Cuidemos da Liberdade, sempre.

“Talvez não paremos tempo suficiente para valorizá-la e cuidar dela devidamente. Que neste 25 de Abril relembremos a responsabilidade que temos de manter vivo este prazer que queremos passar aos nossos filhos. O prazer da liberdade!”

Em dia de celebrações do 25 de abril de 1974, no ano em que os portugueses atingem a marca histórica de viver mais anos em democracia do que em ditadura, faço uma reflexão com o caro leitor do Mesa de Amigos sobre a importância que a minha geração tem em manter viva a memória desse dia, os tempos que o antecederam e o valor dos regimes democráticos.

É para mim um exercício de enorme esforço assumir que a ditadura é um modelo possível de existir na sociedade portuguesa. Para quem como eu nasceu depois disso, equacionar não poder andar livremente pelas ruas do meu país à hora que eu quero, sentar-me num café ou restaurante e dizer mal dos que nos governam ou saber que qualquer agrupamento de pessoas com pensamento contra-corrente tem de ser feito na clandestinidade, parece uma realidade somente descrita nos aborrecidos livros de História que temos de ler quando andamos na escola.

De facto, para alguém que como eu seguiu um percurso mais dedicado às ciências exatas, deixei de ser obrigado a ler e refletir sobre a história do nosso país e do mundo desde os 14 anos. De certo, existem outros que deixaram mais tarde, aos 18, mas a grande reflexão é que a maioria dos jovens não teve mais a obrigatoriedade de estudar sobre estes tópicos desde que atingiu a idade adulta.

Ora, bem sabemos que a maturidade com que olhamos para as coisas determina muito as conclusões tiradas das mesmas. Sendo assim, sinto-me cada vez mais responsável por rever a história recente do meu país para perceber o impacto que ela teve nas gerações mais velhas, ainda vivas, e das quais eu sou descendente. Para os quarentões e trintões (estou quase a lá chegar) de Portugal, a realidade de viver sob um regime autoritário é algo existente só nos países pouco desenvolvidos, longe de nós, que nos achamos a elite intelectual do Ser Humano que habita a Terra.

Não tenho suficientes conhecimentos sobre ciência política para afirmar se é um modelo brilhante, mas ao consultar o Índice de Democracia criado pela revista The Economist (ver aqui) percebemos que em 2021, 55,7% dos 167 países que são objeto de estudo, não atingem um score mínimo de 6 em 10 que lhes garante a categoria de regime democrático. Nestes países, vive 54,3% da população mundial. Dentro deste valor, mais de 68% vive num regime assumidamente autoritário. Significa, então, que quase 3000 milhões de pessoas no mundo vive num regime onde não existem nem processos eleitorais e pluralismo, nem liberdades civis, nem cultura e participação política. Dá que pensar, não dá?

Portugal, à semelhança de muitos dos países atualmente democráticos, goza da conquista da democracia há muito pouco tempo. A ditadura está longe de ser uma memória distante do povo, mas num mundo onde se vê mais “stories” do que História, os retrocessos são sempre possíveis quando não há um cultivo dos seus valores. Na realidade, e olhando para os números, a liberdade é uma escolha coletiva das pessoas, porque a natureza dita que aquilo que nós realmente gostamos é de nos destruir uns aos outros. Queremos nós continuar com essa escolha?

Estudos indicam que os portugueses estão cada vez mais disponíveis para aceitar líderes autoritários. Essa tendência tem vindo a crescer desde 1999 quando, nessa altura, metade dos inquiridos considerava mau ou muito mau ser governado por um líder autoritário que não respondesse perante o Parlamento ou voto popular. Em 2021, esse número passou para 37%. Curioso que neste estudo, liderado por Alice Ramos e Pedro Magalhães, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa mostram também que esta maior disponibilidade dos portugueses para regimes autoritários, tecnocráticos ou militares anda lado a lado com uma avaliação crescentemente positiva da democracia. Nove em cada dez dos inquiridos afirmam que ter um sistema político democrático é uma maneira boa ou mesmo muito boa de governar o país. Dizem os investigadores que esta contradição está relacionada com uma noção pouca correta entre os inquiridos do que é a democracia.

Percebem onde quero chegar? Conseguem entender a importância de recorrentemente voltarmos a ler e a refletir sobre isto? Estas perguntas ganham relevo quando há poucos dias, Zelensky disse no Parlamento: “O vosso povo vai daqui a nada celebrar o aniversário da revolução dos cravos e sabem perfeitamente o que estamos a sentir”. Será que a maioria de nós sabe realmente?

Num mundo cada vez mais complexo, cujos problemas sociais e económicos são de difícil resolução e a nossa atenção está dispersa e pouco focada para perceber o mundo em que vivemos, quando um sabichão ou sabichona chega ao palanque e nos abana com uma cartilha bem contada e apelativa com soluções fáceis para resolver as nossas preocupações e dificuldades, fica difícil para a maioria não pensar “Será que o fulano tem razão? Siga tentar… Posso votar nele!”. Se calhar muitos desses que lutam para ter esse voto, querem torná-lo tão inútil quanto possível. Portanto, o risco de ser a última vez que fazemos essa decisão livremente pode ser real.

Acredito verdadeiramente que a maioria da população procure a liberdade e fuja das ditaduras, pois estas são o travão da felicidade e da prosperidade. Haverá poucas coisas mais prazerosas do que poder fazer o que quisermos, dizer o que quisermos e estar com quem quisermos. Talvez não paremos tempo suficiente para valorizá-la e cuidar dela devidamente. Que neste 25 de abril relembremos a responsabilidade que temos de manter vivo este prazer que queremos passar aos nossos filhos. O prazer da liberdade!

Escrito a 24 de abril de 2022 por Sérgio Brandão

Créditos de Imagem: Partilhada pelo Jornal Público

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