Na semana passada a TAP publicou os resultados de 2022 onde foram atingidos lucros superiores a 65 milhões de euros, algo verdadeiramente histórico se considerarmos os objetivos traçados no plano de reestruturação.
Apesar desta poder ser uma informação muito relevante para o investidor português, está a ser tratada como meramente acessória. Foi relegada para segundo plano quando enquadrada numa gestão política desenvolvida à base da whatsapps, que nos deixou a discutir emails sobre pedidos de mudança da data de um avião para agradar a “um importante aliado político”.
Após a audição na comissão de inquérito à ex-CEO Christine Widener, fica no ar a sensação de que a demissão de uma gestora sénior com ótimos resultados, seja apenas mais um sintoma de um problema estrutural nacional: a deterioração da qualidade da classe política do nosso país.
Foi sob o desígnio estratégico da TAP ser uma das maiores empresas públicas portuguesas, responsável por cerca de 2% do PIB nacional e por milhares de empregos diretos e indiretos, que o governo liderado por António Costa decidiu não só renacionalizar a companhia aérea, assim como a de a subsidiar com mais de três mil milhões de euros dos cofres públicos.
Infelizmente, chegado o momento de tentar ilibar ministros e o governo, nem o cumprimento desse desígnio, nem três mil milhões de outras razões foram suficientes para prevenir a sequência de más decisões que fragilizam a posição do governo num momento em que se discute a possibilidade de uma nova privatização.
O governo pode agradecer a si próprio o flow do noticiário atual, pois foram os ministros das finanças e das infraestruturas que iniciaram este processo. Organizaram uma conferência de imprensa para se tentar ilibar, demitiram em direto uma CEO, proibiram-na de apresentar publicamente os resultados da TAP, e apesar disso mantiveram-na temporariamente, estando ainda hoje em funções.
Depois disto quantos serão os gestores competentes com vontade de se meter numa TAP, disponíveis para arriscar a sua carreira e a sua credibilidade, para trabalhar num ambiente em que as decisões de gestão se fazem por apetites ou pelo estado de humor dos políticos em funções?
A novela da TAP iniciou ainda em dezembro de 2022, vale a pena recordar os seus principais episódios :
- A demissão de Alexandra Reis da TAP;
- O pagamento de uma indemnização de 500.000€;
- A sua contratação por outras instituições públicas – NAV & Ministério das Finanças;
- A emissão de um despacho conjunto dos ministros das finanças e das infraestruturas pedindo um esclarecimento cabal sobre o acordo jurídico do despedimento da TAP;
- A participação do secretário de estado Hugo Santos Mendes na elaboração da resposta da TAP ao pedido feito pelos ministros do seu governo;
- Demissão do Ministro das Infraestruturas Pedro Nuno Santos;
- A organização de uma reunião secreta para preparar a audição parlamentar de 19 de janeiro entre a CEO, membros do governo e do grupo parlamentar socialista;
- Passado mais de um mês de ter sido comunicada a nulidade da indemnização, Alexandra Reis aguarda informação da TAP sobre o valor da devolução;
- A displicência do secretário de estado sobre a possibilidade de alterar a data de voo de 200 passageiros para não arreliar um importante aliado político (o Presidente da República).
O Partido Socialista e o Governo não parecem perceber que o que está em jogo neste rol de escândalos não é apenas a ética e a transparência do governo, dos ministros ou dos secretários de estado, mas também a credibilidade e a legitimidade das instituições democráticas que representam.
O escândalo da TAP é um sintoma de uma doença mais profunda que afeta a democracia portuguesa: a corrosão da confiança. A confiança é um valor essencial para o funcionamento de qualquer sistema político baseado na representação e na participação dos cidadãos. Sem confiança nos governantes, nos representantes, nas instituições e nos meios de comunicação, a democracia arisca perder a sua vitalidade e legitimidade.
O Presidente da República vê-se cada vez mais sozinho. De um lado tem um governo maioritário desgastado que se sabota a si mesmo, do outro tem um PSD sem iniciativa política, incapaz de apresentar um projeto alternativo para o país e que vê fugir o eleitorado de direita para o Chega, ficando cada vez mais condicionado pelo crescimento do movimento anti regime.
O pedido do primeiro-ministro António Costa para que se apure a verdade sobre o caso da TAP, “doa a quem doer”, soa a vazio quando confrontado com todas as evidências de interferência política na gestão da empresa. A verdade parece ser para apurar, mas apenas se não for para ameaçar o poder socialista. O PS parece ser capaz de fazer tudo para se proteger, para proteger o seu poder e proteger a sua verdade, mesmo que isso possa fazer doer ao futuro da própria democracia.
Escrito a 12 de abril de 2023 por João Tiago Teixeira
Créditos fotografia: LUSA/Mário Cruz, in Rádio Renascença
TAP. Primeiro-ministro quer a verdade “doa a quem doer” (rtp.pt)