre aquilo que é e sempre foi: incerto, brutal e imprevisível, sempre distante daquilo que devia ter sido.
Somos um país velho, envelhecido, que suspira por um passado que teima em não ser esquecido, um país sem jovens, sem mães e sem filhos, um pais condenado a ficar adormecido.
Escrito a 17 de janeiro de 2024 por João Tiago Teixeira
Créditos fotografia: CNN