Será o PS Imortal?

“Resumidamente, passamos metade do ano a ver a comunicação social e a bolha mediática a tratar o caso TAP como aquele que ia deitar o Governo abaixo, mas chega no final e estamos praticamente na mesma.”

Três meses, 46 audições e 170 horas depois, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à TAP já tem relatório preliminar. Relembrar que ela foi proposta pelo Bloco de Esquerda e foi constituída no seguimento da polémica indeminização de meio milhão de euros paga à ex-secretária de Estado do Tesouro Alexandra Reis para a saída da empresa em discussão. E o que conclui?

  • O despedimento de Alexandra Reis foi da “exclusiva vontade e iniciativa” de Christine Ourmières-Widener;
  • Pedro Nuno Santos e Hugo Mendes não “conheciam o clausulado do acordo” de saída de Alexandra Reis;
  • Não existe ligação entre a saída de Alexandra Reis e a sua nomeação para presidente da NAV, nem de pressão ou intervenção política por parte das tutelas;
  • E ainda deixou de fora (e bem, a meu ver) os acontecimentos nas instalações do Ministério das Infraestruturas que envolveram Frederico Pinheiro e a chefe de gabinete de João Galamba, e também a atuação das secretas na recuperação do computador do adjunto. Apesar disso, a relatora do PS, Ana Paula Bernardo, destaca que a não inclusão do caso neste relatório “não desvaloriza a sua pertinência”.

Posto isto, dá vontade de dizer que a grande conclusão é que esta CPI pouco ou nada belisca o Governo. Até podemos arriscar questionar se fez ou não sentido Pedro Nuno Santos demitir-se no seguimento dos acontecimentos. Todavia, todo este afastamento e recente regresso, do ponto de vista da aura política, fez com que o ex-ministro fosse bafejado por uma euforia única e digna de um verdadeiro herói (ou mártir, sei lá eu). Poucos são aqueles que no Partido Socialista (PS) não foram ao beija-mão no seu regresso ao Parlamento.

Depois de todo o reboliço, seja pelo lado da CPI e dos episódios mais intensos a ela associados, seja por este silêncio e regresso do alegado futuro secretário geral (e primeiro-ministro) do PS, é óbvio que houve uma cambalhota brutal nas intenções de voto e na popularidade de António Costa, não é verdade? Pois… não foi!

A última Sondagem Expresso-SIC, publicada há pouco mais de duas semanas, indica que a crise política recente em Portugal não beneficiou o Partido Social Democrata (PSD) e o seu líder Luís Montenegro. Mesmo com 71% dos inquiridos a avaliar o Governo como “mau” ou “muito mau”, o PSD manteve-se (firme) na mesma intenção de voto (30%). A popularidade do líder do grande partido da oposição até caiu, comparativamente à última sondagem (março 2023), situando-se agora em 3,9 numa escala de 0 a 10. Já o PS viu uma ligeira subida nas intenções de voto (31%) assim como seu líder, António Costa (4,8), mantendo-o como o político mais popular a seguir ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Os entrevistados manifestaram frustação com a situação atual do país, mas têm muito poucas expectativas relativamente à mudança de cor política no Governo e sem grande inclinação para premiar a oposição. Em tempos que se fala quase diariamente de um cenário de eleições anticipadas, o PSD continuaria dependente do Chega se quisesse ter uma maioria à direita em aliança com a IL e o CDS.

Parece-me que esse cenário é cada vez mais improvável. Creio que mantendo-se as coisas como estão, Luís Montenegro até pode ganhar as eleições Europeias, mas será por “poucochinho” e porque a desvalorização das mesmas por parte do eleitorado serve apenas como forma de mostar um cartão amarelo ao Governo.

Arrisco dizer que o PSD não vai “cheirar e provar” o poder nas próximas eleições. Primeiro porque o Povo continua a não vê-los como alternativa e segundo porque o PS tem retirado todos os históricos trunfos que o PSD usava para combater os socialistas: a despesa está controlada com redução constante da dívida; a economia cresce (ainda que pouco) comparativamente aos países ocidentais da Europa; e os pensionistas continuam na mão deles até porque foram os únicos que não perderam poder de compra durante a inflação graças às ajudas do Estado. Que pode Luís Montenegro fazer? Tem duas pérolas onde pode atacar e uma outra que pode explorar. A primeira é a saúde, a segunda são os professores e a terceira a habitação. Tudo áreas cujas reformas são de um grau de complexididade tão grande que são difíceis explicar ao Povo e cuja visão do PSD me parece pouco diferente da do PS. Para além disso, com o tempo que o PS tem até ao final da legislatura e com os cofres a encher à custa da inflação e do crescimento da economia, vai haver mais do que espaço para despejar dinheiro como penso rápido quando for altura de ir às urnas. Por isso, os eleitores vão continuar a não olhar para os sociais democratas como solução. Acresce ainda que muitos moderados ainda não perceberam bem se Montenegro quer ou não dançar com Ventura… O erro que Rui Rio cometeu subsiste.

Resumidamente, passamos metade do ano a ver a comunicação social e a bolha mediática a tratar o caso TAP como aquele que ia deitar o Governo abaixo, mas chega no final e estamos praticamente na mesma. Não adiantou nada a Marcelo pôr-se “contra” o Governo, porque no final do dia, Montenegro foi uma personagem completamente secundária em toda a novela.

Sabemos que a política tem muito de timing e cinismo, por isso pode ser que os trunfos (vulgo as políticas diferenciadoras) estejam a ser guardados para quando chegar a hora. Com um Governo tão pouco ideológico, Montenegro pode pensar que ao expor as suas ideias já, elas possam ser aproveitadas por Costa. Espero genuinamente que seja isso, mas tenho sérias dúvidas… Caso contrário a pergunta que se impõe é: “Será o PS imortal?”

Escrito a 6 de julho de 2023 por Sérgio Brandão

Créditos de imagem:
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