Estamos a mais de três meses das eleições e eu vou usufruir da ousadia que este blog permite para fazer uma análise à luz do dia de hoje. Se eu, porventura, acertar nas minhas estimativas, poderei dizer no dia 11 de março “Eu bem vos disse” e se falhar também não haverá nenhum problema, uma vez que nas últimas eleições não houve ninguém (ou quase ninguém) que antecipasse o resultado de maioria absoluta do PS. Deste modo, permitam-me ser o oráculo das próximas legislativas, aguardando pacientemente pelo contraditório vindo do vosso lado.
Taxa de Rejeição e Sondagens
Tenho dito e redito que a melhor coisa que poderia ter acontecido a Luís Montenegro (LM) foi a eleição de Pedro Nuno Santos (PNS). Na minha perspetiva, estas eleições vão jogar-se com os dois partidos do centro democrático e acho que com o aproximar do dia da ida às urnas se vai avolumar o foco dos votos no PS e PSD. A razão para defender esta minha posição está relacionada com a taxa de rejeição: um dos barómetros que tem ganhado mais relevância com a polarização política dos últimos anos.
A taxa de rejeição é o reflexo da resposta do eleitor à pergunta: “Em quem nunca votaria?”. Neste campo, LM acaba por ter um potencial de voto mais elevado comparativamente aos restantes adversários: primeiro porque as sondagens ainda são tímidas relativamente a ele e segundo porque tem uma taxa de rejeição mais baixa vs PNS e outros líderes da esquerda (e da direita).

Embora os dados que partilho acima já possam estar desatualizados, pois já temos Secretário-Geral do PS, já aconteceu o Congresso do PSD, e já há uma coligação pré-eleitoral fechada entre PSD e CDS, eu acredito que ainda assim podemos tirar mais algumas conclusões com estes dados:
- Sondagens que atribuam uma maioria de esquerda liderada pelo PS ou até um empate técnico com a Aliança Democrática podem ajudar à migração de votos do Chega (CH) e da Iniciativa Liberal (IL) para o maior partido da oposição, por haver muitos eleitores neste campo que são fortemente anti-socialistas. Estes eleitores poderão ter uma maior preocupação em garantir que o PS não é novamente Governo do que colocar uma cruz seguindo uma lógica de pureza ideológica. Vejam o que aconteceu em 2022 com a esquerda… O mesmo pode acontecer com a direita desta vez.
- PNS vai secar a esquerda, porque, claramente, com a taxa de rejeição que André Ventura, Rui Rocha e Nuno Melo têm, o eleitorado de partidos como PCP, BE e Livre não terá pudor em aliar-se ao líder socialista posicionado (alegadamente) mais à esquerda de que há memória e garantir mais votos neste campo.
- O CH está e vai continuar no centro político da discussão. O PSD sabe que perdeu as eleições (também) por causa deste partido em 2022 e o PS sabe que teve uma maioria absoluta à custa da narrativa do fantasma do CH. Deste modo, vamos continuar a ver jornalistas a pedir esclarecimentos a LM sobre possíveis alianças com a extrema-direita no pós 11 de março e vamos ver PS sempre a escarafunchar neste tópico para que ele seja usado como maior arma de fixação de eleitorado. Ao dia de hoje, o líder do PSD garantiu (e bem, na minha opinião) não negociar com André Ventura e também garantiu que se ficar em segundo não governa. Se depois dá mortal encarpado com flip-flap à retaguarda no dia 11 de março, então aí será julgado por essa decisão. Mas o PS não está contente com esta clareza de posição do PSD… não lhes dá mesmo jeito nenhum! (Nem a eles, nem à comunicação social que perde os seus deliciosos sound bites)
- Os indecisos vão ter um papel determinante: Em 2022, a três meses das eleições representavam 14% do eleitorado, agora são 17%. É aqui que LM e PNS vão apostar muitas fichas e seguindo a lógica do meu argumento, vamos ver uma campanha feia e de ataques regulares com o intuito de ver a taxa de rejeição de ambos aumentar para captar eleitorado nas franjas. Será a campanha em que os dois líderes do centro chamam “radical” um ao outro… Fraco, fraquinho!
O argumento da Estabilidade e promessas eleitorais (ou eleitoralistas)
Temos assistido a ambos os partidos a defenderem-se como sendo a opção do garante da estabilidade do país. Parece-me que é o cavalo de batalha mais importante para os portugueses.
PNS usa o exemplo da gerigonça como bandeira, pois ainda recentemente se percebeu que foi o Governo mais bem avaliado pelos portugueses nos últimos 20 anos e que permitiu António Costa governar sem “grandes problemas”. Por isso é que o novo Secretário-Geral nem fala sobre a possibilidade de nova maioria absoluta… sabe que é um cartão de visita péssimo para as próximas eleições. Já os sociais democratas usam e abusam desta recente governação socialista para dizer que o PS não consegue garantir estabilidade nenhuma ao país. LM gosta deste argumento não só porque lhe dá jeito para ir buscar eleitores ao centro, como vai buscar à direita ainda que de forma mais subtil. O exemplo dos Açores e o cenário de eleições antecipadas que assistimos nesta região autónoma são o reflexo da falta de confiança que o PSD quer passar também sobre eventuais coligações com o CH e a IL, pois ambos roeram a corda aqui. É obvio que IL é muito diferente dos extremistas de direita e a sua influência no PSD é muito importante para reduzir o papel e peso do Estado na sociedade, mas o que se está aqui a jogar é o saque aos votos e aí já sabemos que vale tudo!
À parte deste argumento, saltam promessas eleitoralistas tanto dos encarnados como dos laranjas para os pensionistas, funcionários públicos e as classes mais baixas da sociedade portuguesa. Não tenho dúvida nenhuma que são medidas que vão sofrer operações de cosmética muito significativas no cenário de pós eleições. Portugal não tem espaço para aumentar a dívida pública e tem uma forte pressão da Europa para baixar custos. Ainda na semana passada, os ministros das Finanças da União Europeia chegaram a um acordo sobre a revisão das regras orçamentais, fixando tetos de dívida e défice muito claros. Não há espaço para delírios.
Sendo pragmáticos: é óbvio que ambos os líderes têm de apelar aos pensionistas, sao 3,5 milhoes de eleitores; é óbvio que têm de apelar aos mais pobres, pois 42% de famílias portuguesas não auferem rendimentos suficientes para pagar IRS, dependendo assim, largamente dos serviços do Estado; e é óbvio que têm de apelar aos funcionários públicos, são 750 mil eleitores à espera de aumentos de rendimentos, principalmente médicos e professores. Agora se o vão cumprir? Claro que não… Podem não ser os políticos mais bem preparados, mas não são estúpidos. Joga-se aqui uma vitória nas eleições, não o orçamento para os próximos 4 anos. Até lá muita coisa muda…
Personagens e enredos secundários
Acho que estas vão ser as eleições com mais intervenção de figuras e instituições externas que podem em larga medida influenciar e trazer fatores de incerteza para a conclusão que tiro a seguir:
- António Costa, o optimista irritante que disse mais de uma dezena de vezes “confiança” no discurso de Natal, é dos políticos mais narcisos que temos. Por isso, uma perda das eleições por parte do PS é uma perda do antigo Primeiro-Ministro. Se as ganhar, pode dizer que é fruto do trabalho dele, se as perder vai dizer que foi uma cabala bem montada contra si. Vejo-o claramente a querer marcar presença regular na campanha.
- Ministério Público, o jogador mais influente na política nos últimos anos, está aqui sob pressão para clarificar algumas acusações e insinuações feitas no caso Influencer o mais rapidamente possível. Isso poderá beneficiar ou prejudicar ambos os lados do espetro político.
- Pedro Passos Coelho, o D. Sebastião da direita, que não dá a entender se está a espreita ou não para derrubar Montenegro num possível cenário de derrota política ou se está só a querer fazer jus à figura messiânica que aparenta ter sempre que fala. Ainda recentemente falou para atrapalhar o seu próprio partido com o tema “Chega”. A sua ambiguidade foi desnecessária… Era bom que estivesse ao lado de LM nestas eleições, para ajudar a captar eleitorado a Ventura, o seu maior fã. Acredito que se acontecer será mais para o fim da campanha.
- Marcelo Rebelo de Sousa, o político mais popular das últimas décadas, tem lançado, recentemente, rasgados elogios ao antigo Primeiro-Ministro, esperando, certamente, que não surja mais uma sombra na política portuguesa. A sua transmissão de força e motivação para com António Costa e sua eventual ida para cargos europeus são o reflexo do jogador hábil que o Presidente da República é ao querer derrubar o político com menor taxa de rejeição do cenário português. Até porque sabe que um António Costa ressabiado e desocupado terá uma influência na política em Portugal pouco valiosa no seu ponto de vista. Um vaidoso reconhece sempre outro vaidoso…
- Plano de Recuperação e Resiliência, o balão de oxigénio da economia portuguesa, será dos melhores aliados do Governo seguinte. É muito dinheiro e se for conseguida uma solução estável nos próximos 2 anos é quase certo que a economia (salvo algum percalço imprevisível ao dia de hoje) irá crescer e poderá garantir uma futura reeleição. Vai certamente ser uma valiosa arma de combate político.
Uma espécie de conclusão…
Acho que a Aliança Democrática vai ganhar as eleições, mas depende da cambalhota dos eleitores do Chega e da IL para tal. Segundo a sondagem de opinião realizada pela Aximage para DN/JN/TSF, 78% dos eleitores com mais de 65 anos rejeita o partido de Ventura, dando a LM a possibilidade de garantir estes eleitores. Para além disso, Rui Rocha e o líder do Chega têm 44% de potencial de voto nos mais jovens (18-34 anos), o que me leva a crer que numa visão anti-socialista, estes eleitores podem cair para o PSD por considerarem que o seu voto terá maior peso devido ao método D’Hondt. Este último ponto não é de somenos importância: a direita quer o poder ou quer fazer um voto ideologicamente puro (IL) ou contra o sistema (Chega)?
Se estou certo? Talvez sim, talvez não… Estamos a um tempo suficientemente distante das eleições para isto mudar tudo, mas estou seguro desta minha análise ao dia de hoje. O PS já leva muitos anos de governação, seria útil haver a mudança de cor. Se há aqui algum grau de análise emocional, se calhar sim, mas solidifiquei a minha posição com argumentos que me parecem bastante plausíveis. Se acertar não se esqueçam: foi no Mesa de Amigos que leram primeiro!
Escrito a 27 de dezembro de 2023 por Sérgio Brandão
Créditos de imagem:
Pedro Nuno e Montenegro: dois sociais-democratas unidos por tudo o que os separa
Um pensamento em “Já sei o resultado das Legislativas de 2024!”