Estamos cada vez mais próximos do início de um dos maiores eventos internacionais organizados por Portugal nas últimas décadas, já estão inscritos mais de 300 mil participantes na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e Lisboa prepara-se para a presença de mais de um milhão de peregrinos entre os dias 1 e 6 de Agosto.
Para melhor entender a dimensão desta peregrinação, é interessante pensar que durante o Euro 2004 recebemos o “mesmo” milhão de peregrinos, mas aí espaçados por um período de 23 dias e espalhados por todo o país.
Apesar da organização da JMJ ter recebido alguma atenção mediática, sobretudo quando surgem dificuldades ou problemas, não me recordo de alguma vez ter ouvido se interessava a Portugal querer organizar e se sim, porquê.
Acredito que a candidatura portuguesa tenha sido tomada de forma racional e suportada em argumentos fortes que justificaram de forma clara o nosso envolvimento, ainda assim como não os conheço sou obrigado a arriscar tentar deduzir alguns, como:
- Reforçar o relevo diplomático do nosso país no seio da comunidade internacional.
- Alavancar o futuro do setor do turismo, dando a conhecer o país a um milhão de turistas jovens de todo o mundo.
- Capitalizar uma potencial oportunidade económica, que hoje se estima poder ser superior a 500 milhões de euros.
- Agradar à população católica portuguesa, que é a maioria religiosa do nosso país laico.
Se tudo correr bem, acredito que estes objetivos possam ser facilmente alcançados e a JMJ seja recordada pela forma positiva como contribuiu para a boa imagem de Portugal, para a boa performance económica em 2023 e pelo seu impacto no turismo.
O problema é que num evento desta envergadura uma das poucas certezas que que tem a organização é a de que algo vai correr mal, e o verdadeiro desafio está em garantir que aquilo que corra mal não impacte significativamente o sucesso do evento e a imagem do país.
Se ao longo dos últimos meses assistimos a algumas discussões (des)interessantes, relacionadas com a legitimidade do financiamento público ou sobre quanto deve custar um altar, mais recentemente têm surgido notícias importantes que auguram (muitas) dificuldades.
Nos últimos dias têm surgido na comunicação social posições fraturantes e contraditórias entre a comissão organizadora da JMJ e governo e as demais instituições, tais como as câmaras municipais e associações que representam os profissionais e voluntários envolvidos no suporte ao evento.
Para complicar, são já vários os sindicatos a enviar pré-avisos de greve, que sendo oriundos de setores críticos ao sucesso da JMJ procuram alavancar a sua posição negocial:
- Sindicatos da Portway, empresa de handling nos AEROPORTOS, que afetará a capacidade de transporte das malas na saída do país.
- Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul, no contexto da requisição feita ao ACOLHIMENTO DE PEREGRINOS ESCOLAS da região para dar apoio ao recebimento dos visitantes.
- Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante, que representa os revisores e trabalhadores das bilheteiras da empresa COMBOIOS DE PORTUGAL, que poderá afetar os comboios especiais disponibilizados para o evento.
- FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS, que mantém ainda a ameaça de greve para os dias 1 e 2 de Agosto.
- Sindicato Nacional dos Motoristas e Outros Trabalhadores da Câmara Municipal de Lisboa, que contemplam os motoristas e cantoneiros, trabalhadores afetos à REMOÇÃO DE RESÍDUOS NA CIDADE DE LISBOA.
Se já é difícil organizar a JMJ num cenário onde podem faltar médicos, transportes públicos ou locais para pernoitar, há que adicionar a incerteza que a vaga de calor anunciada pelo IPMA possa causar ou a dimensão e complexidade do dispositivo de segurança que está a preparar um evento onde não se pode excluir a possibilidade de um atentado que possa colocar em causa a segurança dos locais ou dos peregrinos.
Num contexto em que importa a todos que tudo corra bem, a demonstração pública de falta de solidariedade institucional, evidencia bem as brechas que existem na nossa sociedade, denunciadas pela incapacidade organizativa de quem lidera o planeamento.
Para um país que depende tanto do turismo, o sucesso da JMJ pode representar uma boa oportunidade para desenvolver o nosso país, mas o seu insucesso representa um risco enorme para a nossa imagem internacional, que pode ser facilmente manchada por um “percalço viral”, num momento em que toda a imprensa mundial está aqui de visita.
Estou ao lado de todos aqueles que desejam que nenhum dos riscos que ameaçam o sucesso da JMJ se concretize e que as instituições envolvidas encontrem um equilíbrio que garanta ao exterior a invisibilidade das nossas diferenças, contribuindo para que fiquem apenas memórias felizes entre aqueles que no início de Agosto, vão visitar Lisboa e o nosso País.
Esperemos que quando alguém disser “A JMJ foi um sucesso” esteja mesmo a dizer verdade, de outra forma é certo que mesmo que não sendo o próprio, haverá sempre alguém a enfrentar a consequência, talvez um secretário de estado, talvez um ministro, talvez o governo, ou à imagem de outros “relatórios”, talvez sejamos apenas nós e o País.
Escrito a 13 de julho de 2023 por João Tiago Teixeira
Créditos imagem: Logo JMJ
Campeonato Europeu de Futebol de 2004 – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)
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JMJ com impacto previsto entre 411 e 564 milhões – Renascença (sapo.pt)
JMJ. Prevista onda de calor para os dias do evento em Lisboa (rtp.pt)