Para este balanço, eu e o João Tiago Teixeira vamo-nos dividir entre a análise de Portugal e do Mundo, tendo ficado eu com aquilo a que ao nosso país diz respeito. Decidimos destacar um acontecimento e uma personalidade nos dois contextos e deixar algumas perspetivas futuras sobre estes. Tentamos fugir dos habituais destaques dados pela restante imprensa e opinião partilhada, mas torna-se difícil escapar a eventos ou figuras chave que 2022 nos trouxe. Esperamos que pelo menos a nossa análise traga um ponto de vista diferente e que ajude à discussão nestas habituais rubricas retrospectivas.
Personalidade Nacional do Ano de 2022: Cristiano Ronaldo
Quando de futebol se trata e, sobretudo, nesta análise em específico, parece haver dificuldade em se ter uma análise moderada da figura em questão por aparentemente só ser possível haver duas posições: a favor ou contra. Talvez não fosse a personalidade que os leitores esperavam, mas Cristiano Ronaldo e as histórias em redor dele realmente marcaram o ano dos portugueses.
Para mim Cristiano Ronaldo é um ídolo. A sua capacidade de trabalho, o foco incontornável, e o talento são para mim inspiradores. O futebol tem uma componente emocional forte e admito que o simples facto de um português juntar estas três características são mais do que motivo para desenvolver uma empatia e conexão muito forte. Lembro-me que, quando era mais novo, sempre que jogava qualquer simulador de futebol numa consola ou computador, escolhia a equipa onde ele estava pelo genuíno prazer de estar a comandar o “melhor do mundo” e esse ser português. Quando me tornei adulto e comecei a viajar mais percebi a grandeza que Ronaldo detinha. O mundo pode não fazer a mínima ideia de onde se localiza Portugal, mas sabe quem é o Ronaldo e que país representa. Ele tornou-se muito maior do que a nação de onde vem. Não é bom, nem mau, são factos…
Antes da sua chegada, Portugal tinha estado presente em 3 campeonatos do mundo, tendo sido a prestação da seleção nacional no anterior à chegada dele, ou seja, 2002, para lá de medíocre. Volvidos 20 anos desde então, acho inegável que Ronaldo conseguiu trazer prestígio, profissionalismo e… dinheiro, muito dinheiro à Federação. Com ele vieram novos patrocinadores, novas formas de trabalhar, muito investimento no futebol nacional e presenças em todos os campeonatos de seleções, sem excepção. Lembro-me de ser miúdo e de pensar que Portugal entrava em campo com a ideia de “será que vamos perder?” para passar a ganhar um campeonado Europeu e considerar-se putativo candidato a campeão do mundo. O novo normal é pensarmos “como fomos perder com estes tipos?”. Estou em crer que Ronaldo não é o único obreiro disso, mas acredito que a sua exigência contagiou os restantes e permitiu estarmos onde estamos hoje.
Por esta razão, fico perplexo como tem sido tratado nos últimos tempos, com tanto ódio e desprezo pela sua figura. De imprescendível passou a empecilho. De bestial passou a besta. Ronaldo não está isento de escrutínio, aliás, o próprio também alimenta isso ao se expor da forma que o faz. São alguns os casos jurídicos em que se viu envolvido ao longo da carreira, alguns gestos ou comentários pouco apropriados que fez, ou atitudes pouco adequadas em determinados contextos que nos permitiram e permitem avaliar e tirar algumas conclusões sobre a sua pessoa. Contudo, a forma e o método que ele seguiu para ter sucesso dentro de campo tornou-o um modelo para todos durante anos. Mas, a sua resiliência e vontade de ser o melhor passaram a ser vistos como teimosia e arrogância. O tratamento mediático a toda a cara que faz, palavra que diz, atitude que tem são com o intuito de o calcar e rebaixar. E nós todos temos potenciado isso em larga medida.
Sou da opinião de que ele não tem gerido da melhor forma a sua carreira nesta fase. Embora ache que o seu valor dentro das quatro linhas ainda esteja longe do fim, acho que está a ter dificuldades em admitir o declínio da sua rentabilidade desportiva e que outros poderão estar em melhores condições. Todavia, também não sei o que é perder um filho, ainda que à nascença, e poucos meses depois ser confrontado com uma filha a viver uma doença complicada. Aparentemente, foram momentos que afetaram aquilo que Ronaldo tinha de mais forte: a sua cabeça, e consequentemente o seu rendimento desportivo e as oportunidades de mostrar o seu valor. Por tudo o que deu ao futebol português e ao país deviamos-lhe compreensão durante este ano. No entanto, o que temos visto é pessoas a aproveitarem para se vingarem do seu sucesso e de o tratarem como mais um. A frustação que demonstra e a dificuldade em controlar os seus impulsos e emoções talvez possam advir desta falta de empatia que existe para com ele. Se ele devia saber lidar com isso? Talvez, mas também é humano…
O sucesso de Ronaldo significou em larga medida o nosso sucesso e acredito que poderão continuar a estar relacionados. Deve é perceber que os tempos são outros e que tem de encontrar uma nova forma de ser bem sucedido. Talvez não passe mais por bater recordes que estão só ao alcance dos deuses do futebol. Talvez haja uma outra forma mais adaptada à sua atual capacidade física e mental.
Ele terá de repensar no seu papel dentro e fora de campo e terá de estar preparado para abraçar uma nova fase da sua vida. Enquanto português acho que o devemos apoiar, pois somos as suas gentes e devemos estar ao seu lado neste processo. Seja qual for o seu novo rumo havemos de nos voltar a identificar com a sua ambição, a sua ética de trabalho e a sua dedicação. Elas são inspiradoras para todos nós!
Escrito a 27 de dezembro de 2022 por Sérgio Brandão
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