Entre os dias 16 e 20 de janeiro está a decorrer a 53ª edição do Fórum Económico Mundial de Davos, que ocorre num contexto especialmente atípico, pois além da ressaca de uma pandemia mundial e o início da guerra na Ucrânia, espreita agora uma crise económica e um possível período de estagflação, algo que não acontece desde os anos 70. (A estagflação caracteriza-se por uma recessão económica em simultâneo com um aumento dos preços.)
Num fórum como o de Davos, é interessante estar atento ao que os comunicadores portugueses dizem nas discussões em que participam, não só porque revelam o pensamento “português” sobre a área, mas porque lançam âncoras para ideias que possam vir a ser desenvolvidas no nosso país.
Na sua comunicação, a líder do grupo Sonae abordou a posição que a empresa adotou durante a pandemia, onde procuraram soluções para evitar dispensar colaboradores do grupo; a importância que as empresas devem dar ao desenvolvimento de empregos que façam sentido; assim como o papel que devem assumir na melhoria da performance e do envolvimento de quem lá trabalha.
O Professor Mário Centeno partilhou uma mensagem de otimismo relativamente às perspetivas de desempenho da economia para o ano 2023. A sua opinião foi fundamentada pelos mais recentes indicadores, que apontam para uma performance positiva da economia europeia no último trimestre de 2022, assim como na perceção de que o início de 2023 possa ter um desempenho positivo no primeiro trimestre (talvez fruto do histórico de restrições no primeiro trimestre do ano anterior que afetaram a procura).
Neste contexto evidencia-se a comunicação da Presidente Executiva da Sonae, Claúdia Azevedo, que participou numa sessão dedicada à atração de talento e a do Governador do Banco de Portugal numa sessão dedicada ao tema da recessão.
Infelizmente as razões do seu otimismo não parecem ter sido suficientes para convencer a opinião dos líderes empresariais, visto que quase 75% dos inquiridos pela PwC partilharam uma perspetiva negativa para 2023.
Entre o otimismo de Centeno e o pessimismo das empresas, onde fica a razão?
Se considerarmos o atual desenvolvimento económico e social, viver no século XXI é em teoria viver na melhor era da humanidade, ainda assim estão a emergir múltiplos riscos que de forma isolada e/ou combinada apontam para cenários cada vez mais prováveis de que a era dourada da humanidade possa estar a terminar.
O “Global Risks Report 2023” publicado agora pelo World Economic Forum em parceria com as empresas Marsh McLennan e o Grupo Zurich identifica os riscos que já estão a impactar negativamente a atualidade, assim como aqueles que podem vir a marcar a agenda do curto (2 anos) e longo prazo (10 anos), a análise deste documento não antecipa razões para grande otimismo.
No relatório o “aumento do custo de vida”, a “crise de energia”, a “inflação”, as “falhas no fornecimento de comida” e a “falha em cumprir os objetivos de neutralidade carbónica” foram identificados como os 5 riscos globais mais prováveis que nos impactam com maior grau de severidade neste momento.

Currently manifesting risks
“Please rank the top 5 currently manifesting risks in order of how severe you believe their impact will be on a global level in 2023”, source World Economic Forum Global Risks Perception Survey 2022-2023
Usando uma perspectiva a 2 anos, a análise do caminho até 2025 antecipa riscos sociais e ambientais, potenciados por tendências como um possível confronto geopolítico ou por crises económicas.
Para os 10 anos seguintes antecipam um panorama dominado pela falha da humanidade em atuar sobre as alterações climáticas e os seus sucedâneos, tal como detalhado na imagem seguinte.

Global risks ranked by severity over the short and long term
“Please estimate the likely impact (severity) of the following risks over a 2-year and 10-year period”, source World Economic Forum Global Risks Perception Survey 2022-2023
Como é que estes riscos podem impactar as nossas vidas?

Por coincidência (ou talvez não), o livro “Megathreats“ lançado por Nouriel Roubini em outubro de 2022, evidencia de forma quase telepática riscos em tudo similares, explicando o que significam para a economia e a nossa qualidade de vida.
De uma forma clara e simples Roubini explica como é que as 10 grandes ameaças que identifica na atualidade podem contribuir para iniciar, reforçar ou prolongar uma grave crise económica estagflacionária:
- A crise da dívida – Potenciada pela impressão de dinheiro no período COVID
- Fracasso dos setores públicos e privado – O papel da dívida implícita e do crédito ao consumo
- A bomba relógio demográfica – Os serviços de saúde e pensões estão em risco
- A cilada do dinheiro fácil – Os bancos centrais e o vício de liquidez na economia
- A eminente grande Estagflação – A lista de onze potenciais choques de oferta negativos a médio prazo que reduzem o potencial de crescimento, o potencial de produção económica e aumentam os custos de produção
- Colapsos de moedas e instabilidade financeira – As ameaças da tecnologia financeira para o sistema monetário
- O fim da globalização – O impacto que o friend-shoring, relocalização e nacionalização pode ter nas cadeias de produção
- A ameaça da IA – A possível singularidade, a Inteligência Artificial pode destruir empregos sem que crie nada para os substituir
- A nova guerra fria – Conseguiremos escapar à armadilha de Tucídides? Um confronto entre os blocos da China e Estados Unidos é inevitável?
- Um planeta Inabitável – O custo de combater (ou não) as alterações climáticas
Temos razões para estar otimistas? Ou vem aí a Policrise?
Ser otimista nos anos que correm é um ato de coragem e digno de destaque, ser pessimista é ter sempre razão, não por uma questão de perspetiva ou de inteligência, mas por uma questão de tempo, pois mais tarde ou cedo a desgraça aparece.
São cada vez mais os riscos que nos rodeiam e as (in)ações dos diferentes stakeholders tornam cada vez mais provável que se concretizem, conjuguem e retroalimentem culminando numa “policrise”.
Não vejo qualquer vantagem em estarmos envolvidos num manto de pessimismo, ainda assim é fundamental estar despertos e atentos para os riscos do mundo em que vivemos, não para ficar reféns dele, mas para sermos capazes de tomar e influenciar decisões individuais e coletivas que nos protejam do futuro.
Em momentos como o que vivemos, nunca é demais reafirmar os valores celebrados em Davos: o diálogo e a cooperação. Se inspirados por estes valores lhe somarmos ação, cada um de nós pode ser um agente gerador de mudança na sociedade, podemos ser nós a lançar âncoras para ideias que possam vir a desenvolver o nosso país.
19 de janeiro de 2023, escrito por João Tiago Teixeira
Para os interessados num resumo rápido, partilho um video com a reportagem da CBS News sobre o fórum de Davos que resume o contexto que envolve o evento e explora o conceito da “Policrise”.
Créditos fotografia: Capa – The Global Risk Report 2023 – Insight Report
Global Risk Report – site com documento disponível
Programa do Fórum Económico Mundial de Davos