Na semana em que Mariana Mortágua foi eleita nova coordenadora do Bloco de Esquerda e Luís Montenegro celebrou um ano de liderança no PSD, foram divulgadas sondagens que indíciam futuros muito diferentes para estes líderes políticos.
Se Mariana Mortágua parece ter razões para sorrir, vendo o seu partido a superar a barreira dos 10% e aproximar-se do terceiro lugar, apesar de poder dizer que está acima do PS, Montenegro vê o PSD afundar para valores ainda piores do que os atingidos em 2022 (figura 1).

Analisando os resultados podemos arriscar tirar algumas conclusões:
- O bloco central PS + PSD está a esvaziar-se, caindo de 70,5% para 50,8%;
- O bloco de direita PSD + CDS + IL cresce pouco, de 35,6% para 37,5%, mas a adição do Chega garante um peso superior a 50%;
- A tríade da geringonça PS + BE + CDU perde força, caindo de 50,1% para 38,8%, mas o PAN e Livre ganham votos e mantém as intenções do voto à esquerda acima dos 45%.
Neste cenário o PS é o maior perdedor (-16,9%), a sucessão de casos está a desgastar o governo e a decisão de manter o ministro Galamba por aparente teimosia política está a eclipsar por completo os resultados económicos positivos.
O PS pode estar ferido, mas não está morto. Num contexto eleitoral conseguiria facilmente melhorar esta catástrofe, ora disputando votos à esquerda pelo apelo ao voto útil, ora disputando votos ao PSD via resultados económicos e “contas certas”, ora pelo aproveitamento do medo que uma coligação Chega – PSD causa na maioria do eleitorado moderado.
Inspirado pelo virtuosismo de Mariana Mortágua o BE parece estar renascido, desenvolvendo uma estratégia política menos dependente dos eixos cultural e social mais fraturantes e de teor eminentemente cosmopolita e de defesa de minorias, para uma mais focada na defesa dos direitos do trabalho e outros interesses mais corporativos.
Do lado do PSD não parece haver razões para sorrir, o partido não é capaz de capitalizar de forma nenhuma o desgaste do Governo Socialista, a política tem-se feito de casos e casinhos, uns relevantes, outros menos, e é nesse mar negro que o Montenegro tem procurado navegar à vista, aparentemente sem sucesso e muitas vezes ultrapassado por partidos muito mais confortáveis no contexto.
O PSD parece estar perdido, não conseguindo explicar a ninguém porque é que formaria uma melhor solução de governo, que decisões significativamente diferentes do PS é que está disposto a tomar e que estratégias alternativas tem em mente para melhorar a vida das pessoas.
Discutir a progressão de partidos como o Chega, IL, BE, PAN ou Livre julgando os eleitores pelo suporte que possam estar a dar a medidas ou posições extremas (racismo, ideologia libertária ou nacionalização da economia) é julgar os eleitores à luz de uma supra moralidade em detrimento de empatizar com as suas dores e incómodos, que esperam legitimamente ver supridos quando afirmam as suas intenções nas urnas.
O problema não está nos eleitores, se eles agem de uma forma mais emocional que racional isso é porque embora o processo eleitoral represente a oportunidade de escolha entre diferentes programas de governo (muito densos e complexos), o voto resume-se à generalização de uma perceção que o eleitor tenha sobre a posição que o líder ou partido possam ter num determinado assunto de elevada relevância ou interesse pessoal.
Aos partidos do arco da governação cabe a responsabilidade de entender o core das preocupações dos eleitores, e à luz da sua “ponderação” individual, definir estratégias que que respondam de forma eficaz aos problemas e necessidades.
Para ser governo não basta estar na oposição, para fazer oposição não é preciso ser alternativa, mas para ser alternativa é preciso mostrar capacidade para ser governo, e para isso há que conciliar um programa político que responda de forma consistente às necessidades imediatas dos eleitores (muitas vezes mais superficiais) com um robusto plano estratégico que tenha o potencial de transformar o futuro do país (cuidando de necessidades estruturais).
Luís Montenegro e Mariana Mortágua parecem ter estado bastante focados em fazer oposição, falta saber é se têm um plano robusto que os faça ser alternativa pois é isso que pode permitir que ser governo faça parte do futuro de algum dos dois.
Escrito a 08 de junho de 2023 por João Tiago Teixeira
Créditos fotografia: Nuno Botelho in Expresso e José Coelho Lusa
Montenegro, um ano após ser eleito: ″Não vamos dar descanso ao Governo″ (dn.pt)