Quem me conhece sabe que sempre que me pedem uma ideia de leitura a boca (e o coração) me fogem para Zafón. E se vos convido pela primeira vez a sentarem-se à mesa para falar de um livro, teria certamente de começar com aquele que há uns anos me roubou o coração: A Sombra do Vento.

Pois bem, remonta a Março de 2010 o dia em que folheei pela primeira vez um livro de Carlos Ruiz Zafón, e é desde aí que este livro ocupa um lugar especial na minha biblioteca.
Lembro-me como se fosse hoje do primeiro capítulo. O momento em que o pai de Daniel Sempere o leva a conhecer o Cemitério dos Livros Esquecidos, um local em Barcelona de mistério e proteção de obras literárias raras.
Durante todo o livro a escrita de Zafón leva-nos a entrar nesta trama, ao ponto de achar que um dia seria eu a entrar nesse santuário, conhecer o guardião Isaac e, segundo mandava a tradição, escolher um livro. O livro que eu adotaria e protegeria para que nunca desaparecesse.
Mas voltando ao início. Foi na sua primeira visita ao Cemitério dos Livros Esquecidos que Daniel Sempere escolheu levar consigo A Sombra do Vento de Julián Carax, livro que dá nome à nossa história e em volta do qual girarão muitas das aventuras. A partir daí o difícil foi querer parar.
Entre livros e aventuras, Zafón dá-nos a conhecer Daniel e Fermin Romero de Torres, aquele que traz uma leveza cómica e que é peça chave na vida do jovem Daniel. Vai-nos também sendo revelada a vida de Julián Carax, autor do livro escolhido pelo jovem Sempere e que se assume uma presença sombria durante todo o enredo, entre outras importantes personagens. Por entre páginas vamos mergulhando numa Barcelona pós-guerra, gótica e sombria, de morte e amor, sempre com um toque de suspense um tanto ao quanto sobrenatural.
A Sombra do Vento é apaixonante, as descrições e intrigas levam-nos a sermos absorvidos por um enredo, em que o destino e os acasos de personagens etéreas se cruzam.
O que é também fascinante nesta obra de Zafón? Ela pode ser o início, meio ou fim da tetralogia a que pertence. Sim, uma série de 4 livros, repletos de personagens e aventuras que se interligam sem uma ordem fixa. Esta é uma tetralogia em que a genialidade do escritor espanhol nos deixa a possibilidade de ler a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos de forma independente sem necessidade de seguir uma ordem pré-estabelecida, guiando-nos apenas pela amplitude da escrita do autor.
Numa partilha mais pessoal, sinto que de cada vez que falo de Zafón posso levar alguém a apaixonar-se pela leitura, como se a sua escrita fosse a salvação de todos os males no que à falta de entusiasmo pelos livros diz respeito. Como se Zafón tivesse o dom de pôr em palavras aquilo que representa um livro e o seu impacto em quem o lê.
“(…) poucas coisas marcam um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás (…) mais cedo ou mais tarde – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo o quanto aprendemos ou esqueçamos – vamos regressar.”
A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón
Impacto tão grande que, na verdade, me lembro perfeitamente do dia em que Carloz Ruiz Zafón partiu. Foi a primeira vez em que senti aquele nó na garganta por alguém que não conhecia. Num misto de tristeza e egoísmo por não ter oportunidade de ler mais nada criado pelas suas mãos, até que me veio a mente o que escreveu:
“Existimos enquanto alguém nos recorda.”
A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón
E vocês, vão voltar a relê-lo em breve como eu, ou abrirão pela primeira vez a porta à obra de Zafón?
Notas finais: A Sombra do Vento é um dos livros que consta do Plano Nacional de Leitura, recomendado para o Ensino Secundário (parece-me uma ótima sugestão para a época natalícia que se avizinha). Poderia sugerir-vos outros livros da sua obra como “Marina”, que merece também outra rúbrica de enaltecimento, ou numa escrita mais juvenil “A Trilogia da Neblina”. Na verdade pouco importa, o que importa é lerem-no.
Sinopse:
“Numa manhã de 1945 um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, “A Sombra do Vento” é sobretudo uma trágica história de amor cujo o eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página.”