Tenho medo, tenho esperança

“Venha daí mais um calhamaço, senhor Primeiro Ministro!”

Todos nos recordamos daquele icónico momento em que António Costa, no debate com o líder da “oposição” (as aspas foram propositadas), qual Moisés que mostra os 10 mandamentos ao povo, apontou às câmaras a proposta de Orçamento do Estado de 2022. Relembro ao leitor que isso aconteceu no dia 13 de janeiro do presente ano, ou seja, há cerca de dois meses e meio. Já Putin tinha o seu exército a desfilar na passarela junto ao Donbass e a inflação disparava no centro da Europa, e nós cá enchíamos jornais a discutir a governabilidade do país e os animais domésticos dos líderes dos partidos. Louvado pragmatismo português que nos levou a uma maioria absoluta (e reduziu o PAN a um deputado, já que falamos em animais).

É com jocosidade que agora relembramos esse momento, já que o calhamaço (ou grande parte dele) pode ir diretamente para o lixo, porque as coisas mudaram.

Quando o meu amigo João Tiago Teixeira, na passada semana, nos fazia refletir sobre o que todos nós podemos perder com esta guerra (ver aqui), estava, de facto, a chamar a atenção para a importância de pensarmos em tudo o que mudou – recordo – em dois meses e meio. O cenário em que o novo orçamento será escrito é diferente e, sobre isso, eu tenho a dizer: tenho medo, tenho esperança…

Entendidos dizem que a primeira fase da guerra já passou e, pasme-se, Putin perdeu-a. Encontrou um povo ucraniano destemido e organizado que, movido por um forte espírito nacionalista e libertário esteve, até agora, disposto a lutar até às últimas consequências. É importante ter a clara consciência que eles estão a lutar por nós. Estão a lutar pelos valores europeus. Estão a lutar pela liberdade, pela igualdade, pela justiça, pelos direitos humanos, pelo pluralismo… pela democracia. E isso uniu a Europa de forma absolutamente supreendente.

No entanto, não esquecer que, mesmo a perder, Putin continua a lutar pelos valores da História que ele (r)escreveu, e diz-se que um cão com medo e raivoso tem tendência a ser imprevisível e a atacar para se defender. Pois, cada dia que passa o meu medo relativamente ao que possa fazer é maior. O custo humano, económico e político do não atingimento dos objetivos a que este tirano se propôs leva ao risco de ataques mais violentos e agressivos. Um míssil que atravesse uma fronteira errada, uma escalada química, ou até mesmo nuclear, pode levar a que a NATO não possa simplesmente continuar a enviar armamento para a Ucrânia e aí as consequências são dramaticamente superiores, se a sua intervenção for chamada.

Esse receio já levou a uma mudança brutal da estratégia dos orçamentos dos países no que diz respeito à defesa. Numa Europa, que depois da Segunda Guerra Mundial, e sobretudo depois da queda do muro de Berlim, parecia viver numa paz eterna e sem necessidade de se capacitar militarmente, vê-se agora confrontada com a urgênica de se reforçar rapidamente. E o lençol não estica… O que tapa na defesa, destapa nos cuidados de saúde, na educação e sobretudo no combate às alterações climáticas que, mais uma vez, vê-se a ser um tópico arrumado para o fundo da gaveta. Contudo, é minha esperança que isto acelere na Europa a transição energética, há tanto tempo falada, mas vítima de uma inércia que era até então conveniente. Portugal aí até se encontra numa posição diferenciada.

Por isso, antecipam-se tempos de enorme incerteza e de muito perigo. Não estamos a ter a recuperação pós-pandémica que queríamos e, embora devamos estar orgulhosos da enorme onda de solidariedade a que temos assistido, ela irá terminar quando sentirmos as consequências desta crise nos nossos bolsos. Vamos precisar certamente de um novo orçamento e de um governo forte e que intervenha para evitar consequências piores (os meus amigos “liberais” até se sobressaltaram com esta afirmação).

Preveem-se tempos de sacrifício – aquela narrativa esgotada que estamos todos cansados de ouvir nos últimos dois anos. Esperemos que o Parlamento seja suficientemente bom para desafiar um Governo de maioria absoluta neste contexto imprevisível. Pede-se mais objetividade e menos discussões supérfulas nos assentos do hemiciclo. Algo que a Ucrânia conseguiu mostrar ao Ocidente foi o tempo perdido nos últimos anos a discutir esquerda e direita, liberalismo e nacionalismo e o quão superficial e inconsequente esse debate por vezes é. Este país demonstrou que é possível ser nacionalista e lutar por valores liberais, e isso deve-nos fazer pensar o quão unidos precisamos de estar para sermos mais fortes e salvaguardar os valores europeus e das democracias liberais. Polos opostos e negociações bloqueadas antes de se sentarem à mesa não cumprem os interesses dos cidadãos.

Todavia, tenho medo que talvez o orçamento não chegue para evitar as crises económicas e sociais que se antecipam. Ao mesmo tempo tenho esperança que tudo isto se resolva mais rápido do que achamos (difícil na realidade). Que um Governo de maioria absoluta não se torne numa ilha e que as intervenções dos deputados que nos representam não fiquem reduzidas a conteúdo para Tweets ou para o soundbite de abertura de Telejornal. São tempos de crise que exigem uma intervenção construtiva e ambiciosa. Isso passará, certamente, por uma liderança forte e renovada da oposição, mas essa é uma discussão que fica para outro artigo…

Bem, paremos um pouco de tentar antecipar cenários. Venha daí mais um calhamaço, senhor Primeiro Ministro!

Escrito a 30 de março de 2022 por Sérgio Brandão

2 opiniões sobre “Tenho medo, tenho esperança”

  1. Nem de propósito, a entrevista de hoje (31.03.2022) de Luís Amado ao Jornal O Público. Um ponto de vista diferente, que ajuda a perceber os estadistas que nós (Europa) temos/tivemos.

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